Quando decidimos nos instalar em um novo país, encontrar trabalho está no centro das preocupações. Como diz o simpático ditado francês: on ne peut pas vivre d’amour et d’eau fraîche (ninguém vive só de amor e água fresca). É bem verdade, não é? Mas como então conseguir trabalhar na França e ir dormir em paz com as contas do mês?

Neste artigo eu trago um pouco sobre a minha experiência na França, onde vivo há dois anos. Não existe fórmula, nem CV mágico, mas essas dicas podem te ajudar a encontrar uma oportunidade e trilhar seu caminho profissional à la française. Vamos lá:

Como trabalhar na França?

Antes de tudo, vale analisar os seus objetivos e o que está disposto a fazer. Se você tem uma formação acadêmica no Brasil e deseja continuar no seu ramo de atuação em outro país, isso nem sempre acontece de forma rápida. Você enfrentará a barreira da língua e o fato de competir diretamente com os locais.

Existem, por outro lado, trabalhos que podem não ter a ver com o seu ramo, mas que são viáveis por um período de tempo: au pair, oportunidades em restaurantes, lojas de departamento, etc. Posições como estas muitas vezes aparecem aos montes e nem sempre demandam experiência. Se a situação apertar, as chances de encontrar uma vaga nestas áreas são grandes.

De maneira geral, o passo a passo para trabalhar na França é o seguinte:

  • Prepare o currículo em francês e sem erros. Se possível, peça alguém para revisar;
  • Pesquise por vagas nos sites de emprego na França e ative as notificações de novas oportunidades;
  • Utilize o LinkedIn para buscar vagas e fazer contatos com empresas e profissionais da sua área;
  • Entre nos grupos de emprego na França do Facebook, pois estão sempre publicando vagas por lá;
  • Participe de feiras de emprego.

Empreender pode ser o caminho até chegar lá

Se trabalhar em outra área não é uma opção, por que não virar auto-entrepreneur (microempreendedor) e oferecer os seus serviços? Foi o que eu fiz até encontrar a oportunidade ideal.

O processo de abertura de empresa na França é simples e pode ser iniciado on-line sem tantas burocracias pelo site oficial Auto Entrepreneur (eu ouvi um amém? Sim, as burocracias nos consomem aqui!).

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Montei a minha empresa de criação de texto e copywriting, pensei em uma estratégia de prospecção de clientes e passei a oferecer os meus serviços em português e francês.

Claro, você também precisa pagar impostos e declarar os seus ganhos a cada mês ou trimestre, mas o regime de micro-entreprise (microempresa) funciona de forma mais prática por ser baseado em apenas uma pessoa, que trabalha de modo liberal e independente.

Terreno fértil para a tecnologia e o digital

Se você não é da área da comunicação, mas sim de TI, BI, informática e programação, o terreno é fértil e você pode conseguir clientes facilmente. Isso porque a área da tecnologia da informação e da inteligência artificial cresce muito por aqui e busca assiduamente por talentos.

Outro detalhe que me saltou os olhos foi o imenso número de startups instaladas em Paris: ao todo são 14.000 startups no país, mais da metade delas situadas na capital. Vale fazer um apanhado daquelas que recrutam na área que você tem interesse, para então enviar o CV diretamente pelo site oficial da empresa ou sugerir os seus serviços.

É preciso falar francês para trabalhar na França?

Sim. Antes de passar horas pensando em como montar o seu currículo e quais experiências colocar em evidência, tenha em mente que dominar o idioma é fundamental para trabalhar na França. Alcançar um nível de conhecimento intermediário ou avançado fará com que você se sinta à vontade nas entrevistas de emprego.

Eu já devo ter feito umas 10 entrevistas de emprego por aqui e, na maioria delas, a primeira triagem aconteceu ao telefone, com o responsável do RH. Por isso é importantíssimo colocar como prioridade aprender a língua francesa: sem isso, conseguir emprego, mesmo em serviços fora do seu ramo, pode ser ainda mais complicado. Ter um bom nível de inglês ajuda, claro, mas o francês, aqui, passa na frente.

Como preparar um bom currículo para trabalhar na França?

