Fazer um doutorado na França é uma oportunidade para aprofundar a carreira acadêmica em instituições de excelência e ampliar as possibilidades profissionais na Europa.

Estudante de doutorado na França participando de aula em uma universidade francesa
Índice Como fazer doutorado na França? Estrutura do doutorado na França Como é o processo seletivo para o doutorado na França? Quanto custa um doutorado na França? Existe bolsa para doutorado na França? Como fazer um doutorado sanduíche na França? É possível fazer um doutorado à distância? Precisa falar francês para fazer doutorado na França? Vale a pena fazer doutorado na França? Perguntas frequentes sobre doutorado na França

Neste artigo, você vai descobrir como funciona o processo de inscrição, quais documentos são necessários e ainda conferir dicas práticas para facilitar sua jornada. Confira!

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Como fazer doutorado na França?

Para fazer um doutorado na França é necessário ter um diploma de mestrado ou um nível equivalente, conforme a lei francesa. No caso de títulos estrangeiros, é possível pedir a validação do diploma na França.

Com essa equivalência, o próximo passo é se inscrever em uma instituição autorizada a conceder o título, as chamadas Écoles Doctorales (ED). Nem todas as universidades na França oferecem essa estrutura. Por isso é importante consultar o anuário de escolas doutorais.

Importante saber que o doutorado é o mais alto diploma de ensino superior. Ele consiste na realização de uma pesquisa que, após 3 anos, deve ser defendida e apresentada no formato de uma tese, perante uma banca formada por pessoas detentoras do título de doutor ou doutora.

Experiência de brasileiras doutorandas na França

Para enriquecer este conteúdo, contamos com a experiência de duas brasileiras que já viveram a rotina de doutorado na França.

Ana Carina Sabadin, doutora em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), realizou um doutorado sanduíche de seis meses no Laboratoire Eau, Environnement et Système Urbains, da École des Ponts ParisTech.

Tamiris Tinti Volcean, doutoranda em Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), passou oito meses em Paris, vinculada à Faculté des Lettres da Université Paris-Sorbonne.

Estudante que foi fazer doutorado na França.
Tamiris fez parte de seu doutorado na famosa Université Paris-Sorbonne. Foto: Tamiris Tinti Volcean

Ambas reconhecem a importância de Paris e da França em seus respectivos domínios de estudos. Ana nos contou como desde a graduação ela escuta que:

“Paris é a esquina da sociologia, que muitos pesquisadores e pesquisadoras passaram, estão passando e vão passar por aqui. É como se fosse um ponto de encontro de teorias, temas de pesquisa”.

Tamiris, por sua vez, afirma que fazer o estágio de doutorado sanduíche na Université Paris-Sorbonne sempre foi um dos seus maiores objetivos acadêmicos.

Estrutura do doutorado na França

É a Escola Doutoral que garante a estrutura científica necessária para que o candidato desenvolva sua tese de forma personalizada. Para isso, o estudante conta com diferentes recursos, como:

  • Orientação de um ou mais professores que acompanham toda a pesquisa;
  • Integração em uma Unité de Recherche, onde realiza seus estudos e participa de atividades de laboratório;
  • Acesso a módulos de Enseignements e Séminaires, equivalentes às disciplinas no Brasil.

Além disso, um comitê de acompanhamento atua para facilitar a inserção profissional do futuro doutor, incentivar a internacionalização e promover a troca com outros pesquisadores. É comum que os doutorandos sejam estimulados a:

  • Participar de encontros científicos nacionais e internacionais;
  • Publicar suas produções acadêmicas;
  • Seguir um plano de formação adaptado ao seu projeto.

Apesar desse suporte, estudantes estrangeiros costumam relatar desafios de integração. Tamiris, por exemplo, contou que, mesmo sendo bem recebida, seu círculo de amigos era formado principalmente por brasileiros e outros intercambistas.

De modo geral, a França se mostra aberta às trocas científicas internacionais. No entanto, segundo Tamiris, ainda existe certa resistência em tratar pesquisadores estrangeiros em pé de igualdade. Eu, Bárbara, ao longo de meu doutorado na França, também tive essa mesma impressão e experiência.

