Um sonho, muita coragem, incontáveis documentos e bagagens que carregam toda uma vida. Ser imigrante é renunciar a muita coisa, mas também abrir-se para um novo mundo repleto de possibilidades. Quando decidi migrar para a Espanha, fui de coração aberto sem saber como seria recebida e se o imigrante brasileiro é bem recebido na Espanha.

Apesar de todo o planejamento e as informações na ponta da língua, há uma coisa que só se descobre ao chegar, sentindo e vivendo.

Ser imigrante: quando “casa” é um conceito mutável

Há quem diga que ser a sua própria casa é o suficiente para explorar o mundo e encaixar-se em qualquer país e cultura. Eu concordo, mas depois de um ano e meio morando na Espanha, hoje vejo como uma via de mão dupla.

Com boa alma de imigrante, eu já vinha fazendo pequenas migrações dentro do Brasil. Mesmo mudando de cidade dentro do mesmo estado, já sentimos diferença e precisamos criar a nossa nova casa. É preciso, sim, saber ser o seu próprio lar. Mas faz toda a diferença se sentir bem recebido, especialmente em um novo país.

Para embalar a sua leitura, compartilho essa playlist sobre mudança de cidade que fiz quando estava me mudando para a Espanha.

Nem daqui, nem de lá: o imigrante brasileiro é bem recebido na Espanha?

Quando não somos daqui e já não somos de lá, nos transformamos. Esse é o agridoce de imigrar. Mas se conseguirmos olhar mais pro lado doce, vemos que é possível, sim, nos sentirmos cada vez mais daqui, do nosso jeitinho. Então, será que o imigrante brasileiro é bem recebido na Espanha?

Indo direto ao ponto, sim. Os imigrantes brasileiros são, de forma geral, muito bem recebidos na Espanha. Estamos por todos os lados: onde quer que eu vá, ou escuto um brasileiro, ou encontro conhecidos. Como estamos aqui em peso, tenho a sensação de que já é algo normal.

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A comunidade brasileira na Espanha é muito grande e confesso que ter essa rede de apoio me ajudou muito. Cada um de nós sente a recepção da Espanha de uma forma e vive experiências particulares, mas não há nada como poder compartilhar as dores e alegrias com quem entende.

Estamos em peso na Espanha

A Espanha é um país que recebe muitos imigrantes, tanto que atualmente a população do país alcançou o seu recorde histórico devido aos estrangeiros. De acordo com o Portal 20Minutos, hoje somos 6 milhões de estrangeiros na Espanha.

A população estrangeira da Espanha passou de 1,6% a 11,7% nas últimas três décadas, conforme estudo realizado pela plataforma Newtral. Morar em um país que já recebe imigrantes com frequência faz muita diferença na percepção de receptividade.

Dados sobre os brasileiros na Espanha

Os dados mais recentes do INE (Instituto Nacional de Estadístíca) mostram que somos cerca de 91 mil imigrantes brasileiros na Espanha. Aliás, a Espanha só perde para Portugal quando o assunto é a quantia de imigrantes brasileiros.

Segundo os dados mais recentes da Newtral, os imigrantes brasileiros na Espanha estão em maior peso nas comunidades da Galícia, Catalunha, Málaga e Madrid.

Eu moro em Barcelona, a capital da Catalunha. Desde que cheguei, noto um fenômeno muito particular: quando falamos que somos brasileiros, é comum que abram um sorriso e digam que acham o Brasil lindo, que conhecem o Rio de Janeiro, que querem conhecer São Paulo, que estão planejando ir ao carnaval. Há certo deslumbre.

imigrante brasileira viajando a turismo na Espanha
Estar aberto, sem deixar de lado a sua cultura, é essencial para se sentir em casa na Espanha. Foto: Liz Chollet

Por toda a cidade encontro lojas de produtos brasileiros, diversos restaurantes e eventos para a comunidade de imigrantes brasileiros na Espanha. Há muito espaço e vejo isso como um ponto positivo.

Brasileiros X latinos: a língua materna do imigrante aproxima ou afasta?

“Você se identificava como latina quando morava no Brasil?” Uma amiga brasileira me perguntou logo quando cheguei à Espanha. Entre todos os choques culturais, um muito forte que temos quando moramos no exterior é assumir a identidade de latinos.