Notei que na França o modelo de currículo ideal é muito mais conciso e objetivo do que aquele que eu tinha no Brasil. Use os tópicos, negritos, e deixe de lado as frases longas: o ideal aqui é ir direto ao ponto e fazer um modelo minimalista.

Por isso, para cada vaga que enviar o seu CV, customize-o. O trabalho pede conhecimento em um software específico? Se você possuir essa experiência, valorize e destaque esse dado no seu currículo. Leia bem o descritivo da vaga para colocar em evidência aquilo que eles estão pedindo.

Para o design, plataformas gratuitas como o Canva são uma mão na roda: você consegue montar um currículo bonitão sem dificuldade e com isso aumentar as suas chances de trabalhar na França. E lembre-se: envie o currículo em francês.

A tal da lettre de motivation

Na França é muito comum pedirem, além do CV, uma lettre de motivation (carta de motivação). Nada mais é do que um texto onde você vai explicar o que te levou a se candidatar para a vaga, como você se encaixa no trabalho oferecido e as qualidades que tem a oferecer.

Ela funciona como uma apresentação, em formato de carta mesmo, mostrando todo o seu interesse pelo cargo e explicando o porquê. Não precisa ser longa: geralmente três parágrafos dão conta do recado.

Currículo para trabalhar na França

Onde procurar emprego na França?

Se jogue nas redes sociais, como o próprio LinkedIn, e nos sites específicos para buscar emprego. Quando encontrar uma oportunidade que faça brilhar os olhos, não seja tímido: use os filtros do LinkedIn para encontrar o responsável de RH da empresa e mostre o seu interesse ao enviar uma mensagem privada.

Sites de emprego

Entre os sites de busca de emprego que funcionam bem aqui na França estão: Indeed, Welcome to the Jungle e Mister Bilingue. Neste último, o objetivo é encontrar vagas em que a sua língua materna é exigida. Muitas oportunidades de serviço cliente pedem o domínio do português, o que pode fazer ganhar pontos e conseguir trabalhar na França.

Feiras

Ouvir sugestões e saber como você é visto por um nativo é muito importante. Foi somente ao visitar uma feira de emprego voltada para jovens que eu entendi que o meu currículo precisava de algumas modificações. Às vezes pensamos que tudo está perfeito, quando não está.

Sites de empresas

Buscar por vagas diretamente nos sites das empresas também é uma possibilidade. Geralmente, no menu superior ou inferior dos sites, você vai encontrar um campo de “Carreiras” ou “Trabalhe conosco” para cadastrar o seu currículo.

Auxílio via Pôle Emploi

Outra possibilidade é se inscrever no Pôle Emploi, um serviço público que oferece ajuda para quem busca emprego. Para realizar a inscrição é preciso estar com os documentos e visto em dia e ter residência comprovada na França.

Com essa inscrição você é acompanhado na sua busca por emprego e pode contar com ateliers de ensaio para entrevistas, formações gratuitas dependendo do seu caso, e um conselheiro para a busca de emprego. Você terá reuniões com o seu conselheiro todos os meses para te ajudar a realizar a sua vontade de trabalhar na França.

Além disso, com o status de demandeur d’emploi (à procura de emprego), você tem entrada gratuita na maior parte dos museus aqui da França. Sim! Louvre, Château de Versailles, Centre Pompidou, Musée Picasso, tudo de graça. Acho lindo essa possibilidade de adquirir cultura enquanto se busca emprego na França, sem gastar nenhum centavo.

Custo de vida e salário mínimo e médio na França

Se você mora em Paris e arredores, ou mesmo em outras grandes cidades como Lyon e Bordeaux, a vida costuma ser cara. Oui oui, o aluguel é uma das partes mais pesadas, já que o valor médio do metro quadrado na capital varia entre 28€ e 39€.

Assim, o valor de um apartamento de 30 metros em Paris pode chegar a até 1.170 euros mensais. E pode até passar disso, dependendo do estado do apartamento, se já é mobiliado ou recém-reformado. O custo de vida na França depende muito da cidade em que você mora, mas o que faz muitos insistirem nas grandes cidades é a maior oferta de emprego.

Sobre o salário: o que é importante saber

O salário mínimo francês é chamado de SMIC (Salaire Minimum de Croissance). O montante bruto calculado atualmente é de 10,25€ por hora.

