Se você é expatriado, certamente sofre de saudade das pessoas especiais que ficaram no Brasil. E se você sofre de saudades, talvez você tenha buscado subterfúgios para lidar com ela. Nesta coluna, te conto como Van Gogh e as saudades da minha irmã me conduziram para caminhos específicos ao longo de minha estadia na Europa.

Duas irmãs se abraçando.
Índice A gente lida com a saudade do jeito que dá Van Gogh e saudades da minha irmã Amsterdam e sonhos de adolescência Auvers sur Oise e os últimos dias do pintor Eu, Van Gogh e nossos irmãos

A gente lida com a saudade do jeito que dá

A primeira coisa que muita gente faz quando a saudade aperta e estamos longe daqueles de que gostamos é recorrer à tecnologia. Ligações por vídeo, áudios pelo WhatsApp e até troca de memes são ferramentas de muita ajuda nessas horas.

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Mas, acredito que elas funcionam até determinado ponto. Após um longo período morando na França, senti mais dificuldade de me contentar com a tela 2D e não me deixar perturbar com as eventuais falhas na internet.

Foi quando cheguei nesse ponto que percebi um movimento (um tanto inconsciente, diga-se de passagem) de tentar encontrar um pedacinho das pessoas que eu amo no ambiente em que eu estava, e nas coisas que me rodeavam.

Um pedacinho de cada um em Paris

Pouco a pouco, comecei a fazer visitas em perfumarias para sentir o perfume da minha mãe e desvios para passar em frente do monumento preferido de meu pai.

Também ficava atenta às roupas e sapatos diferentes para contar para a caçula da família, e sempre ouvia algumas das músicas francesas que eu já tinha escutado com meu companheiro. Já para lembrar de minha outra irmã, eu buscava o Van Gogh.

O pintor neerlandês é um dos preferidos dela, e sempre causou uma grande curiosidade em mim também. Ela me contava um tanto sobre ele enquanto morávamos juntas, e já passamos um bom tempo falando de suas obras.

Van Gogh e saudades da minha irmã

Tudo começou quando, enquanto eu visitava o Museu d’Orsay, eu resolvi ligar para minha irmã. A instituição reúne uma vasta obra de Van Gogh e seus contemporâneos impressionistas, e quando eu entrei na sala dedicada ao pintor eu só conseguia pensar em como ela ficaria feliz de estar lá.

Quem já visitou o Orsay sabe bem como a sala de Van Gogh é lotada – suas obras chamam a atenção de quase tantas pessoas quanto a Monalisa, no Louvre –, então eu sabia que fazer uma ligação por vídeo seria algo ousado.

Quadro de Van Gogh em museu.
“O quarto em Arles”, um dos mais famosos quadros de Van Gogh expostos no Orsay. Foto: Bárbara Ábile.

Avisei a ela por mensagem um pouco antes, quando ela atendeu eu deixei a ligação no mudo e fui passando pelos quadros da sala.

Foi uma cena que eu nunca mais vou esquecer: nós duas em silêncio, ela olhando as pinturas mais famosas dele, enquanto eu olhava para ela.

Nos emocionamos um tanto e, a partir de então, falar de Van Gogh era equivalente a falar das saudades que eu sentia da minha irmã.

Amsterdam e sonhos de adolescência

Outra coisa que me lembrou muito ela e que, coincidentemente, tem muito a ver com o Van Gogh, é a cidade de Amsterdam. Ainda que não seja o lugar de nascimento do pintor, é lá onde fica do Museu Van Gogh, onde a maior coleção de obras dele está reunida.

Então, quando viajei para lá com meu companheiro, inevitavelmente lembrei da minha irmã. Não apenas pelo Museu, que é incrível, mas também pelas ruas que apareciam no filme A Culpa é das Estrelas, que assistimos juntas quando éramos mais jovens, e pelas referências à Anne Frank, cuja história sempre foi de nosso interesse.

De lá, guardei para ela o famoso stroopwafel, itens do museu e um Van Gogh no formato playmobil – que até hoje está em nossa estante de livros.

Auvers sur Oise e os últimos dias do pintor

Um tempo depois, resolvi fazer uma visita à Auvers sur Oise, cidade na qual Van Gogh passou os últimos 2 meses de sua vida.

Apesar de ter sido uma estadia curta, ela foi imensamente produtiva. Enquanto esteve por lá, ele criou cerca de 70 pinturas, 33 desenhos e uma gravura, e sua maioria retratava espaços e construções de Auvers.

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Muito por conta disso, a cidade está cheia de referências à produção de Van Gogh. Assim, não é raro encontrar, ao lado das inspirações, placas indicando os quadros produzidos e breves explicações sobre ele.

Paisagem pintada por Van Gogh, na França.
Campo que serviu de inspiração a um dos quadros do pintor. Foto: Bárbara Ábile.

