Quando decidi deixar o Brasil, eu não fazia ideia de que aquela escolha mudaria tudo: a minha rotina, os meus planos e até a forma como vejo o mundo. Hoje, doze anos depois, entendo que a Itália não foi apenas o lugar onde passei a morar, foi o país que passou a morar em mim....

Verinha vendo o Coliseu, em Roma
Índice As perguntas que marcam minha jornada Minhas raízes e o motivo da mudança A dor de ir embora e as primeiras impressões Os encantos e a vontade de voltar para o Brasil Duas casas, uma só história

As perguntas que marcam minha jornada

Desde que me tornei imigrante, duas perguntas me acompanham onde quer que eu vá. A primeira vem logo depois de uma breve conversa, quando o meu sotaque me entrega. “De onde você é? Você não é italiana, né?

Você tem direito à cidadania italiana?

Para solicitar a sua, é altamente recomendado contar com uma assessoria especializada. Nós indicamos a Cidadania Já, uma equipe competente e de confiança para tornar sua solicitação mais rápida e segura. Entre em contato!

TORNE-SE CIDADÃO ITALIANO→

Respondo cheia de orgulho: “Sou do Brasil”. E aí vem uma chuva de reações.

“Como você trocou aquele calor pela Itália?”

“Eu adoro o Brasil!”

Ou até um simpático “Eu amo o Neymar!”

E logo depois chega ela, a pergunta que sempre vem, invariavelmente. “Há quanto tempo você mora na Itália?

E a cada ano o peso dessa resposta muda. Hoje, quando digo “moro na Itália há 12 anos”, percebo o quanto o tempo passou rápido. Ainda me lembro perfeitamente do momento em que tudo começou…

Minhas raízes e o motivo da mudança

O ano era 2013. Eu tinha acabado de terminar a escola e, como a maioria dos meus amigos, esperava o resultado do Enem, fazendo planos para a vida universitária.

Conversava com minha avó sobre mudar do interior de São Paulo para o Ceará, afinal de contas tinha passado em Medicina lá. Nada fora da nossa normalidade, afinal de contas, mudar de estado não era novidade pra gente. Somos de Minas Gerais, e a ideia de fazer uma nova mudança parecia natural.

Mas a vida, como sempre, tinha outros planos. Minha mãe já morava na Itália e me falou da possibilidade de tentar a faculdade aqui:

“Vem pra cá um tempo, estuda, faz a prova… quem sabe?”, disse ela.

Parecia uma boa oportunidade: seria mais econômico, uma experiência internacional e uma chance de crescer.

A Itália, que nunca tinha feito parte dos meus planos, começava ali a traçar o seu caminho dentro de mim, muito antes de eu perceber.

Compartilhei no Instagram do Euro Dicas um pouco mais dessa jornada. Confira o post!

Ver esta publicação no Instagram

Uma publicação partilhada por Euro Dicas | Morar na Europa (@eurodicasoficial)

A dor de ir embora e as primeiras impressões

Março de 2014. Eu subia num avião cheia de dúvidas, medo e saudade antecipada.

Despedir-me da minha avó foi doloroso, uma dor que me acompanha ainda hoje… eu estava pronta pra estudar em outro estado, mas sair do país era diferente, se tratava de deixar pra trás tudo que era conhecido.

As horas de voo pareciam intermináveis, me lembro bem de não ter dormido um minuto sequer naquela viagem, os pensamentos eram fixos, aprender um idioma novo, a adaptação, tudo me assustava.

E quando finalmente cheguei, minha mãe me esperava com o meu padrasto italiano e era estranho pensar em viver com alguém que falava uma língua diferente da minha.

Antes mesmo de ir pra casa, fomos direto à missa no Vaticano, um dos momentos mais marcantes da minha vida. Ali, descabelada do avião, cercada por tanta gente, eu ainda não me dava conta, mas Roma seria o meu novo lar.

Missa no Vaticano, na Itália
Missa no Vaticano. A cidade que eu só conhecia pelos filmes e pelos livros agora seria o cenário da minha vida real. Foto: Verinha Simões

Comecei a observar tudo: as pessoas fumando o tempo todo, os carros parados em qualquer canto, as vozes altas nos bares (que eu ainda não sabia se eram brigas ou risadas), o “mamma mia” que eu achava que existia só nos filmes.

