Se você quer entender o sistema de saúde na França, quais são os planos, os valores, como ele funciona na prática e se ele pode ser utilizado por brasileiros, nosso guia a seguir vai te explicar todos esses pontos. Vamos lá?!

Hospital em Paris
Índice Como funciona o sistema de saúde na França? Quem tem acesso ao sistema de saúde na França? O atendimento do sistema de saúde na França é gratuito? Benefícios para estudantes e pessoas com baixa renda Passo a passo para se inscrever no sistema de saúde na França Como marcar uma consulta? O sistema de saúde na França é bom? Perguntas frequentes

Como funciona o sistema de saúde na França?

O sistema de saúde garante acesso amplo e estruturado aos cuidados médicos ao combinar gestão pública, financiamento solidário e a atuação de serviços públicos e privados.

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Segundo a definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), um sistema de saúde corresponde ao conjunto de organizações, instituições, recursos e profissionais cujo objetivo é promover, proteger e recuperar a saúde da população.

Na França, esse sistema funciona a partir da articulação entre cinco grandes grupos de atores:

  • Prestadores de serviços de saúde, como médicos, enfermeiros, hospitais e clínicas;
  • Produtores de bens e serviços de saúde, incluindo a indústria farmacêutica e de equipamentos médicos;
  • Instituições públicas, responsáveis pela regulação, organização e fiscalização do sistema em diferentes níveis;
  • Financiadores, como o seguro público obrigatório e os planos complementares (Assurances Maladie e Mutuelles);
  • Beneficiários, ou seja, os residentes que utilizam os serviços de saúde.

Essa estrutura permite que o sistema de saúde na França funcione de forma coordenada, garantindo qualidade no atendimento, controle de custos e ampla cobertura da população, ao mesmo tempo em que mantém liberdade de escolha para o paciente.

Sécurité Sociale

O sistema de saúde na França faz parte da Sécurité Sociale, um conjunto de dispositivos públicos que oferece serviços aos franceses contra os riscos sociais.

Dessa forma, a Sécurité Sociale repousa em um princípio de financiamento solidário. Isso significa que ela se forma a partir da renda de cada um dos seus participantes, que possui um valor subtraído do seu salário.

Há vários tipos específicos de regime de Sécurité Sociale, como os voltados para:

  • Acidentes de trabalho e doenças profissionais;
  • Família, que gere auxílios que buscam atenuar as desigualdades;
  • Aposentadoria na França;
  • Cotizações;
  • Saúde, sobre a qual falamos nesse artigo.

Assurance Maladie

A Assurance Maladie é o pilar do sistema de saúde na França e corresponde ao seguro público obrigatório responsável por financiar a maior parte dos cuidados médicos no país.

Integrada à Sécurité Sociale, ela garante que toda pessoa mora na França de maneira estável e regular tenha acesso a tratamentos médicos essenciais, independentemente da sua renda.

Na prática, a Assurance Maladie funciona como um sistema de reembolso. O paciente realiza a consulta, o exame ou o procedimento médico, e o sistema público reembolsa posteriormente uma parte significativa do valor.

A taxa de cobertura varia conforme o tipo de atendimento, mas geralmente situa-se entre 60% e 70% do valor de referência, podendo chegar a 100% em casos específicos, como doenças de longa duração (affections de longue durée – ALD).

Esse modelo permite que o sistema de saúde na França mantenha um alto nível de qualidade sem ser totalmente gratuito no ponto de uso. O financiamento ocorre de forma solidária, por meio de contribuições sociais descontadas diretamente dos salários e rendimentos profissionais.

Assim, quem contribui mais ajuda a financiar o atendimento de quem precisa mais, reforçando o princípio de igualdade de acesso aos cuidados de saúde.

Outro ponto importante é que a Assurance Maladie não se limita apenas a consultas médicas. Ela também cobre hospitalizações, exames laboratoriais, tratamentos especializados, medicamentos prescritos, acompanhamento de gravidez, cuidados preventivos e até consultas online, que se tornaram mais comuns nos últimos anos.

