A França mergulhou em uma nova crise política nesta segunda-feira (6), quando o primeiro-ministro Sébastien Lecornu renunciou ao cargo, menos de um mês após sua nomeação e poucas horas depois de anunciar a composição de seu novo governo.

Sébastien Lecornu, primeiro-ministro francês renuncia dia 6 de outubro de 2025
Índice A crise ganha força: governo Lecornu cai antes de se consolidar Eleições antecipadas à vista? O que dizem os especialistas Impacto e próximos passos: Macron sob pressão Como a crise pode afetar os brasileiros na França

O presidente Emmanuel Macron aceitou o pedido, aprofundando um cenário de instabilidade que levanta questões sobre o futuro da governabilidade no país.

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A decisão pegou até aliados de surpresa, que esperavam uma tentativa de recomposição antes da ruptura definitiva. Segundo analistas ouvidos por veículos franceses, a renúncia reflete não apenas uma crise de liderança, mas um impasse mais profundo sobre o papel do Executivo dentro de um Parlamento dividido e com crescente oposição à figura de Macron.

A crise ganha força: governo Lecornu cai antes de se consolidar

Nomeado em 9 de setembro, Sébastien Lecornu enfrentou uma batalha árdua para formar uma maioria parlamentar viável. O ministério anunciado no domingo (5) foi recebido com fortes críticas tanto pela oposição de ultraesquerda quanto pela de ultradireita.

O ponto de ruptura, no entanto, veio de dentro da direita tradicional. O partido Republicanos, crucial para a sustentação de qualquer governo de centro-direita, manifestou publicamente seu descontentamento. A insatisfação, segundo a Folha de S. Paulo, foi selada pela nomeação de Bruno Le Maire como Ministro da Defesa, uma escolha que não agradou aos potenciais aliados.

A ameaça da perda desse apoio significaria que o governo não sobreviveria a uma moção de censura (instrumento parlamentar previsto na Constituição que permite à Assembleia Nacional forçar a derrubada do governo), tornando a governabilidade impossível. No seu discurso de demissão, Lecornu foi direto:

“Não se pode ser primeiro-ministro quando as condições não são preenchidas”, afirmou, conforme apurado pela Folha.

De acordo com a agência de notícias AFP, em texto reproduzido pelo UOL, Lecornu comunicou sua decisão em uma reunião privada no Palácio do Eliseu, antes de Macron formalizar a aceitação do pedido.

A imprensa francesa descreve a situação como um “novo ponto de inflexão” na crise institucional que já se arrasta desde as eleições legislativas de 2023.

A sucessão de quedas ministeriais fragiliza não apenas a imagem do governo, mas também a confiança dos cidadãos nas instituições da Quinta República. Pesquisas recentes apontam que mais de 60% dos franceses acreditam que o país “está ingovernável”, um sentimento que cresce a cada impasse político.

Com apenas 27 dias, seu governo entra para a história como o mais curto da Quinta República Francesa.

Eleições antecipadas à vista?

Com a queda do quinto primeiro-ministro em apenas dois anos, a pressão por uma medida drástica aumenta.

Líderes da oposição, como Jordan Bardella, do partido de ultradireita Reunião Nacional (Rassemblement National), e Mathilde Panot, da esquerda radical França Insubmissa (France Insoumise), pediram a dissolução da Assembleia Nacional e a convocação de novas eleições – medida já adotada por Macron em episódio que deu início aos meses mais conturbados de seu segundo mandato.

Conforme noticiado pela portuguesa RTP:

A ideia de dissolução ganha força até mesmo entre figuras mais moderadas: diante da “crise política na França, Macron deve anunciar eleições antecipadas”, defende ex-primeiro-ministro Édouard Philippe.

Fontes do governo ouvidas pela AFP afirmam que “todas as opções estão sobre a mesa”, incluindo uma nova dissolução do Parlamento, mas o Palácio do Eliseu tenta ganhar tempo para evitar uma repetição do impasse que marcou o pleito legislativo há dois anos.

A raiz do problema é um parlamento fragmentado desde as eleições de 2023, dividido em três grandes blocos (esquerda, centro e ultradireita) sem que nenhum deles possua maioria absoluta para governar. Não é preciso estar no centro do problema para observar que Emmanuel Macron enfrenta um cenário político com poucas alternativas claras de solução.

Segundo Euronews, demissão repentina de Lecornu deixa Emmanuel Macron com poucas opções

O que dizem os especialistas

Para muitos observadores, trata-se da crise mais grave desde os protestos dos coletes amarelos (gilets jaunes), em 2018. O ambiente político parisiense se tornou imprevisível, e a sucessão de quedas de gabinete reforça a percepção de que Macron perdeu a capacidade de arbitrar consensos, um papel historicamente central na tradição presidencialista francesa.

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O jogo político se joga a portas fechadas, mas fato é que Macron se reuniu no último dia 7 com Yaël Braun-Pivet e Gérard Larcher, presidentes da Assembleia Nacional e do Senado, respectivamente. As informações foram confirmadas pela reportagem do Le Monde.

A lei diz que o chefe de Estado deve consultar os presidentes de ambas as casas se desejar dissolver a Assembleia Nacional. Sébastien Lecornu, por sua vez, continua suas negociações finais e se encontrou com Bruno Retailleau também no dia 7.

Impacto e próximos passos: Macron sob pressão

Se o primeiro mandato de Macron foi marcado pela navegação em águas calmas, é fato que o presidente parece cada vez mais isolado. Uma imagem de Macron caminhando solitário às margens do rio Sena, exibida pelo canal BFMTV, viralizou e foi amplamente interpretada como uma “metáfora do isolamento atual do presidente”, reportou correspondente da Folha de S. Paulo em Paris.

Enquanto a oposição pede sua renúncia, Macron, que está em seu segundo e último mandato – pela lei, ele não pode buscar um terceiro mandato seguido –, tem afirmado que pretende cumpri-lo até o fim, em 2027.

De acordo com agências de notícias, o presidente pretende “manter o rumo” e buscar uma “nova base política estável” até o final desta semana, possivelmente por meio de um gabinete técnico ou de transição.

O Palácio do Eliseu informou que Lecornu foi encarregado de conduzir “negociações finais” até quarta-feira (8) para “definir uma plataforma de ação e de estabilidade para o país”.

Analistas apontam que a paralisia política pode ter sérias consequências

A dificuldade em aprovar orçamentos e reformas ameaça a agenda interna de Macron e pode enfraquecer a posição da França em debates cruciais na União Europeia, desde políticas econômicas até a resposta a conflitos internacionais, como a guerra perpetrada pela Rússia contra a Ucrânia e os desastres que assolam o Oriente Médio.

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Como a crise pode afetar os brasileiros na França

Para a comunidade brasileira que vive, trabalha ou estuda na França, a instabilidade política gera um clima de incerteza. Embora não haja mudanças imediatas, um cenário de paralisia governamental ou uma possível mudança abrupta de poder pode impactar diversas áreas:

  • Políticas migratórias: um futuro governo, especialmente com maior influência da ultradireita, poderia endurecer as regras para imigração, vistos e aquisição de cidadania;
  • Economia e emprego: a instabilidade política pode afetar a confiança dos investidores e o crescimento econômico, com reflexos no mercado de trabalho;
  • Políticas sociais: debates sobre benefícios sociais, acesso à saúde e educação podem ser adiados ou sofrer alterações a depender da nova configuração de poder.

No momento, o futuro da política francesa permanece em aberto. Os próximos dias serão decisivos para saber se Macron tentará nomear um novo primeiro-ministro ou se cederá à pressão e convocará os franceses novamente às urnas.