Nasci e cresci em São Paulo, em meio aos prédios e ao caos urbano, e meus meninos nasceram em uma pequena cidade nos Alpes bávaros e estão crescendo cercados pelas montanhas e a natureza. São realidades tão diferentes que acaba sendo muito desafiador criar filhos entre duas pátrias, mas ao mesmo tempo mágico.
Com isso, eu aprendo todos os dias que pertencer não é fixo, mas sim que é um conceito em pleno movimento. Eles terão a liberdade que eu nunca tive, mas não irão viver com frequência o barulho e o calor climático e humano do Brasil, embora eles sejam crianças bilíngues que crescem equilibrando ambas as culturas como se fosse natural.
Criar filhos na Alemanha
Aqui no interior da Baviera o tempo parece correr em outro ritmo e eles vivem uma infância ao ar livre, que valoriza a exploração e a autonomia. Crianças muito pequenas já andam sozinhas pelo nosso vilarejo, estão todas constantemente juntas no parquinho local ou visitando umas às outras.
Todos frequentam a mesma escolinha (onde meu sogro e meu marido também já estiveram antes) e todo mundo se conhece. É uma realidade bastante particular dentro da Alemanha.
Certamente, em cidades como Berlim ou Munique, muitas vezes as pessoas passam anos vivendo em um apartamento e não conhecem os vizinhos e definitivamente não há o mesmo nível de abertura e segurança que em um vilarejo.
Alguns aspectos, no entanto, são valorizados em todo o país, como a autonomia desde cedo, a importância de estar ao ar livre e o contato com a natureza e a rigidez das regras.
A criança pré-escolar é incentivada a viver a infância e os kindergartens (escolinhas infantis) costumam ser focados realmente no lúdico e não na ideia de já iniciar o aprendizado de habilidades escolares, como alfabetização.
A escola já é uma realidade bem diferente, mas ainda não cheguei nessa fase com os meus filhos porque eles têm 5 e 4 anos. A partir do momento que iniciam a primeira série, já vivenciam um nível de cobrança e pressão muito maior ao estudar na Alemanha.
Minha infância no Brasil
Eu morei sempre em bairros movimentados de São Paulo e nunca pude ir andando sozinha para lugar nenhum quando era criança, apenas quando eu comecei o Ensino Médio.
Durante toda a minha infância, ia para a escola de carro, passava a tarde entre atividades extracurriculares ou brincando dentro do apartamento.
As praças não eram em sua maioria um espaço de convivência para crianças e passeios no parque ou bate e voltas para o interior ou para a praia eram algo que só aconteciam em alguns finais de semana.
O contato diário com a natureza era restrito, apesar de paradoxalmente estar vivendo em um país com uma diversidade de paisagens e de vida selvagem abundante e um clima excelente, que favorece muito atividades ao ar livre.
Desafios culturais e climáticos ao criar filhos entre duas pátrias
Por mais que eu more desde 2018 em um vilarejo muito tranquilo, é impossível deixar de lado completamente minhas preocupações com segurança, o que é incompreensível para os alemães.
Fui com o tempo me sentindo mais segura e mudando, mas nunca vou conseguir ser como as pessoas que nasceram e foram criadas aqui.
É difícil ainda desapegar do lado mãe protetora e deixá-los livres pelo vilarejo porque para mim são muito pequenos para tomar boas decisões sozinhos.
Eu permito que brinquem no nosso jardim com o portão para a rua fechado sem supervisão, mas não os deixo no parquinho local sem um adulto responsável, como muitos pais fazem. E fico um pouco receosa quando vão à casa de amiguinhos que eu sei que a família autoriza que caminhem pelas ruas sem a companhia de adultos.

Conheço bem os benefícios que atividades ao ar livre trazem para a saúde e para o desenvolvimento e como isso é extremamente importante para os pequenos.
Eu mesma adoraria ter tido uma infância explorando a natureza, mas não posso mentir dizendo que é prazeroso estar lá fora quando as temperaturas estão congelantes ou quando cai uma chuva fina que se prolonga por dias e dias.
Entre liberdade e saudade
Eu vou todos os dias para o meio do gelo brincar com eles, mas nesses momentos me dá ainda mais saudade do Brasil. Fico pensando que adoraria estar ao ar livre, só que em uma praia com água quentinha e um sol delicioso.
Outro ponto desafiador para mim é o sistema de saúde da Alemanha. Estamos acostumados no Brasil que a maior parte dos médicos é atenciosa, investiga as queixas, tenta tranquilizar os pais e na maior parte das vezes medica.
