O resultado das eleições em Portugal marcou uma mudança significativa no cenário político nacional. A coligação de centro-direita Aliança Democrática (AD) venceu, mas sem maioria absoluta e o partido de extrema-direita Chega conquistou o mesmo número de deputados que o tradicional Partido Socialista (PS), redesenhando o equilíbrio de forças no Parlamento.
O que esperar do novo governo? Quais as consequências para a imigração, economia e para a comunidade brasileira?
Resultado das eleições: AD vence, Chega iguala PS e o Parlamento se altera
No domingo, 18 de maio, mais de 10,8 milhões de residentes em Portugal foram às urnas para escolher os 230 deputados da Assembleia da República. O resultado das eleições em Portugal mostrou o fortalecimento da direita e redesenhou o cenário político do país.
Com 32,1% dos votos, a AD (coligação entre PSD e CDS-PP) saiu vitoriosa, elegendo 86 deputados, com um desempenho melhor em relação ao último pleito, mas longe da maioria absoluta.
Um dos resultados mais expressivos foi o do Chega, que alcançou 22,56% dos votos e elegeu 58 deputados, igualando o PS, que também ficou com 58 assentos e 23,38% dos votos, um dos piores resultados da história socialista.
A Iniciativa Liberal (IL) consolidou-se como quarta força política, com 9 deputados, seguida pelo Livre (6), CDU (3), Bloco de Esquerda (1), PAN (1) e o estreante Juntos pelo Povo (JPP), com 1 deputado. O resultado completo pode ser conferido abaixo:

Como funcionam as eleições legislativas em Portugal?
Nas eleições legislativas em Portugal, os eleitores votam em partidos, não em pessoas. Cada partido apresenta uma lista fechada de candidatos para cada distrito eleitoral.
Os eleitores escolhem apenas o partido de sua preferência e o número de deputados eleitos por cada partido depende da proporção de votos recebidos em cada círculo eleitoral.
Assim, não é possível votar diretamente em um candidato específico, mas sim na lista apresentada pelo partido ou coligação.
Como o país votou?
Com o resultado das eleições 2025 em Portugal, o Chega se consolida como uma das principais forças da oposição.
O mapa eleitoral de 2025 mostra um país dividido, com a AD dominante no Norte e Centro, o Chega crescendo no Sul e o PS reduzido a uma presença residual, como mostra o infográfico abaixo.
Esta nova configuração reflete uma mudança profunda no perfil do eleitorado português, que migrou do tradicional bipartidarismo para um Parlamento tripartido e mais fragmentado.

A ascensão do Chega e a expansão da AD refletem o crescimento da direita, enquanto o PS enfrenta o desafio de se reerguer após uma das suas maiores derrotas
Onde a AD teve maioria
A AD teve hegemonia no Norte e Centro, vencendo em 215 concelhos e ampliando a sua mancha laranja para além das tradicionais regiões de força. Distritos como Vila Real, Bragança e Viseu deram à coligação percentagens expressivas, traduzidas em múltiplos deputados eleitos.
No Porto, apesar de a percentagem ser um pouco menor, foi onde a AD obteve o maior número absoluto de votos. O avanço da AD foi tão significativo que, em comparação com as eleições anteriores, ganhou liderança em 55 municípios adicionais, descendo até Lisboa e consolidando-se como a principal força política em mais de metade do país.
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ENTRAR EM CONTATO →Onde o PS venceu
O PS, por sua vez, teve um desempenho muito aquém do habitual, conseguindo vencer apenas no distrito de Évora e elegeu um deputado. Em todas as outras regiões, o partido perdeu terreno tanto para a AD quanto para o Chega, ficando em segundo ou terceiro lugar na maioria dos distritos.
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Abrir Conta Multimoeda →O melhor resultado percentual do PS foi em pequenas freguesias do Norte, como Negrões, em Montalegre, mas esses casos foram exceções num cenário de recuo generalizado.
Onde o Chega ganhou
O Chega foi o grande protagonista do Sul, vencendo em distritos como Beja, Setúbal, Portalegre e Faro, além de conquistar 60 concelhos em todo o país. Em freguesias como São Vicente e Ventosa, em Elvas (Portalegre), o partido chegou a 53% dos votos.
O crescimento do Chega foi notável, sobretudo em regiões tradicionalmente menos influenciadas pela direita radical e o partido conseguiu eleger deputados em praticamente todos os distritos, exceto Bragança.
O Sul do país, que antes era reduto do PS, passou a ser disputado voto a voto entre socialistas e Chega, com a AD mantendo-se competitiva em algumas zonas.
O que representa esse resultado?
