Não importa o tamanho da família. Se você decide embarcar em uma viagem com seus pais, irmãos, tios ou primos, é certeza que compartilharão momentos muito lindos, mas também momentos desafiadores. Nesta coluna, conto as maravilhas e perrengues de viajar em família, com base na última experiência que tive.
Do planejamento ao dia a dia da viagem em si, eu compartilho com vocês o que fizemos para dar conta de um sonho que era coletivo, mas também individual. Um spoiler: dá trabalho, mas não vejo a hora de embarcar de novo!
Itália, um sonho antigo (e ancestral)
Há alguns anos, eu, meus pais e irmãs começamos a tirar do papel um sonho que tínhamos fazia tempo: viajar para a Itália juntos.
Por um lado, sabíamos que seria uma viagem inesquecível, até mesmo porque a intenção era comemorar o aniversário de um de nós em um país que faz parte da história de nossa família. Nossos ascendentes italianos já haviam falecido há algumas décadas, mas as histórias deles sempre estiveram presentes em nossos encontros.
Viajar em família pede mais do que empolgação
Por outro lado, também tínhamos certeza de que haveria uma ou outra dificuldade. Primeiramente, pelo fato de que uma viagem longa, com muita gente e em outro país é o combo perfeito para contratempos dos mais variados tipos. Em segundo lugar, porque conhecíamos um ao outro suficientemente bem para sabermos os possíveis pontos de conflito entre nós.
Por exemplo, no caso do meu grupo, era a primeira vez na Europa de duas pessoas completamente diferentes, portanto, com vontades distintas. Além disso, todos nós tínhamos ritmos e energia praticamente opostos. Ainda, nossa forma de viajar, se divertir e descansar nem sempre batiam.
Imaginávamos que esses diferentes jeitos, expectativas e interesses podiam tornar a viagem tão divertida quanto estressante. E foi sabendo das possíveis maravilhas e perrengues de viajar em família que resolvemos encarar essa grande aventura juntos.
Hora de planejar
Essa aventura começou nos próprios preparativos – algo que, de longe, foi tão legal quanto a viagem em si.
Para isso, pelo menos duas ou três pessoas do grupo combinavam de se reunir algumas vezes por mês para começar a encaminhar algumas coisas. Foi o momento de explorar ferramentas como MyMaps, GetYourGuide e Wanderlog, além de, claro, o Euro Dicas Turismo. Pensávamos e sonhávamos juntos, aí compartilhávamos as possíveis decisões em forma de enquete no WhatsApp.
Uma vez decidido nosso país de destino, o aniversariante sugeriu que ficássemos fixados em Roma. Então, combinamos de ficar pelo menos 7 dias na cidade, assim daria tempo de conhecer todos os pontos turísticos e aproveitar o local com a calma que ele merece.

Uma vez estabelecido isso, começamos a estudar possibilidades de bate-e-volta para outros lugares. Afinal, todo mundo queria aproveitar a facilidade dos transportes de trens e voos low cost!
Para contemplar os tantos gostos variados, cada um de nós sugeriu cidades para conhecer. Esse momento virou uma grande festa! Para além dos sonhos de cada um, também nos inspirávamos com filmes, séries, posts de Instagram e tudo o mais.
Nesse processo, outras cidades italianas e não italianas foram pipocando ao longo dos meses de preparação: Veneza, Verona, Costa Amalfitana, Milão, Bolonha, Pisa, Amsterdam e Paris foram algumas delas.
Maravilhas e perrengues de viajar em família: o planejamento
Assim, começamos a organizar os dias, os gastos e a quantidade de euros para levar para a Itália para termos certeza do quão factível todo esse sonho realmente era.
Acontece que frente aos custos e tempos de deslocamento, tivemos que excluir alguns lugares do planejamento. E eis um dos primeiros perrengues: entender que para uma viagem se concretizar, também é preciso deixar de lado algumas ideias!
Roteiro ideal versus roteiro possível
Veneza e Verona, duas das queridinhas, logo saíram do itinerário por conta do tempo. O mesmo aconteceu com Costa Amalfitana e Amsterdam. Visitar Nápoles, para mim e mais duas pessoas amantes de Elena Ferrante, era inegociável.
Uma outra pessoa fez questão de Florença, algo aceito por todo o grupo. Paris acabou ganhando por voto da maioria e por conta de uma ótima promoção encontrada. Ficamos um tempo refletindo sobre Bolonha, mas apenas duas pessoas realmente se interessaram. Por fim, Milão, que era do interesse da maioria, também se revelou custosa demais.
Fechamos as cidades que visitaríamos e que deixaríamos de lado com dor no coração e uma sensação de querer conhecer mais lugares. O desconforto, no entanto, logo foi substituído pela empolgação de planejar as visitas e comprar os ingressos com antecedência.
O tão sonhado dia da viagem
Os dias que antecederam o embarque foram de muita animação. Cada peça colocada na mala, arquivo salvo e euro comprado fazia nosso coração bater mais forte. Fazíamos uma contagem regressiva cotidiana e, no tão esperado dia de partir, selfies encheram o grupo do WhatsApp antes de nos encontrarmos no aeroporto.
Com muita empolgação, fomos aproveitando cada momentinho no aeroporto: as etiquetas nas malas, a pesagem, o despacho, a passagem pela segurança, o duty free e a sala VIP. Afinal, viajar em família é, sobretudo, transformar as pequenas coisas em um grande evento.
