Relembrar como fui encontrando traços familiares na Itália é uma das minhas formas preferidas de contar como conheci algumas cidades do país. Foram esses mesmos traços, aliás, que me incentivaram a dar os primeiros passos em busca de meu processo de reconhecimento de cidadania italiana.

Encontrando meus traços familiares na Itália.
Índice Antes de falar sobre a Itália, é preciso falar da França A primeira viagem para a Itália a gente nunca esquece Comida, o maior dos traços familiares na Itália Entendendo as frases de meu avô Ma quanto è bello! Vivendo la dolce vita Che confusione, sarà perche ti amo?

Antes de falar sobre a Itália, é preciso falar da França

Minha paixão pelo país não é novidade para ninguém. Já faz alguns anos que ela, e mais precisamente sua capital, tem lugar especial no meu coração.

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Por mais que eu tenha visitado outros países ao longo de minhas estadias na Europa e gostado muito, nenhum deles se equiparava à França.

E mesmo nos períodos em que estive em terras tupiniquins, se eu pensasse em viajar ou em morar fora, França era o primeiro e único país que me vinha à mente. Não à toa, foi para Paris que eu quis voltar após 4 anos morando no Brasil.

Então, assim como na moda, o Hexágono foi por muito tempo incomparável para mim. Até aparecer a Itália.

A primeira viagem para a Itália a gente nunca esquece

A primeira vez que fui à Itália, foi durante uma viagem com meu companheiro, Erik. O destino era Veneza. Lembro bem de ficarmos emocionados ao ver as primeiras placas em italiano no aeroporto, e um pouquinho da cidade enquanto nos encaminhávamos para nosso hotel.

Filmávamos tudo, ríamos à toa, e tirávamos fotos dos anúncios da Bienal de Veneza, que estava acontecendo na época.

Assim como fazemos em qualquer cidade que visitamos juntos, decidimos conhecer um grande mercado do bairro onde ficamos hospedados. Ficamos encantados. Passamos uns bons minutos enfiando coisas no carrinho ou tirando fotos de itens que nos chamavam a atenção.

Foi num desses mercados que os traços familiares na Itália cruzaram meu caminho pela primeira vez. Lá, as comidas que mais se destacavam eram aquelas que me remetiam às refeições que eu fazia com meus pais, irmãs, tios e avós.

Comida, o maior dos traços familiares na Itália

Ao longo daqueles dias e das outras viagens para a Itália que fiz desde então, fiquei — assim como qualquer um — fascinada pela culinária do país. E quanto mais a conhecia, mais lembrava de minha família.

As massas nunca me pareceram tão deliciosas. Eu olhava para as vitrines da maravilhosa pizzaria Antico Forno, e lembrava das sextas-feiras em que meu pai fazia pizzas caseiras. As carnes à milanesa de minha mãe, por sua vez, eram tão fininhas e crocantes quanto as dos restaurantes.

Traços familiares na Itália através da culinária.
Pedi um Cotoletta alla Milanese e me deparei com um prato de infância! Foto: Bárbara Ábile.

Nos restaurantes, a entradinha de pães com embutidos e pastas era parecida com as noites de reunião com meus tios e primos. O pão tortano que eu via em todo o lugar tinha o mesmo gosto daquele que minha mãe fazia quando eu era pequena.

As bruschettas, que tinha na casa dos meus pais praticamente toda semana, também eram vendidas por lá. Receitas que envolviam frituras, massas quase líquidas e frutos-do-mar, tão familiares para mim, eu encontrava nas comidas de rua.

As frutas que meu pai comprava na feira todos os domingos eram as mais bonitas nas banquinhas do fruttivendolo. O tiramissú, que era com frequência a sobremesa que tinha na geladeira de casa, estava em todos os cantos. O torrone, que sempre olhei com desconfiança, parecia delicioso nas vitrines de doces.

Fazendo as pazes com o spaghetti

É engraçado lembrar que, antes dessa viagem, o famoso spaghetti com molho à bolonhesa e queijo parmesão estava longe de ser meu prato preferido — apesar de figurar com frequência nas refeições do final de semana ao longo de minha infância.