É claro que é importante termos bom senso e procurarmos profissionais de confiança e atualizados porque muita medicação pode ser perigosa. Porém, aqui não há muita possibilidade de escolha de médicos alemães, já que geralmente todos estão cheios de pacientes e a maioria deles explica pouco e é muito relutante em medicar.
Isso me gerava uma insegurança enorme e muito desespero quando ainda tinha pouca experiência com as doenças infantis. Hoje eu já sei que não vão morrer, mas continuo achando difícil aceitar que a criança tenha que passar tanto tempo doente, sem dormir e não possa ser medicada.
Pontos que me adaptei às práticas alemãs
Eu gosto muito do quanto os pais são envolvidos na vida dos filhos por aqui, ao menos na primeira infância. Obviamente, muitos pais também trabalham na Alemanha, no entanto, as empresas costumam ser mais flexíveis.
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INSCREVER GRÁTIS→Os pais e as mães conseguem coordenar os horários entre os dois para fazer atividades com os filhos, receber amigos das crianças em casa e sinto que estão mais presentes, ao mesmo tempo que incentivam muito mais a autonomia infantil.
E as crianças alemãs acompanham os adultos na maior parte dos locais, vão ao supermercado, farmácia, consulta médica dos pais, cafés, lojas e depois de um tempo aprendem a ser mais pacientes com “atividades chatas”, mas necessárias para a rotina.
Uma outra coisa à qual me rendi à sabedoria alemã (e dos países do Norte da Europa) é deixar o bebê dormindo no carrinho do lado de fora. Com meu primeiro filho não me senti confiante e ele também odiava o carrinho, mas com o segundo essa prática ajudou muito.
Minha mãe quando viu a primeira vez que íamos deixar o bebê dormindo no jardim de casa (obviamente, muito bem agasalhado), quase chamou a polícia, mas assim ele descansava muito melhor nas sonecas diurnas.
Relação dos meninos com o Brasil
Os meus meninos escutam português e alemão (ou mais precisamente o dialeto bávaro) desde que nasceram. Ambos falam fluentemente os dois idiomas e eu me comunico com eles sempre em português.
Além de férias anuais no Brasil com a minha família e visitas dos meus pais aqui na Alemanha, também procuro que tenham contato com outras crianças brasileiras, filhas de amigas minhas que vivem próximas de nós.
Eles amam ir ao Brasil, é como se estivessem em casa e dizem muitas vezes que querem morar lá. Ambos gostam muito da comida da Alemanha, mas quando estão em terras tropicais falam que os pratos brasileiros são muito melhores e que o idioma português é bem mais bonito.
Muito do amor deles pelo nosso país tem a ver com os meus pais, claro. Eles tratam as crianças com o maior carinho, planejam passeios muito legais, brincam e aí é a maior choradeira de todos na hora de ir embora.
Vivências brasileiras no coração alemão
Nas duas últimas férias no Brasil eu os matriculei em aulas de natação, então também tiveram mais contato com crianças locais e aprenderam brincadeiras brasileiras novas.
Ouvir músicas infantis em português eles sempre amaram, escutamos várias vezes ao dia e estão atualizados com os hits mais ouvidos do outro lado do Atlântico.
Como é criar meus filhos entre duas pátrias
Falei um tanto das diferenças culturais entre Brasil e Alemanha no que se refere à criação de filhos (claro, abordando nosso recorte das realidades brasileira e alemã), mas agora gostaria de refletir sobre o que eu percebo de cada cultura neles.
O pai deles é alemão e cresceu no mesmo vilarejo onde vivemos hoje e até certo ponto teve uma infância semelhante à deles. Porém os pais do meu marido são ambos alemães e o máximo de cultura estrangeira que ele vivenciava era uma viagem anual à Itália.
O que tiver neles da nossa cultura latina vai depender, quase exclusivamente, de mim, do contato que faço questão que eles mantenham com a minha família e com o meu país de origem.
Essa parte brasileira da identidade deles não se constrói sozinha.
Acho que ajuda infinitamente o fato de termos contato com outros brasileiros e sul americanos que vivem na mesma região. Na verdade, penso que é importante mostrar a eles outros estrangeiros que vivem essa divisão entre a própria cultura e a cultura alemã.
Por sorte, atualmente, também há na escolinha algumas crianças que falam um segundo idioma, então isso ajuda a não se sentirem diferentes e excluídos, faz com que encarem com normalidade.
Eu procuro enfatizar sempre que eles são alemães e brasileiros e valorizar as duas culturas.
Nós viajamos muito, tanto no continente europeu quanto americano, por isso, eles percebem na prática a importância de falar outras línguas e de conhecer e respeitar culturas diferentes.
