Talvez você imagine Roma como uma cidade romântica. Cheia de história, vínculos estreitos, segredos nas esquinas. Um museu a céu aberto. No imaginário, basta jogar uma moeda na Fontana di Trevi, caminhar pelas ruas de pedra com um gelato na mão e uma carbonara à mesa para sentir que a cidade se entrega.

Morando há 12 anos em Roma
Índice Roma pelos olhos do turista A Roma que todo mundo sonha em morar O lado cru de Roma: dificuldades, contradições e aprendizados Os romanos Ser estrangeiro em Roma: sentir-se em casa longe de casa Roma é uma cidade de camadas

Mas Roma é muito mais — e, principalmente, muito menos simples — do que isso. Em mais de uma década morando aqui, entendi que Roma não se deixa conquistar facilmente. Não basta um fim de semana. Na verdade, talvez não baste uma vida inteira.

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Ao longo desses anos, conheci muitos lados dessa cidade: o romântico, o cru, o arrogante. Porque a verdade é que Roma não é uma coisa só. Ela muda conforme o tempo, o olhar e o lugar que você ocupa nela.

Então pega um café, respira fundo. Vou te contar algumas das camadas que vivi morando aqui. E talvez, no fim deste texto, você queira se mudar para Roma. Ou fugir completamente dela. Porque Roma não aceita meio-termos.

Roma pelos olhos do turista

A primeira Roma que conheci é a mesma que você vê nos guias e fotos: cheia de pontos turísticos que impressionam.

O Coliseu. A Basílica de São Pedro. Os Museus Vaticanos. A Fontana di Trevi, com a tradição de jogar a moedinha. E, claro, a carbonara — aquela que os romanos defendem como se fosse patrimônio de família.

Fontana di Trevi em Roma
A Roma turística me encantou primeiro. Depois conheci a cidade que acolhe e dá oportunidades. Foto: Verinha Simões

Roma te abraça com beleza em cada esquina. Cada rua, cada praça, cada lojinha tem cheiro, som e vida próprios. Ambulâncias passando, risadas em italiano, turistas tirando fotos — tudo junto cria uma sensação que nenhuma foto consegue capturar.

E eu me perdi nessa sensação

Me apaixonei por cada basílica que visitava. Por cada rua escondida que descobria. Por cada detalhe histórico que parecia trivial, mas carregava séculos de história. A cidade é arrogante. Não te dá só beleza: te desafia a absorver tudo de uma vez.

Mesmo depois de quatro dias, aquela primeira camada não desaparece. Ela permanece, viva, dentro de você — como um cheiro, um som ou uma lembrança que insiste em não ir embora.

Essa é a Roma que todos conhecem

Mas existe outra, mais profunda, que não vou revelar agora. Vamos chegar lá — e quando chegarmos, você vai ver outra cidade inteira escondida por trás do que todos pensam conhecer…

A Roma que todo mundo sonha em morar

Depois que os olhos de turista se acalmaram, me deparei com uma Roma cheia depossibilidades. Foi aí que entendi por que tantas pessoas sonham em viver aqui. E não é só o sol iluminando praças antigas, ou o café fresco ao amanhecer, ou os músicos de rua transformando qualquer caminhada em espetáculo.

No início, cada descoberta era uma vitória: encontrar a padaria certa, cruzar uma trattoria antiga, aprender a usar o transporte público sem se perder. Pequenas conquistas que me faziam sentir parte da cidade.

Mas morar não é turistar

Roma exigia mais do que charme e beleza. E oferecia: oportunidades reais. Por ser a capital e maior centro urbano da Itália, concentra empregos em turismo, serviços, comércio, tecnologia, educação e saúde.

Havia centenas de vagas para quem falava italiano — e muitas para quem não falava. Hotéis, restaurantes, eventos, funções especializadas: a cidade parecia não ter fim de caminhos. Para mim, no começo, foi o suficiente.

Primeiro trabalho em Roma

Meu primeiro emprego em Roma foi mais do que um trabalho: foi uma escola de vida. Cada pedido que atendia, cada conversa com clientes, cada situação inesperada me obrigava a praticar o italiano, a me virar sozinha, a entender como funcionava o mercado de trabalho local.

Ganhei um salário, sim, mas também ganhei confiança, autonomia e a certeza de que podia conquistar mais. Era a primeira vez que sentia que estava fazendo parte do ritmo da cidade, e não apenas passando por ela como turista.

