Explicar para os italianos porque moro aqui, essa é uma certeza da minha vida desde que tomei a decisão de me mudar para cá. “Ah, e faz quanto tempo que você mora na Itália?”. Quem nunca passou a ouvir essa pergunta depois que escolheu o país da bota para chamar de seu? Essa é uma das coisas que explico o tempo todo.

Coisas que explico o tempo todo na Itália
Índice Ti piace l'Italia? Explicar por que eu falo italiano Sempre querem saber se você gosta da comida E essa vacina aí? Perguntas desagradáveis? Temos também! Explicar para os italianos onde prefiro morar

Brincadeiras à parte, quando você sai do seu habitat natural, parece que nada passa despercebido para o outro. Talvez porque você é desconhecido, diferente. Se veste de outra forma, faz outros gestos, tem um sotaque diferente, talvez o cabelo e a cor da pele também sejam outros.

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Muitas vezes é curiosidade legítima. Outras, é mais intromissão do que interesse. Acontece. O fato é que desde que moro aqui na Itália, passei a ouvir de forma sistemática quase sempre as mesmas perguntas. E confesso que nem sempre tenho vontade de me explicar!

Ti piace l’Italia?

Explicar se gosto de morar na ItáliaEssa é a campeã das perguntas! Acontece quase toda vez em que interajo com alguém que não me conhecia. “Claro que eu gosto, senão não moraria aqui. Que pergunta, hein?”, é o que eu gostaria de responder. Mas respondo só um “Sim, claro!”.

Faz muito tempo que você não volta para casa?

Essa é a minha preferida. Não pela pergunta em si, mas porque acredito que fale muito mais sobre a cultura italiana do que a gente imagina.

A ideia dos italianos de “voltar para casa” é muito atrelada a sua terra de origem. Amigos que moram há anos longe da própria cidade natal ainda falam “vou voltar para casa no Natal”.

Para mim, pessoalmente, é um pouco estranho. Talvez porque “casa” para mim é onde vivo; logo, voltar para casa significa literalmente voltar para o lugar onde resido. Para um italiano, nem sempre. Além disso, é interessante pensar que por mais que você more há anos aqui, eles ainda vão se referir ao Brasil como “casa”. O que não está necessariamente errado, né?

A clássica “Você se mudou por amor?”

Faz algum tempo que não ouço essa, mas no começo era muito comum que me perguntassem se o motivo da minha mudança para a Itália tivesse sido motivada por um provável namorado italiano.

Não necessariamente me incomodava, mas confesso que a ideia de associar a sua vida em outro país a outra pessoa me parecia um pouco redutivo. Afinal, as pessoas se mudam por vários motivos, mas sendo uma mulher jovem, para muitos, aquele parecia ser o único motivo plausível.

“Me mudei para estudar…”

Na verdade, não foi bem esse o motivo que me levou a mudar para a Itália. Após anos tentando explicar rapidamente o motivo da minha mudança, comecei a responder que me mudei para cá para estudar. É verdade? Sim, mas em partes.

Eu realmente me mudei para cá porque queria cursar o mestrado aqui, mas já tinha a intenção de ficar.

Explicar por que eu falo italiano

Eu sei que quando as pessoas me perguntar o porquê de eu falar bem italiano, é um mix de elogio e curiosidade legítima. É a mesma sensação quando conheço italianos que falam (bem) português. Dá uma sensação de encantamento: “Essa pessoa entendeu como a minha língua nativa é bonita e importante também!”.

Não é uma coisa ruim. Estou plenamente consciente disso. Mas parar de conversar para responder isso me deixa meio constrangida. Preciso explicar, mais uma vez, a minha trajetória de estudos (e de vida também), quando eu só queria conversar sobre qualquer outra coisa.

“Você já falava italiano antes de vir?”

Tem essa variante também. Ou ainda “Ah, mas você é bilíngue, então?” e “Seus pais são italianos?”. Fico morrendo de vergonha, e mais uma vez, me vejo tendo que explicar que fiz Letras, passei parte da minha vida universitária me dedicando ao estudo do italiano e gosto realmente de aprender línguas novas.

