As regras invisíveis da Itália, no começo da sua experiência, te atrapalham, eu sei bem como é. Eu sabia que viveria desafios ao me mudar definitivamente para a Itália. Imaginava que o choque cultural ia me pegar de alguma forma, só não sabia como. Afinal, já tinha passado um tempinho no país antes de tomar a decisão mais importante da minha vida.

Existem várias regras invisíveis da Itália
Índice A fila é um salve-se quem puder Contato físico, uma regra invisível além de estereótipos A aparência Hospitalidade e comer bem: minhas regras invisíveis da Itália favoritas! Minha casa é onde... nasci Detalhes da vida pessoal ficam mais guardados Conclusão: regras invisíveis da Itália no meu cotidiano

E claro, não há nada de novo. Afinal, todo mundo já se sentiu meio perdido num país estrangeiro, não captando muito bem certas dinâmicas, não é mesmo? Aqueles momentos em que por mais que as palavras sejam reconhecíveis, tem algo de estranho no ar.

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Em italiano tem uma palavra que pode definir essa sensação, spaesamento. Um desnorteamento que faz você perder a conexão com a terra firme. Porque são situações e regras invisíveis que ninguém te explica: você descobre vivendo.

A fila é um salve-se quem puder

Essa confusão que desorienta pode ser vivida em grandes ou pequenas situações. Por exemplo, quem nunca se irritou com as filas italianas? Talvez essa é uma das regras invisíveis da Itália que é mais perceptível, porque é realmente um salve-se quem puder! Quantas vezes me vi me perguntando como que funcionam, onde começam e terminam.

Ninguém explica nada, é uma disputa desleal em que prevalece quem fala mais forte, quem se impõe e quem já conhece essa dinâmica. Depois de alguns anos morando na Itália, eu aprendi que, nesse contexto, a regra é se impor e, muitas vezes, ser folgada com quem é fura-fila.

Falando em explicar, aproveita para conhecer a lista de coisas que explico o tempo todo desde que vim morar na Itália.

Contato físico, uma regra invisível além de estereótipos

Os espaços pessoais, inclusive, também são mais marcados. Abraçar uma pessoa desconhecida ou pouco conhecida pode ser considerado por muitos uma pequena invasão do espaço pessoal.

Em algumas pessoas, o contato físico próximo pode causar desconforto – e fica evidente, seja no rosto mas também em não forçar a aproximação.

É melhor dar um oi geral

Outra situação um pouco diferente do Brasil – mas essa eu adotei para a minha vida – é não precisar cumprimentar com beijinho no rosto pessoas desconhecidas. Aliás, não só isso: se uma pessoa conhece o seu amigo, mas não você, ninguém te apresenta, é comum que essa pessoa também nem te dê oi. Estranho? Muito. Mas na lógica dela funciona assim: não sei quem é, então não preciso dar oi.

Como, então, saber quando se apresentar ou cumprimentar um desconhecido? Essa parte é interessante. Não sei! Quer dizer, você sente no ar se há abertura, se é o caso ou se você faz questão também. Quando te apresentam, é mais fácil. Mas às vezes acontece de você não ter abertura e pensar “Nossa, que esquisito”. 

E na hora de dar tchau?

Na hora de ir embora, é a mesma coisa. Esqueça a coisa de cumprimentar um por um: um “ciao ciao” de longe, geral, é a melhor opção. E sinceramente? Eu adotei esse estilo para a minha vida (com medo de ser tachada de rude).

Porém, quando você passa pelo raio-x inicial, espere por um grande acolhimento! A família – sanguínea ou os amigos – inteira irá saber quem você é, de onde vem, o que faz. E vira aquela coisa do “se é amigo de fulano, é meu também”. A desconfiança do começo recompensa!

Regras invisíveis da Itália: nada de demonstração pública de afeto

Mas outra regra não escrita é casais não se beijarem na rua. Até selinho! É difícil ver demonstrações de afeto em público, ainda mais troca de carícias. Não sei se é a minha percepção, mas noto também que muitos casais não caminham lado a lado ou de mãos dadas, acredito que é algo mais comum entre os adolescentes.

A aparência

Ser elegante e estar arrumado também é uma questão social invisível. Sabe aquela ideia de “vou com a minha melhor roupa”? Então, esse costume é ainda muito atual na Itália.