Em uma primeira análise, o resultado das eleições de 2025 significa:
- Fim do bipartidarismo: pela primeira vez desde a Revolução dos Cravos, o Parlamento português é tripartido, com AD, PS e Chega dividindo o protagonismo;
- Derrota histórica do PS: Pedro Nuno Santos anunciou a demissão da liderança socialista após o resultado;
- Ascensão do Chega: o partido de André Ventura, que em 2019 tinha apenas um deputado, consolidou-se como força nacional, elegendo deputados em quase todos os distritos do país;
- Parlamento mais fragmentado: a governabilidade dependerá de negociações e alianças pontuais, já que nem mesmo uma coligação entre AD e IL garantiu maioria.
Importância para os imigrantes brasileiros
O resultado das eleições em Portugal acendeu o alerta para imigrantes, que acompanham com atenção os possíveis impactos.
A comunidade brasileira, que ultrapassa meio milhão de pessoas em Portugal, acompanhou a eleição com atenção redobrada. O tema da imigração esteve no centro do debate, com propostas de endurecimento das regras e promessas de maior controle nas fronteiras.
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INSCREVER GRÁTIS→O Chega conseguiu atrair apoio de parte da comunidade brasileira. Membros do partido não costumam citar brasileiros diretamente em seu discurso crítico à imigração, focando mais em imigrantes asiáticos e muçulmanos, mas há registros de cidadãos brasileiros que se identificam com pautas conservadoras defendidas pelo partido, como destaca o pesquisador Igor José de Renó Machado, da Universidade Federal de São Carlos:
Segundo ele, “entre a população brasileira, o apoio ao Chega é grande”, e o partido evita hostilizar abertamente brasileiros devido à sua relevância e integração na sociedade portuguesa.
O peso dos brasileiros na eleição
O peso dos brasileiros nas eleições legislativas de Portugal em 2025 é, na prática, limitado, apesar do grande número de residentes. Apenas uma pequena parcela dos brasileiros tem direito a votar: são aqueles que possuem cidadania portuguesa, dupla nacionalidade ou o estatuto de igualdade de direitos políticos, além de estarem devidamente inscritos como eleitores.
Estima-se que cerca de 34 mil imigrantes estavam aptos a votar, sendo aproximadamente 25% desse total brasileiros. Isso representa uma fração muito pequena do eleitorado português, que conta com mais de 10 milhões de eleitores.
No entanto, o impacto dos brasileiros vai além do voto direto. O crescimento acelerado da comunidade tornou a imigração um dos temas centrais do debate eleitoral, influenciando discursos, propostas e até o fortalecimento de partidos como o Chega, que adotaram pautas mais restritivas em resposta à presença crescente de estrangeiros.
O que muda após as eleições?
O programa da AD sinaliza continuidade no combate à imigração irregular, com medidas para reforçar fronteiras, exigir visto prévio e endurecer a concessão de autorizações de residência.
Entre as propostas, destaca-se o aumento do tempo mínimo de residência para solicitar a nacionalidade portuguesa, que pode passar de cinco para dez anos, afetando diretamente brasileiros que planejam obter cidadania por tempo de residência.
O Chega, por sua vez, defende restrições mais duras, como limitar o acesso a benefícios sociais apenas a quem tem pelo menos cinco anos de residência legal e agilizar repatriamentos voluntários. O partido também propõe limitar o número de pessoas por habitação e criar novos centros de detenção para imigrantes.
Apesar do tom mais rígido, a AD promete manter uma política migratória baseada em regras, mas com respeito aos direitos humanos e reforçar a integração de imigrantes já estabelecidos, especialmente aqueles que contribuem para a economia nacional.
E na economia?
No campo econômico, análises apontam que o contexto internacional volátil exige uma abordagem bem prudente.
O Orçamento do Estado para 2025, negociado sob expectativas de crescimento moderado, reflete essa cautela: há um certo alívio nos impostos para pessoas físicas e pequenas reduções para empresas, mas ainda faltam ações mais fortes e decisivas para enfrentar os desafios da transição climática e energética em Portugal.
A tendência é de continuidade na consolidação fiscal, com alguma margem para políticas de estímulo ao emprego jovem e inovação, mas sem grandes rupturas.
A AD aposta em reformas para atrair investimento, acelerar privatizações (como a da TAP), aplicar fundos europeus e combater a “fuga de cérebros”. O desafio será conciliar crescimento econômico com o aumento da pressão social sobre serviços públicos, habitação e emprego, temas que também preocupam a comunidade imigrante.
Reações e análises iniciais
Os principais candidatos assim analisaram o resultado logo após as eleições:
- AD (Luís Montenegro): o líder da coligação celebrou a vitória e prometeu ser, em suas palavras, “governo para todos, todos, todos”, destacando o reforço da confiança dos portugueses e a responsabilidade de liderar o país em um momento de grandes desafios;
- PS (Pedro Nuno Santos): reconheceu a derrota, anunciou sua saída da liderança e afirmou que o partido não deve ser suporte do governo da AD, sinalizando oposição firme;
- Chega (André Ventura): declarou o fim do bipartidarismo e comemorou o que chamou de “resultado histórico”, afirmando que o partido é agora essencial para a formação de maiorias e para influenciar a agenda nacional, especialmente em temas como imigração e segurança.