Saúde pública X saúde privada na França

Diferentemente do que ocorre em países onde há uma separação rígida entre sistema público e sistema privado, o sistema de saúde na França opera de forma híbrida. A saúde pública e a saúde privada não competem entre si, mas atuam de maneira complementar.

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A saúde pública é representada principalmente pela Assurance Maladie, que estabelece as regras de cobertura, define os valores de referência dos atos médicos e assegura o acesso universal aos cuidados.

Já a saúde privada aparece sobretudo por meio das Mutuelles (leia mais sobre elas no tópico dedicado, adiante), os planos complementares que cobrem a parte dos gastos não reembolsada pelo sistema público.

Hospital que integra o sistema de saúde na França
Sistema de saúde na França é “híbrido” e você paga pelo uso, independente se for atendido em estabelecimento público ou privado.

É importante destacar que grande parte dos profissionais de saúde na França atua no setor privado, mesmo quando os atendimentos são reembolsados pela saúde pública.

Ou seja, um médico liberal pode atender em seu consultório particular, cobrar a consulta e, ainda assim, o paciente receber o reembolso parcial ou total via Assurance Maladie e Mutuelle. Isso cria um sistema altamente integrado, no qual o paciente tem liberdade de escolha sem abrir mão da cobertura pública.

Ao analisar a saúde pública e a saúde privada na França, é fundamental compreender que ambas fazem parte de um mesmo ecossistema. Esse modelo misto é justamente o que permite que o sistema de saúde na França combine universalidade, qualidade dos serviços e controle de custos, sendo frequentemente citado como referência internacional.

Quem tem acesso ao sistema de saúde na França?

O acesso ao sistema de saúde na França está diretamente vinculado ao princípio da residência estável e regular no território francês. Diferentemente de sistemas baseados exclusivamente na nacionalidade, o modelo francês prioriza o vínculo administrativo e social do indivíduo com o país.

Isso significa que não é necessário ser cidadão francês para ter acesso à cobertura de saúde, mas é indispensável comprovar que se vive legalmente na França.

Quem pode se inscrever

De forma geral, qualquer pessoa que resida no país de maneira contínua, com visto ou título de residência válido, pode solicitar sua inscrição junto à Assurance Maladie.

Uma vez inscrito, o indivíduo passa a integrar o sistema de seguridade social francês e pode usufruir dos reembolsos previstos para consultas, exames, tratamentos e hospitalizações.

O sistema foi estruturado para garantir continuidade de cobertura, mesmo quando há mudanças na situação profissional do residente. Assim, trabalhadores assalariados, autônomos, estudantes, desempregados, aposentados e pesquisadores estrangeiros podem ter acesso ao sistema, desde que cumpram os critérios administrativos exigidos.

Protection Universelle Maladie

Para pessoas que não exercem atividade profissional ou que se encontram em situação de transição, o acesso pode ocorrer por meio da Protection Universelle Maladie (PUMA).

Esse dispositivo foi criado justamente para assegurar que ninguém fique sem cobertura médica por não estar trabalhando no momento, reforçando o caráter universal e solidário do sistema de saúde francês.

Em resumo, o acesso ao sistema de saúde na França é amplo, mas condicionado. Ele privilegia quem constrói uma relação duradoura com o país, ao mesmo tempo em que estabelece regras claras para visitantes temporários (veja mais adiante).

Brasileiros têm acesso ao sistema de saúde na França?

Depende da situação. Para ter acesso ao sistema de saúde na França é preciso que você resida no país de maneira estável e regular.

Brasileiros residentes na França

Os brasileiros na França possuem acesso ao sistema de saúde no país.

Se você é estudante ou trabalha na França e quer se beneficiar do sistema de saúde francês, basta se inscrever conforme o seu caso (explicamos o passo a passo mais abaixo).

Quarto de hospital na França
O atendimento em hospital não tem nada de especial: costuma ser demorado e, para ser sincero, bastante antipático. Foto: Erik Nardini.

Já se você está sem emprego e está buscando a sua vaga de trabalho na França ou é aposentado, mas ainda assim reside no país de maneira estável e regular, você pode se beneficiar da Protection Universelle Maladie (PUMA).

A PUMA é uma proteção universal responsável por cobrir os gastos de saúde de um indivíduo em caso de necessidade, de maneira contínua.