Interdisciplinaridade

Muitas Escolas Doutorais na França também valorizam o ensino interdisciplinar. No caso de Ana, o laboratório em que esteve vinculada, o Leesu, é um dos 12 da sua École e todos compartilham um mesmo objetivo: refletir sobre os desafios da transição energética no país.

O grupo que integrou reunia pesquisadores de áreas diversas, como sociologia, antropologia, agronomia e física, mostrando como a colaboração entre disciplinas é parte essencial da experiência acadêmica.

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Essa integração também acontece nos espaços físicos. Muitos laboratórios dividem um mesmo campus para facilitar o contato entre instituições e estudantes. Um exemplo é o Campus Condorcet, em Aubervilliers, no norte de Paris, que abriga laboratórios da Sorbonne Nouvelle e da École des Hautes Études en Sciences Sociales.

Como é o processo seletivo para o doutorado na França?

Embora o doutorado também seja uma pós-graduação, seu processo é totalmente diferente do mestrado francês.

Tanto para mestrado quanto para doutorado, a inscrição deve ser feita via Campus France, a agência oficial do governo francês responsável pela promoção do ensino superior na França. A Campus France é o melhor canal para obter informações atualizadas sobre todas as etapas burocráticas do processo seletivo para doutorado.

O processo seletivo para o doutorado na França é dividido em três etapas principais: busca nas Escolas Doutorais, contato com possíveis orientadores e admissão. A seguir, explicamos cada uma delas.

1. Busca nas Escolas Doutorais

O primeiro passo para se inscrever em um processo seletivo de doutorado na França é uma busca no anuário de Escolas Doutorais ou Unidades de Pesquisa. Lembre-se que você pode inserir filtros com os temas e áreas do conhecimento que te interessam, para personalizar os resultados.

Nesse anuário, são apresentados também os pesquisadores (e seus respectivos contatos) das escolas e unidades de pesquisa que são aptos a dirigir uma pesquisa de doutorado, isto é, que são titulares de uma Habilitation à Diriger les Recherches (HDR).

2. Contato com professores

Em seguida, você deve entrar em contato com o professor com quem você gostaria de trabalhar. Veremos adiante, com o caso da Ana e da Tamiris, em seus respectivos doutorados sanduíche, que ainda que o processo seletivo seja diferente, essa parte de contato com os professores é bastante semelhante.

Ana ressalta que houve um esforço, uma mobilização de uma rede anterior à sua vinda, para conseguir contato com o pesquisador do interesse dela.

Caso você não conte com uma rede de contatos que possa intermediar essas primeiras conversas, o ideal é que você envie um e-mail apresentando-se. Junto, envie também um pequeno resumo do projeto que você pretende desenvolver com ele.

Foi o que Tamiris fez. Para ela, a escolha da universidade de destino e de seu co-orientador faz parte de uma das partes mais importantes e decisivas do processo seletivo.

Ela conta que é preciso avaliar as opções com calma e pensar estrategicamente, sem desistir de primeira caso receba uma negativa.

“Eu mesma demorei a identificar um co-orientador que se adequasse à minha lista de pesquisa e, neste período de busca, tentei entrar em contato com outros nomes, que não foram receptivos à minha proposta. Persistir é fundamental para receber a tão desejada carta de aceite”, completa Tamiris.

Estabeleça um bom contato com o possível orientador

Caso o orientador se interesse pelo seu tema, peça mais instruções sobre como deve ser o projeto completo que você deve enviar a ele. Normalmente, ele deve ter de 2 a 3 páginas e apresentar os objetivos, a metodologia, a base teórica, as etapas do processo, o que você pretende provar, dentre outros detalhes.

De modo geral, o orientador escolhe quem quer orientar. Então, para você ter mais chances de ser aceito, esteja aberto a mudar de tema e a aceitar sugestões.

