Quase uma atividade de caça ao tesouro, comprar roupas nos brechós em Paris é a melhor maneira de encontrar peças incríveis por um valor muito em conta. Nesta coluna, te conto sobre minhas vivências pelas lojas de segunda mão da capital francesa, e compartilho dicas para você ter uma ótima experiência nelas.

Interior de brechó em Paris.
Índice Passear pelos brechós em Paris é um belo programa turístico Opções para todos os gostos Como escolher as melhores peças nos brechós em Paris? Colocando em prática O que não vale a pena comprar nos brechós em Paris Fazendo a moda circular

Passear pelos brechós em Paris é um belo programa turístico

Fazer compras em lojas de segunda mão não é exatamente algo novo para mim. Confesso que não consigo lembrar quando comecei com essa prática, mas sei que ela foi progredindo ao longo dos anos. Prova disso é que a maior parte do meu guarda-roupa é composto por peças de segunda mão, muitas delas compradas nos brechós de Paris.

Desde quando comecei a morar em Paris faço questão de tirar um ou mais dias para fazer um tour pelos meus brechós favoritos. E, claro, caso apareça algum no meio de meu caminho, também faço questão de entrar.

Os primeiros brechós de Paris que conheci foram no bairro do Marais no 4º arrondissement, mais especificamente na rue de la Verrerie. Entre as famosas sedes do Free’p’star e Kiloshop, e outras friperies menores e vintage, fui me deparando com peças encantadoras em todos os sentidos.

Opções para todos os gostos

No Free’p’star, por exemplo, eu encontrei uma oferta gigantesca de kimonos das mais variadas texturas, estampas, tamanhos e cores. Também fiquei encantada por peças super diferentes de algodão, com recortes e volumes que saem totalmente do comum.

Lá também vale a pena fuçar com atenção nos grandes baús de roupas. Elas ficam todas misturadas entre si e, por conta dessa apresentação um tanto caótica, podem não ser muito apelativas. No entanto, te garanto: é lá que você vai encontrar jaquetas quentinhas, casacos de inverno e camisas em ótimo estado.

Um outro tipo de peça que me chamou a atenção no Free’p’star foram as camisas militares originais. Elas ocupam grande parte do espaço e são peças cheias de história. Se você busca algo resistente, lá é o melhor lugar para encontrar.

Peças por quilo

O Kiloshop, por sua vez, é interessante por conta da forma de venda das peças, já que parte delas são comercializadas por unidade, mas a maioria é vendida por quilo.

Funciona da seguinte forma: ao chegar, note que há pelo menos 3 cores diferentes de etiqueta. Cada uma delas representa um valor por quilo, que podem ser de 20€, 30€ ou 40€ por exemplo. Assim, para saber o valor de uma peça, basta levá-la em uma das balanças da loja, indicar a cor da sua etiqueta e pesá-la.

Preços das peças por quilo, no Kiloshop.
A venda de peças por quilo é uma prática comum em Paris. Foto: Bárbara Ábile.

A parte boa é que peças muito leves acabam saindo realmente muito barato e, a depender do preço da etiqueta, até mesmo peças mais pesadas valem a pena. Eu mesma já comprei muitas peças por menos de 10€ – dentre elas, uma jaqueta corta vento de bolinhas que rouba o coração de todo mundo.

Por fim, os brechós vintage também valem muito a pena. Não apenas por reunir várias peças antigas, mas pelo fato de que muitas dessas peças possuem etiquetas de marcas famosíssimas francesas. Eu, enquanto estudante de moda em Paris, acho incrível passar algumas horas nesses brechós estudando e provando essas peças.

Um nome impronunciável, com preços surpreendentes

Um outro brechó bem famoso em Paris é o ZXSBN6DD3VZBGSY. Sim, esse é o nome dele mesmo, e não um erro de digitação!

Apesar do nome impronunciável, ele é bem famoso por vender peças entre 0,95€ e 2,85€. Barato demais, não é? Ainda mais para um país com um custo de vida tão alto.

