Mudei… de novo! 2024 está sendo um ano repleto de mudanças e novas experiências. No começo do ano, como contei na coluna de março, voltei ao Brasil após 7 anos morando na Itália (e sem nunca ter voltado para o país). Para completar, fiz minha primeira mudança na Itália.

Encerrei meu ciclo em Perúgia, cidade onde passei todos esses sete anos em que moro no país. Deixei para trás queridas amigas e amigos, um centro histórico que conheço como a palma da minha mão, memórias e ensinamentos que me transformaram na “adulta” que sou hoje.

A primeira mudança dentro da Itália

O motivo da mudança?

Passei no doutorado na Universidade de Urbino, na homônima cidade. Urbino é uma cidade cuja arquitetura é racional, geométrica, típica do Renascimento.

Inclusive, é considerada um dos berços do Renascimento não só italiano como europeu.

Palácio Ducal de Urbino, quando me recebeu, em março de 2024. Foto: Bruna Paroni.

É nessa moldura idílica em que me encontro desde o começo de março. Sua praça principal, com o Palácio Ducal, é Patrimônio da Humanidade da UNESCO desde os anos 1990. Enfim, tem muita história aqui também!

Mudança é sempre um perrengue

Principalmente se você não dirige e quer economizar! Pois é, eu não dirijo na Itália – não posso pedir a conversão da carteira de motorista, já que sou residente no país há mais de quatro anos, como previsto pelo acordo bilateral já vencido -, além de ter acumulado coisas ao longo desses anos todos (livros, roupas, acessórios para casa, pequenos eletrodomésticos).

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Ao todo, quase 30 caixas “não muito grandes” cheias de coisas. Isso porque consegui vender o guarda-roupa e a cômoda, e dei a minha escrivaninha para uma amiga. Tive que organizar toda a mudança para poder viajar para o Brasil já sem casa e com a mudança na Itália resolvida.

A minha vida em caixas

Enquanto eu estive no Brasil, deixei a minha mudança na casa de uma amiga, a Monique, também brasileira. Nesse processo de encaixotar e transportar, pude contar com o apoio de várias pessoas mega especiais que toparam me ajudar nessa empreitada.

Maristella, quem me ajudou com a logística de todas as caixas, da minha casa para a casa da Monique. Monique, a guardiã dos meus pertences. Lílian, Matteo, Riccardo pela primeira parte da mudança. Emilie, pela parte final dela. Idas e vindas de Perúgia até que, a tão planejada mudança na Itália estava completa.

Finalmente, com as caixas na minha casinha nova, pude perceber o que tinha e o que não é mais necessário, mas principalmente: pude preencher as prateleiras com meus livros.

Agora, sim, minha casa se parece comigo. E principalmente, está cheia de cores e histórias, velhas e novas a serem feitas nessa nova cidade.

Adaptação à nova cidade

Urbino é uma cidade muito, mas muito pequena mesmo. Seus habitantes são poucos, somando cerca de 15 mil. O que dá vida à cidade é justamente a oferta de universidades que a cidade tem. Além da Università degli Studi di Urbino, há a Accademia di Belle Arti e o Istituto Superiore per le Industrie Artistiche.

Como deve ter dado para reparar, a cidade é muito “artística”. Não é para menos. Ela foi o berço de ninguém menos do que o Rafael. Sim, aquele Rafael, o famoso pintor da Escola de Atenas, lá no Vaticano. Inclusive, moro a exato 1 minuto de sua casa natal.

Pintura Escola de Atenas de Rafael
Na Escola de Atenas aparecem Platão, Aristóteles e Sócrates, entre outros. Foto: domínio público

Dando vida à casinha nova!

Pela primeira vez, estou morando sozinha! Estava precisando morar um tempo num apartamento, sem dividir os espaços com ninguém, e principalmente, ter mais liberdade para ter uma rotina estranha (acordar muito cedo, ficar estudando de madrugada, entre outras coisas).

Ainda preciso pendurar alguns quadros e pôsteres, mas aos poucos está ficando com a minha cara. Estou gostando bastante, acho que foi uma ótima escolha para essa mudança na Itália – apesar da grana!

Tarsila em Urbino
Tarsila me julgando e relaxando ao mesmo tempo. Foto: Bruna Paroni.

A Tarsila, minha gatinha, também está se adaptando bem! Claro, é sempre um processo muito estressante para um gato. Mas devo dizer que, no geral, ela está a cada dia mais tranquila.

E nova região também!

A cidade é também capital da província de Pesaro-Urbino, que agrupa duas cidades, respectivamente. Enquanto Urbino ficar entre as montanhas, com suas paisagens bucólicas que inspiraram maestros do Renascimento, Pesaro fica na costa, no mar Adriático. A região é Marche – ou Marcas – cuja capital é Ancona.

Não é uma região muito turística, o que é ótimo! Aqui, encontra-se de tudo: montanha, mar, campo. Mais próximo a Ancona tem o Parco del Monte Conero, com suas praias de um azul-prateado. Lindo demais.

Urbino é um campus universitário

O que se respira em Urbino, então, é arte, estudo e vida universitária. Principalmente para os mais jovens, da graduação (“laurea triennale”). Costumo dizer que a cidade é um campus: você tem tudo aqui nesses poucos quilômetros quadrados.

Para o meu gosto, é muito pequena. Mas muito mesmo.

