Meu primeiro ano na Itália foi marcado por descobertas intensas, e também por erros que, com o tempo, se transformaram em aprendizados valiosos. Hoje, com mais maturidade e perspectiva, vejo com clareza o que eu poderia ter feito diferente.

O que eu faria diferente na Itália se mudasse para a Itália
Índice A ilusão da mudança simples O peso de precisar se explicar Falar errado e ter vergonha Expectativas e solidão O rótulo de “estrangeira” que eu mesma coloquei em mim O primeiro respiro O meu maior erro O que eu faria diferente (e o que você ainda pode fazer)

E é justamente por isso que escrevo este texto: para que você, que está começando essa jornada agora, tenha a chance de fazer escolhas mais conscientes e evitar os mesmos tropeços.

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A ilusão da mudança simples 

Quando tomei a decisão de me mudar para a Itália, pensei que seria apenas uma transição geográfica: trocar o idioma, adaptar os costumes, reorganizar a rotina. Mas logo percebi que não se tratava apenas de mudar de país. 

Era sobre recomeçar a vida do zero, sem manual, sem garantias e, muitas vezes, sem saber qual seria o próximo passo. E sejamos sinceros: as mudanças nem sempre são fáceis. Com o tempo, vale a pena. Mas eu não pensei assim no primeiro ano. Pelo contrário. 

O peso de precisar se explicar 

Eu não mudaria a minha história, mas mudaria a forma como vivi algumas partes dela. E talvez esse seja o maior aprendizado do meu primeiro ano na Itália: não ter medo. Medo de errar, de pedir ajuda, de recomeçar. Mas, acima de tudo, medo de explicar os meus sonhos. 

Durante muito tempo, carreguei o peso de ter que justificar minhas escolhas para quem ficou no Brasil. “Por que você foi?” “Vai ficar até quando?” “Mas aí também tem problema, né?” 

Mesmo sem intenção, essas perguntas me faziam duvidar do caminho que eu havia escolhido. E quando os desafios surgiam, a burocracia, a solidão, a adaptação, eu ainda me sentia culpada por não estar “vivendo o sonho europeu” da forma como esperavam que eu estivesse. 

Demorei a entender que os sonhos têm preço. Que nem tudo precisa ser explicado. E que, às vezes, a compreensão não vem, e tudo bem. 

Hoje, olhando para trás, viveria aquele primeiro ano sem esse peso. Com mais liberdade interior. Com mais confiança de que as minhas escolhas não precisam ser validadas por ninguém. 

Falar errado e ter vergonha 

Esse talvez seja um dos arrependimentos mais comuns entre os estrangeiros que vêm viver na Itália, e com certeza, é um dos meus. 

No começo, parece simples tomar a decisão: “Quando eu chegar lá, eu aprendo italiano e vai dar tudo certo.” E sim, a verdade é que, com o tempo, dá mesmo. Mas aprender antes faz toda a diferença, e eu só entendi isso depois. 

Não ter estudado italiano antes da mudança me trouxe inseguranças profundas. Tive vergonha de conversar com as pessoas, de fazer perguntas, de cometer erros simples. Tive medo até de ir ao supermercado. Pior, em algumas situações, não consegui nem mesmo me defender. 

Essa falta de preparo linguístico criou em mim um sentimento constante de inadequação. Medo de não conseguir um emprego por ser estrangeira. Medo de não acompanhar a universidade. Medo de ser julgada, mal compreendida, rejeitada.

Idioma e burocracia

E, como se não bastasse, a burocracia italiana exige paciência, clareza e informação. Quando você não domina o idioma, cada documento se torna um enigma. A verdade é que foi difícil. Precisei aprender na marra, errando, me frustrando, tentando de novo. E tudo bem. É assim que a gente cresce. 

Mas se eu pudesse voltar um pouco no tempo, teria aprendido pelo menos o básico. Para me sentir mais segura. Porque a cada frustração, nascia mais medo de tentar novamente. 