Brasileiros a turismo na França

Para os brasileiros que vão viajar para França a turismo, cabe dizer que eles não possuem acesso ao sistema de saúde no país. Por isso, é essencial adquirir o seguro viagem para a França antes mesmo de embarcar. Dessa forma, você estará protegido de qualquer imprevisto.

Visitantes de curta duração, como turistas ou pessoas em viagens temporárias, não estão integrados ao sistema público de saúde francês. Nesses casos, qualquer atendimento médico será cobrado integralmente, o que pode resultar em custos elevados, especialmente em situações de urgência ou internação hospitalar.

Para poder “ficar doente em paz” (Deus te livre, mas acontece!) enquanto estiver turistando pela França é fundamental contar com um seguro saúde ou seguro viagem adequado.

Plataformas como a Seguros Promo permitem comparar planos e contratar coberturas compatíveis com as exigências europeias, evitando problemas tanto na imigração quanto em eventuais atendimentos médicos.

Vale lembrar que a entrada na União Europeia está condicionada à comprovação de posse de um seguro com cobertura mínima de 30 mil euros em despesas médicas hospitalares.

Experiência do Erik com uso do sistema de saúde na França

Eu não fiquei doente e nem me acidentei, mas minha mãe sofreu uma leve torção no joelho enquanto estávamos no metrô durante as férias. Eu já contei essa história na minha coluna sobre viajar com idosos no Euro Dicas Turismo, mas, em resumo:

Após o incidente nós fomos para casa, botamos um gelo para ver se resolvia e… nada. Acionei o seguro viagem por telefone, expliquei o caso e, dentro de mais ou menos uma hora, recebi por email as instruções para acessar um hospital na região parisiense.

Fomos até lá, apresentei passaporte, o tal do email recebido e respondi a todas as perguntas da recepcionista. Esperamos – e esperamos muito – pelo menos quatro horas. Sim, é demorado!

Radiografia daqui, receituário dali, voltamos para casa. Algumas semanas após a viagem recebi a fatura por email, encaminhei à seguradora e tudo foi pago, inclusive os medicamentos que comprei na farmácia (a cotação do euro não foi a mais favorável, mas vá lá).

Resumindo: faça o seguro viagem. Não quero que você precise, mas se precisar ele estará lá. E funciona!

O atendimento do sistema de saúde na França é gratuito?

Não, mas você paga pouco para ter acesso a ele. Explicamos melhor!

Plano obrigatório e complementar

A Assurance Maladie tem como objetivo garantir proteção, através do financiamento, às pessoas vítimas de alguma doença. Ela permite que todos os indivíduos se cuidem em função das suas necessidades, independentemente do seu nível de recursos financeiros.

Assim, ela é responsável por cobrir a maior parte dos gastos de saúde dos seus afiliados. O valor a ser coberto é estabelecido conforme o tipo de serviço que você utilizar (veja mais sobre isso no tópico de reembolsos, adiante).

Dentre esses gastos, estão contemplados aqueles direcionados às consultas presenciais e online, hospitalizações, procedimentos cirúrgicos, medicamentos, entre outros. No site da Assurance Maladie é possível ter acesso à tabela detalhada desses valores.

Carte Vitale

A Carte Vitale é um cartão pessoal e intransferível, gratuito, válido em todo território francês. Nele consta o seu nome, foto e número de Sécurité Sociale. Ele atesta a sua inscrição e os seus direitos junto a Assurance Maladie.

O cartão será o meio a partir do qual a Assurance Maladie vai te identificar e reembolsar os gastos com saúde que você teve em cada ocasião.

Com ele, você também adquire o reembolso dos seus gastos de uma maneira mais rápida e não precisa se preocupar com o envio de comprovantes pelo correio, como era feito anteriormente.

Como solicitar a Carte Vitale?

Os franceses devem solicitar a sua primeira Carte Vitale a partir dos 15 anos. Já os estrangeiros podem solicitá-la a partir do momento que receberem o seu número de Sécurité Sociale.

A solicitação é super fácil e realizada a partir da sua conta pessoal na plataforma da Assurance Maladie, a Ameli.