Evitei essa combinação por muito tempo, o que era visto como algo estranho pela minha família. Todo ano, por exemplo, eu declinava o convite de meus pais e irmãs para irem à Festa da Achiropita, em São Paulo. O evento, realizado no bairro do Bixiga, reúne traços familiares a toda uma geração de descendentes de imigrantes italianos.

O gosto pelo Spaguetti é um traço familiar que encontrei na Itália.
A macarronada que permitiu minha reconciliação com meu lado italiano. Foto: Bárbara Ábile.

Mas, uma vez em Veneza, vendo repetidas vezes aquelas comidas típicas da Itália e ingredientes que estavam presentes em tantos momentos marcantes de minha vida, senti uma vontade imensa de comer uma macarronada.

E foi assim que, em um calor de 35 °C, na Calle de la Rizza, comi de pé e acompanhada do Erik, uma pasta da Dal Moro’s que me fez fazer as pazes com esse prato tão tradicional.

Espaço para o novo

Apesar de reconhecer tanta coisa, é claro que as visitas à Itália também tinham muitas novidades.

Experimentar o ossobuco com risoto um bom gelato de mascarpone com figo, os vários tipos de vinho e prosecco, os verdadeiros grana padano; os cremes de pistache, os cornetos, os cannolos, os pandoros de final de ano e bellinia, a bebida que tem até hoje o topo do meu coração, transformaram meu paladar de um jeito que eu não esperava.

Eu realmente tinha certeza de que a França era imbatível quando o assunto era comida, mas a Itália mudou minha percepção e reascendeu os meus traços familiares!

Entendendo as frases de meu avô

Quando chegamos a Veneza, Erik estava tão animado quanto eu. Ele havia passado uns bons anos pesquisando sua árvore genealógica no processo de reconhecimento de sua cidadania italiana, e era a primeira vez que ele pisava no país enquanto italiano reconhecido. Fora isso, estávamos exatamente na região se seu avô, Vêneto.

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Então, assim como eu, Erik também foi encontrando, pelos canais de Veneza e ruas de Mestre, uma série de traços familiares na Itália. Foi lindo ver como seu rosto se iluminava a cada hora que passávamos naquele lugar. Em pouco tempo, ele já havia memorizado algumas expressões básicas, a cadência e entonação de algumas frases, e a forma de ler certas palavras.

Vê-lo se arriscando dessa forma me incentivou a me arriscar também. Comecei a me soltar, principalmente nos restaurantes, onde eu podia ler o que eu queria diretamente dos cardápios. Me surpreendi como certas palavras saíam da minha boca sem muita dificuldade. A pronúncia do “R” italiano me era muito mais natural do que o “R” francês, que eu havia treinado por tantos anos.

Com o passar dos dias, e ao longo das viagens, fui me lembrando do jeito que meu avô, filho de italianos, pronunciava algumas coisas, bem como algumas expressões que eu nunca havia entendido muito bem quando criança:

O “pronto” que entrava no lugar de “alô” ao atender o telefone; o hábito de chamar o casaco de “cappotto”; “zitto” nos momentos em que era imperativo fazer silêncio; e outras expressões que descobri que eram, na verdade, palavrões!

Em meio a uma língua tão familiar, e, ao mesmo tempo, tão nova, senti uma vontade que, até então, eu só havia experienciado com o francês: aprender o idioma, só pelo puro prazer de poder pronunciar algumas frases, mesmo que básicas.

Ma quanto è bello!

Outra coisa que me impactou foi a beleza das cidades italianas. Novamente, a França, e especificamente Paris, era meu parâmetro — e convenhamos, não é toda cidade que consegue ser tão linda e charmosa quanto Paris.

Por isso, não acreditei quando vi Veneza pela primeira vez, ao sair da estação de Santa Lucia. Depois, Milão, com sua Duomo, galeria Vittorio Emmanuelle II e Parque Sempione.

Parque Sempione, em Milão.
As cores do Parque Sempione no inverno me deixaram extasiada. Foto: Bárbara Ábile.