E quando você decide mudar de país, o que você não pode fazer é desistir de tentar. 

Expectativas e solidão 

Uma das coisas que mais me surpreendeu no meu primeiro ano na Itália foi a questão das amizades

Como muitos, eu cheguei com aquele imaginário de que os italianos eram frios, distantes, e que seria difícil me enturmar. E, sejamos honestos, no começo… foi mesmo. 

Entrei para o grupo da igreja local, tentando encontrar um espaço. Mas os grupos eram muito fechados. Pessoas que se conheciam desde a infância. E eu, com meu italiano ainda limitado, tentando me aproximar como dava. 

Na universidade, o cenário se repetiu. Eu pensava: “No Brasil, quando chega um estrangeiro, a gente trata como se fosse um astro. Todo mundo quer acolher.” Mas aqui, não foi assim. As pessoas já tinham suas vidas, seus amigos, seus grupos. 

Comecei a achar que os italianos eram distantes demais

E num movimento quase automático, comecei a buscar brasileiros. Mas mesmo assim, muitas amizades não fluíam. E foi aí que me perguntei: “Será que o problema sou eu?” 

A resposta, com o tempo, foi: sim. Porque eu não estava procurando afinidade, estava tentando preencher um vazio. E qualquer “não” parecia um ataque. Hoje, entendo que esse é um dos aspectos mais valiosos da cultura italiana: a honestidade. Eles dizem o que pensam, com naturalidade. Sem rodeios. 

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Com o tempo, entendi que amizades não têm nacionalidade. Italianos, brasileiros, estrangeiros, são pessoas. E quando parei de colocar rótulos, fiz amizades reais.

O que me atrapalhou naquele primeiro ano foi a urgência de preencher um vazio. Essa frustração me fechou. E me cobrar tanto por não ter uma “vida social perfeita” só tornou tudo mais pesado. 

O rótulo de “estrangeira” que eu mesma coloquei em mim 

Outra coisa que vivi por muito tempo, e não apenas no primeiro ano, foi a sensação de ser menos, simplesmente por ser estrangeira. 

Parecia que, ao cruzar a fronteira, a Verinha de antes havia deixado de existir. De repente, era como se eu não soubesse mais falar, andar, pensar. E, de certa forma, até era verdade, porque até ir ao supermercado parecia uma missão complexa. 

Mas a grande verdade é que eu me subestimei demais. Me senti, por muitas vezes, menos eficiente do que os outros apenas por vir de outro país. Me senti inferior.

Quantas vezes entrei em um órgão público de cabeça baixa, como se pedisse desculpas por estar ali. Quantas vezes deixei de enviar um currículo porque pensei: “Não sou boa o bastante.” 

E isso não tinha nada a ver com as minhas competências. Mesmo estudando muito, mesmo me esforçando, eu mesma me convenci de que não era adequada. Carregava na testa um rótulo que eu mesma escrevi: “Estrangeira. Não preparada.” Tinha vergonha de estar aprendendo. Vergonha do meu sotaque. Medo de ser mal recebida por ser brasileira. 

Verinha sorridente em Roma
Quando deixei de me cobrar e subestimar tanto, as dificuldades começaram a diminuir. Foto: Verinha Simões

Hoje, com mais lucidez, me pergunto: De onde vieram esses pesos? Quem me disse que eu não era suficiente? E a resposta, embora dolorida, é simples: fui eu.

Mas um dia, esse ciclo eu quebrei. Foi quando entendi que ser eficiente não tem nada a ver com falar como um nativo. Que ter um sotaque não diminui a minha inteligência. Que a minha nacionalidade não define o meu valor. 

Que eu não sou “a estrangeira”. Eu sou a Vera. E que, naquele início, o que mais me machucou não foi como os outros me viam, foi como eu deixei de me ver

O primeiro respiro 

A minha virada não foi um evento marcante. Não teve uma grande vitória, um emprego dos sonhos, nem uma declaração de amizade que mudou tudo. 