Uma vez que seu futuro orientador de pesquisa concordou com o projeto enviado, você deve entrar em contato com o responsável da equipe de pesquisa da École escolhida, que vai lhe orientar quanto aos procedimentos de inscrição.

Nesse sentido, é comum ser solicitado, além do projeto de pesquisa, a documentação de sua formação universitária e um atestado de conhecimento da língua francesa.

A depender do caso, também são solicitadas cartas de recomendação e de motivação. Depois disso, é necessário aguardar que a escola doutoral valide o procedimento para que você possa se inscrever.

3. Admissão

Uma vez admitido na École Doctorale, o estudante deve realizar o procedimento Campus France para obter um visto de estudante – com exceção daqueles com nacionalidade europeia.

Caso você for receber algum tipo de bolsa, a Universidade pode emitir uma Convention d’Accueil. Isso configura uma mudança em seu status, o que significa que você deverá solicitar um visto de pesquisador e, portanto, estará dispensado do procedimento pré-consular Campus France.

É importante salientar que na França algumas escolas doutorais exigem que o aluno seja financiado, ou através do governo de seu país, ou com as bolsas de estudo oferecidas.

Isso acontece porque o tempo de pesquisa de doutorado impossibilita que uma pessoa tenha outro trabalho além deste. A depender do seu visto, aliás, pode ser que você não possa assumir outro trabalho na França. Dessa forma, geralmente, todas as formações na área de exatas exigem um financiamento.

A admissão pode demorar um pouco

Com tantas etapas, documentos e necessidade de respostas, esse processo costuma ser um pouco demorado. Por isso, se sua ideia é fazer doutorado na França, comece a se preparar desde já.

Lembre-se que o calendário universitário francês começa em setembro. O ideal é iniciar os contatos com os professores a partir de maio ou junho.

Quanto custa um doutorado na França?

A partir de 391€ a 400 por ano, considerando o ano universitário 2025-2026, de acordo com o Campus France. Todas as escolas doutorais da França estão diretamente ligadas às Universidades (Universités) e, portanto, possuem parte de suas despesas custeadas pelo governo.

Sendo assim, um doutorado na França não é inteiramente gratuito, mas as taxas de matrícula são muito baixas em universidades públicas. Veja a tabela abaixo:

CursoUniversidadeValor da taxa de doutorado
Letras e línguas Université Paris Cité391€ + 105€ / ano de (Contribuição de Vida Estudantil e de Campus)
Saúde públicaUniversité de Lyon391€ + 105€ / ano de (Contribuição de Vida Estudantil e de Campus)
DireitoUniversité de Bordeaux397€ + 105€ / ano de (Contribuição de Vida Estudantil e de Campus)
EconomiaSciencesPoIsenção total (0 €) + 95-105€ / ano de (Contribuição de Vida Estudantil e de Campus)
Ciências do homem e da sociedadeUniversité Charles-De-Gaulle Lille 3397€ + 105€ / ano de (Contribuição de Vida Estudantil e de Campus)
Valores referentes ao ano letivo de 2025.

O valor do doutorado na França é válido tanto para estudantes europeus quanto não-europeus. Desde 2018, com a iniciativa Bienvenue en France, anunciada pelo então primeiro-ministro Édouard Philippe, ficou definido que apenas os doutorandos estrangeiros de países fora da União Europeia não estariam sujeitos às taxas de matrícula diferenciadas.

No entanto, a graduação para estudantes não europeus possui uma taxa de 2.770€ por ano e para estudantes europeus 170€. Já o mestrado 3.770€ para estudantes não-europeus e 243€ para estudantes europeus.

Outros gastos com o doutorado

É preciso considerar o custo de vida no país ao programar seu estudo de doutorado na França. Esse valor pode variar bastante de cidade para cidade e estilo de vida. Morar em Paris, assim como em outras cidades universitárias, costuma ser caro.

Em 2025, morar na França ao longo de sua formação custa aproximadamente 1.126€ por mês, englobando moradia, alimentação, transporte, comunicação e despesas básicas.

