São muitos os brasileiros que moram na Espanha. Oficialmente, somos mais de 150 mil. E é claro que cada um de nós vivemos diferentes realidades e passamos por diferentes experiências. Quem me acompanha por aqui, já conhece algumas das minhas experiências.
Mas acredito que todas são válidas e é possível aprender com cada uma delas. Por isso é que, nesta coluna, eu quero te mostrar a realidade e as experiências de outros brasileiros que vivem na Espanha. Acompanhe as entrevistas que fiz e confira o que há de comum e diferente entre elas.
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PEDIR UM ORÇAMENTO →Te apresento os brasileiros que moram na Espanha
Em meio a notícias esperançosas sobre mudanças na lei de imigração espanhola que podem facilitar a vida de brasileiros, que tal conhecer algumas das histórias de quem já resolveu a vida por aqui?
Comecei conversando com um casal de amigos, o Renato e a Ruana. Nos conhecemos porque o Renato trabalha com meu marido. Aliás, tanto o Renato como a Ruana trabalham na área de TI e vivem há 2 anos aqui em Valência (onde eu moro há 3).

O casal também já morou em Dublin por 1 ano, e em Lisboa, por 2 anos. Ela é de Santa Rita do Sapucaí, no interior de Minas Gerais, e ele, de Presidente Prudente, em São Paulo.
Entrevistei também uma amiga que fez mestrado comigo. A Gisele é jornalista freelancer e, atualmente, mora em Barcelona. Mas já morou também em Malta por quase meio ano e na Romênia, por quase 2. Ela é de Pindamonhangaba, em São Paulo.
Além disso, eu queria entrevistar a Dani, uma amiga paulista que me deu minha primeira oportunidade de trabalhar na Espanha. Mas, como acabou não podendo participar, ela me deu o contato de duas brasileiras incríveis que também moram na Espanha.
As entrevistadas que ainda não conheço pessoalmente
A Carla é ‘belotrespontana’ porque nasceu em Três Pontas (sul de Minas), mas se criou em Belo Horizonte. Vive há 15 anos em Santiago de Compostela, mas passa longas temporadas no Brasil. Ela é escritora, além disso, diz que cuida de plantas, aprende a dançar e segue aprendendo a escrever.
A Anelise é de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, mas também viveu em Porto Alegre. Na Europa, já morou na França e na Grécia, antes de chegar na Espanha, em meados de 2021. Atualmente, vive em Santa Cruz de Tenerife, nas Ilhas Canárias e trabalha como pesquisadora no Instituto de Astrofísica de Canárias, onde está fazendo seu pós-doutorado.
Mudar para a Europa: vistos e desafios
Como os brasileiros que moram na Espanha chegaram aqui? Com que tipo de visto vieram? Que desafios tiveram que enfrentar? Perguntei tudo isso aos meus entrevistados.
A Ruana começa dizendo que, assim como muitos brasileiros, a primeira vez que morou fora foi durante um intercâmbio na Europa. Depois, foi contratada, ainda no Brasil, por uma empresa de Lisboa, por isso já veio com o visto de trabalho. Sobre as dificuldades ela aponta:
“A maior dificuldade foi, sem dúvida, a burocracia. E quando chegamos tínhamos dificuldade em encontrar informação confiável. Além disso, eu destaco a busca por moradia, os aluguéis caros, a solicitação de documentos que muitas vezes ainda não temos.” (Ruana).
Nessa oportunidade, como ela já estava casada com o Renato, eles vieram juntos. Ele conta que pode se mudar “graças ao visto dela”. E completa:
“Por outro lado, recomeçar a vida do zero em um país diferente, sem ter nenhum parente ou amigo foi uma grande dificuldade para nós. Ter que resolver tudo, desde a viagem em si, a parte burocrática das documentações, a busca por um apartamento, e tudo isso sem ter uma rede de apoio”, relembra Renato.
Já a Gisele conta que sua experiência precisou ser interrompida por motivos de saúde:
“Eu tinha vindo em 2017 para a Espanha com um bom planejamento financeiro, mas descobri um câncer que me fez voltar ao Brasil depois de uma semana da minha chegada. Depois disso, me recuperei da saúde e voltei em 2019 com outro visto de estudante, para cursar um mestrado.”
