Há certas coisas que parecem vir carregadas de um brilho especial. A cidadania europeia, por exemplo, virou quase um objeto de desejo para muitos brasileiros. É como se fosse um passe mágico que muita gente imagina ser capaz de transformar a vida da água para o vinho.
E, de fato, ninguém pode negar: facilita a burocracia, abre caminhos, tira peso dos ombros. Mas, observando a forma como algumas pessoas falam sobre isso, chego a pensar que o passaporte vem acompanhado de uma espécie de filtro encantado, que distorce a percepção da realidade.
As regras ficaram mais rígidas e o improviso acabou. Quem quer morar legalmente em Portugal hoje precisa de planejamento, informação correta e decisões bem feitas desde o Brasil.
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Conheça o Ebook Morar em Portugal →Basta prestar um pouco de atenção para notar como esse assunto desperta tanto orgulho quanto deslizes de empatia. O que deveria ser só um documento de identidade acaba, muitas vezes, se transformando numa espécie de medida de valor humano. E é justamente aí que a história começa a ficar interessante.
O ouvido alheio que me condena
Tenho um hábito que considero péssimo, mas que já abracei como parte da minha natureza: presto atenção na conversa dos outros quando alguém fala mais alto do que deveria.
Não é fofoca, juro. É quase como se um radar interno se ativasse sozinho, captando frases soltas, entonações, gestos mais enfáticos, sabe como é. E, claro, em restaurantes isso acontece com uma certa frequência.
Dia desses estava almoçando num lugar movimentado aqui em Portugal, onde o burburinho das mesas se mistura ao tilintar dos talheres e ao vai e vem dos garçons. Até que uma mesa próxima começou a destoar do som ambiente.
Conterrâneos na mesa ao lado
Eram brasileiros. Falavam num tom um pouco acima do normal, com muitos gestos, como se cada argumento precisasse ser sublinhado com a mão no ar. Meu radar, inevitavelmente, ligou. Fiquei curioso para saber sobre o que falavam.
O assunto? A situação atual da imigração em Portugal. “Está cada vez mais apertado”, disse um deles, relatando notícias de gente sendo expulsa do país e as intermináveis dores de cabeça com a AIMA.
Outro completou que já estava de malas prontas para a Espanha, “porque lá as coisas estão melhores”. Os demais concordavam entre gestos e frases curtas, como quem compartilha de uma mesma angústia.
Entre o choque a indignação
Até que notei um detalhe curioso: um deles, desde o início da conversa, permanecia calado. Observava, bebia um gole de refrigerante, olhava em volta e não falava nada, nem um pio. Não concordava nem discordava.
E foi justamente esse silêncio prolongado que, de repente, fez a mesa inteira girar em sua direção. Todos pareciam esperar sua opinião. Foi quando ele, com um sorriso meio irônico, resolveu soltar a frase que congelou o ambiente e que eu ouvi perfeitamente da minha mesa:
“Eu não quero nem saber sobre imigrantes. Cheguei aqui com minha cidadania. Quero mais é que fique apertado mesmo pra todo mundo. Eles e vocês que se virem.”
O impacto foi imediato, naquela mesa e na minha. O olhar dos outros oscilava entre surpresa e indignação, como se não soubessem se levavam a frase na ironia ou no mais cruel dos “sincericídios”.
Eu, do meu canto, engoli em seco e parei de prestar atenção. Porque há frases que não apenas interrompem uma conversa: elas revelam algo maior, algo que mexe lá no fundo e deixam aquele incômodo que insiste em nos acompanhar mesmo depois que a mesa já foi desfeita. Não é à toa que virou tema desta coluna.
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ENTRAR EM CONTATO →Passaporte não é superpoder
Há quem carregue o passaporte europeu como se fosse uma espécie de manto da invisibilidade ou escudo de proteção. Um documento que, por si só, abriria portas, corações e até as melhores vagas de emprego. É claro que não é bem assim, mas muita gente insiste em acreditar.
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Abrir Conta Multimoeda →Ter cidadania portuguesa, ou qualquer outra europeia, é sim um privilégio, sem sombra de dúvida. E falo de um lugar bastante específico: no meu caso, a árvore genealógica inteira é enraizada em Portugal, de avós a pais, todos transmontanos que me garantiram esse status que facilita a entrada em alguns lugares. Sim, evita parte da via-crucis burocrática de ser um imigrante. Sim, poupa algumas filas intermináveis e dores de cabeça.
Mas convém não romantizar: ter nacionalidade de algum país europeu não é um superpoder. Quando chega a hora de disputar um emprego, buscar uma vaga melhor ou simplesmente ser percebido pela sociedade, o cartão do cidadão não pisca, não brilha, não faz mágica.
Para o português da padaria, para o recrutador da empresa, para a vizinha que me cumprimenta no elevador, continuo sendo um brasileiro com sotaque, com histórias, com a marca impossível de apagar de ter nascido e vivido muitos anos na América Latina.