Já o gasto médio em Paris de um estudante certamente vai ser maior, podendo chegar a 1.500€, mesmo considerando o aluguel de uma residência universitária, refeições em restaurantes universitários, compras no mercado, museus, transporte e chip de celular com internet.

Existe bolsa para doutorado na França?

Sim, há bolsas de doutorado na França. Um destaque é o programa Bolsa TerrEE, oferecido pela Embaixada da França no Brasil, destinado a estudantes brasileiros com pesquisas em ecologia, ciências ambientais, ciências da natureza e saúde.

A bolsa cobre passagem aérea, seguro saúde, isenção de taxas de inscrição e oferece um valor mensal entre 1.704€ e 1.770€, dependendo do tipo de matrícula (com ou sem cotutela, quando a inscrição plena do doutorando é feita em duas universidades de países distintos).

Financiando seu doutorado na França

É comum contar com diferentes fontes de financiamento para realizar um doutorado na França. Dependendo da sua situação, a Escola Doutoral, órgãos governamentais, empresas ou até a União Europeia podem apoiar sua pesquisa.

Se estiver procurando financiamento, o primeiro passo é verificar se a École Doctorale exige um valor mínimo para inscrição. Essa informação está disponível no anuário das Escolas Doutorais.

Também consulte a escola, seus laboratórios e unidades de pesquisa para saber se há editais abertos com possibilidade de financiamento por contrato para temas específicos.

Estudar um curso fora abre muitas portas na Europa.
A Sorbonne, em Paris, é referência para estudantes de doutorado, incluindo aqueles que buscam financiamento e programas a distância.

Além disso, vale explorar o catálogo do Campus Bourses, onde estão disponíveis bolsas oferecidas por escolas, empresas, agências governamentais e universidades brasileiras.

Por fim, é recomendável consultar a Associação Nacional de Doutores, que publica anualmente um guia completo sobre financiamento de doutorado na França.

Tipos de financiamento de doutorado na França

Os financiamentos via contrato podem ser feitos com a sua própria Escola Doutoral, um órgão de pesquisa francês (como CNES, CNRS, CEA, entre outros) ou com a Agence Nationale de Recherche (ANR). O valor bruto, em 2025, é de 2.200€ por mês e possui a duração de três anos, com possibilidade de renovação.

Também não é raro que os doutorados sejam financiados por uma empresa, via contrato de trabalho particular. Isso é permitido graças à ferramenta de Convention industrielle de formation par la recherche (CIFRE), em parceria com a Association Nationale de la Recherche et de la Technologie (ANRT).

Os valores para essa modalidade seguem o salário-mínimo bruto anual fixado pelo ministério. Em 2025, o valor do salário anual bruto é de 26.400€ e para 2026, o valor será 27.600€.

Por fim, você também pode optar por um financiamento de um doutorado na França através do programa Marie Sklodowska-Curie. Voltado a estudantes estrangeiros inscritos no doutorado em uma instituição de ensino superior europeia que façam parte de um convênio entre, no mínimo, três instituições de três países diferentes, o financiamento pode ser de até 36 meses.

Financiamento no Brasil

No Brasil, agências de fomento federais, como a CAPES ou CNPq, bem como fundações de pesquisa estaduais, oferecem opções de financiamento para sua pesquisa doutoral. Nessa modalidade, o financiamento mais comum é o doutorado sanduíche, no qual você passa um período em outro país, que dura de 6 meses a 1 ano, realizando uma parte de sua pesquisa.

Tanto a Ana quanto a Tamiris fizeram seus respectivos doutorados através de um edital de bolsas de internacionalização do programa CAPES-PRINT. Falaremos de detalhes do processo seletivo mais abaixo, mas, segundo Ana, a partir do resultado, a universidade selecionou os discentes a partir de áreas temáticas.

Como fazer um doutorado sanduíche na França?

Para fazer um doutorado sanduíche na França, também chamado de estágio de pesquisa, é preciso buscar um financiamento, e cumprir com alguns requisitos, dentre os quais:

  • Possuir uma proficiência avançada em língua francesa;
  • Conseguir uma carta de aceite na Universidade de destino;
  • Formular um projeto de pesquisa;
  • Ter a validação desse projeto pelo orientador do exterior.