Ela comenta que, atualmente, a dificuldade é equilibrar as finanças e contas com o aumento do aluguel em Barcelona.
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A Carla nos detalha como chegou à Galícia. Com um misto de poesia, incertezas, melancolia e até uma pitada de humor, assim, ela nos relata sua jornada:
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Abrir Conta Multimoeda →“Vim movida por uma palavra e seu sopro que tece tormentas. Atravessei o Atlântico com esse tremor. Não mais o chão firme. Me ofereci a esse caminho palmilhado às cegas. Fui aprendendo a habitar a velocidade dos vendavais. Assim entrei em uma terra nova. Não, não, Espanha não: amor! Não enfrentei dificuldades burocráticas, porque fui muito bem assistida no processo. Enfrentei, isso sim, o que enfrenta todo mundo que emigra: a chaga que fica quando se abandona o que é próprio, como disse Mónica Ojeda. O nome insistente dessa chaga, dessa ferida, provavelmente seja saudade. Mas às vezes é tristeza, desenraizamento, estranheza, solidão…”.
Para Anelise o pontapé inicial também foi através dos estudos. Ela fez seu doutorado na França, então obteve o visto de estudante. Após mudar para Espanha com um visto parecido, ela conta que depois de 2 anos no país, conseguiu sua nacionalidade espanhola.
“O difícil foi me despedir da família e amigos, e continua sendo. No mais, não tive dificuldades específicas porque estava muito motivada.” (Anelise).
Ela diz que era um grande sonho fazer um doutorado na Europa e que começou a se preparar para isso desde a graduação. Depois, foi um caminho natural para decidir se estabelecer de vez no Velho Continente.
E se você, assim como muitos brasileiros que decidem morar na Espanha, tem dúvidas sobre por onde começar, qual visto solicitar ou como organizar a mudança, contar com uma orientação especializada, como a assessoria da Madeira da Costa, pode tornar o processo mais simples e eficiente.
Por que brasileiros escolhem morar na Espanha?
Na coluna Como escolher um novo país?, eu já contei porque eu escolhi viver aqui. Agora, confira o que dizem outros brasileiros que moram na Espanha e o que os motivou para decidir pelo país como novo lar!
“O clima foi fator determinante para escolher a Espanha. Também levamos muito em consideração a cultura e a abertura do povo espanhol. Além disso, queria aprender um novo idioma, então o espanhol/castelhano acabou sendo conveniente”, explica Ruana.
Renato segue com o mesmo pensamento:
“Eu gosto muito de praia e calor, e o clima na Espanha é muito bom, tem um litoral com praias lindas e com a temperatura da água bem agradável. Outro motivo foi o idioma, que por ser parecido com o português é mais fácil de entender e nos facilita a aprender o idioma. Também tem o lado cultural e as pessoas. Desde que me mudei para cá, todos os espanhóis sempre foram amigáveis e respeitosos comigo.”
A facilidade da língua também foi um dos fatores que motivaram Gisele que, por sorte, encontrou em Barcelona o mestrado que queria fazer.
“Meu sonho era morar na praia e ter um aeroporto que me conectasse com muitos destinos. Além disso, a parte de família do meu pai é espanhola (de Granada e Málaga), então, desde pequena, estávamos acostumados com a cultura em casa.”
Anelise conta por quais motivos escolheu viver nas Ilhas Canárias:
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INSCREVER GRÁTIS→“Eu escolhi as Ilhas Canárias porque é um lugar mágico para viver, posso estar em contato com a natureza, as pessoas são simpáticas e tem um centro de pesquisa em astronomia que é um dos maiores da Europa.”
Por outro lado, Carla revela que não foi ela quem escolheu o país, mas sim o país que a escolheu:
“Não escolhi a Espanha, digo, Galícia, foi a Galícia quem me escolheu. Porque se o condenado galego que me fez atravessar o oceano vivesse em Burkina Faso, lá estaria eu. O que seria uma má sorte, já que Burkina, como Minas, não tem mar.”
