Quando tomamos a decisão de ir morar no exterior, é comum colocarmos o foco em tudo que pode nos beneficiar: segurança, saúde, uma nova cultura, proficiência em um novo idioma, oportunidades de trabalho, acesso à arte, entre outras maravilhosas possibilidades. O que acabamos por discutir bem menos é o que perdemos ao morar no exterior.

Índice Colocar as perdas na balança Quem fica e quem vai Vale a pena ir com tanta perda?

Assim como morar fora traz inúmeros ganhos, traz também sua parcela de perdas. Eventos importantes, amigos que se afastam e pessoas que se vão. Tudo isso também faz parte de ir morar fora.

Colocar as perdas na balança

As perdas ao morar no exterior podem ser consideráveis. Já perdi alguns casamentos, vários nascimentos e até mesmo pessoas queridas.

Perdi também momentos tristes de amigos e meu colo faltou para quem mais precisava. É importante colocar na balança a distância de quem importa, especialmente se o seu plano for uma imigração de longo prazo.

Amigas viajando pela Escócia
Há perdas ao morar no exterior, mas também há encontros com muita presença. Foto: Roberta Schmoi

Eu soube que meu pai tinha morrido em uma cozinha a milhares de quilômetros de todo mundo que deveria estar ali comigo. Uma greve de companhias aéreas na Europa tornou meu retorno uma verdadeira odisseia que custou muito dinheiro.

Atravessei dois continentes sozinha em um momento muito delicado onde a última coisa que eu deveria estar era só.

Tive a oportunidade de, mesmo tarde, chegar a tempo para este ritual, mas nem sempre é assim. Ao longo dos anos perdi despedidas importantes e estive longe de quem realmente poderia entender perdas marcantes ou vitórias conseguidas a muito custo.

amigos em festa de casamento em estufa. ela com saia rosa e top branco e ele com camisa floral e calça rosa. mudar de país é também enfrentar perdas ao morar no exterior.
Há quem sempre se faça presente apesar da distância. Foto: Roberta Schmoi

Existem também as perdas crônicas. São aquelas que resultam da falta de convivência. Não tenho contato próximo com os filhos dos meus melhores amigos. Nos falamos por vídeo, mas criança perde a paciência rápido e a gente perde a chance de ter um relacionamento que só a vida real é capaz de proporcionar.

No meu casamento, nem todo mundo que queria ir pôde chegar lá. Eu chamo estas perdas de perdas agudas. Os momentos pontuais que perdemos devido à distância.

O mesmo vale para os amigos. Algumas amizades vão perdurar, outras não vão dar conta da distância.

Apesar de conhecer várias famílias que mantêm o ritual sagrado das chamadas de vídeo com os avós, meus filhos ficam em uma chamada de vídeo por no máximo três minutos. Enviam desenhos para familiares pelo correio e às vezes alguma mensagem de voz.

Há um limite para o que o WhatsApp é capaz de fazer e do que você é capaz de fazer com o WhatsApp. As perdas ao morar no exterior normalmente incluem a dinâmica dos afetos.

Não deixe de ler minhas reflexões sobre como emigrar é uma peregrinação transformadora.

Isso não quer dizer que você vai perder todos os seus amigos

Eu moro há 13 anos ininterruptos fora do Brasil e sinto que a distância também me deu a oportunidade de desenvolver certas amizades para além do que elas talvez pudessem ser se estivéssemos sempre perto.

Algumas conversas se aprofundaram para além do que talvez tivéssemos a oportunidade em um grupo de amigos na correria dos encontros corriqueiros.

Quem fica e quem vai

Assim como a maternidade é capaz de nos surpreender com quem fica e quem vai, morar fora também faz isso. Você terá algumas perdas ao morar no exterior que serão talvez chocantes, mas se surpreenderá com quem vai fazer o esforço de ficar próximo a todo custo.

Claro que sempre há a oportunidade de fazer novos amigos no exterior e esses amigos irão muitas vezes assumir o papel de família, especialmente se forem também imigrantes, mas a verdade é que essas relações acrescentam à sua história e não substituem aqueles que ficam no Brasil.

Vale a pena ir com tanta perda?

Essa é a pergunta de milhões. A verdade é que nada é definitivo e você pode sempre voltar para o Brasil.

Além disso, tanto as perdas crônicas como as agudas nos fazem valorizar muito mais cada momento compartilhado e mesmo tendo menos destes, quando acontece carrega muito mais presença.

Nesta coluna falamos muito das perdas, mas os ganhos também são imensos. Apesar das perdas ao morar no exterior, eu não trocaria por nada tudo que ganhei com esta experiência.

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