Dessa forma, qualquer trabalhador que desempenhe uma função legalmente deve receber, no mínimo, este valor por hora. O SMIC é reajustado anualmente para acompanhar as flutuações da economia e do poder de compra.

A tabela abaixo, disponível no site da administração francesa, mostra o mínimo praticado, bruto (brut) e neto (net), que um empregado maior de idade deve ganhar por mês. Vale lembrar que esse valor é calculado com base de 35 horas semanais. O valor neto pode variar conforme a convenção coletiva a qual a empresa faz parte.

SMIC Montante Bruto Montante Neto
SMIC Hora 10,25€ 8,11€
SMIC Mensal 1.554,58€ 1.231€
SMIC Anual 18.655€ 14.767€

Assim, seguindo a base do SMIC, um trabalhador pode ganhar até 1.231€ neto, ou seja, já descontados todos os impostos e contribuições sociais.

Porém, estes valores alcançam outros patamares a depender do setor, da experiência e dos estudos acumulados. Se considerarmos o salário médio de um funcionário no campo da comunicação e cultura, temos o valor de 2.656€ neto para 2021.

Já para o setor bancário, 3.280€ em média, e profissionais contábeis 2.571€. Essa é apenas uma média calculada pelo órgão Dares, pertencente ao Ministério do Trabalho francês.

Profissões com melhores salários

Entre as profissões mais bem pagas na França estão aquelas ligadas ao setor farmacêutico, químico, bancário e seguradoras.

A boa notícia é que a média salarial da França é uma das melhores em toda a Europa, se comparada a países como Portugal, onde a média salarial é bem inferior, com 740 euros mensais.

Da mesma forma que no Brasil, as empresas são ligadas a convenções coletivas específicas e a remuneração muda conforme a categoria.

Como é a legislação trabalhista na França?

Algo a ter em mente quando se busca trabalhar na França é que aqui existem dois tipos de contrato de trabalho: o CDD e o CDI.

O primeiro, CDD (contrat à durée déterminée) é feito para um tempo determinado de trabalho. Por exemplo, você pode ser empregado por 6 meses, e depois deverá deixar a empresa quando o contrato expirar. Ele é um contrato temporário.

O outro é o CDI (contrat à durée indéterminée), que não possui data de validade para expirar. Dessa forma, a saída de empresa acontece em forma de demissão por parte da empresa ou do próprio empregado.

Carga de trabalho

O limite estipulado por lei é de 35 horas semanais, mas esse limite legal pode ser ultrapassado a depender da comissão coletiva e tipo de trabalho. O tempo de trabalho não pode, contudo, ultrapassar 44 horas semanais.

Proteção social e descontos

Quando você conseguir o seu primeiro trabalho na França e for olhar a sua fiche de paie (folha de pagamento), vai ver uma boa diferença entre os valores bruto e neto.

Isso acontece porque existem muitos tipos de cotizações levadas em conta e descontadas do salário do trabalhador. Entre elas está a sécurité sociale, que viabiliza um sistema de saúde muito completo para quem reside em solo francês. Com o seu número de sécurité sociale (segurança social), você é reembolsado de serviços e consultas médicas, por exemplo.

Além disso, com a securité sociale você recebe cobertura relativa a doenças, maternidade, família, invalidez, aposentadoria e acidentes de trabalho. Todo trabalhador (e mesmo profissionais independentes) têm direito a essa cobertura social completa.

Vale frisar que, quando você é contratado, geralmente também conta com um seguro de saúde pertencente ao seu trabalho, assim como no Brasil. A chamada mutuelle serve para oferecer uma maior base de reembolso em diferentes serviços, complementando o sistema social de proteção francês.

Férias e licenças

Quem trabalha merece descanso: pegar o trem para dar um pulinho no sul da França ou perambular pelos países vizinhos.

Na França, o trabalhador tem direito a 30 dias úteis de férias por ano, totalizando 5 semanas de férias. É diferente do Brasil, onde temos 30 dias corridos, contando sábado, domingo e feriados.

Tipos de licenças

Para licença maternidade, por exemplo, a duração pode chegar a até 16 semanas. Já a licença paternidade conta com 28 dias.

