Morar fora do Brasil é se deparar com uma série de experiências e coisas novas, que remodelam nossa percepção de mundo e de nós mesmos. Uma das que mais permaneceram em mim após tantas idas, voltas, adaptações e descobertas foi a sensação de estar sempre entre dois lugares. É como se parte de mim estivesse enraizada em um canto e a outra fincada do outro lado do oceano.
Nesta coluna, compartilho um pouco sobre essa dualidade que há anos faz parte de minha vida: me sentir plena, mas dividida ao mesmo tempo. Como vocês verão, ter dois lares no coração é lindo, mas o sentimento de homesick vem também em dobro.
Estar sempre entre dois lugares pode ter vários significados
Pode significar, por exemplo, que você se movimenta fisicamente o tempo todo entre dois espaços geográficos, como em duas cidades de países diferentes, por exemplo. Mas, também pode querer dizer que você está em um lugar, enquanto pensa em outro e tenta fazê-lo existir, deslocando alguns de seus elementos para onde você está agora.
Por mais que nos últimos anos eu tenha tido esse movimento constante entre um lugar e outro, é sobre o segundo significado que eu gostaria de falar aqui.
Afinal, desde que passei minha primeira temporada fora de meu país de origem, minha vida se dividiu em binômios:
Brasil e França; São Paulo e Paris; o familiar pão de queijo e o surpreendente croissant; a leveza da cerveja brasileira e o sabor do vinho francês; as ruas simples do meu bairro e os magníficos boulevards parisienses; as telhas das casas e os toits com vistas inesquecíveis.
Amor em dobro
Essa sensação de estar entre dois lugares tem seu lado bom. Seu repertório dobra e suas vivências também. Você não tem apenas uma casa, uma família, uma universidade, um grupo de estudos, um restaurante gostoso, uma loja que você ama e um parque por onde se exercitar – você tem dois, e isso te preenche de uma forma indescritível.
Aliás, chegar em um novo lugar e reconhecer nele suas novas preferências, afeições e gostos é tão bom quanto voltar para casa e matar saudade de tudo o que ficou para trás.

Tive essa sensação quando fui estudar na França: facilmente fui encontrando novas coisas de que eu gostava e guardando-as em meu coração, bem ao lado daquelas que encontrei ao longo de minha vida em São Paulo, e que me faziam tanta falta naquele momento.
Ao mesmo tempo, uma metade faltando
Mas, a sensação de completude não fica para sempre. Há vários momentos que você sente falta de algo muito específico, que não consegue encontrar no espaço onde você está. Comecemos pelo óbvio: um abraço do pai e da mãe, o carinho do companheiro, um dengo no seu pet e aquela conversa com sua amiga podem representar um grande buraco em sua vida.
Contudo, esse vazio atravessa várias outras dimensões do cotidiano. Ele também aparece quando você não consegue encontrar aquele queijo específico ou aquela coxinha crocante e recheada. Quando você não tem aquele tratamento entre comadres nos marchés de Paris, nem encontra as belíssimas frutas das feiras brasileiras.
Ou quando você busca em restaurantes adorados por seus amigos paulistas aquela sensação de satisfação que você tinha ao comer em uma simples brasserie e não a acha. Também ao tentar encontrar um short jeans naquela modelagem perfeita que só o Brasil tem, e ter que se conformar com uma bermudinha francesa.
E ainda, quando você quer ter a estrutura e o acesso a materiais que a França permite, mas com as pessoas de sua universidade brasileira.
O que quero dizer é que não é sobre o lugar. Esse sentimento sempre acaba chegando, estando você onde estiver.
Um pouco daqui, um pouco de lá
É nesses momentos que a estratégia de trazer um pouco do lugar onde você estava antes para o lugar onde você está agora pode dar um certo alívio.
Passei um bom tempo no Brasil só ouvindo músicas francesas, consumindo conteúdos do país e até mesmo mantendo meus dispositivos eletrônicos em francês. Ainda, foi enquanto eu estava no Brasil que mais me dediquei aos estudos da língua de Molière.

Por outro lado, enquanto estava na França, as pessoas mais próximas de mim eram brasileiras e a nossa cultura pulsava na moradia universitária onde vivíamos.
Eu dizia com orgulho minha nacionalidade, fazia questão de participar de momentos importantes do país, como eleições, e torcia para a seleção brasileira com fervor.
Agora, por exemplo, escrevo esse texto em São Paulo, rodeada de almofadas e mantas que marcaram uma de minhas estadias em Paris, e sentido o cheiro do perfume que eu usava na cidade.
Mas, enquanto eu estava na França, meu quarto alugado em Paris era decorado com pedaços de chita e sacolas de feira coloridíssimas.
Leituras, comidas e músicas: como se dividir e se reencontrar
Minhas últimas leituras foram em francês e meus escritores preferidos do momento são Annie Ernaux e Édouard Louis. Por outro lado, em minha penúltima estadia na França levei todos os livros que comprei do Chico Buarque.
Na França, já fiz muito strogonoff, bolo de cenoura e brigadeiro. Por aqui, já perdi a conta de quantas vezes preparei croque monsieur, boeuf bourguignon, coq au vin, croissants e outras especialidades francesas no Brasil (a próxima, será a sopa de cebola!).
Em São Paulo, estou me organizando para ver o show de grupos como L’Impératrice. Em Paris, ficava de olho nas programações de rodas de samba, como o Fond de Terrasse, e cantores brasileiros.
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INSCREVER GRÁTIS→Permanentemente dividida
A realidade é que se você já morou fora do Brasil e gostou, é possível que a sensação de estar entre dois lugares, um fisicamente e outro emocionalmente, te acompanhe por um tempo.
Isso pode significar uma completude sem igual em certos momentos, mas em outros sentir como se metade de você estivesse longe. É uma sensação um tanto melancólica, pois a impressão é de que você foi permanentemente dividida.
Às vezes, você até está de corpo presente em um lugar, mas ao fechar os olhos você se transporta para um outro, na tentativa de estar, de fato, em dois lugares ao mesmo tempo. Mas, no fim, parece que você não está em lugar nenhum.
Dois lugares diferentes, duas baterias autônomas, uma só pessoa
Não vou dizer que é fácil passar por isso, nem que as estratégias citadas acima trazem algum conforto todas as vezes. Há dias que a saudade é tão grande que não há comida, música ou fotos que resolvam.
Mas, de certa maneira, você acaba se acostumando. Talvez essa seja uma das coisas que definitivamente mudam na gente quando mudamos de país.

Por aqui, pelo menos, é como se a cada temporada que eu passasse em São Paulo e Paris, eu “carregasse” duas baterias independentes. Assim, quando uma está acabando, eu percebo que é hora de voltar e recarregá-la.
Eventualmente, uma bateria dura mais que a outra ou uma exige um tempo de carregamento maior do que eu posso dar. Nesses momentos, é quando preciso emprestar uma carga maior da bateria que ainda está cheia. O fato é: enquanto eu puder recarregar essas baterias, eu estarei existindo.
*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Euro Dicas.