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No avião, sentamos todos juntos e mal sentimos falta do entretenimento a bordo, que estava em falta naquele voo. Éramos só sorrisos!
Vivendo todas as maravilhas que a Itália pode oferecer
E essa felicidade se multiplicou infinitamente ao longo dos dias seguintes. Lembro com muito carinho da alegria no rosto dos meus pais por finalmente estarem fazendo uma viagem dessa magnitude com todas as suas filhas, e da animação de minhas irmãs de pisar na tão falada Europa pela primeira vez.
De fato, era tudo grandioso e emocionante. Ver as pessoas que mais amo no mundo reunidas em minha cidade preferida, Paris. Enxergar o Vesúvio do trem ou atravessar o túnel que dá acesso a Rione Luzzatti, correndo com minha irmã como se fôssemos Lenu e Lila. Os pratos de spaghetti alle vôngole ou al tartufo, extremamente suculentos.
Os inúmeros gelattos que tomamos, de sabores tão comuns quanto extravagantes (alecrim, azeite e parmegiano reggiano!). Ganhar uma cafeteira Bialetti de presente. E levar o aniversariante para um almoço completo, com direito a músicos cantando “volare oh, oh” para gente.
Na verdade, até mesmo as coisas mais simples se tornaram inesquecíveis.
Eu e meu pai nos divertíamos nos mercados e banquinhas de frutas que entrávamos. Minhas irmãs passavam longos minutos posando para fotos em frente aos monumentos. E minha mãe e eu nos apaixonamos pelas barraquinhas de roupas de linho que encontramos por lá.
Viajar em família: para cada maravilha, um perrengue!
Viajar normalmente envolve a realização de sonhos. Mas, e quando estamos falando de sonhos diferentes?
Pois é: entre as maravilhas de viajar em família – viagens belíssimas de trem, as construções históricas, os cannoli saborosos e os sfogliatelle calde – também tivemos alguns perrengues.
Começamos por ele, o primeiro grande destruidor da harmonia de uma viagem: o temido cansaço. Junto da fome, ele é capaz de perturbar a mais bela das férias.

Isso ficou claro no próprio trajeto de ida: saímos do Brasil explodindo de felicidade, chegamos para nossa conexão superanimados, mas o cansaço bateu demais antes de chegarmos no aeroporto de Roma. Então, quando fomos fazer o trajeto de transporte público e andar até a casa que alugamos, já estava todo mundo no limite!
Algo semelhante aconteceu em outros dias, principalmente naqueles em que o itinerário era um pouco mais puxado. Depois de muitos quilômetros andados dia após dia, a dor na perna vence o espírito curioso do turista e não há nada melhor para fazer a não ser ficar parado.
Conforto, diálogo e calma
Fora isso, depois de uns dias, a questão do idioma também começa a ser um ponto, principalmente quando você está cansado e sabe que outras pessoas dependem de você para se comunicar. Dar conta de tantos pedidos, dúvidas, alterações e solicitações pode deixar qualquer um maluco!
Em meio a essa avalanche de sentimentos, o tempo demorado em cada atração, a importância de certos passeios para parte do grupo, a discordância nos trajetos e os eventuais erros de percurso também acabam sendo motivo para discussão.
Nesses perrengues, aprendi que mais vale priorizar o conforto, o diálogo e a calma do passeio, do que as quantidades de visitas e a diminuição de custos.
Combinados: o segredo para viajar em família
Para evitar mais confusões, com o passar da viagem foram sendo estabelecidos alguns combinados para que ninguém ficasse sobrecarregado.
Logo nos primeiros dias, acertamos um rodízio de pessoas que se responsabilizariam por guiar o trajeto, resolver burocracias, selecionar opções de lugares para comer e fazer a comunicação. Ainda, também combinamos que ao chegar em um restaurante, cada um anotaria seu pedido no bloco de notas de um só celular.
Aliás, uma coisa que ajudou muito na questão relativa aos perrengues foi munir todos os viajantes de elementos que permitiam sua respectiva autonomia.
Isso quer dizer que todos tinham acesso às chaves e códigos da casa, um celular com chip e acesso à internet, bem como um cartão com dinheiro, emitido de uma plataforma financeira global, como a Wise.
Desse jeito, caso alguém quisesse sair do passeio mais cedo ou encontrar o grupo mais tarde, podia fazer isso de maneira segura. Como tínhamos todos acesso aos itinerários do dia e às indicações de horário, era possível que cada um de nós fizesse o que fosse mais confortável.
Por fim, também nos organizamos muito bem quanto ao aspecto financeiro. Além de cada um reunir a quantidade necessária de dinheiro para viagem, também mantivemos um aplicativo para fazer a gestão dos nossos gastos. Assim, as contas compartilhadas (como em restaurantes e mercados) eram posteriormente divididas e registradas lá.
Qual será a próxima?
Olhando de retrospecto, vejo que nossa viagem foi inesquecível tanto pelas partes boas, quanto por aquelas nem tão boas assim. Essas últimas, certamente, nos ensinaram muito sobre como colocar em prática uma viagem desse tamanho, de maneira que todos se sintam felizes e satisfeitos.
Hoje, a cada vez que a gente se reúne, falar sobre a Itália e nossos dias lá é nossa atividade preferida. E nessas lembranças, os contratempos aparecem mais como um bom motivo para dar risada. Afinal, a pergunta mais recorrente desde que pousamos no Brasil é: quando vamos viajar de novo?
Definitivamente, seja com maravilhas ou perrengues, viajar em família é incrível!
*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Euro Dicas.