Vendo pelo lado bom, porém, reparei que o meu nível de produtividade é muito alto. Estudo muito e “bem” – no sentido de que consigo ter uma rotina de estudos bem rígida -, que é o que eu queria vivenciar esses três anos de doutorado.

Novos amigos

Morar numa cidade universitária faz com que você faça amizade fácil. Conheci os colegas de doutorado dos anos anteriores, e através deles, fui conhecendo novas pessoas. E as pessoas estão mais ou menos na mesma situação que você (mudaram de cidade, são novos na cidade), etc., o que faz com que o acolhimento seja ótimo!

Além disso, como é pequena, é comum sair de casa sem planos. Porque você acaba encontrando alguém na rua, num barzinho, e daí fazem-se os planos, encontram-se pessoas. Confesso que é gostoso.

Novos amigos brasileiros
Eu, Arturo e Emilie no primeiro dia de primavera em Urbino. Foto: Bruna Paroni.

Contra qualquer expectativa, eu conheci dois brasileiros incríveis aqui na cidade, o Arturo e a Emilie. Sabendo que eles estão aqui, não me sinto sozinha. Ele, me deixa atualizada sobre o Palmeiras. Ela, minha mentora, além de ser companheira de aventuras (na universidade e fora dela).

Lado ruim da mudança na Itália: deixar amigas para trás

As minhas amigas são as “coisas” de quem mais sinto falta! Isso é óbvio. Sair para fazer um aperitivo ou dar uma voltinha, nos nossos lugares preferidos. Está sendo um desafio, confesso.

A minha sorte é que Perúgia não fica tão longe assim de Urbino – inclusive, em três meses, já fui para lá quatro vezes. Deu para matar a saudade!

Nova fase: doutorado!

Ano passado, decidi dar esse passo. Afinal, já estava dando aulas de português na Universidade de Perúgia, e percebi que é justamente o ambiente universitário onde gosto de atuar.

Talvez pelos estímulos? Não sei. Só sei que, desde que entrei na graduação, não fiquei um ano longe desses espaços acadêmicos, seja como estudante, seja como professora.

Seleção de doutorado

Grosso modo, os editais de doutorado na Itália seguem mais ou menos o mesmo estilo: você precisa se inscrever apresentando um projeto de pesquisa, currículo e outros documentos pessoais. Há uma pré-seleção, e então provas escritas e/ou orais (tipo entrevista).

Não há uma bibliografia, então você precisa saber como defender bem seu projeto. Assim falando, parece tranquilo. Mas confesso que foi uma das coisas mais estressantes que já vivi na minha vida. Pior do que passar na FUVEST!

Doutorado com bolsa

Na Itália, não é muito comum fazer doutorado sem bolsa. A bolsa de estudo do doutorado consegue cobrir os custos mensais, como moradia, alimentação e vida no geral, mas não sobra nada no fim do mês.

Morar em uma cidade como Urbino também ajuda a dar uma contida nos gastos mensais. Tirando o custo do aluguel. Por ter um número de estudantes matriculados praticamente igual ao número de residentes, há poucas casas disponíveis, deixando o centro histórico sem muitas ofertas, elevando assim os preços dos aluguéis.

Inclusive, aqui, há muitas ofertas de quartos duplos (dois estudantes que compartilham o mesmo quarto). E não são tão baratos assim.

A bolsa de doutorado e a bolsa de pós-doutorado não são corrigidas pela inflação – aliás, nada na Itália é. O cenário econômico sofreu e após a pandemia e a guerra na Ucrânia. E o país, que não via inflação desde 1988, passou a ter níveis muito altos.

Para se ter uma ideia, em 2022, a inflação bateu níveis recordes, chegando a mais de 8%. Porém, os doutorandos contribuem ao INPS (o INSS italiano), o que faz com que a bolsa seja vista como um trabalho. Precário, é verdade. Mas trabalho.

Estudar, estudar, estudar

Sempre gostei de estudar, mas como ando falando para os meus amigos: nunca estudei tanto na vida como no doutorado. Cada pessoa encara esse primeiro ano de uma forma diferente, dependendo também da disciplina, do orientador, do programa de pós-graduação, etc.

Música de câmara no Palácio Ducal, sede da Galleria Nazionale delle Marche. Foto: Bruna Paroni.

Um mundo conhecido, mas, de certa forma, novo para mim, foi o mundo dos métodos quantitativos. Durante o mestrado na Itália, eu fiz uma matéria de estatística e na dissertação, trabalhei com os chamados métodos mistos (qualitativo e quantitativo).

Mas agora a coisa ficou mais séria. E principalmente: mais precisa. Estou aprendendo bastante, e inclusive gostando de aprender sobre análise de dados. Para minha pesquisa, é essencial!

Balanço dos primeiros meses após a mudança na Itália

A minha ideia não é passar os três anos de doutorado aqui. Por enquanto, posso dizer que estou gostando bastante de ter mudado de cidade e, principalmente, de ter uma rotina nova de estudo e trabalho. Gosto de ir para a biblioteca estudar, ou de ficar no Departamento com meu orientador e sua assistente. Consigo focar nas coisas importantes.

Estou aprendendo a gostar de Urbino também, e a ver o lado positivo, como a curta distância da praia e, relativamente, de Bolonha, uma cidade rica de atrações culturais, história e inovações sociais.

Vamos ver o que essa cidade vai reservar para mim nos próximos meses!