Mutuelle

A Mutuelle é o plano de saúde complementar no sistema de saúde na França e tem como objetivo principal reduzir os custos que permanecem a cargo do paciente após a cobertura da saúde pública.

Embora não seja obrigatória por lei, ela é amplamente utilizada pelos residentes, justamente porque o sistema francês funciona majoritariamente por meio de reembolsos parciais.

Na prática, a Mutuelle cobre total ou parcialmente aquilo que a Assurance Maladie não reembolsa.

Isso inclui, por exemplo, o restante do valor de consultas médicas, taxas hospitalares diárias, honorários acima da tarifa de referência, além de despesas com odontologia, oftalmologia, próteses e outros cuidados considerados pouco ou não reembolsados pelo sistema público.

Os contratos de Mutuelle são flexíveis e variam conforme diversos critérios, como idade, estado de saúde, profissão, cidade de residência e nível de cobertura escolhido.

Quanto mais ampla for a cobertura contratada, maior tende a ser o valor mensal do plano. Por isso, a escolha da Mutuelle costuma ser feita de acordo com as necessidades individuais e o perfil de consumo de cuidados médicos.

No caso de trabalhadores assalariados do setor privado, a legislação francesa prevê que o empregador arque com pelo menos 50% do valor da Mutuelle coletiva, o que torna essa cobertura complementar particularmente vantajosa. Já estudantes, autônomos, desempregados e aposentados geralmente contratam planos individuais, adaptados à sua realidade.

Se você está achando tudo isso muito complicado (e é um pouco mesmo), sugerimos complementar sua leitura com o vídeo dos colegas do RDV na França:

Reembolsos

O funcionamento do sistema de saúde na França está fortemente baseado em um mecanismo de reembolsos, o que o diferencia de modelos em que o atendimento é totalmente gratuito no momento do uso. Em regra, o paciente paga pelo atendimento médico (consulta, exame ou procedimento) e recebe posteriormente o reembolso correspondente.

Esse reembolso é realizado principalmente pela Assurance Maladie, que define valores de referência para cada ato médico. A porcentagem reembolsada varia conforme o tipo de atendimento e o respeito ao Parcours de Soins Coordonnés, mas geralmente situa-se entre 60% e 70% do valor de referência, podendo chegar a 100% em casos específicos, como doenças de longa duração.

É importante destacar que o reembolso não é calculado com base no valor livremente cobrado pelo profissional, mas sim sobre uma tabela oficial. Quando o médico cobra acima desse valor (situação relativamente comum em determinadas especialidades ou regiões), a diferença permanece inicialmente a cargo do paciente.

O processo costuma ser simples e rápido quando o paciente utiliza a Carte Vitale. Nesse caso, as informações do atendimento são transmitidas automaticamente ao sistema, e o valor reembolsado é depositado diretamente na conta bancária cadastrada, geralmente em poucos dias. Quando a Carte Vitale não é utilizada, o prazo tende a ser maior e pode exigir o envio de comprovantes.

Esse modelo permite ao sistema francês manter controle rigoroso dos gastos públicos, ao mesmo tempo em que oferece transparência ao usuário. É justamente para complementar esse funcionamento (e reduzir o valor pago do próprio bolso) que a Mutuelle ocupa um papel central na experiência prática do sistema de saúde na França.

Adesão regulada por lei

A adesão ao dispositivo da Assurance Maladie é obrigatória por lei. Ela faz parte do sistema de Sécurité Sociale, que na França é fundado na ideia de solidariedade.

Isso significa que obrigatoriamente todos os empregadores, assalariados e trabalhadores independentes são afiliados ao sistema e contribuem mensalmente com ele, a partir de um valor debitado automaticamente do seu salário. É daí que a Assurance tira os recursos para subsidiar mais da metade dos gastos do sistema de saúde na França.

Para cobrir o restante desses gastos existem as Mutuelles. A porcentagem coberta dependerá do plano privado escolhido. Normalmente, quanto mais caro se paga, mais custos ela pode cobrir.

Quanto custa uma Mutuelle?

