Nenhum país se resume a uma cidade, um tipo de música ou um só prato típico, e as várias Espanhas que eu tenho descoberto são prova disso. Mas é claro que, olhando de fora, fica difícil perceber toda a diversidade que existe por trás das generalizações e estereótipos de um país. É só quando começamos a viver e conviver com essa riqueza de culturas que essas diferenças se tornam visíveis para nós.
Depois de quase seis anos morando na Europa, quero compartilhar com você essa descoberta. Vem comigo!
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PEDIR UM ORÇAMENTO →Várias Comunidades, várias Espanhas
Nas minhas andanças pelas Comunidades Autônomas espanholas é que eu comecei a descobrir que há várias Espanhas dentro da Espanha: da terra da sidra ao templo das festas de verão. Dá só uma olhada:
- Andaluzia foi onde eu reconheci a Espanha do flamenco (que teve origem nessa Comunidade), onde provei rabo de touro e onde senti mais calor até agora;
- Astúrias: uma Espanha verde e montanhosa, a Espanha das maçãs e da sidra, com mais chuvas e temperaturas menores;
- Cantábria: vizinha do Principado de Astúrias, a Cantábria também é uma região montanhosa e de clima fresco, com um litoral tão escarpado quanto bonito;
- Catalunha: essa Comunidade espanhola que tem Barcelona como sua capital foi onde morei por três anos. Já cheguei até a perguntar Morar em Barcelona é morar na Espanha?;
- Comunidade de Madri: sim, a capital espanhola tem sua própria Comunidade. E nem precisa dizer que essa é a Espanha mais política, urbana e mercantil;
- Comunidade Valenciana: é aqui, na Espanha da paella e da orxata, que eu moro há quase três anos. Uma Comunidade verde, mas também urbana, de praia e de montanha, que já ganhou meu coração;
- Galícia: uma Espanha bem próxima de Portugal, tanto pela pouca distância quanto pelo idioma galego, bem mais parecido ao português do que o espanhol;
- Ilhas Baleares: confesso que só estive em Ibiza e fora da época de festas. Com isso o que eu percebi foi que existe aí uma Espanha veranil, que é turística e festeira. E outra, durante o resto do ano, que é mais tradicional e tranquila, sem deixar de ser praieira;
- País Basco: a Espanha dos pintxos e da arquitetura de vanguarda é também onde ficam as cidades com alguns dos nomes mais difíceis de pronunciar.
Sabia que além dessas, a Espanha ainda tem outras 7 Comunidades e 2 Cidades Autônomas? Aliás, sabia que essas duas cidades – Ceuta e Melilla – ficam na África?
A Espanha vazia
Nas minhas viagens pela Espanha, um dos lugares que mais me surpreendeu até hoje foi Montañana (em Huesca, na comunidade de Aragón). Me surpreendeu pelo seu aspecto medieval, pelas suas ruas e casas de pedra que guardam mais de mil anos de história. Mas me surpreendeu, principalmente, pelo silêncio.
Dizem que, durante a Idade Média, Montañana foi um importante centro administrativo e econômico. Servia de ponto de controle de rotas comerciais e tinha várias centenas de habitantes.
Sabe quantas pessoas vivem hoje em dia por lá? Vinte. Sabes quantas pessoas eu vi na rua quando visitei a cidade? Nenhuma.
Montañana é um exemplo significativo de uma das várias Espanhas que formam este país: a que se conhece por aqui como a Espanha vazia. O despovoamento é uma das características marcantes das áreas rurais. Conforme dados oficiais, 84% da população espanhola se concentra em apenas 18% dos municípios. Enquanto isso, no meio rural (82% dos municípios) vive somente 16% da população.

Por outro lado, ainda que o despovoamento implique em uma série de desafios, as atividades agropecuárias seguem sendo representativas e importantes. Aliás, sabia que mais de 30% do território espanhol é de terras dedicadas ao cultivo? Por aqui se cultivam cereais, azeitonas, frutos secos, legumes, hortaliças, frutas e muito mais.
Essa Espanha rural e esvaziada é o oposto da agitação urbana e sociocultural de grandes capitais como Madri e Barcelona. Aliás, como já comentei aqui antes, a Espanha é muito mais do que Madri e Barcelona.
E no Instagram do Euro Dicas, já contei um pouco mais sobre essas duas grandes cidades:
A Espanha muçulmana
Pensei em começar esta seção explicando que meu marido é árabe e que, talvez por isso, nós costumamos visitar vários lugares que guardam parte do legado muçulmano na Espanha.
Já fomos à Alhambra, à Mesquita-Catedral de Córdoba, a um banho árabe em Girona, a um caminho de águas almohade em Montanejos e conhecemos ruínas de palácios árabes em Siurana e também aqui em Valência, entre outros.
Mas na verdade, acho que não tem só a ver com o fato do meu marido ser árabe. A Alhambra, por exemplo, recebe mais de 2 milhões de visitantes a cada ano. E além do patrimônio arquitetônico – espalhado por várias cidades espanholas –, existem muitos outros exemplos do legado deixado pelos muçulmanos.