Para ir até ele, é importante que você conte com um planejamento melhor. Como chegam novos lotes de roupas todas as sextas feiras, é comum que neste dia haja uma fila considerável para entrar no espaço. O mesmo se repete aos finais de semana.

Outros brechós em Paris que, em minha opinião, também vale a pena visitar são:

E, claro, sem esquecer dos brechós dos Mercados de Pulgas.

Brechós franceses online

Para os amantes de compras pela internet – e curiosos que estão no Brasil, mas querem saber o que está sendo vendido nos brechós franceses – vale a pena consultar o Vinted e o Vestiaire Collective.

Eles funcionam como brechós online, sendo esse último com um foco maior nos produtos de luxo. Por eles, é possível encontrar muitas fotos das peças, ótimas descrições além de conseguir negociar um preço menor com o vendedor.

O Vinted, ainda que também venda algumas peças de luxo, também comercializa roupas de marcas menores. Por lá, eu já tive algumas experiências de compra, assim como de venda e te garanto: é tudo realmente muito fácil. O fato deles contarem com vários pontos de envio e coleta facilita demais todos os envolvidos, e as taxas são bem razoáveis, assim como os fretes.

Por fim, também é interessante ficar de olho nos Archives das marcas. Apesar de ainda não ser tão comum, um número considerável de marcas passou a mediar a compra e venda de produtos de segunda mão que levam a sua etiqueta. Normalmente, é possível encontrar o link de acesso para esses brechós oficiais no site da própria marca.

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Feiras de brechós em Paris

Para além de todas essas opções, saiba que ainda é possível encontrar, algumas vezes ao ano, edições de feiras de brechós em Paris.

Um dos mais famosos é o Oh My Frip, uma feira itinerante e enorme, que comercializa peças por preço por unidade e por peso. Essa é, de longe, uma das minhas escolhas preferidas, afinal, além de ser enorme e ter muita opção, a curadoria de peças é muito bem-feita e organizada.

Jaquetas, calças e lenços à venda em brechó parisiense.
Os brechós mais organizados são os meus preferidos. Foto: Bárbara Ábile.

Lembro que fui em uma edição dessa feira logo depois de retornar à Paris após 4 anos, e te juro: refiz o meu guarda-roupa!

As peças que encontrei lá me acompanharam ao longo de todo o estágio de pesquisa que fiz na capital francesa e muitas delas estão comigo até hoje – inclusive, escrevo esta coluna usando uma calça cotelê marrom que comprei por lá.

Como escolher as melhores peças nos brechós em Paris?

Saber encontrar boas peças em brechós é uma atividade que exige prática, muita paciência e um pouquinho de criatividade. Eu sou da opinião de que sendo possível uma modificação não muito complexa, a peça vale a pena.

Foi assim que comprei roupas que possuem o dobro do meu tamanho, sem botões, com pequenos furos, sem barra feita ou muito mais compridas do que eu gostaria. A calça marrom que acabei de mencionar, por exemplo, tinha lá alguns problemas, mas nada que alguns pontinhos e um botão novo não resolvesse.

Dar uma segunda vida à peça de roupa, portanto, não é apenas mudar de dono, é também pensar em possíveis alterações. Esse é, aliás, um dos segredos do estilo aclamado e único da parisiense.

Paris é o lugar ideal para isso

Nesse sentido, a região da Île de France, onde fica Paris, é o lugar perfeito para ambas as atividades. A cidade não apenas abriga mais de 400 brechós, segundo dados de 2023, como também uma quantidade considerável de lojas de aviamentos.

A minha preferida, a Entrée des Fournisseurs, fica no Marais. Espere encontrar por lá muitos botões diferentes, fitas, linhas, bordados, pedrarias e tudo mais o que você pode imaginar para alterar suas peças.

