O ano era 2018. Lembro como se fosse hoje: acabara de sair de mais uma reunião pesada e que parecia não ter fim. Reunião essa (como quase todas) que poderia ter sido um e-mail. Eram quase 21h. Mal cheguei ao meu carro, toca meu celular. Uma colega de trabalho queria tirar dúvidas sobre o que fora tratado minutos antes na reunião. Peguei o celular para atender, mas não tive forças. Deixei tocar até entrar na caixa postal.

Uma dor de cabeça lancinante me acompanhava há dias. Nenhum remédio resolvia. A única coisa que consegui fazer foi sentar naquele banco do carro e chorar por longos minutos. Ao invés de estar feliz de ir para casa após mais um dia estressante de trabalho, eu só conseguia pensar: amanhã começa tudo de novo. Há meses uma pergunta insistia em reverberar em minha cabeça: até quando?

Saiba como uma crise de estresse me levou até Portugal

O trabalho de jornalista tem um estresse inerente, mas é um estresse sadio. Na época em que trabalhei em rádio adorava sentir essa adrenalina: encontrar o Presidente numa pauta na rua, subir uma comunidade para entender o motivo de mais um tiroteio ou até mesmo entrevistar o prefeito da cidade direto do estúdio para arrancar aquela declaração que ninguém tinha.

Era um estresse positivo que eu gostava de sentir. E isso era comum a todos os colegas de outros veículos. Havia momentos mais tensos e outros menos apreensivos.

Maurício no Rio de Janeiro
Maurício no ambiente de trabalho, Rio de Janeiro

Início de um sonho/ deu tudo errado

Aí um dia eu mudei de trabalho. Fui me aventurar em outra área da Comunicação, um pouco mais afastada do Jornalismo. A coisa até começou relativamente bem. Como ganhei um cargo de chefia, tive de aprender a me virar com o ônus e o bônus da função.

Mas, em dado momento, notei que a minha vida pacata, estável e organizada estava ruindo. Sentia-me o tempo todo construindo castelos de areia que seriam, logo a seguir, destruídos pela onda do mar.

Um lugar chamado caos

O lugar onde eu trabalhei carecia do mínimo de organização. Tudo era muito caótico. Cada um fazia o que queria, na hora que queria. Não havia mecanismos de controle sobre o que estava sendo produzido. Era “trocar o pneu com o carro andando” o tempo todo, não importando o dia da semana ou horário. E a justificativa era sempre a mesma: em nome da criatividade, não podemos engessar a produção de conteúdo.

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Era um prato cheio para que diretores tivessem ideias mirabolantes num dia e exigissem que a produção ficasse perfeita no dia seguinte. Era comum jogar fora algo que levou semanas para ser feito, tudo em nome da tal “criatividade”. Ameaças e constrangimentos eram constantes. A rotatividade de funcionários era enorme. Poucos aguentavam a pressão.

Centro Rio de Janeiro
Centro de São Paulo. Foto: Maurício Martins

Outros eram demitidos porque “o diretor não foi com a cara”. A verdade é que meu corpo começou a dar sinais de que aquela situação nociva estava me afetando. Dores de cabeça eram uma constante. Mesmo tomando remédios, minha pressão seguia descontrolada. Episódios de tontura eram comuns. Sofri calado por um bom tempo, sem falar com meus superiores o quanto aquilo tudo estava me afetando negativamente.

Não sentia por parte de deles nenhum acolhimento para ouvir o que estava se passando. Só meu marido e amigos mais próximos sabiam o que eu estava sentindo. Quando resolvi abrir o jogo para os diretores e outros gerentes, a situação só piorou. Perdi a conta de quantas vezes fui ao banheiro apenas para chorar.

Sessões diárias de tortura

No dia seguinte ao momento em que cheguei ao meu carro e só tive forças para chorar, havia mais uma reunião que prometia, novamente, não ter fim. Ao acordar, como já vinha acontecendo, não queria sair da cama. Não sei de onde tirava forças para dirigir e ir trabalhar. Há meses tinha a sensação de que estava indo para uma sessão diária de tortura. Comecei a me sentir incapaz e deslocado.

