Será que o pertencimento à Itália acontece? Quando me mudei, no fundo, sabia que não iria ficar por pouco tempo. Por mais que tivesse um plano B, pensando numa possível volta depois de um ano, tinha algo em mim que fazia acreditar que essa mudança seria quase permanente. O que posso dizer é que a Itália se tornou casa já faz algum tempo.
Está sendo assim já faz 8 anos. Não sei dizer se é para sempre. Mas o primeiro sinal disso é quando visito outro país europeu.
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TORNE-SE CIDADÃO ITALIANO→Comparo a Itália com outros países da Europa
Sabe aquelas pequenas comparações que a gente, bem bairrista, faz sobre a comida, o modo de se comportar na rua, de se relacionar com as pessoas, etc. quando visita um país? Então, me vem à cabeça a Itália, não o Brasil. Acho curioso, é como se o cérebro comparasse somente o meu dia a dia atual, e não a minha vida inteira vivida no meu país.
Isso no bom e no ruim, tá, gente? Também rola umas comparações do tipo: “Realmente, o transporte público nesse país dá de dez a zero na Itália”. Ou: “Que bom que aqui posso pedir um bagel com cappuccino e ninguém vai achar ruim!“. Ou penso sobre a burocracia na Itália…
A comida italiana
Falando em comida, eu diria que é uma das sensações mais fortes de pertencimento à Itália que vivo. Uma delas é o azeite de oliva extravirgem, de ótima qualidade e mais acessível do que no Brasil, por exemplo.
É algo que senti falta quando estive em São Paulo. Claro, você acha, compra e tudo mais, mas no dia a dia, a base da nossa culinária é o óleo de soja. Poder usar azeite em tudo é muito bom e adaptei esse costume.
Acho que a identidade do estrangeiro vai se formando também a partir de outras experiências, como incluir uma quantidade maior de comida italiana na dieta. Eu admito, a minha semana tem raramente comida brasileira.
Sinto saudades? Muitas!
Mas para mim, não é a mesma coisa. Não são os mesmos produtos, não tem o mesmo sabor. Posso comprar arroz e feijão, às vezes improviso a couve-manteiga usando cavolo verza. Fica bom? Claro, mas tem algo que me diz que falta alguma coisa.
É como comer comida italiana no Brasil. Eu moro aqui, quando vou ao Brasil, quero comer o que não acho aqui!
Reconhecer comidas locais: sinal de pertencimento à Itália!
Gosto quando preciso explicar para alguém do que é feito um prato típico. Por exemplo, como morei muitos anos em Perugia (na Úmbria), eu sei reconhecer muitos produtos e iguarias da tradição local, desde pratos até vinhos!
Estação do ano e mercado
Eu sempre brinco falando que virei adulta na Itália. Isso significa que aprendi a me virar, a cuidar da casa, cozinhar, entre outras coisas, quando saí da casa dos meus pais e vim para cá.
Como eu era uma jovem estudante, adotei uma estratégia: só comprar verduras da estação. Além de serem mais baratas e fáceis de encontrar, eu aprendi a apreciar pratos que não conhecia, como o broccolo romano ou o cavolo verza.
Mercado favorito? Temos!
Bom, vamos partir do pressuposto de que eu não gosto de ir ao mercado fazer compras. Mas as coisas ficam menos piores se eu achar uma loja do meu supermercado do coração: a Coop!
A filosofia do mercado também é interessante. Como não é uma empresa, mas sim uma cooperativa, ao fazer o cartão fidelidade, você vira sócio, com direito a participar das assembleias e tudo mais.
Além disso, os produtos da marca são ótimos, seja de preço que de qualidade. E, por conhecer bem as linhas de produto, quando viajo, sei exatamente o que devo comprar.
Salvação das cacheadas
Outra coisa que me faz sentir em casa são lojas como Tigotà ou Acqua e Sapone (fico com a primeira também!). São parecidas com as nossas perfumarias, mas com mais ênfase em produtos de limpeza.