Colocando em prática

Algumas dicas podem te ajudar a escolher suas roupas nos brechós de Paris e de qualquer outro lugar. Se você não tem muita experiência ou é sua primeira vez fazendo esse tipo de compra, a primeira dica é: se livre do preconceito! Vá de coração aberto e não crie muitas expectativas.

Nesse sentido, vale dizer que diferente das compras em lojas regulares, as compras no brechó são sempre uma caixinha de surpresas. Se nas primeiras você sempre tem uma ideia do que pode encontrar, nos brechós você não consegue ter esse parâmetro.

Assim, pode ser que você encontre peças incríveis, preços maravilhosos e ótimas oportunidades, mas também é possível que você não encontre nada legal – e isso não significa, necessariamente, que o brechó é ruim.

Caso você tenha problemas com alergias, indico que você leve uma máscara para te acompanhar. A depender do brechó que eu vou, principalmente se for daqueles bem pequenos com muita coisa amontoada, a máscara é essencial.

Fachada de um famoso brechó em Paris.
Guerrisol e seus incontornáveis baús de peças a 3 euros .Foto: Bárbara Ábile.

Uma estratégia que uso, já que facilmente tenho reação alérgica na pele, é evitar tocar em muita coisa. Vou passando peças araras, olhando com atenção as cores, as estampas e as texturas. Se algo me chama a atenção, aí sim opto por pegar.

Uma outra dica é: se você tem dúvida sobre uma peça e ela for relativamente barata, leve. Encontrar a mesma peça duas vezes em um brechó é uma missão quase impossível, portanto, caso você encontre algo que toque em seu coração, mas que ainda te deixe em dúvida, leve contigo.

Eu estabeleço um máximo de preço para peças desse tipo, e dessa forma, sei que caso eu não use muito, pelo menos eu não paguei tanto.

O que não vale a pena comprar nos brechós em Paris

Para mim, algumas peças não valem a pena de comprar nos brechós em Paris.

Produtos em lã, por exemplo, é algo que eu normalmente nem olho. A não ser que seja um brechó de luxo, é bem provável que a peça esteja com algumas bolinhas ou algum desgaste, e isso é algo que eu não consigo consertar.

Também evito levar peças que me deixem muito em dúvida quanto ao tamanho. Como os brechós reúnem peças de várias lojas, várias épocas e vários países, há uma variação muito grande no que pode ser considerado pequeno, médio ou grande. Nesses casos, para mim, é essencial conseguir provar, mesmo que por cima da roupa que estou.

Além disso, pessoalmente, vejo pouco sentido em comprar peças de fast fashion nos brechós em Paris, e faço questão de olhar a etiqueta de cada peça que me interessa por conta disso.

Por fim, quando vou chiner (termo francês usado para falar sobre buscar peças de segunda mão), minha ideia é encontrar peças diferentes. Sendo assim, dificilmente sairei dos brechós com uma jaqueta jeans ou uma calça preta, mas certamente terei em minhas mãos casacos com pêlos fúcsia e minúsculos pompons mostarda, vestidos fluídos com uma carinha meio antiga e saias com estampas abstratas e supercoloridas.

Fazendo a moda circular

É claro que, após tantos anos comprando roupas em brechós de Paris, eu já me desfiz de muitas delas. Tem algumas peças que permanecem por anos, mas tem outras que possuem uma vida útil em meu guarda-roupa de apenas alguns meses.

Em minha visão, a compra em brechós envolve muito mais do que a busca por um estilo singular: é sobre fazer circular as peças. Por isso, tenho isso em mente na hora de comprar, mas também na hora de desapegar.

Então, na hora de tirá-las definitivamente de minha vida, não há opção melhor do que fazer essas peças voltarem para o lugar de onde elas saíram: os próprios brechós.

Para além da praticidade e de um retorno financeiro (mesmo que seja bem pouquinho), me dá uma pontinha de felicidade saber que uma parte da minha história está circulando por outras vidas e em outros lugares. Afinal, a moda também é sobre isso!