A virada começou quando eu parei de resistir e comecei a aceitar. Aceitar que era normal me sentir deslocada. Aceitar que eu não precisava saber tudo de imediato. Aceitar que recomeçar leva tempo, e que tudo bem se eu não me encaixasse de cara. 

Foi nesse momento, silencioso e íntimo, que as coisas começaram a mudar. Comecei a me permitir aprender sem tanta vergonha. Falar com sotaque, errar conjugação, pedir ajuda sem achar que estava incomodando. 

Comecei a me conectar com outras pessoas de forma mais sincera, sem tentar provar nada, apenas sendo eu. E com isso, vieram os primeiros sinais de pertencimento: 

  • Uma amizade que cresceu aos poucos;
  • Uma professora que elogiou meu esforço;
  • Uma conversa em italiano que fluiu sem dificuldade.

Pequenas coisas. Mas para quem está reconstruindo a própria identidade, pequenas vitórias são enormes. Essa foi a minha primeira virada. Mas, como em toda jornada real, alívio não é fim. 

Depois dessa leveza inicial, vieram novas dúvidas, novas frustrações. A diferença é que, dessa vez, eu já não me via mais como alguém perdida. Eu me via como alguém em processo. E só isso já muda tudo.

O meu maior erro 

Mas sabe qual foi o meu pior erro? Não foi só ter passado por tudo isso no primeiro ano. Foi ter repetido muitas dessas dores, dessas inseguranças, mesmo depois da virada. Seria incrível poder dizer que, depois de encontrar meu lugar, tudo se encaixou. Que bastou uma tomada de consciência para que a vida na Itália se tornasse fácil, fluida e leve. 

Mas a verdade é que mudanças profundas não seguem linha reta. Viver uma mudança real, como deixar o seu país, sua língua, sua cultura, é um processo contínuo. Não basta mudar de cidade. É preciso, muitas vezes, mudar de mentalidade. E isso leva tempo. 

O que precisei aprender, depois de tanto repetir os mesmos padrões, foi a olhar pra dentro com honestidade. Me perguntar: Qual era mesmo o meu porquê? Por que decidi embarcar naquele avião? Por que aceitei abrir mão da minha zona de conforto? 

Porque é esse porquê que sustenta os dias difíceis. É ele que te dá força quando bate o cansaço. É ele que te lembra que essa luta não é em vão. 

Viver fora é lindo, sim. Mas é uma beleza que vem com cicatrizes. E só quem encontra um sentido real no caminho é capaz de continuar, mesmo quando tudo parece desmoronar de novo. 

O que eu faria diferente (e o que você ainda pode fazer) 

Hoje, olhando com distância para aquele primeiro ano, e para os muitos que vieram depois, eu não romantizo e nem me arrependo. Mas se eu pudesse voltar no tempo, com o coração mais calmo e a mente mais preparada, eu teria feito uma escolha simples: 

Teria sido mais gentil comigo mesma. Teria aceitado que não saber tudo é normal. Teria entendido que não ser acolhida de imediato não significa ser rejeitada. E teria me lembrado, todos os dias, do motivo que me trouxe até aqui.

Se você está começando sua jornada agora, talvez esteja se cobrando demais. Talvez esteja esperando que tudo faça sentido rápido, que os resultados apareçam logo. Mas eu te digo, com a calma de quem já passou por tudo isso: 

Você vai errar, sim. E vai acertar também

Você vai se frustrar, se reinventar e se surpreender consigo mesmo. Mas o mais importante é não se perder de quem você é, e do motivo que te fez escolher esse caminho. A vida na Itália é feita de desafios, sim. Mas também é feita de descobertas, de encontros inesperados, de momentos que mudam tudo. 

Você não precisa passar por isso sozinho. 

*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Euro Dicas.