Foi morando na Espanha que assumi muito mais forte a identidade de latina. Porém, foi também assim que percebi uma sutileza muito grande no tratamento com estrangeiros na Espanha.

Enquanto nós, imigrantes brasileiros temos um idioma próprio, latinos de outros países como Venezuela, Peru e República Dominicana falam espanhol.

A Espanha tem muito orgulho da sua cultura, assim como nós somos com o Brasil. Por termos um idioma distinto e uma cultura muito singular, sinto que nos veem como estrangeiros que não irão “interferir” na cultura local e me questiono o quão positivo ou não isso é.

Por outro lado, há um atrito entre o espanhol de países latinos e o espanhol da Espanha. Apesar de todos se entenderem, existem palavras específicas em cada país e é comum que gere um atrito entre o que é o “espanhol de verdade”– termo depreciativo que já ouvi muito por aqui. É a mesma coisa que acontece com brasileiros que moram em Portugal.

O imigrante brasileiro é bem recebido em todas as regiões da Espanha?

“Diga-me onde moras e te direi como é ser um brasileiro na Espanha”.

Fato é que além da experiência individual, a região da Espanha onde você mora interfere muito na percepção de receptividade. Morar em Madrid e Barcelona é completamente diferente do que morar no interior da Espanha e isso com certeza reflete no tratamento dos locais com os imigrantes.

Afinal, as capitais e grandes cidades da Espanha são repletas de imigrantes de todos os lados do mundo e os locais já estão muito mais acostumados com essa convivência.

Cidades muito turísticas também costumam ter uma boa recepção ao imigrante brasileiro, já que são essas as cidades em que mais estrangeiros trabalham e acabam morando.

Isso não significa que não há uma boa recepção no interior da Espanha, mas pode sim gerar maior estranhamento ou ser mais complicado se ajustar aos costumes e se integrar com os moradores locais.

Duas culturas e dois idiomas: como é ser imigrante brasileiro na Catalunha

Viver na Catalunha é como viver em um país à parte. É Espanha, mas a sua cultura é tão particular que você se sente residente de dois países.

E não só a cultura. Na Catalunha também se fala Catalão, além do castelhano (espanhol), um idioma que parece um mix entre francês, português e espanhol.

O imigrante brasileiro é bem recebido na Espanha e também na Catalunha. A comunidade é uma das que mais recebe imigrantes e os locais já são acostumados. Sempre me senti bem tratada pelos catalães, mas é justamente no idioma que as diferenças começam a aparecer e o imigrante pode se sentir deslocado.

Há particularidades na Catalunha

Há uma rixa entre a Catalunha enquanto comunidade autônoma e a Espanha enquanto país. Além de sermos estrangeiros na Espanha, somos também estrangeiros na Catalunha. Vivemos e sentimos em dobro, sabe?

Desde se sentir deslocado ao estar em um ambiente repleto de catalães que podem não querer usar o castelhano (espanhol) para integrar o imigrante até diretamente ouvir “Aquí se habla catalá”, como muitos amigos já me relataram, é comum se deparar com situações que demonstram um estranhamento com o imigrante.

Mas, veja só: não sinto que seja por sermos brasileiros, e sim com todos os estrangeiros, pois a comunidade local quer preservar a sua cultura e o seu idioma. Quando analisamos dessa forma, é aquele clássico dos dois lados da mesma moeda.

Ser bem recebido não é o mesmo que se sentir incluído

Há uma diferença muito grande em se sentir bem tratado e se sentir incluído na cultura. Quando eu estudava espanhol, ainda no Brasil, tive uma professora catalã e ela me disse algo que lembro até hoje:

“Quando um catalão te convida para jantar na sua casa, é porque agora sim você faz parte.”

Os catalães são realmente um pouco mais distantes, como se quisessem manter o universo deles muito preservado. Notei essa diferença muito fortemente quando conheci e fiz amigos de Madrid, Valência e Málaga.

Digo tudo isso sendo muito apaixonada pela Catalunha. A cultura, a gastronomia, as festas e a comunidade unida me encantam muito. É também muito incrível poder vivenciar duas culturas quando se é imigrante. Vejo como ganhar na loteria, sabe?

diversas pessoas em bares ao ar livre na Espanha
Criar raízes em um novo país requer tempo, respeito com os seus sentimentos e também com a cultura local.