Nas cidades pequenas na Itália, domingo ainda é o dia de colocar a melhor roupa, os melhores looks e ir dar uma voltinha no centro. Inclusive, a regra é olhar e ser olhado.

Entre as regras invisíveis da Itália, “fare bella figura” é importante!

Pois é, em italiano há até uma expressão para a importância da primeira impressão que dá peso para a pessoa, mais do que para a impressão: fazer boa figura (talvez os portugueses estejam mais acostumados com essa expressão do que os brasileiros).

Hospitalidade e comer bem: minhas regras invisíveis da Itália favoritas!

Se você é o convidado da vez, saiba que você deu sorte! Nisso, Brasil e Itália são parecidos: o convidado não tem que desembolsar nada. O estereótipo diz que com as famílias do sul, isso é ainda mais forte. É questão de honra “oferecer”!

Pessoalmente, já vivi isso com pessoas do norte, centro e sul da Itália, mas confesso que o sul tem algo de familiar, de quase latino, para te fazer se sentir em casa.

Receber bem os amigos é uma regra italiana
Receber amigos com fartura à mesa é mais do que um hábito, é parte da cultura.

Melhores comidas, doces, lugares. Para o italiano, isso é quase uma obrigação. Afinal, você foi até lá visitar a terra dele, o mínimo que ele pode fazer é te acolher a braccia aperte (de braços abertos).

A hospitalidade cria quase uma sensação de expectativa. E com toda expectativa, há a chance de decepção, certo? As famílias italianas não vão deixar brecha para a decepção, acredite! Pelo menos eu nunca me decepcionei!

Leia também nosso artigo sobre a Itália se tornou casa entre mercados, pratos e piadas!

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Minha casa é onde… nasci

Eu não sei bem se é uma regra social ou algo mais cultural, mas é algo bem comum ouvir que “casa” não é para onde se mudou por causa do trabalho ou dos estudos.

É muito comum ouvir de pessoas com mais de trinta anos a frase “Vou voltar para casa”. Acho bonito o apego à cidade natal e também à família, o famoso “de volta para a minha terra”, mas para mim é muito estranho pensar que onde estou morando seja somente algo passageiro. Por mais que seja, é onde vivo, literalmente.

Não é somente essa conexão com a terra natal, mas a ideia de que você e o outro não pertencem àquele lugar. Perguntas como “E torni spesso a casa?” (“E você volta com frequência para casa?” – ou seja, quando volto ao meu país) ainda são comuns, mesmo morando aqui há anos.

Detalhes da vida pessoal ficam mais guardados

Tá aí outra coisa que fui notando ser um pouco diferente do Brasil: dar muitas informações sobre a vida pessoal é visto como algo desnecessário, e ao trabalhar na Itália, essa regra invisível é lei.

Sabe quando você vai explicar para o seu chefe porque vai precisar de um dia de folga e começa a contar o contexto nos mínimos detalhes? Então, não precisa.

Outra regra social invisível é a relutância em falar sobre dificuldades pessoais. Você ouve muitas histórias na rua, nos bares, nos cafés, de pessoas contanto da própria vida, ou do relacionamento. Mas explicitar uma fragilidade é ainda um tabu.

E pedir desculpas?

Inclusive, eu acho que até pedir desculpas é diferente. É mais sutil, também com poucos detalhes, mais objetivo. Parece algo mais pragmático, algo que preciso fazer e fiz, fim. Não gosto, admito.

Conclusão: regras invisíveis da Itália no meu cotidiano

Eu tendo sempre a tentar colher o melhor dos dois mundos. Confesso que entrar em sintonia com uma pessoa logo de cara e conversar sobre os problemas pessoais no bar é uma delícia.

Por outro lado, não gosto muito de fazer amizades no trabalho, então me sinto à vontade em compartilhar o necessário com os colegas. O mesmo vale para o beijinho um a um, tanto na hora de chegar como de ir embora. O “ciao” geral faz mais sentido para mim.

Eu sei, é tudo muito subjetivo. Apesar de não aceitar algumas dessas regras invisíveis da Itália, morar aqui me ajudou a me aceitar como sou, e a levar um pouco daqui para o meu “eu brasileiro”, e um pouco do Brasil para o meu “eu italiano”.