No fundo, esse documento é como um bom guarda-chuva: útil em dias de chuva, mas incapaz de mudar o clima. Percebe?
Minha mãe já sabia
Lembro de uma tarde em que minha mãe, portuguesa de Trás-os-Montes, no norte de Portugal, me olhou nos olhos e disse com a serenidade e sabedoria de quem conhece o peso das raízes e de quem imigrou para o Brasil:
“Mesmo com a cidadania, você nunca será visto como português em Portugal.”
Naquele momento, confesso que não compreendi. Achava que o passaporte português, com sua capa vermelha e brasão dourado, seria a chave para abrir todas as portas.
Acreditava que, com ele, eu passaria despercebido, misturado entre os locais. Achava que, como mágica, tudo seria perfeito e todos seriam cordiais comigo.

O tempo, porém, tratou de mostrar que ela tinha razão. Basta eu abrir a boca aqui para que o sotaque brasileiro denuncie minha história, quem eu sou.
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INSCREVER GRÁTIS→Basta contar um pouco da minha trajetória para que fique claro: sou filho da América Latina, cresci entre a praia e o calor de 40 graus do Rio de Janeiro. E ninguém quer saber se tenho cidadania ou não, se sou filho de portugueses ou não.
No Instagram do Euro Dicas falamos um pouco mais sobre a sensação de pertencimento e como o passaporte europeu não muda quem realmente somos. Confira o post!
O rei na barriga e o chá de revelação
Há algo que sempre me incomoda quando ouço certas conversas entre brasileiros que carregam no bolso uma árvore genealógica como se fosse um troféu. É o ar de superioridade, quase como se estivessem acima dos demais apenas porque, em algum ponto distante da história, um trisavô europeu resolveu cruzar o oceano.
O discurso é sempre parecido, quase ensaiado: “Sou italiano de sangue”, “Sou alemão nato, minha avó veio da Baviera”. Falam com tanta convicção que às vezes parece que, de repente, vão trocar o português pelo dialeto da região e pedir um prato típico como quem exige respeito às origens. É o mais puro suco do “complexo de vira-lata”.
Nessas horas, confesso, me vem uma vontade quase cômica: organizar um grande chá de revelação. Nada de balões azuis ou cor-de-rosa, apenas um anúncio simples, projetado em letras garrafais: “Surpresa! Você é brasileiro e sempre será”. Se tem dúvida, sugiro que veja o filme “Bacurau”.
Não há mal nenhum em ter orgulho das raízes, mas acreditar que esse detalhe muda quem você é de verdade é se enganar. Se essa ideia ainda soa amarga, talvez seja porque, no fundo, há quem não aceite a beleza de ser brasileiro. E se isso dói, sinto dizer: talvez não seja nesta vida que você vá encontrar a “correção” para esse suposto problema.
O peso da empatia
Sempre incentivo e vou incentivar quem decide buscar uma cidadania europeia, seja por descendência, casamento ou tempo de residência. É um passo relevante, que abre portas, facilita burocracias e, sim, deixa a vida um pouco mais leve. Mas é preciso lembrar de uma coisa: cidadania não dá licença para arrogância.
E dói, viu? Dói ver brasileiros que conquistaram o tão sonhado passaporte europeu e, de repente, passam a apoiar políticas que tornam a vida de outros imigrantes mais difícil. Como se ter casa própria, carro, contrato de trabalho e o cartão do cidadão na mão fosse um atestado de superioridade moral, um passe livre para virar as costas para quem ainda está na luta diária.
“A culpa é do imigrante”
É impressionante, e ao mesmo tempo doloroso, perceber que até nas redes sociais alguns brasileiros caem na armadilha de criticar outros imigrantes, apontando a imigração como culpada por todos os problemas de Portugal.
Parece que esquecem, por um instante conveniente, que eles mesmos já cruzaram fronteiras, enfrentaram burocracias e se viram longe de casa. É tão fácil criticar quem ainda está tentando se ajeitar, especialmente quando você já se estabeleceu e conquistou seu espaço no país.
No fim, a verdade é simples: todos nós somos imigrantes. Cada um com sua história, suas razões, suas escolhas, tentando fazer a vida dar certo longe de casa.
Nacionalidade europeia não pode criar castas, não pode transformar ninguém em super-herói, não pode colocar ninguém acima do bem e do mal.
Para pensar
Se você discorda de tudo o que escrevi até aqui, respeito. Mas faço um convite sincero à reflexão: não estamos numa competição para ver quem é mais europeu, mais legítimo ou mais “certo”. Estamos todos tentando viver, construir a nossa vida longe de casa. Cada um carrega suas batalhas invisíveis.
Ter cidadania não transforma ninguém em herói, e quem esquece disso, está apenas mostrando o tamanho da própria pequenez. O que precisamos, acima de tudo, é de empatia, aquela que não se compra, não se herda e não se ostenta no bolso.
*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Euro Dicas.