Ou seja, basicamente, o que une as histórias desses brasileiros que moram na Espanha é uma mistura entre o clima agradável e a rica cultura espanhola.
Mudanças de hábitos
Há algum tempo eu contei por aqui sobre alguns hábitos espanhóis com os quais pode ser difícil se acostumar. Ainda assim, a mudança de país quase sempre vem acompanhada da mudança de alguns hábitos.
A Ruana e o Renato, por exemplo, dizem que começaram a ir à praia com muito mais frequência. “Também comecei a andar mais de bicicleta e fazer passeios pelos parques e pela cidade”, comenta Renato.
E a Ruana completa: “O povo espanhol tem muito essa cultura de aproveitar o dia ao máximo e eu me adaptei a isso com facilidade. Desde que cheguei já fiz kickboxing, aulas de cerâmica, academia, aula de costura, yoga…”
Para a Gisele, as mudanças de hábitos estão relacionadas à qualidade de vida e à simplicidade:
“Ando mais de bicicleta ou a pé. Tenho mais segurança e pratico mais atividades ao ar livre e culturais. Por exemplo, biblioteca era algo que eu nunca frequentava em SP, e aqui eu já conheci mais de 10 bibliotecas.”
Carla comenta: “incorporei um montão de palavras galegas e espanholas na minha fala brasileira. […] Aprendi a gostar de fular, cachecol, do frio. Deixei de comer todo dia arroz com feijão. Descobri os cogumelos, as alcachofras, os pimentões assados, as nectarinas…”

No caso da Anelise, essa mudança parece ter sido ainda mais profunda.
“Acho que no Brasil ainda era muito tímida fora da minha rede de amigos e familiares. Morar fora me fez mudar, percebi que o esforço de começar novas amizades tinha que partir de mim.”
Anelise reflete também sobre como essa mudança de atitude a fez conquistar muitas amizades e conexões profissionais: “e imagino que contribuiu para ter mais confiança em mim mesma e não me importar com o que pensam de mim”, conclui.
Do que gostam e não gostam os brasileiros que moram na Espanha
Ruana diz que ama a Espanha e adora viver aqui. Não só pelo clima, a hospitalidade, mas também as paisagens naturais, as cidades limpas e planejadas. Porém, como tudo na vida, há alguns dessabores:
“Mas sendo brasileira, morando em Lisboa e depois vindo pra cá, acho que a comida deixa um pouco a desejar… nada grave, mas acho que é o que, pra mim, deixa a desejar um pouco.”
Renato, que já nos contou como gosta do clima (principalmente), das pessoas que são muito amigáveis, do idioma e da cultura, adiciona que o país é muito diverso.
“Tem muitos lugares super interessantes para visitar e cada região tem características únicas. Uma coisa para se adaptar é que, aos domingos, muitos comércios não abrem, como mercado, farmácia… Então, sempre temos que planejar a semana já levando isso em consideração.”
Gisele gosta do jeito de viver da Espanha: “viver para desfrutar” e entende como um benefício para a saúde e a longevidade da população.
“É normal você ver como as pessoas idosas aproveitam muito a vida aqui, um pouco diferente da minha cidade, onde eles ficam mais em casa, assistindo televisão. Além disso, para mim, a Espanha é uma oportunidade de trabalho. Abri recentemente uma agência de receptivo para brasileiros e agora empreender na Europa é o meu objetivo.”
No Instagram do Euro Dicas você também pode conferir um post sobre as pequenas simplicidades que tornam a vida na Espanha ainda mais especial.
Percepções diferentes sobre o mesmo país
Diferentemente do que falam Ruana e Renato sobre os valencianos, Gisele diz que as pessoas em Barcelona não são tão receptivas.
“O que não curto é que muitas pessoas ainda são muito fechadas para novas culturas e, por outro lado, o aumento dos furtos em Barcelona. Acredito que é algo que é preciso discutir mais a sério para que não se transformem em roubos e violências físicas.”