Minha saúde mental estava em frangalhos e ninguém no local de trabalho estendeu a mão para me ajudar. A sensação de pertencimento àquele lugar era nula. Nem o salário no fim do mês me fazia ter motivação para fazer minha função. Eu precisava mudar radicalmente ou o trabalho ia acabar me matando.

Um soco na mesa e uma decisão de vida

Entrei em mais uma reunião com minha apatia típica dos últimos meses. Em dado momento, o assunto central foi desviado, como era de costume. De repente, um dos produtores sugere uma pauta nova para o programa do dia seguinte. O diretor banca a ideia e manda derrubar todo o material que já estava pronto, para que a tal ideia de última hora fosse executada.

Um gerente ainda argumentou que poderíamos fazer com calma, em outro momento, já que implementar uma mudança assim, naquele horário, geraria vários problemas técnicos e até financeiros.

Decisão Portugal
Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Foto: Maurício Martins

O diretor apenas soltou um irônico “dane-se”. Na minha cabeça, um turbilhão de sentimentos que acabaram se traduzindo em um vigoroso soco na mesa e a minha argumentação (em voz alta) sobre as muitas horas de trabalho jogadas no lixo e o total desrespeito com a qualidade de vida de outros funcionários. Tudo em nome da tal “criatividade”.

Definitivamente, não era mais possível lidar com o caos, como se fosse algo comum. Aquilo não era mais para mim. O soco na mesa traduziu-se em um “BASTA!”.

A situação política do Brasil

Ao chegar em casa, tive uma longa conversa com meu marido. Ele também estava insatisfeito com seu trabalho há um bom tempo, e com vontade de mudar de vida. Além de estarmos estressados com nossos trabalhos, a situação política do Brasil já vinha nos preocupando diariamente. A onda conservadora, homofóbica e racista só fazia aumentar. Já era hora de adiantarmos um plano antigo, guardado para quando ficássemos mais velhos: mudar de país.

Em conversas anteriores até pensamos em ir para o Canadá, mas o frio extremo e a burocracia para obtenção de vistos nos fez desistir. Nessas horas, é engraçado como o óbvio não nos vem à cabeça, mas o universo sempre encontra uma forma de mostrar o caminho.

Ao abrir uma gaveta em busca de alguns documentos, dei de cara com o Cartão de Cidadão da União Europeia. Um ano antes, minha irmã correu atrás de toda a papelada para comprovar nosso direito à cidadania portuguesa e o cartão estava ali, só esperando a sua hora.

Uma nova visão sobre Portugal

Confesso que minha visão sobre Portugal era meio limitada, até fazer uma viagem no ano de 2018. Já tinha vindo com meus pais nos anos 80, mas lembrava de pouca coisa. A maior parte das recordações estava concentrada em brincadeiras com meus primos na aldeia de Rebordãos (em Bragança) e de fugir de um enxame de abelhas em Sapelos (Chaves).

Em 2018, mudei radicalmente minha visão do país. Tinha internalizado que um dia, mais velho, moraria em Portugal, buscando um outro ritmo de vida. Mal sabia naquele momento que não seria tão mais velho assim. Deixamos para trás carreiras consolidadas (e que nos garantiam salários confortáveis) para um recomeço em Portugal.

Embarque para Portugal
Embarque para Portugal. Foto: Maurício Martins

Sabíamos exatamente o que estávamos deixando para trás, mas também tínhamos consciência do tanto que ganharíamos em qualidade de vida. Não seria mais possível seguir naquele ritmo enlouquecedor no Brasil.

Sem medo de se reinventar

A qualidade de vida que temos hoje em Portugal é incomparável. Sem falar no óbvio que todo brasileiro sempre fala: segurança. O ritmo de tudo aqui é mais calmo. Óbvio que nada é perfeito, mas não nos vemos mais reféns de nossas atividades profissionais. Não tivemos medo da reinvenção e seguimos sem receio de tentar coisas novas.

Acredite no seu sonho e faça acontecer

E fica um recado para você que se vê agora em situação parecida, sem saber o que fazer: faça o seu sonho acontecer. Sonhe, planeje e comece a agir! Precisamos parar de querer passar pela vida apenas sobrevivendo. Você é muito mais do que seu trabalho! A vida é para ser apreciada e saboreada! Mexa-se, enquanto há tempo.

*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do site Euro Dicas.