Depois de tanto tempo morando aqui, hoje me sinto incluída na cultura. Mas é claro que esse movimento teve que vir de mim. Estar aberto a experimentar, vivenciar a cultura, perguntar, conhecer – sem julgar –  faz toda a diferença no quanto a comunidade local te abraça e inclui ou não.

E sabe o mais legal? Sempre que me aproximo de algum local da Catalunha e comento que estou estudando catalão, que adoro as festas locais e demonstro interesse na cultura, eles ficam muito felizes! Apesar de existirem questões delicadas, tem um lado bom. E saber aproveitar isso faz toda a diferença.

Existe xenofobia com brasileiros na Espanha? Como lidar com as questões delicadas

Mesmo com uma boa recepção – no geral – existem casos de xenofobia com imigrantes brasileiros na Espanha. E às vezes são tão sutis que você quase nem percebe na hora, mas fica com uma pulga atrás da orelha.

“Mas no Brasil vocês têm acesso a isso?” é algo que já escutei mais de uma vez. Inclusive para coisas bobas, como uma fruta ou verdura.

Fica óbvio e escancarado o pouco conhecimento que se tem do Brasil. Não podemos generalizar, é claro, mas é uma dura realidade. E mesmo que sejam perguntas que parecem inofensivas, tem um fundo de ofensa.

No seu país pode ser assim, mas aqui não é” e “Volte para o seu país” são frases que amigas próximas já escutaram em situações delicadas, inclusive em um golpe de aluguel em que claramente aproveitaram a situação de estar lidando com um imigrante que, querendo ou não, está mais vulnerável.

E o racismo?

Impossível pensar nas questões difíceis de ser um imigrante brasileiro sem pensar no caso do jogador Vinicius Jr. que mais de uma vez já foi vítima de racismo durante os jogos.

A seleção espanhola não tomou muitas medidas, mas foi recentemente firmado um acordo histórico entre Brasil e Espanha para combater o racismo e a xenofobia.

De acordo com o portal do Governo Brasileiro, o acordo foi firmado entre a ministra Anielle Franco, do Brasil, e Irene Monteiro, ministra da igualdade da Espanha com o objetivo comum de promover ações no campo da educação, da justiça e do combate.

“Brasileño? Entonces sabes sambar?”

Essa é uma frase super comum. Assumir que todos nós amamos futebol, que não conhecemos o frio porque no Brasil “só faz calor” e que entendemos perfeitamente o português de Portugal, também.

Já aconteceu de se confundirem ao dizer e me apresentarem como portuguesa. Ou o clássico de dizer que falamos “brasileiro”. Percebe como é um pouco confuso? Ao mesmo tempo em que deslumbram o Brasil, nota-se pouco conhecimento. E isso acaba chegando até nós.

E com outros imigrantes?

A xenofobia não é particular com os brasileiros. E diria que é muito mais comum quando pensamos em culturas muito “remotas” aos olhos de europeus.

Aqui em Barcelona os supermercados de bairro, esses que ficam abertos até tarde, como as ‘vendinhas’ do Brasil, são em grande maioria de proprietários do Paquistão. Se tornou comum chamá-los de “paqui”, dizer “Vamos num paqui” e associá-los à isso, por exemplo.

Recentemente ocorreu até mesmo uma campanha na cidade para que os moradores deem mais visibilidade e deixem de chamá-los apenas de Paqui, para que comecem a integrá-los mais à sociedade começando por perguntar os seus nomes.

A mulher brasileira

O imigrante brasileiro é bem recebido na Espanha, independente de gênero, mas sem dúvidas existem detalhes que sentimos diferente enquanto mulheres brasileiras imigrantes.

A Espanha é um país muito seguro, inclusive para nós mulheres. Chega a ser esquisito quando chegamos. Custamos a nos acostumar em poder sair à noite, a voltar de ônibus de madrugada sozinhas, a não nos preocupar tanto com a roupa que vamos usar.