E depois Verona, a Giuseppe Mazzini e seu rio Ádige. A predominância do laranja nos prédios, em vez do bege clássico haussmannizamo, me deixaram tão perplexa quanto da primeira vez que pisei na capital francesa.

Mas a beleza não estava apenas nas construções

Ela estava nos cabelos densos das italianas e em seus olhos marcados de lápis preto; nas sobrancelhas delineadas dos italianos e seus sapatos de couro; nos belíssimos narizes retos e lábios finos; nas rendas das lingeries vendidas, no dourado dos acessórios e nas estampas coloridas das roupas; nas músicas, na simpatia das pessoas e no charmoso sotaque deles ao falar inglês.

Vivendo la dolce vita

Apesar de ter encontrado tantas conexões familiares na Itália, confesso que conhecia muito pouco do país em minha primeira visita. Não sabia nada da língua, tinha apenas um ou outro ponto turístico em mente e alguns clichês registrados na memória. Um deles era a ideia de “la dolce vita”.

Eu sabia que, em resumo, a expressão se referia à beleza, ao prazer e à alegria de viver o simples da vida com pessoas que você ama. Mas, apesar da simplicidade ser o ponto central desse conceito, eu não tinha me dado conta de como poderia ser fácil ter essa sensação.

Lembro-me perfeitamente do primeiro final de tarde em Veneza com meu companheiro: nós dois sentados à beira de um canal, o sol prestes a se pôr, pequenas doses de Spritz, um amontoado de pessoas rindo, conversando, brincando e gesticulando, as gaivotas voando, e aquela paisagem em tons de coral, pontes e flores na beirada das janelas.

De longe, aquele foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Foi quando a ideia de “la dolce vita” fez todo o sentido para mim.

Por sorte, pude viver outros momentos de dolce vita pela Itália. Algumas vezes, sozinha, enquanto me perdia pelas ruas de Verona durante o inverno, ou visitava os De Chirico em Milão, após tomar um expresso em um bar.

Outras, acompanhada de meus pais, quando os levei para conhecer Veneza, e vi nos olhos deles a felicidade de encontrar os mesmos traços familiares na Itália que eu havia notado em minha primeira vez no país.

Religião, outro traço familiar na Itália

Outro traço familiar na Itália que encontrei foi, como não poderia ser diferente, a religião.

O catolicismo foi parte onipresente de minha criação, por isso, me divertia muito visitando igrejas na Itália: das catedrais mais importantes e imponentes das cidades às igrejas menores e mais simples.

Interior de igreja na Itália.
Independentemente das crenças, as construções religiosas na Itália são admiráveis. Foto: Bárbara Ábile.

Eu passava um tempo considerável dentro delas, olhando o detalhe de cada altar e mural, coletando santinhos com orações em italiano ou folhetos de missa.

Os museus italianos, nesse sentido, também foram marcantes, já que as pinturas religiosas estavam em praticamente todos eles. Guardei todas essas lembranças religiosas e as levei para minha vó, que as deixa exposta em sua casa.

Che confusione, sarà perche ti amo?

No dia em que Erik pegou seu tão sonhado passaporte italiano, alguns anos antes de nossa primeira ida à Veneza, ele sugeriu que eu iniciasse meu processo de reconhecimento de cidadania.

Na época, prestes a me mudar para morar na França e cansada de lidar com tanta burocracia, resolvi deixar esse plano de lado. As visitas à Itália, no entanto, reavivaram essa vontade com toda a força.

Com a ajuda dele e das histórias de minha avó, também filha de italianos, fiz a minha pesquisa genealógica e descobri antenatos meus em várias regiões da Itália. A maioria deles veio para o Brasil na onda de imigração entre 1887 e 1902, o que explica essa quantidade de pontos em comum que tenho com as tradições e cultura italiana.

Com isso, dei início ao longo processo de reconhecimento de minha cidadania italiana para bisnetos, ainda em curso. Enquanto aguardo minha vez de pegar o passaporto, sigo me emocionando ao lembrar dessas vivências, lendo autoras italianas, ouvindo músicas tradicionais e, claro, planejando a próxima visita ao país. Tudo isso, Itália, é perché ti amo!