Quando me mudei para Portugal, imaginei que circular pela Europa, uma vez com a documentação em ordem, seria simples e não haveria uma fronteira invisível. Afinal, estou no Espaço Schengen, onde a liberdade de circulação entre os países-membros é uma das coisas mais celebradas da União Europeia.

A fronteira invisível na Europa
Índice Quando a teoria não combina com a prática Entre protocolos e esperas, o tempo que a gente não vê Quando percebemos que nem toda fronteira é geográfica. Todo mundo tem uma história (e uma versão dos fatos) Uma sugestão? Conheça Portugal.

Mas a prática mostra que, mesmo dentro da regularidade legal, ainda há algumas nuances (e paradas inesperadas) ao longo do caminho.

Quando a teoria não combina com a prática

Falo da perspectiva de quem está aqui morando em Portugal por escolha. De alguém que reconhece os próprios privilégios.

Mas não posso negar que, mesmo assim, o caminho raramente é totalmente livre, apesar de ser, de fato, mais facilitado. E não quero fazer um alarde, e sim compartilhar um pouco da minha experiência que saiu do padrão.

Lembro da minha primeira entrada em Portugal, ainda no aeroporto. Tive que mostrar absolutamente tudo: carta-convite da pessoa que me hospedaria, carta de aprovação no mestrado em Portugal, comprovante de recursos financeiros, seguro saúde. E ainda responder a uma série de perguntas capciosas, feitas com aquele tom que mais parece um teste de nervos.

A fronteira invisível aparece quando você menos espera

Com o tempo, você entende que isso não foi uma exceção.

Em uma viagem de ônibus junto de uma amiga, saindo da Itália rumo ao sul da França, o veículo foi parado por policiais da fronteira rodoviária. É uma prática normal, porém viramos alvo quando eles pegaram nossos passaportes e perguntaram qual era o nosso grau de parentesco.

Não hesitei: disse que éramos um casal, mesmo não sendo. Tem hora que a melhor estratégia é evitar abrir margem para interpretações ou questionamentos extras. A galera solteira gera mais desconfiança? Eu sinto que sim.

E aqui entra aquele “instinto de sobrevivência” que quem mora fora desenvolve, cedo ou tarde, ao se deparar com a fronteira invisível. Brasileiro então, nasce safo!

Na volta de uma viagem a Glasgow, mais um episódio: enquanto outros passageiros mostravam apenas suas autorizações de residência, eu fui separado e convidado a responder a um mini questionário que mais parecia um interrogatório informal.

Tudo certo com os documentos, mas a sensação era de que cada resposta estava sendo medida por um critério invisível. 

Entre protocolos e esperas, o tempo que a gente não vê

Desde outubro de 2023, o antigo SEF foi substituído pela AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo). A expectativa é que esse novo órgão traga mais eficiência e humanidade nos processos migratórios, mas, por enquanto, doce ilusão!

Por enquanto, o que se vê é um acúmulo considerável de processos e prazos alongados. Muitos imigrantes vivem hoje com protocolos de manifestação de interesse (já extintas) ou documentos provisórios ainda em andamento.

Mesmo com os documentos corretos, imigrantes enfrentam desafios
Mesmo com os documentos corretos e legais, imigrantes enfrentam barreiras invisíveis, e algumas nem tanto. Foto: Sérgio Souto.

Então, se esse for o seu caso, a orientação é evitar viagens internacionais até que esteja com um documento oficial em mãos. O protocolo emitido pela AIMA, embora tenha validade dentro de Portugal, pode não ser reconhecido como documento válido em outros países europeus.

Quando percebemos que nem toda fronteira é geográfica.

A Europa muda. E muda rápido. Recentemente, por exemplo, vi a notícia de que a Holanda restringiu a entrada em suas fronteiras terrestres — inclusive para cidadãos europeus — em uma decisão influenciada por uma nova direção política.

Na teoria, tudo deveria estar aberto, certo? Mas não está. E isso me fez repensar um monte de coisas. Porque a fronteira, muitas vezes, não é só o controle no aeroporto. Há também a fronteira invisível, e muito mais:

É a dúvida antes de comprar a passagem. É a insegurança de mostrar um papel que talvez não seja aceito. É ter que pensar e pesquisar muito se o país destino é seguro para pessoas LGBTQIAPN+. É o não dito que paira entre você e o agente de imigração.

Aliás, há pouco tempo, Portugal emitiu um comunicado de que vai “convidar a sair” do país cerca de 18.000 imigrantes em situação ilegal. E, veja só, tudo indica que essa seja uma manobra política justo no período da eleição.

Mas não é motivo pra pânico. É mais um lembrete para redobrar a atenção. E entender que a Europa é feita de possibilidades, sim, mas também de contextos que mudam conforme o vento político.

Todo mundo tem uma história (e uma versão dos fatos)

Se você é imigrante, prepare-se porque cada pessoa vai te contar uma versão diferente do que pode ou não ser feito com determinado documento frente à fronteira invisível. E isso confunde e gera ansiedade.

“Viajei com protocolo e foi tranquilo”, dizem uns. “Nem pediram nada”, contam outros. A verdade é que, mesmo com vivências parecidas, os desfechos podem variar absurdamente.

Por isso, filtre bem o que escuta. Evite se basear apenas em relatos informais. O ideal é buscar sempre a fonte oficial, e, mais ainda, assumir uma postura preventiva, não reativa.

Ter documentos em mãos, respostas prontas, comprovações de alojamento e passagem de volta, tudo isso ajuda a evitar estresse desnecessário. 

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Uma sugestão? Conheça Portugal.

Enquanto sua documentação não está 100% regularizada, que tal explorar melhor Portugal? O país é riquíssimo em paisagens, cultura, gastronomia e experiências. É uma oportunidade de se aprofundar no lugar onde você já está.

Viajar, afinal, não é só atravessar fronteiras. Às vezes, é atravessar ideias, zonas de conforto, formas de se ver no mundo. E isso é possível em qualquer canto onde você se permita estar por inteiro.

Ser imigrante é viver entre travessias. Não só geográficas, mas emocionais, burocráticas, culturais. E embora nem sempre o caminho seja linear ou simples, ele pode ser mais leve quando você está bem informado e consciente do seu lugar no processo.

*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Euro Dicas.