Além disso, saiba que para solicitar esse estágio de pesquisa no exterior, você precisa ter sido aprovado em um processo seletivo de doutorado em uma universidade brasileira. Da mesma forma, a defesa de sua tese deve ser realizada no Brasil.

Portanto, se você tem interesse em realizar seus estudos de doutorado da França, a opção de se inscrever diretamente no país não é a única. Nesse sentido, apesar de concorrido, o doutorado sanduíche é uma ótima ideia e possui cada vez mais adeptos, principalmente pelas boas condições de financiamento.

Financiamento do doutorado sanduíche

A candidatura ao doutorado sanduíche vai depender muito de qual é sua forma de financiamento. Inclusive, obter essa subvenção é exatamente o primeiro passo que você deve dar, caso queira fazer um doutorado sanduíche na França.

Ainda que nos últimos anos o número de bolsas desse tipo tenha diminuído, essas iniciativas a favor da internacionalização dos pesquisadores e pesquisadoras do Brasil ainda existem.

A busca pelo financiamento, bem como o processo seletivo do doutorado sanduíche, é cansativa e burocrática, no entanto, ela certamente vale muito a pena. Isso porque ele cobre todo ou pelo menos grande parte de seus custos com a viagem, como:

  • Passagem aérea;
  • Visto;
  • Seguro saúde;
  • Auxílio instalação, entre outros.

Isso sem contar as mensalidades que você recebe ao longo do período de seus estudos, que permitem uma manutenção bastante confortável no país estrangeiro. Para que você tenha uma ideia, os valores de bolsa para doutorado sanduíche no exterior são a partir de 1.300€ mensais.

Já um doutorado sanduíche na França, as bolsas mensais normalmente variam entre 1.300€ e 1.700€, com benefícios adicionais para cobrir despesas essenciais.

Veja abaixo quais são as opções de financiamento para doutorado sanduíche na França.

Doutorado sanduíche na França com fundações de pesquisa estaduais

Uma vez aprovado no processo seletivo de doutorado em uma universidade brasileira, você pode solicitar o financiamento de sua pesquisa para alguma fundação de pesquisa estadual. No Estado de São Paulo, por exemplo, temos a FAPESP.

Se aprovado, a fundação em questão vai financiar sua pesquisa no Brasil. Considerando que os cursos de doutorado no país costumam durar em média 4 anos, esse será o período em que você ganhará o financiamento em questão.

Paineis de informação sobre doutorado na França, em uma Universidade.
O Campus Condorcet é um lugar que reúne vários brasileiros em doutorado sanduíche. Foto: Bárbara Ábile.

Esse financiamento da pesquisa no Brasil, por sua vez, te dá acesso a fazer uma segunda solicitação: o financiamento da pesquisa em outro país, com a duração de 6 meses a 1 ano. Para que a fundação aprove essa segunda solicitação, é necessário que você:

  • Esteja há mais de um ano com sua pesquisa sendo financiada no Brasil;
  • Tenha finalizado todas ou a maioria das disciplinas de doutorado no Brasil;
  • Obtenha o aceite de um professor de uma universidade estrangeira em supervisionar seu doutorado sanduíche;
  • Comprove proficiência no idioma do país escolhido;
  • Redija uma carta de motivação, bem como uma justificativa do país e da universidade escolhidos.

O período de análise da sua solicitação de financiamento para o doutorado sanduíche pode durar até 3 meses.

Doutorado sanduíche na França com agências de fomento federais

Aqui, o passo a passo acaba sendo diferente do primeiro caso que vimos. Assim como as fundações, essas agências também dedicam seu financiamento às pesquisas realizadas no Brasil.

Mas, você não pode solicitar um financiamento ao doutorado sanduíche diretamente com a agência, como nos casos acima: é preciso ficar atento às oportunidades que vão surgindo.

Como acompanhar as oportunidades?

Existem algumas maneiras de você fazer isso. A primeira é acompanhando os editais que o setor de intercâmbios de sua Universidade lança, ou as parcerias de seu Programa de Pós-Graduação.