O valor da Mutuelle também depende de uma série de fatores: idade, profissão, necessidades de saúde, cidade, estado civil, etc. A título de ilustração, compartilhamos com vocês alguns valores referentes a um contrato de cobertura essencial, levantados em janeiro de 2026:

Pensando no valor para uma pessoa, apenas:

Idade da pessoaPreço médio mensal
26–35 anos54€
36-49 anos65€
50-55 anos90€
Mais de 75180€

Se considerarmos um casal, os valores se alteram:

Idade do casalPreço médio mensal
44–64 anos250€
65–75 anos300€

O mesmo ocorre ao tomarmos como parâmetro a situação profissional, veja:

Situação profissionalPreço médio mensal
Estudante40€
Desempregado30€
Trabalhador autônomo80€
Assalariado do setor privadoMutuelle coberta em 50% pelo empregador
Aposentado180€

Se a base for a cidade de residência, saiba que as Mutuelles costumam ser bastante diferentes. Na Île-de-France, onde fica Paris, as diárias hospitalares são 8% mais caras que a média nacional, o que acaba elevando o valor final das Mutuelles. Em regiões como Bretagne, Normandie e Pays de la Loire, por sua vez, as taxas são bem mais em conta.

O que fica de fora dessa cobertura?

A porcentagem restante dos valores que não são cobertos nem pela Assurance Maladie, nem pela Mutuelle, fica sob responsabilidade do assegurado. Por isso, ainda que o atendimento no sistema de saúde na França não seja gratuito, ele é acessível à maior parte da população.

Sabe-se, por exemplo, que a França possui um dos menores custos de saúde em comparação com outros países da Europa. Para ilustrar, em 2020, a despesa de saúde na França representava 12,2% do PIB do país, ficando atrás apenas da Alemanha, com 12,8%.

Portanto, os gastos com saúde não costumam ser tão consideráveis quando pensamos no custo de vida na França.

Benefícios para estudantes e pessoas com baixa renda

O sistema de saúde na França garante que o acesso aos cuidados médicos não dependa exclusivamente da renda ou da situação profissional do indivíduo.

Por isso, estudantes e pessoas com baixos recursos financeiros contam com mecanismos específicos de proteção, que reduzem custos e asseguram a continuidade do atendimento médico, mesmo em contextos de vulnerabilidade econômica.

Profissional do sistema de saúde na França preenche documentos
Estudantes podem se inscrever na Assurance Maladie e ter acesso ao sistema público de saúde; coberturas são idênticas a dos residentes franceses.

Se você vai estudar na França, saiba que o acesso ao sistema público representa uma vantagem significativa. Uma vez regularmente matriculado em uma instituição de ensino francesa e com situação migratória válida, é possível se inscrever na Assurance Maladie e passar a usufruir dos mesmos direitos de cobertura que os residentes franceses.

Isso inclui reembolsos de consultas médicas, exames, hospitalizações e tratamentos, o que torna a experiência acadêmica no país mais segura do ponto de vista da saúde.

Para pessoas com baixa renda, o sistema francês prevê dispositivos que visam evitar a exclusão do acesso aos cuidados médicos. Mesmo quem não exerce atividade profissional ou passa por períodos de instabilidade financeira pode ingressar no sistema por meio da PUMA, desde que comprove residência estável e regular na França.

Esse mecanismo garante uma cobertura contínua e impede que a perda de emprego resulte automaticamente na perda do direito à saúde.

Quem tem maior capacidade contributiva ajuda a sustentar a cobertura de quem está em situação mais vulnerável, garantindo que o acesso à saúde seja tratado como um direito fundamental, e não como um privilégio econômico.

Passo a passo para se inscrever no sistema de saúde na França

Para ter acesso ao sistema de saúde na França, é indispensável seguir uma sequência de etapas administrativas. Veja abaixo o passo a passo simplificado para se inscrever corretamente:

