Como é viver na Capital Verde Europeia 2024 — Valência? A cidade espanhola eleita pela Comissão European Green Capital Award em outubro de 2022 recebeu o prêmio que reconhece os esforços das cidades europeias para melhorar o meio ambiente e, assim, a economia e a qualidade de vida da população.

O que avaliam para isso? Da qualidade do ar à mobilidade urbana, do uso sustentável do solo aos esforços de combate ao câmbio climático, entre outros fatores. Agora, quer saber como é, na prática, viver em uma cidade assim, mais verde e sustentável? Vem comigo que eu te conto!

Turia, o parque que era um rio

Era uma vez uma cidade atravessada por um rio que vivia transbordando e causando enchentes. Essa história parece conhecida, não é mesmo? Só que, no caso de Valência, onde eu moro, o drama acabou tendo um final feliz (ou quase).

A situação começou a mudar nos anos 60, quando decidiram construir um novo leito (fora do centro urbano) e desviar o rio. A ideia inicial era construir sobre o antigo leito uma série de pistas para conectar a cidade de uma ponta a outra.

Felizmente, após uma intensa manifestação popular, decidiram transformar o espaço em um grande parque urbano.

Com quase 10 quilômetros de extensão e 200 metros de largura, o parque Jardins do Turia é, atualmente, o maior parque linear urbano da Europa. Um fator que, certamente, contou pontos na escolha de Valência como Capital Verde Europeia 2024.

Um rio de vida

Assim como muitos valencianos, estrangeiros e turistas, eu sou frequentadora assídua dos Jardins do Turia. Para mim, o parque é ideal para caminhar, seja como forma de exercício ou pelo simples prazer de passear em um espaço verde. Além de não ter que enfrentar nenhum carro ou semáforo, eu acho a trilha sonora dos pássaros muito estimulante.

Tramo VI dos Jardins do Turia, em Valência. Foto: Tátylla Mendes
Curtir os Jardins do Turia é uma das alegrias de viver na Capital Verde Europeia 2024. Foto: Tátylla Mendes.

Mas além da caminhada, o parque é utilizado para as mais diversas atividades: correr, andar de bike, jogar futebol, rugby, beisebol, peteca ou pique-pega. Passear com o cachorro, com o carrinho de bebê, com o namorado, com a família, com os amigos ou sozinho. Fazer yoga, tai-chi, aula de dança ou piquenique, entre outras diversas possibilidades.

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Se ainda tem muita gente que segue chamando os Jardins do Turia de rio, é porque por aí segue fluindo uma torrente de vida.

Algumas pendências

Conversando com um geógrafo valenciano para uma reportagem que escrevi sobre os Jardins do Turia, ele me contou que Valência ainda tem algumas pendências para resolver.

Segundo ele, ainda falta conectar o espaço verde ao Parque Natural do Turia por um lado e ao mar pelo outro. Além disso, com o crescimento da cidade, o novo leito do rio fica, agora, às margens da área urbana e precisa ser renaturalizado.

Comento isso para dar uma visão mais realista e menos romantizada da cidade. Afinal, apesar dos esforços em prol da sustentabilidade, nenhuma cidade é perfeita e sempre haverá algo que pode ser melhorado.

Outras (muitas) zonas verdes

Como comentei, para fazer exercício, meu lugar preferido são os Jardins do Turia, especialmente dos tramos I ao VIII. Já para fazer um piquenique, o meu preferido é o parque de Viveros. E para me inspirar, os Jardins de Monforte.

Para dar uma voltinha, o parque de Marxalenes ou o de Cabecera. Para ir ao teatro, o Parque Central ou o da Rambleta. Para ir ao museu, os Jardins do Antigo Hospital. Para levar os amigos que vem turistar, os tramos XIII e XIV do Turia.

Parque dos Viveros em Valência
Uma parte do parque de Viveros, um dos locais que frequento. Foto: Tátylla Mendes

Valência, a Capital Verde Europeia 2024, faz jus à cor do seu título. Para a felicidade dos amantes da natureza (como eu), parque aqui é o que não falta.

Segundo o Plano Verde e da Biodiversidade de Valência, a cidade tem 28 grandes parques e jardins, sem contar os parques de bairro, os boulevards, as avenidas ajardinadas. Resultado: 97% da população de Valência vive a menos de 300 metros de zonas verdes urbanas.

Leia também o artigo sobre Barcelona ou Valência e descubra qual a melhor para se viver.

A horta de Valência

Além das zonas verdes urbanas, Valência está rodeada por L’Horta de València: um cinturão rural de 20 mil hectares, dedicado sobretudo à agricultura.

Comparado ao Brasil, isso pode não parecer muito especial. Mas L’Horta de València é uma das poucas áreas rurais periurbanas que restam na Europa. E é claro que isso também somou pontos para eleger Valência como a Capital Verde do velho continente este ano.

Mas que diferença isso faz na vida da gente?

Na prática, ter um cinturão agrícola abraçando a cidade contribui para ter fácil acesso a hortifrutigranjeiros frescos de km zero (ou quase). A disponibilidade é alta e os preços, não tanto. Ou seja, dá para se alimentar melhor e de forma mais sustentável.

