Estudar fora do Brasil era algo que eu desejei e planejei muito, é verdade. Mas, nesses planos não havia passado pela minha cabeça que a solidão acadêmica em outro país poderia ser algo que impactaria minha experiência em vários sentidos: tanto no bom quanto no ruim.
Quando a gente quer muito uma coisa, raramente pensamos nos pontos negativos
Não há como negar: nos vários deslumbres que a gente tem enquanto estamos prestes a realizar um sonho, raramente pensamos naquilo que pode dar errado – ou melhor, dificilmente nos atemos a essas possibilidades. Foi assim comigo.
Durante todo o período em que me organizei para estudar fora do Brasil pela primeira vez, eu só pensava nas coisas boas que iam me acontecer com aquela experiência.
Me sentia assistida em vários sentidos, tinha certeza de que estava indo para uma das melhores universidades na França e que eu poderia dar um salto em minha investigação por lá. A solidão acadêmica em outro país enquanto um problema era a última coisa que poderia passar pela minha cabeça.
Tem uma parte boa na solidão acadêmica em outro país
De fato, os primeiros meses do meu primeiro séjour (período) em Paris foi realmente um sonho. Era o momento de me instalar, me localizar na cidade, conhecer meu laboratório, me inscrever nas bibliotecas e arquivos que eu iria pesquisar e tudo o mais.
Uma vez feito tudo isso, comecei de fato a me sentir sozinha academicamente, mas eu não achava isso ruim. Tudo era ainda muito novo, então mergulhei no trabalho e ficava longas horas dentro da biblioteca. Aquele se tornou um espaço seguro e eu sentia que estava avançando nas minhas tarefas.

Assim descobri uma das partes boas da solidão acadêmica em outro país: o foco! Quando eu cheguei na França, não havia muitas distrações e eu acabei me entregando totalmente à minha pesquisa de mestrado e, depois, de doutorado.
Passei muito tempo pensando nelas, me animava com as tarefas e me sentia totalmente inspirada!
Desafios da solidão acadêmica em outro país
Talvez, a solidão seja algo muito singular ao trabalho acadêmico, ou ao meu modo de fazer esse trabalho. Por exemplo, sei que sozinha eu fico mais concentrada, as leituras rendem mais, os insights vêm a todo momento e a escrita flui.
Contudo, levar a solidão acadêmica enquanto estilo de vida é um tanto insustentável a longo prazo, tanto pelo fato de sermos seres sociais e precisarmos de conexão, quanto pela característica do trabalho científico, que é construído coletivamente.
A insegurança frente a outro idioma e outros costumes
O problema é que conseguir criar redes sólidas de trabalho em outro país pode ser um tanto desafiador.
Há casos em que o pesquisador possui um estudante nativo que faz as vezes de padrinho ou até mesmo relativa proximidade com o laboratório que vai integrar, mas isso não é uma regra. Portanto, dificilmente os brasileiros que vão para França conseguem fugir da solidão acadêmica.
Em meu caso, por exemplo, nos dois primeiros séjours que eu tive, eu não conhecia ninguém. Foi preciso circular por vários espaços para conhecer pesquisadores que trabalhavam com um tema parecido com o meu, me organizar para participar de eventos e, mais que isso, interagir com meus pares nessas ocasiões.
Se isso pode parecer um tanto natural à primeira vista, o fato de ter que fazer isso em outro idioma e outro contexto cultural muda tudo. Às vezes, te falta aquela palavra certa, você se embola nas explicações, não entende certos sinais e se confunde com os costumes. E às vezes, é tanta insegurança envolvida que você entra muda e sai calada de aulas, reuniões e conferências. Péssimo!
Dá para encontrar um equilíbrio?
Inegavelmente, a solidão vai deixando de ser uma realidade conforme você vai se integrando nos lugares e conhecendo mais gente. No fim, percebi que uma vez integrada, me surgiu outro desafio: equilibrar os momentos sozinha com momentos coletivos.
Me sentia muito angustiada ao ver a desproporção entre os meses que me restavam na França, coisas que eu tinha que fazer sozinha e coisas que eu podia fazer com outras pessoas. Dar conta da consulta de arquivos, redação de artigos, organização de eventos e seminários – algo que faz parte da rotina de qualquer acadêmico – se tornou extremamente desgastante face ao fator tempo.
Em meu segundo séjour na capital francesa, por exemplo, eu sentia uma necessidade de criar essa solidão acadêmica para que eu conseguisse produzir. E isso significou declinar eventuais seminários, conferências, grupos de estudos e reuniões.
Contornando a solidão acadêmica
Hoje, percebo que não dá muito para agir nos extremos: é preciso encontrar um equilíbrio entre o individual e o coletivo. De qualquer forma, sinto que minha experiência fazendo pesquisa em outro país me ajudou a criar estratégias para contornar a parte ruim da solidão acadêmica e explorar seu aspecto bom.
A primeira coisa, sem dúvidas, é ter domínio da língua. É preciso conseguir se comunicar com seu supervisor e seus companheiros de laboratório, mas também saber apresentar suas pesquisas e entrar em eventuais debates.

Chegar bem-preparado (de preferência, com uma proficiência em francês) é uma boa opção, mas buscar espaços voltados para estrangeiros também pode ser de grande ajuda.
Participei muito de ateliês de conversação e aulas que estimulavam os estudantes de outro país a se habituarem à comunicação científica em outro idioma.
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A segunda estratégia é se esforçar para formar suas redes e tentar contatos logo antes de sua chegada. Nessas tentativas, é possível que você fique sabendo de grupos online, listas de e-mails, reuniões periódicas e representantes discentes que podem facilitar sua integração.
A terceira estratégia, que na minha opinião é uma das melhores formas de atingir o equilíbrio entre o trabalho individual e o coletivo, é propor, organizar e participar de eventos. De um lado, isso vai te obrigar a preparar uma apresentação de sua investigação, em um momento mais sozinho.
De outro, será uma oportunidade para entrar em contato com outros estudantes e professores (inclusive aqueles da mesma nacionalidade que a sua).
Por fim, a grande estratégia envolve uma boa dose de organização: tanto das etapas da sua pesquisa e do tempo que será dedicado a cada uma delas. Fazer um bom cronograma é o segredo para aproveitar todos os benefícios (e escapar das partes ruins) da solidão acadêmica em outro país.