  1. Validar sua estadia: antes de qualquer solicitação, é obrigatório validar o seu visto na França ou autorização de residência, conforme o tipo de título que você possui. Sem essa validação, não é possível iniciar o processo;
  2. Cumprir o período mínimo de residência (quando exigido): em alguns casos, especialmente determinados regimes de trabalho ou situações específicas de residência, é necessário comprovar ao menos três meses de residência fixa na França, antes de solicitar a inscrição no sistema de saúde;
  3. Abrir uma conta bancária na França: durante esse período inicial, é altamente recomendável abrir uma conta bancária francesa. Ela será obrigatória para concluir a inscrição e para receber os reembolsos das despesas médicas diretamente em conta;
  4. Dar entrada no pedido de inscrição: com a situação migratória regularizada e a documentação exigida em mãos, o solicitante deve iniciar o pedido de inscrição junto aos órgãos competentes da Sécurité Sociale;
  5. Receber o número de Sécurité Sociale (NIR): após a validação do processo, o residente recebe o seu número de Sécurité Sociale, também chamado de NIR (Numéro d’Inscription au Répertoire). Esse número é único, pessoal e permanente, sendo indispensável para qualquer procedimento ligado à saúde e à proteção social na França;
  6. Passar a utilizar a Assurance Maladie: com o NIR, o residente passa a ter acesso à Assurance Maladie, podendo usufruir dos reembolsos de consultas médicas, exames, tratamentos e hospitalizações;
  7. Receber a Carte Vitale: algumas semanas depois (o prazo varia conforme a região), o segurado recebe a Carte Vitale, o cartão que materializa sua inscrição no sistema. A partir daí, o sistema passa a realizar os reembolsos de forma mais rápida e automática.

Esse passo a passo mostra que, embora o sistema de saúde na França seja eficiente e abrangente, ele exige organização, paciência e atenção aos trâmites administrativos, especialmente para brasileiros que estão se estabelecendo no país.

Como marcar uma consulta?

É um processo relativamente simples, especialmente após a inscrição na Assurance Maladie.

Na maioria dos casos, o primeiro passo é procurar o médecin traitant, o médico de referência responsável por acompanhar o paciente e orientar o encaminhamento para especialistas, conforme as regras do Parcours de Soins Coordonnés.

Você pode agendar consultas diretamente com o profissional escolhido, por telefone ou online. Atualmente, muitos médicos utilizam plataformas digitais para facilitar o agendamento, sendo uma das mais populares a Doctolib, que permite marcar consultas presenciais ou por telemedicina de maneira rápida e prática.

Em situações específicas, como emergências médicas, atendimentos ginecológicos, oftalmológicos ou psiquiátricos, é possível consultar um especialista diretamente, sem passar pelo médico de referência, sem penalização no reembolso.

Já em casos de urgência, o paciente pode se dirigir diretamente a um hospital ou acionar os serviços de emergência pelos números 15 ou 112.

Em geral, após a consulta, você só precisa apresentar a Carte Vitale para registrar o atendimento e processar o reembolso automaticamente.

O que é um médecin traitant na França?

O médecin traitant é o médico de referência do paciente no sistema de saúde na França. Ele corresponde, de forma geral, ao clínico geral ou médico de família no Brasil e ocupa um papel central no acompanhamento médico ao longo da vida do paciente.

No sistema francês, o atendimento médico segue um percurso obrigatório chamado Parcours de Soins Coordonnés, instituído por lei em 2004. Esse modelo tem como objetivo garantir um acompanhamento coordenado, contínuo e personalizado, evitando consultas desarticuladas e melhorando a gestão dos cuidados de saúde.

Dentro desse percurso, o médecin traitant é o primeiro profissional a ser consultado na maioria das situações. Ou seja, o paciente deve passar pelo médecin traitant antes de consultar a maior parte dos médicos especialistas.

Médicas em hospital analisando documentos sobre paciente
O médecin traitant é o médico de referência no sistema de saúde francês; profissional coordena o acompanhamento ao longo do tempo.

Por exemplo, para marcar uma consulta com um gastroenterologista, cardiologista ou dermatologista, é necessário, em regra, obter previamente a orientação desse médico de referência.

Apesar da obrigatoriedade do percurso em muitos casos, existem exceções. Situações de urgência e algumas especialidades específicas permitem a consulta direta com outro médico, sem penalização financeira. Por isso, antes de marcar um atendimento fora do percurso padrão, é recomendável verificar se o seu caso se enquadra nessas exceções.

Como usar o Ameli?