Existe também a licença por motivos familiares, entre eles o casamento, nascimento ou falecimento de um ente, no caso de uma doença enfrentada pela criança, etc. Os tipos são os mesmos do que aqueles praticados no Brasil.

Aposentadoria

Hoje a idade legal para dar início a aposentadoria é de 62 anos, sendo que mais da metade dos trabalhadores encerram as suas atividades entre os 62 e 65 anos. Existem 42 tipos de regimes de aposentadoria, por isso é difícil delimitar todos eles neste artigo.

Estes regimes dependem de cálculos e cotizações diferentes entre si, bem como valores de pensão distintos. Para se informar, o site do Ministério do Trabalho é bem completo.

Startup na França

Como funciona o visto de trabalho francês?

Existe uma grande variedade de vistos para a França para quem pensa em trabalhar no país. O site do governo dedicado aos tipos de visto traz todos eles. Aqui vão os principais e mais conhecidos:

Tipo trabalho de longa duração

Um deles é o visto de trabalho de longa duração, com validade de mais de 1 ano. Neste caso o brasileiro, residente ainda no Brasil, consegue uma proposta de emprego na França e com isso uma carta-convite para trabalhar em território francês.

Tipo férias-trabalho

Outra possibilidade é o visto por meio do programa férias-trabalho na França, temporário e não renovável. Ele permite que jovens entre 18 e 30 anos possam vir para a França e trabalhar durante o período de 1 ano.

Para se aplicar é preciso comprovar certa quantidade de dinheiro para se manter no país até encontrar uma oportunidade. Para este tipo de visto, geralmente pintam oportunidades em restaurantes e trabalhos saisoniers (temporários).

Vale lembrar: se você tem a cidadania europeia, está livre para trabalhar na Europa e, por consequência, na França. Não precisa de visto.

Tipo vida privada e familiar

Existem vistos do tipo vida privada e família, que permitem trabalhar na França. Se o seu marido ou esposa for francês, é seu direito poder vir se instalar no país e trabalhar na França.

Visto deve ser solicitado fora da França

O processo de visto é feito fora da França, por meio do Consulado francês no Brasil. Existem três: um no Estado de São Paulo, outro no Rio de Janeiro e também no Distrito Federal.

No meu caso, tirei o meu visto de vida privada via Consulado em São Paulo e não tive problemas, tudo funcionou rapidamente e em 15 dias pude pegar o meu visto e me mudar para a França.

Porém, uma vez aqui, esteja atento aos processos de renovação de visto: a administração francesa costuma ser bem cri-cri, no bom e velho português.

Guarde bem todos os documentos e papéis, e esteja sempre em comunicação com a prefeitura responsável pelos procedimentos relativos ao seu tipo de visto. Em tempos de pandemia, a demora costuma ser ainda maior.

Já consegui emprego e tenho visto. E agora?

Todas as pessoas que residem na França deve cumprir com obrigações legais como o pagamento de impostos sobre o salário, o que é feito igualmente no Brasil.

Outra questão é preparar o terreno no Brasil para que a sua mudança aconteça sem problemas indesejados. Vale fazer uma procuração de plenos poderes e indicar um familiar próximo para resolver possíveis questões durante a sua ausência.

Com um trabalho dans la poche (no bolso) tudo fica mais fácil. Você vai poder usufruir com mais liberdade da vida francesa, pagar as suas contas sem perrengues e criar, aos poucos, um networking. Não tenha medo de mostrar a cara e a vontade.

Minhas considerações

Tenha paciência. No meu caso, precisei de 2 anos para encontrar uma oportunidade de trabalho bacana, na minha área. Enquanto não acontecia, empreendi e fui conquistando espaço e clientes aos poucos.

Ter uma rede de apoio é super importante: meu marido, que é francês, me ajudou muito nessa imersão cultural e também me deu suporte emocional.

Grupos no Facebook também facilitam essa tarefa: busque por “Brasileiros na França“, “Brasileiras de Paris”, ou substitua o “Paris” pela cidade em que for morar. Tente, aos poucos, criar laços e networking.

Vai rolar estresse e entrevista em francês pelo telefone, tremedeira e suor. Faz parte, mas quanto mais fizer, mais vai pegar o jeito. E quanto mais tentar, maiores as chances de ouvir o seu desejado oui. Bonne chance (boa sorte)!