Aprendizados no dia a dia

Entre universidade e trabalho como garçonete, cada dia trazia pequenas vitórias: aprender a lidar com a pressa das pessoas, decorar nomes de clientes, descobrir atalhos pelas ruas do bairro para não me atrasar, conhecer colegas que se tornaram amigos e professores que me mostraram um mundo que eu não imaginava.

Roma estava ali, viva, pronta, com portas abertas. E eu, aos poucos, aprendendo a atravessá-las.

E foi nesse movimento diário, nesse contato com a vida real da cidade, que entendi que uma cidade menor nunca teria me dado essas oportunidades, essa sensação de crescer, errar, aprender e ainda ter espaço para sonhar mais alto.

Roma é rica, multicultural, cheia de caminhos e escolhas. A liberdade de escolher seu próprio rumo, de se reinventar todos os dias, era eletrizante.

Mas há uma condição: o idioma é crucial. Sem ele, muitas portas permanecem fechadas. E nem todas as oportunidades são fáceis de alcançar.

Essa é a Roma que todos sonham em morar: vibrante, cheia de chances, repleta de descobertas. Mas, como toda magia, tem um preço. Nem tudo é tão simples quanto parece nas fotos.

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E é exatamente nesse ponto que a cidade revela sua face mais profunda. A Roma que só quem escolhe ficar conhece. A Roma real, crua, desafiadora.
Se você acha que já viu tudo, prepare-se para se surpreender.

O lado cru de Roma: dificuldades, contradições e aprendizados

O momento em que o olhar muda é quase imperceptível. Primeiro, você se encanta com a cidade — os monumentos, as praças, o charme das ruas e os paralelepípedos.

Mas, aos poucos, o cenário deixa de ser só espetáculo e passa a ser rotina.

É nesse momento que a Roma real começa a se revelar

Não se trata apenas das fontes iluminadas ou dos cafés encantadores. São as filas intermináveis no supermercado, os atrasos constantes do transporte público, as greves semanais, as burocracias que tornam qualquer tarefa simples quase impossível.

Uma das maiores provações é ir à delegacia, na Questura, para conseguir a permissão de estadia: tumulto, filas enormes, impaciência no ar.

O lado cru de Roma não para por aí

O tráfego caótico te ensina a planejar cada deslocamento, enquanto os transportes públicos ineficientes transformam cada viagem em aventura. O degrado urbano — lixo, ruas sujas, manutenção irregular — lembra que nem tudo é postal.

O alto custo de vida, principalmente no centro, e a dificuldade em encontrar estacionamento tornam pequenas tarefas um desafio.

O mercado de trabalho, embora cheio de oportunidades, é menos dinâmico do que em outras cidades italianas, como Milão, e exige perseverança e adaptação. Em algumas áreas periféricas, você ainda enfrenta problemas de segurança e poluição, e o excesso de turistas transforma a vida cotidiana em um equilíbrio constante entre encanto e frustração.

Morar em Roma é aprender a lidar com essas contradições

Cada desafio traz aprendizado. Cada dificuldade molda a experiência de viver em uma cidade que é, ao mesmo tempo, inesquecível e exigente.

Entre pequenas vitórias — como conhecer vizinhos, descobrir padarias escondidas, aprender atalhos pelas ruas, lidar com colegas de trabalho e professores — e frustrações diárias, você passa a sentir o pulso real da cidade, o ritmo que não se aprende em fotos nem em guias de viagem.

O turismo te dá encantamento, morar te dá realidade

E a verdade é que essa Roma real não é menos apaixonante — só é mais complexa, mais crua, mais humana. Amar Roma não é só admirar sua beleza, mas entender seus limites, respeitar suas regras e aprender a caminhar com ela, mesmo quando é difícil.

É nesse equilíbrio entre encanto e realidade que a vida em Roma se revela de verdade — e é exatamente aí que vamos mergulhar no próximo capítulo, sobre os romanos e a cultura local, que dão alma a esta cidade fascinante.

Os romanos

É impossível falar de Roma sem falar dos romanos. Eles são parte da cidade, quase como o coração que mantém tudo pulsando. Irreverentes, irônicos, travessos, entendê-los não é fácil. Conseguem ser ao mesmo tempo diretos, mal-educados e de um coração gigantesco. Calorosos, mas também arrogantes.