Acontece que, durante quase 800 anos, uma grande parte do que hoje conhecemos como Espanha foi governada por muçulmanos, tanto árabes quanto berberes.
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QUERO CONHECER O EBOOK →A contribuição desses antepassados para o desenvolvimento e a cultura espanhola foi imensa. Da Matemática, Álgebra e Geometria aos sistemas de esgotamento e de rego. Da guitarra espanhola (que evoluiu do alaúde árabe) ao próprio idioma (que inclui muitas palavras de origem árabe).
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Abrir Conta Multimoeda →Aliás, você sabia que, se não fosse pelos muçulmanos, a paella – o prato típico mais famoso da culinária espanhola – não existiria? Porque foram eles que trouxeram para estas terras o arroz e o açafrão, dois ingredientes indispensáveis da paella.
E se você for morar na capital espanhola, vale saber mais sobre a comunidade brasileira em Madrid.
As Espanhas migrantes
Marroquinos, colombianos, romenos, venezuelanos, argentinos, peruanos, italianos, franceses, cubanos, ucranianos, índios, paquistaneses, chineses… A lista de estrangeiros que vivem na Espanha é larga e variada. Atualmente, cerca de 13% da população espanhola é formada por estrangeiros.
Há estrangeiros que trabalham colhendo frutas no meio rural e outros que dirigem grandes galerias de arte. Há aqueles que estão aqui há mais de 20 anos e outros que acabaram de chegar e ainda estão na luta para regularizar sua situação. Em todo caso, por maior que seja o grau de assimilação da cultura espanhola, sempre resta algum sotaque, alguns costumes e tradições.

É por isso que, entre as várias Espanhas que tenho descoberto, também me chamam a atenção as Espanhas migrantes. Essas Espanhas formadas pelos estrangeiros que vivem aqui e que fazem com que este país seja muito mais diverso e rico culturalmente.
Eu também já contei por aqui Por que morar na Europa transformou minha visão de mundo e também relatei histórias de brasileiros que moram na Espanha.
As Espanhas nacionalistas
Passeando por Barcelona, vejo um cartaz em frente a uma loja e não entendo bem o que diz. Está escrito em catalão. Pergunto (em castelhano) à vendedora que está por perto o que diz o cartaz. Ela me responde em catalão. Explico que sou brasileira, que cheguei há pouco tempo e ainda não entendo bem o catalão.
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Esse caso é bem ilustrativo de algumas das várias Espanhas que tenho descoberto: aquelas que nem sempre querem ser ou se reconhecem como uma parte do país. Sim, estou falando dos nacionalistas, independentistas, regionalistas ou separatistas. As denominações são tantas quanto as ideologias por detrás.

De uns tempos para cá, o caso mais polêmico e famoso tem sido o da Catalunha, que chegou até a realizar um referendo de independência em 2017. Mas anteriormente, desde o final do século XIX até o final do século XX, País Basco e Navarra também foram palco de movimentos com objetivos similares.
As Espanhas que não querem ser Espanha existem. Mas acho que é importante não generalizar. Porque existem também muitos habitantes dessas regiões que defendem outro tipo de nacionalismo: o do Estado Espanhol.
Além disso, existem muitas e profundas variações entre esses extremos. E por sorte nem todos os nacionalistas e independentistas são tão inflexíveis quanto a vendedora que me atendeu.
Confira também meu relato completo sobre o que vivi nas enchentes de Valência.
Outras Espanhas ainda por descobrir
Você já reparou que quanto mais a gente descobre, mais a gente percebe o quanto a gente não sabe? Meu caso com a Espanha é assim.
A cada vez que pesquiso sobre o país, viajo ou mesmo passeio pela rua, percebo que ainda há muitos lugares e histórias que quero descobrir. A verdade é que existem ainda várias Espanhas que quero explorar. Que sorte!