A Albufera (e a origem da paella)

Uma albufeira é um lago que se comunica com o mar quando a maré enche. A Albufera de Valência fica a uns 20 km do centro urbano. Apesar de fazer parte da cidade (acessível, inclusive, com transporte público), a mudança de cenário é total.

De ônibus, o trajeto leva mais ou menos uma hora. Não é dos mais rápidos, mas é muito agradável ver o tumulto da cidade ir cedendo lugar aos arrozais e bosques que rodeiam o lago. Para mim, é uma das melhores opções de passeio para desconectar um pouco em um dia livre.

Albufera de Valência
Um pedacinho da Albufera de Valência. Foto: Tátylla Mendes

E nada melhor para fechar esse passeio com chave de ouro do que comer uma boa paella — uma das comidas típicas da Espanha. Afinal, como já contei na coluna Mitos sobre a Espanha, a Albufera de Valência é a verdadeira terra de origem da paella. Aliás, as plantações de arroz da região integram a área rural periurbana.

De bike é melhor

Valência é a melhor cidade da Espanha para circular com bicicleta. Quem diz isso não sou eu (que — confesso — já não sei mais andar de bike), é a Organização de Consumidores e Usuários. Mas é fácil de perceber os motivos.

Primeiro porque Valência é absolutamente plana. Segundo porque existem mais de 160 km de vias exclusivas para se deslocar em duas rodas pela cidade com segurança. Para ter uma noção, é possível ir, inclusive, até a Albufera de bicicleta. Sem contar as bicicletas para alugar, os estacionamentos de bike, etc.

Até o clima de Valência favorece os deslocamentos de bicicleta (ou, no meu caso, a pé). E tanto os habitantes da cidade quanto os turistas costumam aproveitar essas vantagens, contribuindo para que os deslocamentos pela Capital Verde da Europa 2024 sejam realmente mais sustentáveis.

Recolhimento e separação do lixo

Outro dia vi um vídeo em que várias pessoas, em Nova York, estavam gravando um caminhão fazendo o recolhimento mecânico dos contêineres de lixo. Imagino que talvez fossem turistas, porque esse sistema de recolhimento mecânico não é nenhuma novidade. Pelo menos, aqui na Espanha não é, principalmente nas grandes cidades como MadridBarcelona.

O normal é ter a cada poucas esquinas um conjunto de contêineres, um para cada tipo de resíduo: orgânico, papel, plástico, vidro e restos. Assim, se as pessoas colaboram, já fica mais fácil reciclar. Depois, vem o caminhão, estira os braços mecânicos e esvazia o conteúdo do contêiner na caçamba do veículo.

Contêineres de roupas e de óleo em Valência, Capital Verde Europeia 2024.
Um dos pontos de como é viver na Capital Verde Europeia 2024 é tornar a separação do lixo uma rotina. Foto: Tátylla Mendes

Aqui em Valência também tem contêineres próprios para óleo usado, para pilhas e para roupas e calçados. Além disso, a cidade ainda investiu em algumas plataformas móveis com contêineres de menor porte agrupados, especiais para ruas estreitas. Na prática, isso resulta, é claro, em uma cidade mais limpa e sustentável.

A Capital Verde Europeia 2024 para além do verde

Apesar de estar muito ligada ao meio ambiente, a sustentabilidade também está relacionada a fatores sociais, econômicos e até culturais. E como expliquei lá no início, a Comissão Europeia considera vários desses fatores. Por isso, eu acho que foi muito acertada a eleição de Valência, este ano, como Capital Verde da Europa.

Porque além das suas dezenas de zonas verdes, Valência também investe em diversas outras iniciativas. Há várias ruas e praças exclusivas para pedestres. Há fontes de água filtrada grátis em alguns pontos da cidade. Há medidores de ruído em várias praças (para conscientizar sobre a poluição sonora).

Plaza de la Reina, em Valência
Plaza de la Reina, um dos espaços pedonais da Capital Verde Europeia 2024. Foto: Tátylla Mendes

E tem mais: boa parte da frota de ônibus públicos é de elétricos ou híbridos. A rede de água tem medição digital em tempo real, aumentando a eficiência hídrica. Além disso, a cidade fez até a verificação e certificação da pegada de carbono da sua atividade turística.

Mais sustentável e agradável

Como contraponto, acho que é importante mencionar as Fallas de Valência. Como comentei na coluna sobre a festa, é grande a poluição atmosférica e sonora causada pelos fogos de artifício e pela queima de esculturas.

De todo modo, estamos falando de uma tradição e de algo (mais ou menos) pontual. Volto a dizer, aliás, que nenhuma cidade é perfeita e sempre há fatores que podem ser melhorados.

Ainda assim, como já deve ter dado para perceber, são diversos os esforços da Capital Verde Europeia 2024 em prol da sustentabilidade. E viver em uma cidade assim não é apenas mais sustentável, é muito mais agradável.

Agora que já sabe como é viver na Capital Verde Europeia 2024 e tem certeza de que é a cidade certa, recomendo a leitura do ebook Como morar na Espanha, elaborado pela equipe do Euro Dicas e pessoas que vivem no país Ibérico. Vale a pena conferir, pois ele vai te ajudar em todos os detalhes do planejamento.