Análises de especialistas
Para muitos analistas, o resultado das legislativas desse ano marca o fim de uma era de estabilidade partidária. Comentaristas políticos destacam que o novo governo terá vida difícil no Parlamento, pois a fragmentação das bancadas exigirá negociações constantes.
O Chega, agora com força inédita, pode ser o fiel da balança para aprovar medidas importantes, mas a AD já sinalizou que prefere evitar alianças formais com a extrema-direita.
O cientista político Antônio Costa Pinto, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, destaca que a direita moderada, representada pela AD, está agora diante de uma “encruzilhada muito importante”.
“Embora Luís Montenegro tenha reafirmado que não fará alianças formais com o Chega, a governabilidade exigirá negociações constantes e pragmatismo, já que a AD não alcançou maioria absoluta.”
Costa Pinto prevê que a direita radical, agora com grande peso parlamentar, adotará uma linha dura, especialmente em temas como imigração e segurança, mas pondera que a tendência do novo governo será buscar estabilidade e evitar rupturas bruscas.
Especialistas em migração alertam para a possibilidade de endurecimento das regras, mas também para a necessidade de políticas de integração eficazes, dada a importância dos imigrantes para a economia e demografia do país.
Adriana Cardoso, comentarista da SIC, observa que Portugal passa por uma “alteração sociológica” e até de regime, com a esquerda em minoria e a oposição liderada por um partido que não é nem PS, nem PSD.
“O novo governo terá de lidar com um Parlamento mais plural e exigente, o que pode trazer avanços no debate democrático, mas também mais desafios para aprovar reformas estruturais.”
Comparação com eleições anteriores: uma mudança de era
O resultado de 2025 marca uma ruptura com o padrão das últimas décadas em Portugal. O bipartidarismo PS-PSD, dominante desde os anos 1980, foi quebrado de forma inédita pelo crescimento do Chega, que passou de 1 deputado em 2019 para 58 agora.
O PS teve seu terceiro pior resultado desde a redemocratização, enquanto partidos tradicionais da esquerda, como Bloco de Esquerda e CDU, perderam espaço para novas forças como Livre e JPP.
A abstenção caiu para 35,6%, a mais baixa dos últimos 30 anos, mostrando maior mobilização do eleitorado. O perfil dos eleitores também mudou, com maior peso do voto jovem e urbano e crescimento de distritos tradicionalmente conservadores para o Chega.
O que vem pela frente? Desafios para governar e papel do Chega
A pergunta que muitos fazem agora é: como será governar com a nova formação do Parlamento?
Governabilidade em xeque
O resultado das eleições em Portugal deixou dúvidas sobre como será feita a articulação política nos próximos anos.
Com 89 deputados, a AD não tem maioria absoluta (seriam necessários 116 deputados em 230). Mesmo com o apoio da Iniciativa Liberal (9 deputados), não chega ao número necessário para aprovar leis sem negociar com outros partidos.
O Chega, com 58 deputados, tornou-se peça-chave, mas a AD já afirmou que não fará coligação formal com a extrema-direita, preferindo negociar caso a caso.
Papel do Presidente e próximos passos
O presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, já fez audiências com os partidos eleitos para avaliar a viabilidade do novo governo. Tradicionalmente, o partido mais votado é convidado a formar governo, mas Marcelo deixou claro que só dará posse a um Executivo capaz de aprovar seu programa no Parlamento.
O novo governo só toma posse após a entrada em funções da nova Assembleia, o que pode ocorrer entre meados e o final de junho.
Chega: fiel da balança ou oposição dura?
O Chega já deixou claro que só apoiará medidas do governo se suas propostas para imigração e benefícios sociais forem aceitas. André Ventura propôs a criação de um grupo de trabalho para negociar um “grande pacote anti-imigração”, mas a AD resiste a uma aproximação formal.
O futuro governo terá de equilibrar a pressão com a necessidade de estabilidade e respeito aos compromissos europeus.
Mais controle e exigências para imigrantes
As eleições legislativas de 2025 inauguram uma nova era política em Portugal, com um Parlamento mais fragmentado, a ascensão da extrema-direita e desafios inéditos para a governabilidade.
Para os imigrantes, o cenário aponta para regras mais rígidas e maior exigência na integração, mas também para a continuidade do debate sobre o papel dos estrangeiros no desenvolvimento do país. Novas atualizações sobre o governo e as políticas para imigrantes serão divulgadas aqui no Euro Dicas.
Maurício Martins