A minha resposta curta possível para esta pergunta é: sim, emigrar é uma peregrinação. Ou pelo menos, pode ser se colocamos esta intenção.

Índice A descoberta de quem somos Minha peregrinação para me estabelecer na Alemanha Peregrinações tradicionais Vale a pena peregrinar?

Emigrar é viajar rumo ao desconhecido na esperança de um retorno maior. Muitas pessoas emigram por motivos práticos como salários mais altos e segurança pública. O que poucos compreendem de antemão, são as mudanças internas que uma mudança de país é capaz de provocar se estivermos presentes e abertos ao processo.

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A descoberta de quem somos

Eu já morei em alguns países e passei praticamente toda a minha vida adulta fora do Brasil. As mudanças do meu contexto sempre trouxeram muito mais que um aprendizado, trouxeram mudanças profundas na minha personalidade também.

Nós nos adaptamos ao que o ambiente pede de nós. Para além disso, há também uma maior compreensão da nossa essência. Quando estamos realmente abertos a uma mudança de país e seus aprendizados, emigrar é uma peregrinação, pois nos ajuda a descobrir e decidir o que fica e o que vai.

Foi morando na Alemanha, minha mais longa vivência fora do Brasil, e devido a esta experiência que fiz as pazes com meu corpo. Foi durante esta caminhada que descobri a minha voz e foi até mesmo lá que entendi o que realmente é o respeito pelas diferenças e os meus próprios limites.

Quando imigramos, nos expomos a situações onde estamos tão vulneráveis que nossas crenças e valores são postos a prova e podemos descobrir quem realmente somos.

Peregrinações tradicionais são viagens internas movidas por um movimento exterior. Apesar de haver um ponto de chegada, é o caminho que promove a mudança. Em 2011, quando me mudei para a Alemanha, embarquei em uma longa peregrinação interna que durou doze anos.

Já em 2024, finalmente embarquei e concluí uma peregrinação mais literal, o Caminho de Santiago, após dez anos cozinhando-a em minha cabeça.

Minha peregrinação para me estabelecer na Alemanha

O caminho que tracei na Alemanha como imigrante por 12 anos passou por estudante de línguas e festeira, viajante, universitária, fã da natureza, feminista convicta, mudança de paradigmas em relação à carreira e ao trabalho, aceitação do meu corpo, e encontro com a minha voz e meus limites.

Emigrar foi um movimento externo que resultou em profundas descobertas e mudanças internas ao longo do caminho da minha história como imigrante por lá. O papo de viajar para se descobrir é real se tivermos a coragem de nos expormos aos obstáculos e desafios que o caminho nos apresenta.

Jovem de óculos escuros sentada na grama em frente ao Muro de Berlim.
Meu primeiro mês de peregrinação para uma nova vida. Foto: Roberta Schmoi

Quando fiz o Caminho de Santiago, tive que ir para casa no meio. Meus pés ficaram muito machucados, eu não havia me preparado bem antes. Estava há 10 anos na Alemanha quando tive um grande ímpeto de voltar a morar no Brasil e passei quatro meses por lá. Às vezes precisamos de uma pausa no que nos é conhecido para reorganizar o turbilhão interno.

No caso do Caminho, eu moro relativamente perto para poder voltar para casa no meio. Outras pessoas que precisam desta pausa optam por pausar a caminhada e fazer turismo por alguns dias antes de voltar.

Está tudo bem pausar assim como está tudo bem desistir. Todos temos o nosso processo e limites internos.

Peregrinações tradicionais

É verdade que peregrinações religiosas vão além do movimento de mudança interno e estão muitas vezes relacionadas a uma expressão de gratidão religiosa por alguma graça alcançada, espiritual ou não. Quando finalmente pus os pés no Caminho de Santiago, eu tinha outra expectativa: descobrir meus próximos passos e dar sentido ao que estava vivendo.

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Foi a partir desta caminhada e suas descobertas que pude agradecer quando finalmente cheguei àquela catedral pomposa que dá nome à peregrinação.

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Não tenho nenhuma afiliação religiosa, mas é inegável que caminhar o Caminho traz um senso profundo de gratidão.

Vale a pena peregrinar?

Se passamos a entender que a emigração é uma peregrinação, podemos verdadeiramente e conscientemente focar nas mudanças e agradecer pela bonita oportunidade de trocar as lentes com as quais vemos o mundo.

E emigrar é mesmo isso, uma oportunidade. Não precisa ser definitivo e o objetivo não importa tanto.

Cerca com centenas de vieiras e mensagens penduradas frente a um muro de pedra.
Sempre há outros peregrinos que vivem e viveram o mesmo que você. Foto: Roberta Schmoi

O mais valoroso nessa trajetória é o caminho de transformações e vivências que experimentamos. Além disso, há sempre outras pessoas vivendo descobertas semelhantes para quem podermos dar a mão ou ajudar a atravessar trechos mais complicados da nossa jornada.

Completar o Caminho de Santiago sozinha com meus pés e minha mochila, assim como atravessar o oceano com minhas malas e meu sonho, foram feitos que me mudaram para sempre e eu não trocaria por nada neste mundo. A vida vale a pena ser vivida.

*A opinião dos colunistas não reflete necessariamente a opinião do Euro Dicas.