Antes de falar sobre a minha experiência lidando com a burocracia europeia, é importante definir o que é burocracia. Quando falamos da esfera pública, burocracia é o sistema de regras e a hierarquia de papelada que temos que lidar para ter acesso a direitos, benefícios e auxílios.
Lidar com esse tipo de papelada nunca é prazeroso, mas é necessário em qualquer país. Quando não estamos na nossa terra, essas regras assustam por serem desconhecidas e diferentes do que estamos acostumados. É como atravessar a rua na Inglaterra olhando para o lado errado.
A verdade é que lidar com a burocracia europeia não é muito diferente do que lidar com a burocracia no Brasil. Ambas são penosas e nos esgotam.
Lidando com a burocracia europeia na Alemanha
Além da minha própria experiência no país, trabalhei por quase três anos na Alemanha, ajudando imigrantes a lidar com o que muitos consideravam um pesadelo. Quando chegamos a um país novo, temos que solicitar documentos que já vêm automaticamente para aqueles que nasceram ali.
Então eu tinha que ir a diferentes departamentos do governo, com burocracias próprias tentando coordenar as suas hierarquias. Porque para conseguir o documento B, tem que ter o A, mas para o A, precisa do C que só é possível tirar com o B. Tudo isso em um idioma difícil e com prazos apertados para conseguirem chegar na entrevista de visto preparados.
Hoje é um pouco menos difícil. Será?
Assim como a empresa na qual eu trabalhava, hoje em dia há muitas outras que realizam este tipo de serviço em toda a Europa. Ao negociar uma vaga de trabalho no exterior, é possível incluir na negociação uma consultoria de imigração e isso é uma benção para recém-chegados. Para quem vem de forma independente, também dá para contratar, mas este tipo de serviço não é barato.
Ainda bem que hoje em dia, diferente de quando me mudei para a Alemanha, existe muita informação boa na internet para lidar com a burocracia europeia como aqui mesmo no Euro Dicas. Quando eu me mudei, tudo era mato. Brincadeira, mas tudo era mesmo bem mais difícil.
Eu já estava na Alemanha há algum tempo quando descobri que precisava registrar meu endereço, pegar um número de identificação fiscal e mais um montão de coisas antes de chegar na minha entrevista de residência.

Por sorte, estava em um trabalho informal e o meu chefe me ajudou com o preenchimento dos documentos que ainda eram todos completamente em alemão. Foi ele também que me explicou sobre o infame imposto da Igreja que existe na Alemanha.
Uma vantagem do sistema dali, pelo menos na minha experiência, é que uma vez que você conhece as regras, elas tendem a funcionar. Pode até demorar, mas eventualmente funciona. No Brasil tive muitos problemas com cartórios, por exemplo. Cada um com suas próprias regras e capacidades. Na Alemanha as coisas são mais claras se você tiver paciência para ler as instruções.
Percalços na burocracia europeia
Claro que para todo caso existe uma (ou mais) exceções. Quando casei em Berlim, experimentei pela primeira vez uma lista de regras arbitrárias. Se você casa com outro estrangeiro, não te dão muito trabalho, porém casar com um alemão pode ser uma odisseia.
Primeiro é necessário ir a uma entrevista e é nessa entrevista, a depender da avaliação do entrevistador, da sua nacionalidade e do seu nível de alemão, que você vai descobrir os documentos necessários para oficializar a sua união com a pessoa amada.
Outras dificuldades na Alemanha incluem que funcionários públicos não estão autorizados a falar inglês por uma questão de responsabilidade pela precisão das informações. Alguns falam mesmo assim, mas não é algo que deve ser esperado.
Quando fui me registrar pela primeira vez na Alemanha, não falava alemão e uma funcionária simpática fez muitas mímicas para me ajudar, mas nem todo mundo ali está disposto a isso.
Lidando com a burocracia europeia em Portugal
Em Portugal, a minha experiência foi mais tranquila. É verdade que muitos imigrantes brasileiros passam por poucas e boas aqui, mas não foi exatamente o meu caso.
Navegar estas regras com as tais manifestações de interesse, horas de espera ao telefone por um agendamento, reclamações no centro de saúde e várias visitas à câmara municipal da minha cidade foi exaustivo, mas acabou dando certo. É tudo bem diferente do que eu já conhecia, mas ao mesmo tempo eu já tinha prática neste tipo de missão.
Na minha visão, Portugal facilita a vida de quem quer trabalhar e contribuir com os impostos daqui, mas impede o acesso de imigrantes a direitos como saúde e a benefícios como o financiamento à habitação de 100% para jovens.
Acesso facilitado a alguns documentos
É que quando chegamos, podemos imediatamente tirar um Número de Identificação Fiscal (NIF) e nos inscrever na Segurança Social para começar a trabalhar, mas ainda não somos oficialmente residentes até que atendam o telefone e nos marquem uma entrevista ou nos chamem por carta (na AIMA). Isso nos frustra muito.
Existem pessoas esperando por uma entrevista há anos e por isso há um mercado todo voltado a auxiliar imigrantes brasileiros nesta batalha, incluindo advogados capazes de agilizar o processo e prestadores de serviço que passam o dia todo ligando para a agência de imigração com aplicativos de rediscagem e diversas linhas.
A burocracia europeia pode ser difícil e é diferente em cada país, e você deve estar preparado para isso se quiser imigrar!
*A opinião dos colunistas não reflete necessariamente a opinião do Euro Dicas.
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