Em casa, as mudanças também eram visíveis: janelas diferentes, aquecedores por todos os cantos, o jeito de fazer café na moka em vez do velho coador e da garrafa térmica.

Na mesa, o macarrão de cada dia, sempre com um molho diferente, as longas horas sentados para o almoço e o idioma ecoando em volta de mim. E eu, sem entender uma palavra.

Os encantos e a vontade de voltar para o Brasil

Junto com as diferenças, vieram os encantos. O idioma me fascinava. Eu me arriscava em algumas palavras, achava tudo novo e curioso. Me lembro de fotografar até uma caixinha de leite, ela era diferente e, de algum modo, representava aquele mundo novo.

Mas, como tudo na vida, o que era novidade virou rotina. E o que era encantador começou a pesar. A língua virou obstáculo. Ir ao supermercado, comprar um remédio, fazer amizadetudo exigia energia, estudo e coragem.

Receba nosso conteúdo na sua Caixa de Entrada! 📩

Inscreva-se na nossa Newsletter e receba no seu email com exclusividade as melhores colunas, artigos e notícias sobre a Europa! É de graça, inscreva-se agora!

INSCREVER GRÁTIS→

E junto a isso, chegou o desafio de estudar para poder passar na faculdade, não só entender as matérias, mas entendê-las em outra língua, em outro sistema, em outra cultura.

Eu, que tinha planejado cada passo até os 18 anos, agora me via completamente perdida.

As diferenças começaram a doer, e a vontade de voltar pra casa crescia: pro colo da minha avó, pro bar da esquina com coxinha e suco de laranja, pra minha rotina simples e familiar.

A vontade de ficar

Mas eu fiquei. Mesmo cansada, mesmo confusa, eu insisti.

Fiz a tão esperada prova de Medicina, não passei, e mesmo com aquele “fracasso” segui em frente. Escolhi Psicologia, e hoje sei que foi o melhor caminho que eu poderia ter seguido.

Fui me adaptando aos poucos, tentando, errando, encontrando pessoas boas e outras nem tanto, entendendo que, no fundo, somos todos pessoas tentando nos compreender.

O meu percurso foi feito de altos e baixos, e uma das minhas memórias preferidas é a da minha primeira prova universitária: oral, frente a frente com o professor, outra diferença cultural que me assustava, sobre um tema aleatório de um livro de 500 páginas.

Foi um terror e uma vitória. Tirei 30 com louvor, a nota máxima, graças à ajuda de uma amiga italiana que dedicou tempo a mim para repetirmos juntas os textos.

Ali eu percebi que a decisão de ficar estava valendo a pena. Mas o coração… ainda dividido. E, sinceramente, acho que sempre vai estar.

Duas casas, uma só história

Inicialmente, os planos eram fixos: terminar a faculdade na Itália e voltar para o Brasil. Mas a Itália foi se tornando cada vez mais presente na minha vida, e aos poucos, a minha vida foi sendo construída aqui.

O pé aqui, o coração lá. E o medo de colocar o pé lá e deixar o coração aqui.

Os planos mudaram

Foi nesse meio-termo, nessa luta contínua entre o Brasil e a Itália, que nasceu a vontade de compartilhar a minha história.

Criei um canal no YouTube para contar o que vivi, para ajudar quem sonha, quem teme, quem está no mesmo processo de se reinventar.

Descobri que dentro de mim existem duas “Verinhas”: a de Minas, que cresceu no interior de São Paulo, que alugava filmes na locadora e comia pastel na feira de quinta-feira com a avó. E a de Roma, que fala duas línguas, ama um país que não é o dela, mas onde também se sente em casa.

Hoje entendo que não preciso escolher entre uma e outra. O Brasil e a Itália, o passado e o presente, a menina e a mulher, tudo habita em mim. E, no fim das contas, talvez eu não tenha apenas vindo parar na Itália. Talvez tenha sido a Itália que veio parar em mim.