Uma outra, é investigar se seus professores mais próximos fazem parte de algum tipo de acordo, como os do Comitê Francês de Avaliação da Cooperação Universitária com o Brasil (CAPES/COFECUB).

Por conta da multiplicidade de opções, é difícil prever de que forma é feito o processo seletivo. No entanto, alguns documentos devem sempre ser entregues, como:

  • Justificativa para fazer um doutorado sanduíche;
  • Um professor de uma universidade estrangeira que aceite te receber;
  • Proficiência no idioma do país escolhido.

Processo seletivo do doutorado sanduíche

Vejamos como foi o caso da Ana, que participou de um processo seletivo promovido pela Universidade dela no Brasil, a UFSCar, no âmbito do projeto institucional de internacionalização da CAPES, o CAPES-PRINT.

Ela nos conta que o processo todo consistiu na avaliação de um conjunto de documentos, a saber: “O comprovante de proficiência de francês, nível B2 no mínimo; a carta de acolhimento do supervisor daqui da França; meu currículo; o currículo de meu supervisor no Brasil; o currículo do meu supervisor na França; (…)”.

Ana também precisou apresentar um plano de estudos:

“(…) não apenas apresentando as atividades que eu realizaria aqui na França, mas também justificando a relevância dessa minha vinda, pensando não somente na minha pesquisa, mas na construção de redes para o meu grupo de estudos, para o meu Programa de Pós-Graduação e para a minha Universidade.”

Quando perguntamos sobre o tempo de análise, ela disse que sua universidade publicou o edital da bolsa em abril. No mês seguinte, iniciou-se o processo seletivo, e em junho ela já sabia o resultado da bolsa.

Sobre o processo seletivo, a Tamiris dá a dica de que você não deve esperar a publicação do edital para começar a se organizar, já que normalmente os prazos para conseguir toda a documentação necessária são muito apertados.

Por isso, ela indica pegar como base os últimos editais publicados pela Universidade, correr atrás do exame de proficiência e iniciar o contato com a universidade francesa, visando obter o aceite de um co-orientador. Dessa forma, você já terá tudo em mãos quando a próxima chamada de bolsas sair.

É possível fazer um doutorado à distância?

Sim, é possível fazer doutorado à distância na França, mas isso depende da área e da universidade. Eu, Ana, acho que não é impossível, mas também não é a melhor saída. Tamiris possui uma opinião semelhante:

“Graças às tecnologias (….) acredito que a pesquisa e o ensino remoto podem, de fato, trazer benefícios e viabilizar novas formas de interação acadêmica. No entanto, é inegável que há perdas significativas nesse formato.”

Por isso, ela não optaria por realizar um doutorado à distância. Em sua experiência, ela percebeu que as trocas presenciais entre pesquisadores são essenciais, até mesmo porque a ciência é uma prática coletiva.

Mesmo que ótimos debates possam ser feitos remotamente, para Tamiris, o ambiente colaborativo e as interações espontâneas desempenham um papel central. Eu, Bárbara, concordo com elas.

Vale sublinhar, ainda, que são poucas as áreas e universidades que oferecem a opção de doutorado à distância. As melhores universidades de Paris, por exemplo, exigem presença física do aluno.

Onde fazer um doutorado à distância?

Algumas universidades e instituições na França oferecem programas de doutorado em formato à distância ou híbrido, voltados principalmente para profissionais que precisam conciliar trabalho e estudo, oferecendo maior flexibilidade de horários e menos exigências presenciais. Entre as opções estão:

As dificuldades de um doutorado à distância

Pensando na questão do trabalho, estar longe da Universidade onde você está inscrito é bastante inconveniente.

Isso pode apresentar problemas no nível de consulta a bibliografias específicas, contato com fontes e acesso à base de dados. Ao mesmo tempo, estar longe da Universidade pode dificultar o andamento de seu trabalho e eventuais pesquisas de campo.

