Você já ouviu falar em memória olfativa? É aquele tipo de lembrança que surge ao sentirmos um cheiro específico, seja de uma comida, de um livro ou uma fragrância, por exemplo. Neste artigo, compartilho com vocês as memórias que tenho de algumas cidades e perfumes, e os motivos deles terem me marcado tanto.

Mulher passando perfume em uma cidade.
Índice Chanel n.º5, o cheiro de Paris Perfumes da primeira metade do século XX Quando Coco encontra Yves Cidades brasileiras e perfumes Água apimentada e Itália La vie est belle, principalmente com bons perfumes

Chanel n.º5, o cheiro de Paris

O perfume Chanel n.º5 habitou meu imaginário por muito tempo, antes mesmo de eu conseguir senti-lo em minha pele. Mas, foi enquanto eu estudava moda na capital francesa que ele se tornou não apenas o meu cheiro preferido, como o cheiro de Paris.

Nessa minha primeira ida à capital francesa, em 2018, eu passava um bom tempo dentro de lojas de cosméticos cheirando todos os perfumes possíveis. E apesar do contato com as maiores novidades em termos de fragrâncias, para mim nada superava o Chanel nº5.

Ainda que ele estivesse no meu Top 3 perfumes preferidos, nem se passava pela minha cabeça adquiri-lo. Até que um belo dia, nessas andanças por perfumarias, resolvi aplicar um tantinho dele na minha pele e fui passear. Andei o dia todo pelos lugares mais lindos e fascinantes da capital francesa e aquele cheiro me acompanhou.

Um presente inesquecível

Voltei para casa, me banhei, dormi e ao acordar ainda sentia o cheiro do n.º5 em minha pele. A sensação de acordar em Paris em uma nuvem de Chanel me marcou.

Foi então que decidi: eu precisava ter aquele perfume!

Resolvi me presentear com ele em meu aniversário. No dia que comprei, voltei para casa toda feliz com minha sacolinha branca com uma camélia pendurada. Desde então, o nº5 virou meu cheiro “padrão” e me levou alguns anos para que eu conseguisse gostar tanto de um perfume quanto eu gostei dele.

Perfumes da primeira metade do século XX

A ideia de que não havia nenhum outro tipo de perfume que me chamava mais a atenção do que uma fragrância com mais de 100 anos de história fazia muita gente torcer o nariz.

Amigas não entendiam o que me fascinava tanto em um perfume com cheiro de “coisa antiga”. Mas, sinceramente, não dá para esperar muita coisa de uma socióloga trabalhando com arquivos de moda em Paris, não é mesmo?

Perfumes para cada cidade.
Twilly e Arpège, dois de meus perfumes preferidos. Foto: Bárbara Ábile

O que os olfatos que preferem perfumes mais novos chamam de “cheiro de coisa antiga” é, para mim, os cheiros dos salões parisienses de alta costura do início do século XX.

Obviamente, não sei se eles de fato tinham de fato esse cheiro, mas quando fecho meus olhos sempre imagino o salão da Chanel com notas de jasmim, como o nº5; o da Jeanne Lanvin com notas de madressilva, como o Arpège; e o de Hubert de Givenchy com um odor de noz-moscada, como o Organza.

Quando Coco encontra Yves

Viver 2018 em Paris com o cheiro de n.º5 nas minhas roupas foi como um sonho: o perfume era, de certa forma, uma ode à cidade. Ele foi criado pensando em mulheres parisienses e até seu frasco representava linhas da capital francesa.

Mas, Paris teve um cheiro exclusivo de Chanel n.º5 até meu companheiro me visitar usando um perfume Yves Saint Laurent — que não por acaso, é um dos costureiros que mais gosto. Quem diria que os quase 90 anos que separam o lançamento do meu perfume e do dele não seriam nada perto do quanto eles combinaram!

Andar com ele pela capital francesa usando nossos perfumes era como se Coco Chanel andasse de mãos dadas com Yves. A mistura de n.º5 com Homme Libre se tornou o cheiro do casal, da nossa primeira viagem juntos, daqueles primeiros meses românticos de um namoro, que tiveram Paris como cenário.

Cidades brasileiras e perfumes

Voltar para São Paulo depois da minha primeira estadia em Paris me deu um nó mental em vários sentidos, inclusive no olfato. Foi duro perceber que por mais que eu continuasse apaixonada pelo Chanel, ele não combinava em nada com minha atual cidade.

O nº5 era um perfume quente e não se dava bem com o sol escaldante brasileiro. Ele era forte e parecia ser demais para os lugares onde eu circulava. Percebi logo que precisava de uma alternativa e decidi guardar minha fragrância de 1921 para os esperados meses mais frios.

Nesse meio tempo, conheci o Ma Petite Robe Noire, da Guerlain. Ele funcionava bem no calor e tinha um frescor que meu período no Brasil exigia.

Após um tempo, conheci melhor a Granado e adquiri um frasco gigante de um perfume de Rosa Damascena, que me acompanhou por um bom tempo em várias cidades brasileiras, como algumas petites villages do interior e Rio de Janeiro.

Contudo, assim que cheguei em Paris 4 anos depois, só havia uma única opção: meu amado n.º5.

Água apimentada e Itália

Foi com ele na pele que vivi um dos meses mais especiais de minha vida: junho de 2022, fazendo várias viagens pela Europa junto de meu companheiro – que na época tinha cedido aos encantos da perfumaria masculina da Chanel.

Ainda que as duas fragrâncias também combinassem muito, mencionei a ele que queria tentar encontrar um outro perfume para marcar aquela nova fase.

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Após alguns dias de busca, me deparei com um cheirinho encantador, em uma perfumaria ao lado da Ponte de l’Ogio, em Veneza. O odor pinicava o nariz docemente e depois assentava na pele de uma maneira fresca, mas complexa. Era o Twilly Eau Poivrée, da Hermès.

Fachada de loja centenária na capital francesa.
A Burdin é um dos meus lugares preferidos para comprar perfumes bons e baratos em Paris. Foto: Bárbara Ábile.

Se o n.º5 ficou marcado como o cheiro da França, o Eau Poivrée se tornou rapidamente o cheiro da Itália. Junto dele, fui encontrando traços familiares por Milão, Verona e outros cantinhos italianos, enquanto conhecia uma outra parte de minha história.

La vie est belle, principalmente com bons perfumes

Alguns meses depois recebi meus pais em Paris e a visita teve cheiro de La vie est belle.

Na época, eu já estava na minha fase Twilly Eau Poivrée, mas foi o delicioso perfume da Lancôme da minha mãe que marcou o outono na capital francesa naquele ano – pelo menos para mim. Foi, aliás, por conta de um diálogo recente com ela que tive vontade de escrever sobre cidades e perfumes.

Essa conversa aconteceu em um dia que eu havia borrifado algumas gotinhas de Eau Poivrée antes de visitá-la. Por conta do cheiro da Hermès, eu estava me sentido bastante nostálgica com as lembranças da Itália. Encontrei meus pais para almoçar e, para a minha surpresa, ao abraçar minha mãe, ela exclamou “que cheiro de Paris!”: para ela, o perfume que eu estava usando a lembrava de quando ela foi me visitar na capital francesa.

Isso me deixou bastante pensativa sobre o poder desses cheiros. Não é exagero afirmar que se para Marcel Proust uma madeleine foi o fator que desencadeou várias de suas memórias, para mim foram os perfumes que tiveram essa função.