Se você nunca emigrou ou está no processo de morar fora, já deve ter pensado “Mudar de país dentro da Europa deve ser fácil…”. Só que quando você desembarca com objetivos além de turistar, esse processo não é assim tão simples. Principalmente se você não tiver cidadania europeia.
Até 2021, eu nunca tinha saído do Brasil. Minha primeira vez foi já para morar na França. Depois, passei um período na Alemanha, voltei para a França e, hoje, estou morando na Inglaterra. Tudo por conta da profissão do meu marido, que é pesquisador.
Mudar tantas vezes foi fácil? Não. Mas, com o tempo, aprendi a fazer um checklist mental do que deve ser feito e a ajustar expectativas para tornar o processo de mudança mais suave.
A primeira vez: quando tudo é novidade
Em junho de 2021, meu marido recebeu a resposta positiva para um doutorado entre a França e a Alemanha. Com o visto em mãos, embarcamos em outubro para morar em Bordeaux, carregando malas, sonhos e uma alta dose de expectativas.
No início, confesso que estava encarando tudo como uma aventura. A empolgação de conhecer um novo país, provar comidas diferentes e descobrir uma cultura nova fazia parecer que aquilo ainda era uma espécie de viagem prolongada.

Lembro da primeira ida ao mercado. Os produtos eram muito mais baratos em comparação ao Brasil e fizemos uma compra enorme, como estávamos acostumados a fazer. Com o tempo, aprendemos que o normal é fazer pequenas compras pra semana, porque quanto mais fresca a comida melhor.
Mas a ficha caiu mesmo em um dia comum. Eu voltava sozinha para casa quando o transporte público parou por problemas na linha. Fiquei esperando por vários minutos na parada até que ouvi um aviso no alto-falante, mas eu não entendi absolutamente nada, porque não sabia falar francês.
Só queria ir para casa. Aquela frustração simples, somada aos dias curtos do inverno, trouxe um sentimento forte de não pertencimento. Foi a primeira vez que pensei “O que eu estou fazendo aqui?”
Até alguns meses antes da mudança eu nem sabia que iria morar na França, estava estudando inglês por ser o “idioma universal” e, agora, estava percebendo o quão importante é falar a língua do país que você escolher para morar, mesmo que não precise na universidade ou local de trabalho.
No meu caso, que trabalho de casa, a falta de contato com nativos no dia a dia atrasou minha aprendizagem.
A segunda mudança: quando surge a solidão de ser imigrante
Depois de quase dois anos em Bordeaux, nos mudamos para Karlsruhe, na Alemanha. Nós já estávamos mais adaptados, com muitos amigos e falar em francês estava mais fácil, por isso doeu ter que encaixotar tudo para recomeçar mais uma vez.
A mudança em si exigiu decisões práticas. No Brasil, a gente teria contatos para colocar tudo num caminhão e entregar no novo endereço. Mas aqui, a solução foi alugar um carro, carregar os nossos pertences e dirigir por 11 horas.
Eu, que não dirigia com frequência, por não ter um automóvel, estava apavorada de ter que viajar entre países e ainda encarar a Autobahn, conhecida mundialmente por não ter um limite de velocidade. Mas foi uma daquelas experiências das quais tenho orgulho de ter vivido (e sobrevivido!).
Alugar um apartamento mobiliado foi fácil. Porém, o maior desafio na Alemanha foi emocional. Eu me esforcei para aprender alemão e a sair mais de casa para não cometer os mesmos erros iniciais na França.
Sendo que a cidade era pequena e eu ficaria pouco tempo e, por isso, fazer amizades parecia mais difícil do que na primeira vez.

Entrei em grupos de brasileiros no Facebook e WhatsApp, puxei conversa, chamei pra um café e conheci algumas pessoas. Mas minha sorte foi uma vizinha brasileira, que virou amiga de verdade e me ajudou a atravessar esse período (com algumas fatias de bolo de cenoura e calda de chocolate em troca).
Foi ali que aprendi mais uma lição nessa vida de imigrante: a experiência de se mudar mais de uma vez não elimina a solidão. Ter amigos torna tudo mais fácil, ainda mais quando eles estão perto de você.
Voltar não é o mesmo que recomeçar
Voltei para Bordeaux na primavera de 2024 com a missão de alugar um apartamento e organizar as coisas para a chegada do meu marido, que foi fazer um estágio em Düsseldorf, na Alemanha. Dessa vez, tudo fluiu melhor. Eu conhecia a cidade, o idioma e tinha uma rede de apoio.
Aluguei um apartamento maior do que o que tínhamos antes e senti que as coisas estavam começando a melhorar.
Agora eu não tinha mais um studio e sim um T2 (apartamento com um quarto), não dava pra evitar aquela sensação de “venci na vida”.
Mas a tranquilidade era temporária
Sabíamos que, em breve, precisaríamos decidir o próximo destino. Continuar na França era uma opção, mas, estrategicamente, mudar de país fazia mais sentido para o currículo acadêmico do meu marido.
Enquanto pensávamos e pesquisávamos nossas opções, passamos pela burocracia de solicitar renovação de visto, que, como a gente brinca, é uma das humilhações que o imigrante tem que vivenciar para se manter regular no país.
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Quando a mudança tinha tudo para ser simples, e não foi
Morar na Inglaterra parecia uma escolha lógica: já sabíamos falar inglês, teríamos oportunidade de melhorar nosso currículo e estaríamos mais próximos de uma parte da família. Após tantas mudanças, parecia que desta vez já sabíamos tudo o que fazer.
Mas o Brexit nos afetou em cheio. O alto custo do visto, a exigência do seguro saúde do Serviço Nacional de Saúde (NHS), a burocracia para enviar nossas coisas, já que desta vez dirigir seria inviável, e a necessidade de resolver tudo à distância transformaram o processo em algo bem mais pesado do que esperávamos.
Decidimos que por conta disso tudo, meu marido viria antes. E eu fiquei para lidar com a parte burocrática, encerrar contratos e enviar a mudança por um sistema de entregas para expatriados, o SendMyBag. Tudo isso com a ansiedade de ter que lidar com mais um visto e me despedir dos meus amigos que se tornaram família.
Quando finalmente cheguei, em dezembro, percebi que o checklist mental estava ativo de novo: idioma, vínculos, rotina, e compartilhei um pouco sobre isso em meu canal do YouTube:
A diferença é que agora eu já sabia que o estranhamento inicial não significava fracasso. Era só mais uma adaptação.
Fica mais fácil?
Mesmo já sabendo o que fazer, por quais etapas passar e quais erros não repetir, mudar de país e recomeçar continua exigindo resiliência. Depois de tantas mudanças, não acredito que fique fácil, nem mesmo com o tempo. O que acontece é outra coisa: a gente muda.
Muitas pessoas dizem que morar fora é transformador e eu concordo plenamente. Porque tenho consciência de que a pessoa que sou hoje é completamente diferente daquela que chegou à Europa em 2021.
Cada país deixou hábitos, aprendizados e versões de mim mesma espalhadas pelo caminho. E, mesmo sabendo que novas mudanças ainda virão, me sinto mais preparada para encará-las.
Mudar tantas vezes me trouxe mais lucidez sobre o que esperar, sobre o que realmente vale a pena carregar comigo (inclusive emocionalmente) e a ter o coração aberto para o novo.
Um dia, vou olhar para tudo isso sabendo que não foi fácil, mas que o que ficou foram memórias que levarei para sempre. Afinal, como diz a frase, só quem se arrisca merece viver o extraordinário.