A França mergulhou em uma nova crise política nesta segunda-feira (6), quando o primeiro-ministro Sébastien Lecornu renunciou ao cargo, menos de um mês após sua nomeação e poucas horas depois de anunciar a composição de seu novo governo.
O presidente Emmanuel Macron aceitou o pedido, aprofundando um cenário de instabilidade que levanta questões sobre o futuro da governabilidade no país.
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INICIAR ATENDIMENTO →A decisão pegou até aliados de surpresa, que esperavam uma tentativa de recomposição antes da ruptura definitiva. Segundo analistas ouvidos por veículos franceses, a renúncia reflete não apenas uma crise de liderança, mas um impasse mais profundo sobre o papel do Executivo dentro de um Parlamento dividido e com crescente oposição à figura de Macron.
A crise ganha força: governo Lecornu cai antes de se consolidar
Nomeado em 9 de setembro, Sébastien Lecornu enfrentou uma batalha árdua para formar uma maioria parlamentar viável. O ministério anunciado no domingo (5) foi recebido com fortes críticas tanto pela oposição de ultraesquerda quanto pela de ultradireita.
O ponto de ruptura, no entanto, veio de dentro da direita tradicional. O partido Republicanos, crucial para a sustentação de qualquer governo de centro-direita, manifestou publicamente seu descontentamento. A insatisfação, segundo a Folha de S. Paulo, foi selada pela nomeação de Bruno Le Maire como Ministro da Defesa, uma escolha que não agradou aos potenciais aliados.
A ameaça da perda desse apoio significaria que o governo não sobreviveria a uma moção de censura (instrumento parlamentar previsto na Constituição que permite à Assembleia Nacional forçar a derrubada do governo), tornando a governabilidade impossível. No seu discurso de demissão, Lecornu foi direto:
“Não se pode ser primeiro-ministro quando as condições não são preenchidas”, afirmou, conforme apurado pela Folha.
De acordo com a agência de notícias AFP, em texto reproduzido pelo UOL, Lecornu comunicou sua decisão em uma reunião privada no Palácio do Eliseu, antes de Macron formalizar a aceitação do pedido.
A imprensa francesa descreve a situação como um “novo ponto de inflexão” na crise institucional que já se arrasta desde as eleições legislativas de 2023.
A sucessão de quedas ministeriais fragiliza não apenas a imagem do governo, mas também a confiança dos cidadãos nas instituições da Quinta República. Pesquisas recentes apontam que mais de 60% dos franceses acreditam que o país “está ingovernável”, um sentimento que cresce a cada impasse político.
Com apenas 27 dias, seu governo entra para a história como o mais curto da Quinta República Francesa.
Eleições antecipadas à vista?
Com a queda do quinto primeiro-ministro em apenas dois anos, a pressão por uma medida drástica aumenta.
Líderes da oposição, como Jordan Bardella, do partido de ultradireita Reunião Nacional (Rassemblement National), e Mathilde Panot, da esquerda radical França Insubmissa (France Insoumise), pediram a dissolução da Assembleia Nacional e a convocação de novas eleições – medida já adotada por Macron em episódio que deu início aos meses mais conturbados de seu segundo mandato.
Conforme noticiado pela portuguesa RTP:
A ideia de dissolução ganha força até mesmo entre figuras mais moderadas: diante da “crise política na França, Macron deve anunciar eleições antecipadas”, defende ex-primeiro-ministro Édouard Philippe.
Fontes do governo ouvidas pela AFP afirmam que “todas as opções estão sobre a mesa”, incluindo uma nova dissolução do Parlamento, mas o Palácio do Eliseu tenta ganhar tempo para evitar uma repetição do impasse que marcou o pleito legislativo há dois anos.
A raiz do problema é um parlamento fragmentado desde as eleições de 2023, dividido em três grandes blocos (esquerda, centro e ultradireita) sem que nenhum deles possua maioria absoluta para governar. Não é preciso estar no centro do problema para observar que Emmanuel Macron enfrenta um cenário político com poucas alternativas claras de solução.
O que dizem os especialistas
Para muitos observadores, trata-se da crise mais grave desde os protestos dos coletes amarelos (gilets jaunes), em 2018. O ambiente político parisiense se tornou imprevisível, e a sucessão de quedas de gabinete reforça a percepção de que Macron perdeu a capacidade de arbitrar consensos, um papel historicamente central na tradição presidencialista francesa.
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Abrir Conta Multimoeda →O jogo político se joga a portas fechadas, mas fato é que Macron se reuniu no último dia 7 com Yaël Braun-Pivet e Gérard Larcher, presidentes da Assembleia Nacional e do Senado, respectivamente. As informações foram confirmadas pela reportagem do Le Monde.
A lei diz que o chefe de Estado deve consultar os presidentes de ambas as casas se desejar dissolver a Assembleia Nacional. Sébastien Lecornu, por sua vez, continua suas negociações finais e se encontrou com Bruno Retailleau também no dia 7.
Impacto e próximos passos: Macron sob pressão
Se o primeiro mandato de Macron foi marcado pela navegação em águas calmas, é fato que o presidente parece cada vez mais isolado. Uma imagem de Macron caminhando solitário às margens do rio Sena, exibida pelo canal BFMTV, viralizou e foi amplamente interpretada como uma “metáfora do isolamento atual do presidente”, reportou correspondente da Folha de S. Paulo em Paris.
Enquanto a oposição pede sua renúncia, Macron, que está em seu segundo e último mandato – pela lei, ele não pode buscar um terceiro mandato seguido –, tem afirmado que pretende cumpri-lo até o fim, em 2027.
De acordo com agências de notícias, o presidente pretende “manter o rumo” e buscar uma “nova base política estável” até o final desta semana, possivelmente por meio de um gabinete técnico ou de transição.
O Palácio do Eliseu informou que Lecornu foi encarregado de conduzir “negociações finais” até quarta-feira (8) para “definir uma plataforma de ação e de estabilidade para o país”.
Analistas apontam que a paralisia política pode ter sérias consequências
A dificuldade em aprovar orçamentos e reformas ameaça a agenda interna de Macron e pode enfraquecer a posição da França em debates cruciais na União Europeia, desde políticas econômicas até a resposta a conflitos internacionais, como a guerra perpetrada pela Rússia contra a Ucrânia e os desastres que assolam o Oriente Médio.
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INSCREVER GRÁTIS→Como a crise pode afetar os brasileiros na França
Para a comunidade brasileira que vive, trabalha ou estuda na França, a instabilidade política gera um clima de incerteza. Embora não haja mudanças imediatas, um cenário de paralisia governamental ou uma possível mudança abrupta de poder pode impactar diversas áreas:
- Políticas migratórias: um futuro governo, especialmente com maior influência da ultradireita, poderia endurecer as regras para imigração, vistos e aquisição de cidadania;
- Economia e emprego: a instabilidade política pode afetar a confiança dos investidores e o crescimento econômico, com reflexos no mercado de trabalho;
- Políticas sociais: debates sobre benefícios sociais, acesso à saúde e educação podem ser adiados ou sofrer alterações a depender da nova configuração de poder.
No momento, o futuro da política francesa permanece em aberto. Os próximos dias serão decisivos para saber se Macron tentará nomear um novo primeiro-ministro ou se cederá à pressão e convocará os franceses novamente às urnas.
Erik Nardini