Mas isso, no fundo, demonstra uma empolgação que os italianos sentem quando um estrangeiro aprende a língua deles. Por um lado, tem toda aquela retórica de “estudar a língua de Dante”, uma língua “rica de história e de obras literárias” (não é a única, porém).

Por outro, acho legal a felicidade que sentem ao querer explicar a cultura deles para uma pessoa supostamente interessada, que se esforçou para entrar em profundidade com a cultura, com a vivência de outro país, etc.

“Nossa, você conhece até a palavra X”

Essa é muito engraçada, porque na maioria das vezes são palavras muito parecidas em português, tipo “pragmático” (aconteceu de verdade). A minha vontade foi de falar “Não é nada de mais, inclusive é bem parecida com o português”, mas deixei a pessoa achando que eu era uma “gênia”.

Sempre querem saber se você gosta da comida

A comida ia aparecer, mais cedo ou mais tarde. Afinal, estamos na Itália e o assunto é sério!

Estereótipos de lado, eu juro, é bastante frequente ouvir essa pergunta. Mas acho que todo nativo fica feliz quando o estrangeiro aprecia a comida do país, né?

Comparações culinárias

Obviamente, toda e qualquer pizza fora da Itália não é comestível. Então, introduzir esse tópico pode ser complicado (para eles). Mas eu gosto sempre de explicar que, pelo menos em São Paulo, pode ser interessante para um italiano ver o que a imigração gerou de riqueza: a culinária ítalo-brasileira.

Pizza sendo feita no Brasil
Sempre explico aos italianos que a pizza no Brasil é diferente e que vale a pena conhecer.

Inclusive, há algumas pesquisas muito interessantes sobre o tema, como a tese de doutorado da jornalista e pesquisadora Silvana Azevedo sobre a assim chamada “cozinha de herança”. Não por acaso, muitos imigrantes no mundo todo acabam trabalhando justamente com comida.

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Para quem tiver curiosidade, recomendo o filme A grande noite (1996), que conta um pouco dessa experiência.

E essa vacina aí?

O começo do verão na Itália sempre chega com uma pergunta interessante “O que é essa marquinha?”. E não, não é a do bronzeado! Sabem a marquinha da vacina que quase todo mundo tem no braço no Brasil? Pois bem, ela é praticamente inexistente nas pessoas que nasceram depois da década de 1970 na Itália.

Isso porque a vacina deixou de ser obrigatória por isso, e as gerações mais novas passaram a associar a cicatriz da vacina com os pais, ou até avós e bisavós. Por isso que é bem estranho, para um italiano, ver o sinal no braço de uma pessoa mais nova!

Perguntas desagradáveis? Temos também!

Infelizmente também rola de ouvir perguntas desagradáveis sobre o Brasil: puro suco de preconceito, né? Já ouvi coisas que nem valem a pena de reproduzir sobre as mulheres brasileiras e sexualidade, sobre carnaval e saber sambar, e assim por diante.

Perguntam também com desdém sobre ter animais na rua (igual naquele episódio dos Simpsons, lembra?), sobre as distâncias (por mais que saibam que o país é gigante, já ouvi certas perguntas…).

“Mas o Brasil não é perigoso demais?”

Muitos italianos têm uma visão limitada do Brasil como um lugar só de violência. Há violência, sim, sabemos bem. Mas também sabemos que o Brasil é vasto, diverso e a vida não é um episódio contínuo de jornal sensacionalista!

Ouvir essa dói…

“Mas você é mesmo brasileira? Não parece!”. Essa é carregada de estereótipos raciais e culturais. Dependendo do seu fenótipo, você pode acabar tendo que explicar o quanto o Brasil é diverso — e que “parecer brasileiro” não existe de forma única.

Explicar para os italianos onde prefiro morar

A resposta aqui é sempre ponderada: depende! Poxa, tem coisas que só fazem sentido no Brasil, outras que prefiro na/da Itália.

“Você pensa em voltar para o seu país algum dia?”

Essa eu também costumava ouvir no começo da minha mudança para cá. Amigos mais próximos, que me conhecem melhor, também me perguntam isso, acredito que com curiosidade genuína. Afinal, por mais que a Itália tenha se tornado o meu lar, até eu me pego pensando nisso às vezes.

Sinceramente? Continuo sem resposta! Até a próxima coluna!

*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Euro Dicas.