O primeiro passo é criar uma conta pessoal após receber o número de Sécurité Sociale. O cadastro é feito diretamente no site ou aplicativo da plataforma, informando dados pessoais, endereço e uma conta bancária francesa para os reembolsos.

Depois de acessar sua conta, o usuário pode acompanhar reembolsos de consultas e exames, verificar pagamentos já efetuados, baixar comprovantes, atualizar informações pessoais e bancárias, além de enviar documentos solicitados pela Assurance Maladie. A plataforma também permite solicitar a Carte Vitale e acompanhar o andamento do pedido.

O Ameli é, portanto, a principal ferramenta para gerenciar online toda a parte administrativa do sistema de saúde na França, evitando deslocamentos e contatos presenciais desnecessários.

E o mon espace Santé?

O Mon espace Santé é o espaço digital de saúde do paciente na França. Diferente do Ameli, que é mais administrativo, essa plataforma é voltada ao acompanhamento médico.

Nela, o usuário pode armazenar e consultar exames, receitas, histórico médico e compartilhar essas informações com profissionais de saúde autorizados. O mon espace Santé funciona como um prontuário digital centralizado, facilitando a coordenação dos cuidados e o acompanhamento ao longo do tempo.

O sistema de saúde na França é bom?

Sim, o sistema de saúde francês é considerado um dos melhores do mundo. Um dos seus pontos fortes é o acesso aos cuidados de alta qualidade e a eficiência da sua organização.

Além disso, a sua cobertura de gastos é ótima. A título de ilustração, é comum que o sistema de saúde na França cubra inteiramente gastos com doenças mais graves, como o câncer. Por conta disso, na França os indivíduos possuem bem menos gastos com a saúde em comparação a outros países da Europa.

Pensando no contexto da pandemia de Covid-19, o aceleramento de certos processos terapêuticos, tecnológicos e de produção também destacou-se no sistema de saúde na França, demonstrando a sua potência e organização.

Perguntas frequentes

O sistema de saúde na França pode gerar muitas dúvidas, especialmente entre brasileiros que estão se preparando para morar, estudar, trabalhar ou viajar para o país.

A seguir, reunimos respostas objetivas para as perguntas mais comuns sobre funcionamento, acesso, custos e utilização do sistema de saúde francês.

Não. A França não possui um sistema equivalente ao SUS brasileiro. O sistema de saúde francês funciona com um seguro público obrigatório, no qual a Assurance Maladie faz reembolsos parciais, geralmente complementados por planos privados (Mutuelles).

Sim. A França conta com hospitais públicos e privados, ambos integrados ao sistema de saúde. Os hospitais públicos exercem um papel central, sobretudo em atendimentos de urgência, tratamentos complexos e na formação médica, e a população os utiliza amplamente.

Uma consulta com clínico geral na França custa, em média, 30€. A Assurance Maladie reembolsa posteriormente parte desse valor, de acordo com as regras do sistema e o percurso de cuidados seguido pelo paciente.

Atenção aos secteurs: os valores podem ser muito maiores caso você procure consultas com médicos do chamado Secteur 2 (que não seguem, necessariamente, a tabela de tarifas oficiais. Esses profissionais cobram o quanto querem, e somente as mutuelles mais caras reembolsam essas consultas. Fique atento!

Entre 17€ e 25€, mas pode variar conforme o tipo de análise solicitada. Assim como nas consultas, o sistema público de saúde reembolsa uma parte significativa do custo.

O seguro de saúde na França funciona de forma obrigatória e solidária: todos os residentes legais contribuem para o sistema público, que reembolsa grande parte das despesas médicas. Para cobrir o valor restante, muitos residentes contratam uma Mutuelle, que atua como complemento.

Se você quer entender melhor como esse sistema impacta a vida prática de quem mora na França, incluindo desafios, burocracias e adaptações (pois nem tudo são flores!), vale conhecer o nosso Ebook Sonho de Viver na Europa, que reúne relatos reais de brasileiros vivendo no continente.

É a melhor forma de chegar preparado seja à França ou aos muitos outros países em que os correspondentes do Euro Dicas vivem. Aprenda com quem viveu perrengues antes de você e venha para a Europa com mais segurança!

Saúde e boa viagem!