Identidade em construção
Os meus dois meninos também têm personalidades bastante diferentes. O mais velho é tímido, reservado e adora regras, enquanto o mais novo brinca com todo mundo e se adapta mais fácil a mudanças.
Então é tentador rotular um como mais alemão e outro como mais brasileiro, mas ambos têm muitas características associadas a cada uma das culturas. A mistura é tanta que eles querem levar pão de queijo para a escolinha alemã e comem pimentão cru na praia brasileira, mas são felizes assim.
Como criar filhos entre duas pátrias intensificou a minha dualidade
Muitas vezes, me parece que é mais desafiador para adultos que imigram porque não foram criados entre dois países, mas sim tiveram toda uma infância e adolescência vivenciando uma cultura específica e a partir de um certo ponto precisam se abrir e se adaptar a um mundo novo.
Em alguns momentos, esses adultos imigrantes se sentem voltando a ser crianças, por estarem desorientados e dependentes em um país desconhecido.
E passado um tempo, enfrentam essa questão confusa de pertencer a dois lugares e no fim não sentir que pertencem totalmente a lugar nenhum.
Do pertencimento à multiplicidade
Eu sou brasileira e depois de alguns anos morando na Alemanha também me tornei cidadã, então tenho duas nacionalidades, mas sinto que habito esse espaço intermediário entre as duas.
E quando você tem filhos em outro país, como no meu caso, você se torna uma pessoa ainda mais “dividida”, pois de alguma forma minha relação com a Alemanha é eterna.
Eu tive que me esforçar muito mais para entender a cultura local, o jeito de pensar, o modo de funcionamento, já que meus meninos dependem de mim para guiá-los inicialmente nesse mundo.
Eu acredito que ao criar filhos entre duas pátrias, lhes oferecemos dois mundos e dois jeitos de pensar que podem ser muito opostos, mas eles já crescem assim com essa dualidade dentro deles e essa flexibilidade mental.
E embora possa ser confuso para os pequenos em alguns momentos, acaba sendo integrado à personalidade, pois eles não conhecem outra forma de estar no mundo.
Pensando no futuro ao criar filhos entre duas pátrias
Há muitos pontos positivos quando olhamos pelo lado prático da coisa, né? O fato de falar naturalmente dois idiomas pode proporcionar uma maior facilidade para aprender outras línguas, o que se traduz em vantagem acadêmica e profissional.
Crescer entre dois países permite ainda acesso a oportunidades de ensino e de trabalho tanto no Brasil quanto na União Europeia, algo que eles irão poder escolher mais tarde.
Há também estudos que afirmam que crianças bilíngues tendem a ter maior flexibilidade mental, criatividade e melhor capacidade na resolução de problemas, já que estão sempre transitando entre diferentes sistemas culturais.
Também acredito que pode ajudar a desenvolver maior empatia e tolerância e a entender diferentes visões de mundo.
Nos meus sonhos, seria lindo se eles combinassem o planejamento e a organização alemã com a afetividade e a criatividade brasileira.

Mas eu pessoalmente sinto que cada vez que absorvo mais da rigidez alemã, vou perdendo a flexibilidade brasileira, então honestamente algumas coisas me parecem bem difíceis de conciliar. Espero que eles sejam mais bem-sucedidos do que eu nisso.
Vale a pena criar filhos entre duas pátrias?
Sim, eu acredito que vale muito a pena.
Há inúmeros desafios em aprender a ser mãe longe do colo da própria mãe, em viver distante da família (isso se intensifica com a maternidade porque revivemos com frequência as nossas memórias de infância) e não contar com uma rede de apoio como teríamos no Brasil.
E também é difícil guiar uma criança em um lugar no qual você mesma muitas vezes precisa ser guiada, mas pode ser uma descoberta intensa juntos. São tantas as coisas que aprendemos com os filhos e viver essa dualidade de culturas juntos é mais uma delas.
Eu pessoalmente quero muito que meus meninos também se vejam como brasileiros e possam ao menos conhecer um pouco do que eu vivi e ter memórias afetivas profundas com o Brasil.
Espero que eles não se sintam divididos, mas sim que estão sendo formados por contrastes e que podem somar identidades diferentes, sem uma competir com a outra.
No fim, volto à ideia inicial de que pertencer é um constante movimento e sobre aprender a caminhar com segurança em vários destinos.
Na minha opinião, criar filhos entre duas pátrias é lhes mostrar que o mundo é grande, diverso, que não há um único jeito de viver, que eles podem ser amados e demonstrar amor em mais de um idioma e de diferentes formas.
*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Euro Dicas.