Não sou eu que digo: essas são qualidades das quais eles têm orgulho de sustentar. A prova? A quantidade infinita de amigos romanos que fiz — e, claro, meu namorado.

Outra característica marcante é a arte de reclamar: a mania de se queixar de tudo, especialmente da própria cidade. Você vai ouvir: “Ah, Roma não funciona, isso não é legal, aquilo não é bom.”

Mas cuidado! Não concorde. Como eles dizem: “guai a chi la tocca” (ai de quem a tocar). Só eles podem falar mal de Roma.

Os romanos são criativos

Por virtude e por necessidade. Estacionar em Roma, por exemplo, é praticamente uma arte marcial urbana. E o vínculo deles com a cidade é profundo. Uma frase que ouvi resume bem: “A coisa mais linda de Milão é o trem de volta para Roma.”

E tem também o jeito de falar: o dialeto romanesco é inconfundível, direto, mordaz. No começo, pode parecer rude para nós, brasileiros, acostumados a uma educação mais polida. Eu mesma estranhava.

Mas aos poucos percebi que essa franqueza é parte do acolhimento deles. Por trás do “morde-e-assopra” existe generosidade, cuidado e um senso de comunidade muito forte.

Quando comecei a me permitir ir além das frases jogadas ao acaso, percebi que os romanos fazem a cidade viva, intensa e imprevisível. Sem eles, Roma simplesmente não seria a mesma. Eles são a alma desta cidade que encanta, desafia e transforma quem a escolhe para viver.

Ser estrangeiro em Roma: sentir-se em casa longe de casa

Viver em Roma como estrangeiro é uma experiência única, e talvez uma das coisas mais fascinantes da cidade seja justamente isso: a multiculturalidade que pulsa em cada esquina.

Não falo só do turismo — embora seja impossível não notar pessoas de todos os cantos do mundo nas praças e ruas históricas. É algo mais profundo: no dia a dia, você ouve idiomas variados, vê culturas se encontrando, sente tradições diferentes coexistindo lado a lado.

Essa diversidade faz com que você nunca se sinta totalmente deslocado. Roma está acostumada com estrangeiros e, de certa forma, aprende a acolhê-los naturalmente. Seja em cafés, mercados, universidades ou bairros menos turísticos, sempre há alguém disposto a ajudar, ensinar ou simplesmente compartilhar um momento de conversa.

Restante no centro de Roma
A diversidade de Roma acolhe turistas e quem vem para ficar.

E é exatamente por isso que eu sempre me senti em casa aqui. Mesmo sendo de fora, mesmo chegando com olhos curiosos e cautelosos, encontrei uma cidade que abraça quem escolhe ficar, que oferece oportunidades de pertencimento, amizade e aprendizado.

Morar em Roma é, acima de tudo, descobrir que a cidade não é apenas para quem nasceu aqui — ela tem espaço, história e calor suficiente para todos que querem se conectar com ela.

Roma é uma cidade de camadas

Depois de mais de uma década vivendo aqui, aprendi que Roma não é apenas uma cidade. Ela é uma coleção de experiências, encontros e transformações.
Há a Roma que encanta os turistas, cheia de monumentos majestosos e ruas que parecem ter saído de um filme.

Há a Roma dos sonhos, que oferece oportunidades, liberdade e um espaço para crescer. Há a Roma crua, que desafia, exige paciência, resistência e adaptação.

E, claro, há os romanos, com sua ironia, calor humano e criatividade que fazem a cidade pulsar de vida própria.

Ser estrangeiro aqui é um convite

Um convite para descobrir que é possível se sentir em casa em meio à diversidade, aprender com os contrastes e se apaixonar pelas nuances que só quem escolhe ficar conhece.

Roma não se entrega facilmente — mas quando você aprende a caminhar com ela, a cidade transforma quem você é. No fim, a maior lição que Roma me deu é que nenhuma cidade é perfeita, mas cada camada vale ser vivida.

E talvez esse seja o segredo do seu encanto eterno: a beleza não está apenas nos cartões-postais, nem nas fotos ou guias, mas na experiência de estar presente, sentir, errar, se adaptar e se apaixonar todos os dias. Roma não aceita meio-termos. Ela exige curiosidade, coragem e coração aberto. E se você se permitir, Roma te transforma para sempre.

*A opinião dos colunistas não reflete necessariamente a opinião do Euro Dicas.