Elas são uma salvação para as cacheadas como eu, que sofrem para acertar o xampu. Por mais que as escolhas sejam limitadas, é a melhor opção para mim. Em grandes cidades acredito que seja mais fácil encontrar lojas especializadas, mas nas pequenas, são essas lojas que vão salvar a sua vida!
Secador e difusor obrigatório
Tem um hábito que internalizei tanto que até no Brasil eu não consegui reproduzir: sair de cabelo molhado na rua, mesmo no verão. Aqui é raríssimo ver pessoas de cabelo molhado (se você ver alguém, é provável ser um turista!).
Sentir necessidade de falar em italiano
Também sinto que aqui é o meu lugar quando preciso mudar de língua: voltar a falar italiano, depois de um longo dia falando inglês (ou até mesmo português), meio que estabiliza as coisas. Não sei explicar, mas é como se o meu cérebro pensasse assim: estou na Itália, preciso falar em italiano.
Principalmente em conferências internacionais, em que passo muito tempo falando inglês, por exemplo, não vejo a hora de voltar a falar em italiano com meus colegas (claro, melhor ainda quando encontro um brasileiro!).
Alguns termos da língua italiana também ficam no meu cérebro e fazem mais sentido (algumas vezes, eu e o meu irmão aportuguesamos palavras italianas, chega a ser engraçado!).
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INSCREVER GRÁTIS→Referências culturais e humor
Outro sinal de pertencimento à Itália é entender piadas ou pegar referências culturais. Por exemplo, um clássico aqui é a série Boris. Ou memes da internet italiana e contas no Instagram ou no YouTube de humor, por exemplo.
Mas isso não se aplica a idas ao cinema! Não gosto de assistir nada dublado, e em italiano, fica pior ainda. Juro!
Feriados e festas nacionais
Viver os feriados na Itália também já internalizei como minha rotina aqui. Como desde que me mudei, segui o calendário acadêmico daqui – primeiro no Mestrado, depois como Professora e agora no Doutorado – eu organizo a minha vida pensando no calendário aqui. Ou seja, o primeiro semestre para mim é o segundo semestre no Brasil, e vice-versa.

Além dos feriados, claro: não há Sexta-feira Santa aqui, mas sim a “Pasquetta” ou a segunda-feira de Páscoa. Ou eventos como Festival di Sanremo, a Serie A do futebol italiano, polêmicas e fofocas no geral – que por mais que você não acompanhe, sabe mesmo sem querer o que está acontecendo no país.
Eleições, a carteirinha do pertencimento à Itália
Dentre esses eventos, o que mais faz com que eu me sinta parte dele são as eleições. Eu acompanho a política no geral, estudo alguns processos e práticas comunicativas dela, então tento sempre me manter atualizada sobre a política daqui, no Brasil e do “mundo”.
Por ser cidadã italiana, eu também posso votar, então é um momento da minha história aqui que faz com que eu me sinta parte, possa expressar a minha opinião.
Mudar de cidade, mas continuar morando na Itália
A primeira mudança na Itália me lembrou muito essa sensação de me sentir em casa. Sim, é quase um paradoxo: mudança e casa.
Mas eu não me mudei de volta para o Brasil, e sim, para outra casa aqui na Itália, em outra cidade. No intervalo, uma ida para o Brasil. As caixas paradas na garagem de uma amiga era o maior sinal de todos: a Itália é a minha casa. Minha vida está lá.
Então, a Itália é “casa”?
No modo geral, acho que o pertencimento à Itália é um aspecto da vida do imigrante que tem a ver com muitas nuances, perceptíveis ou menos, e a principal delas é a língua. Não tem jeito.
Ter a oportunidade de aprender italiano faz com que você se sinta parte da sua nova casa, desde aprender a pedir um pãozinho na padaria até formas de socialização.
E poder sentir esse pertencimento a duas culturas é algo muito bonito. Isso é, sem dúvida, o momento em que sinto que a Itália também é casa mia.