É possível estudar online em universidades estrangeiras, mas pode ser complicado conciliar.
Alguns programas de doutorado franceses também oferecem opções online, permitindo que estudantes internacionais acompanhem aulas e pesquisas à distância.

Também é preciso levar em conta que você estará à parte de seu laboratório de pesquisa, bem como de sua equipe de pesquisadores, colegas e orientadores.

Além disso, fazer um doutorado à distância pode complicar sua vida no nível burocrático.

Motivos para não fazer o doutorado à distância

Mesmo que o objetivo final do doutorado seja obter o título de doutor após a entrega de uma tese e o processo de escrita seja possível de se fazer à distância, a formação doutoral não se resume a isso. Lembre-se que é preciso que você frequente alguns seminários, que ocorrem semanalmente.

Após o fim da pandemia de COVID-19 e a volta às atividades presenciais, a opção de acessar esses encontros de maneira remota não existe mais – pelo menos, é o que mostra a vivência dessas doutorandas na França.

Portanto, se você permanece longe, você fica impossibilitado de participar de eventos, grupos de estudos, se envolver em produções coletivas e formar uma rede de contatos. Isso acaba sendo prejudicial, afinal, como Tamiris afirma:

“A troca de ideias, os debates que surgem nas conversas de corredor ou em congressos, tudo isso é insubstituível no processo de criação científica”.

Para ela, as oportunidades de interagir presencialmente com outros pesquisadores foram essenciais para que ela encontrasse um caminho para a escrita da tese dela. A Ana ressalta esses mesmos, explicando que para uma pessoa que faz um doutorado de cotutela e vive circulando entre os dois países, pode funcionar.

“Mas um doutorado inteiro, sem minimamente pisar em um país ou verificar alguns arquivos, frequentar a biblioteca, conhecer seus colegas de laboratório, conhecer supervisor, ter relações próximas e presenciais, poder assistir uma aula, poder circular por eventos e viver a cidade, viver a Universidade… Eu acho que a distância não permite tudo isso”., completa.

Precisa falar francês para fazer doutorado na França?

Sim. Diferente de fazer uma Licence (graduação) ou um Master (mestrado), as exigências para um estudante de doutorado são maiores. Pensando na dimensão da prova de proficiência de francês, os doutorandos devem apresentar, pelo menos, o nível B2 de francês.

Esse foi o caso da Ana. B2 era o nível de proficiência exigido pelo edital através do qual ela conseguiu sua bolsa. Contudo, em alguns casos, o nível C1 pode ser solicitado.

Isso aconteceu com a Tamiris, por exemplo. Pelo fato de ela ser pesquisadora de literatura, a universidade exigiu um nível mais alto de proficiência. Mas, ela relata que conheceu pesquisadores de outras áreas – como exatas e biológicas – que foram aceitos até mesmo com nível B1.

Sala de estudos para estudantes de doutorado na França, em uma biblioteca.
A maioria dos arquivos das bibliotecas, por exemplo, estão em francês. Foto: Bárbara Ábile.

Considerando a dimensão do próprio trabalho de pesquisa, é preciso ter em mente que ela é inevitavelmente mais complexa. O candidato não apenas tem que dominar a língua francesa, mas a metodologia do ensino deles e até mesmo estar familiarizado com algumas teorias.

Além disso, a vida de um doutorando exige que ele circule em ambientes de reuniões científicas, saiba se apresentar e explicar seu trabalho de pesquisa, além de argumentar e adentrar em certos debates.

É por isso que o doutorando na França encontra uma série de facilidades na cidade que incentivam a prática do idioma. Por exemplo, a Bibliothèque Nationale de France, além de contar com um espaço reservado somente para pesquisadores em sua estrutura, também oferece ateliês de prática oral e escrita da língua.

Dentro e fora da Universidade

A Ana colocou, ainda, um outro ponto: “Apesar de algumas universidades, alguns laboratórios, palestras, aulas serem ministradas em inglês, a gente não circula só nesses espaços né?”.