Sobre estar na Galícia, Carla explica que:
“De onde eu falo, Galícia, o que mais gosto é do verde, verdíssimo, do cheiro de terra molhada, do ocre lumínico dos húmus, do escandaloso amarelo dos ‘toxos’, da elegância astuta das pegas, dos diminutivos da língua galega. Agora, o que vou confessar é quase uma heresia, que ninguém nos ouça, mas não suporto o som da gaita galega.”
E para quem está nas Ilhas Canárias, o sentimento de Anelise é de reciprocidade da multiculturalidade. Ela explica que isso a faz se sentir mais próxima do Brasil.
“Eu amo o fato das Ilhas Canárias terem muita influência de países latino-americanos, principalmente de Cuba, Venezuela e Colômbia. Atribuo a essa mescla o fato de as pessoas serem muito amáveis. Todos ou quase todos são muito simpáticos, sorridentes, se dirigem às pessoas como ‘mi niña’ ou ‘mi niño’.”
Porém, nem tudo são flores: “o que não gosto é do racismo velado. As pessoas não admitem que existe discriminação racial, mas já escutei comentários aterradores de espanhóis sobre imigrantes do continente africano”, conta.
Os pratos espanhóis preferidos dos brasileiros que moram na Espanha
Ruana inicia dizendo que é o pão com tomate! Uma receita tão tradicional na Catalunha que eu já tinha até comentado sobre ela na coluna Morar em Barcelona é morar na Espanha?. Já o marido Renato conta que para ele são as batatas bravas.
Para Gisele a tortilha de batata tem um lugar especial:
“Minha vizinha do prédio faz a melhor que tem, e sempre me leva em casa uma feita por ela com receita de família.”
Carla completa dizendo que tortilha de ovo e batata “não teria como dar errado”.
Anelise conta que adora almogrote, um queijo originalmente da ilha La Gomera, mas bastante popular em todas as ilhas. “É uma pasta de queijo picante que produzem com queijo curado, pimentão e especiarias, uma delícia!”, descreve ela.

Observação: percebeu que ninguém citou a paella? Ok, ok, eu, Tátylla, amo paella.
Do que sentimos mais saudades
Falar de saudades do Brasil, certamente é um assunto intenso que “nos pega” em diferentes lugares. Dos pontos em comum, está a falta da família que está no Brasil. Gisele comenta:
“Minha família, porque o resto eu tenho muito próximo. Agora tenho uma sobrinha de 1 ano e 8 meses, então não vejo ela crescer e aprender, isso me deixa triste, perder a infância dela e ela nem saber quem eu sou. Mas mesmo assim não voltaria a morar no Brasil.”
Ruana concorda e adiciona: “com certeza, estar perto das pessoas que eu amo… minha família e meus amigos. É o clichê dos imigrantes, né? Além disso, a comida obviamente… e o açaí (a preço acessível) também!”
Da mesma maneira, para Anelise, além dos “meus queridos obviamente – mas das pessoas em geral. É chegar no Brasil e escutar português, o nosso jeitinho feliz e de prosa, nossa alegria, nossa música contagiante, e tudo me faz encher o coração de felicidade”.
Para Carla a falta do idioma é ainda maior, especialmente da sonoridade do sotaque mineiro. E, como uma boa escritora ela nos descreve um sentimento que só quem vive fora do Brasil consegue entender, e só de ler, imaginar:
“Existe um gesto do corpo, uma articulação dos afetos que só se materializa no ‘minerês’ que falo. Se digo: ‘um cadiquim mais di café’, o corpo já advinha a presença das montanhas, o interior poroso de suas sombras onde os passos e os pensamentos desaparecem entre raios solares; o corpo saboreia a lírica agridoce dos grãos: uma origem eivada de cantos de bem-ti-vis, latidos de cachorros, balanceio dos cafezais, latifúndios fecundados com o suor da classe trabalhadora, do cheiro ineludível da fornada de pão-de-queijo, das lágrimas e risadas de quem se agita no mesmo encantamento.”
Mesmo com toda a saudade que acompanha quem escolhe fazer de outro país o seu lar, conhecer essas histórias pode ser justamente o empurrãozinho que você precisa para dar o primeiro passo rumo a essa nova jornada.
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*A opinião dos colunistas não reflete necessariamente a opinião do Euro Dicas.