É possível encontrar na internet vários roteiros para seguir os passos de Van Gogh em Auvers. Mas, mesmo que você não tenha tido tempo de organizar nada, não tem problema: basta olhar para o chão e seguir as indicações fincadas no solo. Elas vão te levar pelos caminhos e lugares mais importantes para o pintor.

Seguindo os passos de Van Gogh

Iniciei meu trajeto passando pelos lugares que motivaram a criação de dois de seus famosos quadros, “Igreja de Auvers” e “Campo de Trigo com Corvos”.

De lá, segui alguns caminhos estreitos e charmosos, cheios de girassóis, que também foram várias vezes retratados pelo impressionista. Ao longo desses caminhos, se eu me distraia um pouco, quase perdia as placas informativas sobre as produções artísticas dele no local. Era realmente muita coisa!

Cheguei no parque Van Gogh, que abriga desde os anos 1960 uma escultura em homenagem ao artista. Realizado por Ossip Zadkine, a construção de bronze e com mais de três metros é toda detalhada e mostra como o homenageado costumava andar pela cidade: com suas telas e ferramentas de pintura nas mãos.

O quarto de Van Gogh

Mais adiante, encontrei o famoso Auberge Ravoux, lugar onde Van Gogh se hospedou enquanto estava na cidade e onde viveu seus últimos minutos de vida. É possível visitar o quarto que havia sido dele, mediante aquisição de um ingresso. Essas visitas são feitas algumas vezes ao dia, em grupos e são guiadas.

Chegar no quarto, que fica no sótão do Auberge, já é emocionante por si só. Subir as escadas antigas, de madeira torta e barulhenta e passar pelas paredes rachadas de pintura desgastada começa a te preparar para o que vem a seguir.

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Antigo albergue francês e antiga morada de Van Gogh.
A fachada do Auberge indica as datas em que Van Gogh se hospedou por lá. Foto: Bárbara Ábile.

O quarto de Van Gogh é minúsculo e não possui móveis. Os visitantes não podem tirar fotos do espaço, indo contra o movimento quase automático de todo turista de pegar a câmera ou o celular. Segundo a instrutora que acompanhou o grupo onde eu estava, a ideia é que aquele seja um lugar de memória, respeito e reflexão.

Em silêncio, naquele cômodo, os últimos dias de Van Gogh e as saudades de minha irmã me marcaram de um jeito diferente.

Eu, Van Gogh e nossos irmãos

A visita ao Auberge me transformou também pelo fato de relembrar de uma parte da história do pintor que eu havia esquecido: ele tinha um irmão, Theo, que também lhe era muito querido.

Até onde fiquei sabendo, a relação deles era ótima. Eles trocavam muitas cartas, se comunicavam com frequência e Theo se preocupava muito com a saúde de Vincent. Conta-se que foi ele quem indicou um famoso médico da cidade, o Dr. Gachet, para cuidar de suas questões mentais.

A casa do médico, também aberta para visitação, ficava a uma pequena caminhada do Auberge Ravoux, e é claro que eu tive que ir conhecer – afinal, minha irmã é especialista em saúde mental, e até esse pequeno detalhe da história me fazia lembrar dela.

O túmulo

Já imersa em uma certa melancolia, decidi visitar o lugar onde Van Gogh estava enterrado. Até então, eu havia fugido de todas as visitas relacionadas a cemitérios.

Para quem não sabe, em Paris o Père-Lachaise e o cemitério de Montparnasse atraem uma considerável horda de turistas, e isso foi algo que até aquele momento nunca tinha me chamado a atenção.

Visitar o túmulo de Van Gogh mudou um pouco a forma pela qual eu penso isso. Ele era belíssimo, cheio de girassóis e compartilhado com o túmulo de seu irmão, Theo! Achei emocionante como os irmãos, tão amigos em vida, seguem juntos até hoje.

Girassóis nas roupas e outros tipos de saudades

Ao sair de Auvers, senti que admiração por Van Gogh não era apenas algo da minha irmã, mas algo meu também.

E, como fui para Paris para estudar moda, essa admiração tinha que ser traduzida para as roupas de alguma forma: comprei um body em tule, que levava a impressão do famoso quadro dos girassóis de Van Gogh. Minha irmã amou a ideia – até mesmo porque usamos o mesmo tamanho de roupas.

Boneco em plástico de pintor neerlandês.
Hoje, chamo de casa onde está minha irmã (e o playmobil do Van Gogh). Foto: Bárbara Ábile.

Essas várias visitas envolvendo a criação do pintor fizeram com que eu me sentisse ainda mais próxima dela. Era como se minha irmã estivesse comigo enquanto eu passava por esses lugares, assim como Vincent estava com Theo.

Ainda quero viajar para a França com ela para rever o Museu d´Orsay e Auvers sur Oise. Também seria incrível acompanhá-la em sua primeira visita à Amsterdam. Mas, enquanto isso não acontece, aproveito a presença dela em meu cotidiano (e sinto falta do Van Gogh).