Como lidar com as diferenças do português da gente e do português em Portugal é um tema constante para quem emigrou para o país. Sem dúvida morar em Portugal já é meio caminho andado para quem busca uma nova vida na Europa.
A cultura e o idioma facilitam muito o processo de se situar em um novo país quando comparamos com outros lugares do continente. Facilitam, mas não são iguais e isso é especialmente marcante quando falamos sobre as variantes da língua portuguesa dos dois países.
Como imigrante em terras lusitanas, encontramos situações engraçadas, situações que já perderam a graça, mas também bastante preconceito linguístico. Não existe fórmula mágica para lidar com tudo isso, cada imigrante em Portugal encontra o caminho com o qual se sente mais confortável.
Cotidiano com a variação portuguesa do idioma
A boa notícia é que com o tempo nos acostumamos com o sotaque da região onde moramos, mas até isso acontecer, é importante saber que costuma ser muito mais difícil para nós entendermos os portugueses do que o contrário e isso pode causar alguma irritação por parte deles, mas nada realmente problemático.
Inclusive, no Instagram do Euro Dicas, a Ane Pacola já contou se é fácil entender o português europeu:
Daí vêm as pequenas coisas. Eu escolhi parar de ditar o número seis como “meia” para evitar a pequena dor de cabeça da interação já ensaiada tantas vezes onde me ensinam que meia é o que vai no pé.
Tento lembrar de falar “casa de banho”, mas não esquento a cabeça se disser “banheiro” porque nunca resultou em nenhum confronto desconfortável.
Adotar ou não expressões locais
Muitos brasileiros no meu entorno adotaram as palavras portuguesas no dia a dia independentemente de com quem estejam falando, mas mantêm o sotaque de onde vieram.
Já eu, optei por manter o meu português como ele é porque acredito na elasticidade da mente humana em compreender pequenas variações.
Ao mesmo tempo, se vou pedir uma informação sobre horário do trem, digo “comboio” com a intenção do meu pedido ser recebido com mais boa vontade e não porque duvide da capacidade de entenderem a minha mensagem.
Como lidar com as diferenças de sotaques
Acho chatíssimo quando fazem piadinhas em relação à maneira como falo. Além do caso da meia no pé, tem o caso do sotaque. Existe um limite da piada saudável que é regularmente ultrapassado até por quem gosta da gente.
Começa uma coisa de tentar me imitar falando e não para mais. Para mim, fora de cogitação mudar meu sotaque. Sou uma carioca orgulhosa daquela que acha seu sotaque a coisa mais preciosa do mundo. Inclusive, acho que meu sotaque ficou ainda mais carregado depois que me mudei para a Europa.

Algumas pessoas, em especial crianças brasileiras, navegam essa questão mudando completamente a sua forma de falar dependendo de quem estiver na conversa. Para mim, é sempre um choque ver como são capazes de mudar o jeito de falar tão completa e naturalmente.
Muitas vezes, não todas, isso vem do bullying que sofrem na escola. Infelizmente isso é, em diferentes medidas, uma realidade de quase todas as crianças brasileiras que conheço e que o sistema educacional está totalmente despreparado para lidar.
A maneira como lido com os papagaios engraçadinhos é imitar de volta. Ninguém gosta de ser imitado sem parar então logo passa, rimos e fica tudo bem. Mesmo que meio chatinho.
O que mexe na ferida
O que realmente machuca, além do bullying nas nossas crianças, é quando nossa variante portuguesa é posta em uma posição inferior à de Portugal.
Esses dias estive em um evento da escola antiga do meu filho e os pais comentavam em pequenos grupos sobre as novas escolas onde suas crianças estavam. Foi quando uma mãe comentou com alguém que na escola nova de seu filho havia um professor de português que era brasileiro e ela estava muito aborrecida se perguntando como ele poderia ser capaz de ensinar a matéria.
Eu estava ao lado dela e ponderei se deveria intervir e educá-la, mas optei por fingir que não escutei. A pessoa com quem ela falava também optou pelo mesmo. Em outras situações eu me coloquei neste papel de educadora, mas sinto que ele é árduo e nem sempre estou disposta.
Para mim, o melhor nessas situações é verificar meu nível de disposição para o debate e educadamente questionar. “Por que você acha que ele não seria capaz de ensinar?” seria a primeira pergunta para a partir daí construir um diálogo.
Devo dizer que é uma situação dolorida, mas a meu ver, é muito importante para nós brasileiros em Portugal nos munirmos de informação para construirmos autoconfiança em torno da nossa cultura.
O português que falamos é maravilhoso e carrega muito da nossa história como povo. A língua é uma expressão cultural fluida e em constante mutação e a norma culta em qualquer idioma e qualquer país não é superior às mudanças da língua falada em outros contextos. Aliás, é partir dessas mudanças na língua falada que idiomas evoluem.
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*A opinião dos colunistas não reflete necessariamente a opinião do Euro Dicas.