Ela completa dizendo que é importante vir com uma bagagem de francês e com a disposição de aprender a língua, para que você consiga aproveitar todas as experiências. Tamiris tem a mesma opinião:

“Com certeza, o domínio da língua é imprescindível para a pesquisa e para a comunicação com outros pesquisadores, professores e cidadãos de modo geral. Só assim podemos nos integrar à cultura francesa, uma vez que o francês tem muito apego pelo idioma e, muitas vezes, se recusa a compreender e dialogar em outras línguas”.

Por isso, se você tem planos de fazer seu doutorado na França, comece desde já sua rotina de estudos. Assim, se depois de concluir o doutorado você tiver planos de continuar estudando no país, é possível postular para um pós-doutorado na França sem muitas dificuldades.

Vale a pena fazer doutorado na França?

Sim, vale muito a pena fazer doutorado na França. Essa é a opinião de nossas duas entrevistadas, que veem essa experiência como algo ao mesmo tempo enriquecedor e desafiador.

“É desafiador, porque temos a questão do idioma, da comunicação, a construção de redes é algo difícil, parece que há barreiras que são culturais… esse é o desafio maior que eu venho enfrentando”, afirma Ana.

Por outro lado, ela afirma que “aqui parece que tudo acontece. Tem pesquisadores e pesquisadoras do mundo inteiro, então você acaba tendo contato com outras bibliografias, outras culturas cotidianamente.

No vídeo do Vinícius Aranda, o estudante compartilha um pouco sobre essa oportunidade na França, detalhando a duração da bolsa, o tipo de financiamento e o local em que ficará durante a estadia. Confira:

Tamiris, por sua vez, ressalta que valeu demais a pena e que apesar dos inúmeros desafios, como a adaptação a certos aspectos da cultura francesa e à vida acadêmica local, a experiência proporcionou momentos verdadeiramente inesquecíveis.

Ela ainda afirma que o acesso a uma infraestrutura tão robusta quanto aquela que se encontra na França é bastante importante para se sentir, de fato, uma pesquisadora. Ela também menciona um momento importante desse processo, que eu, Bárbara, também vivi ao longo de meu doutorado na França:

“Um dos mais marcantes foi quando entrei na Bibliothèque Nationale de France (BnF) pela primeira vez com meu cartão de pesquisadora. Sentar em uma das mesas, cercada por um acervo vasto e extraordinário, me fez sentir, pela primeira vez, como uma pesquisadora de verdade. Ali, me reconheci enquanto tal, com todas as responsabilidades e conquistas que esse título carrega.”, completa Tamiris.

Perguntas frequentes sobre doutorado na França

Algumas perguntas acabam sendo frequentes quando o assunto é doutorado na França. Veja, abaixo, a resposta para algumas delas.

Entre 3 e 6 anos, mas isso vai depender das disciplinas, da pesquisa e do tempo de financiamento que você possui.

Quando o assunto é doutorado sanduíche, o tempo é menor, podendo variar entre 6 meses e 1 ano.

Você pode buscar as bolsas disponíveis para financiar seu doutorado na França em sua própria Escola Doutoral ou em algum órgão de pesquisa francês como CNES, CNRS e o CEA, por exemplo. Também é uma opção buscar bolsas de alguma empresa, via contrato de trabalho particular.

No Brasil, você pode contar com financiamentos privados, provenientes das Fundações de Amparo à Pesquisa, ou por editais específicos em sua Universidade brasileira.

O primeiro passo é verificar se você cumpre com os critérios de eligibilidade, algo que pode ser consultado via Campus France. Após isso, entre em contato com alguma instituição francesa de seu interesse que participe do programa. É ela quem indicará os documentos necessários para a inscrição, e vão encaminhá-las ao Campus France.

A seleção é realizada pelo Ministério da Europa e dos Assuntos Estrangeiros, cuja avaliação é feita com base em critérios de excelência – também disponíveis no site mencionado acima.

Pronto para dar o próximo passo na sua carreira acadêmica? Reúna sua documentação, aprenda o francês, organize suas finanças e inicie sua jornada rumo ao doutorado na França. Boa sorte e sucesso na sua preparação!