Apesar disso, assim como em todo o mundo, existe uma sexualização da mulher brasileira. Não é recorrente e muito menos algo que você deva se preocupar no dia a dia. Sabe todo esse assédio que sofremos no Brasil? Aqui já não é assim. Então a sexualização não é algo escancarado mas, por exemplo, eu já ouvi alguns comentários de pessoas com quem saí.

O nível de qualificação interfere na receptividade do imigrante brasileiro?

Será que a qualificação interfere em quanto o imigrante brasileiro é bem recebido na Espanha? Indo direto ao ponto, apenas quando o assunto é conseguir emprego com salário alto e melhores condições de trabalho, pode ser que sim.

No dia a dia não percebo tratamento diferenciado ou mais ou menos inclusão do brasileiro na cultura pelo seu nível de qualificação. Mas no mercado de trabalho essa pode sim ser uma questão.

Trabalhar na Espanha pode significar começar “do zero” na sua área, em muitos casos. Mesmo com muitos títulos, nem sempre é tão fácil entrar em um nível que você tinha no Brasil, por exemplo. Depende muito da área e da necessidade da empresa.

Para imigrantes brasileiros que não tem passaporte europeu e estão aqui como estudantes ou buscando vagas, conseguir uma empresa que se disponibilize a fazer um visto de trabalho nem sempre é tão fácil, mas é possível!

Dá para se sentir em casa?

Sim!

Uma das grandes vantagens de ser um imigrante brasileiro na Espanha é que, apesar de serem países totalmente diferentes, vários costumes e estilos da cultura nos remetem ao Brasil.

O povo é caloroso, há muita festa de rua, o verão é animado, há muitos museus e sempre há o que fazer na cidade. Tem muita vida, sabe? E isso ajuda muito nós, brasileiros, a sentir que estamos em casa. Mas isso também depende do que você considera como sensação de casa.

Família é quem a gente escolhe

Tem quem precise morar sozinho para criar o seu espaço, tem quem não se importa em compartilhar apartamento na Espanha, tem quem custa mais e quem custa menos a se adaptar à rotina da Espanha. Mas tem algo que faz diferença para todos os imigrantes brasileiros na Espanha: contar com uma rede de apoio.

“Família é quem a gente escolhe” nunca fez tanto sentido para mim quanto hoje. Fazer amigos brasileiros e de outros países, mas que também sentem na pele o que é imigrar, é o que acalma o coração nos dias difíceis e o que alegra quando podemos compartilhar vitórias e conquistas no novo país.

Comentando sobre isso com amigos na mesa de bar, uma amiga me disse:

“Já reparou que aqui fazemos amigos totalmente fora da nossa bolha? Talvez no Brasil pessoas com essas opiniões e estilos de vida passariam despercebidas por nós, mas aqui isso é indiferente e nos unimos com esse sentimento em comum de sermos seres migrantes.”

Ser um eterno estrangeiro, mas criar raízes

Criar a minha própria relação com a cidade destravou muito a minha sensação de casa.

Encontrar um café favorito, ter uma rotina de caminhada, passear sozinho e se perder nas ruas em busca de pontos que só você mesmo vê e sente, ir de mercado em mercado até escolher qual vai ser o “seu” supermercado e então, quando perceber, se sentir perdido em um supermercado diferente.

Recentemente eu me mudei de bairro aqui em Barcelona. Morei por mais de um ano no apartamento anterior e senti essa mudança como se morasse nele há anos. Quando percebemos, nossa vida está aqui e já esperamos ansiosamente por uma festividade local, amamos um prato específico da cultura e temos amigos da cidade.

Criar raízes não é sobre estar completamente fixo e deixar de ser um passarinho, um ser migrante que vai de lá pra cá, mas sim sobre tomar conta de espaços seus e deixar que eles te façam sentir em casa, reivindicando o seu espaço e direito de viver no país.

Será que a Espanha é o meu lugar no mundo?

Os imigrantes brasileiros são bem recebidos na Espanha e esse já é meio caminho andado. Estarmos aqui em peso também faz toda a diferença. A Espanha é, sem dúvidas, um bom país para ser um imigrante brasileiro.

Mas essa também é, acima de tudo, uma resposta particular, que varia conforme o contexto e o background de cada imigrante. Tem brasileiros que sempre sonharam em morar na Espanha, outros que acabaram aqui por estudos ou trabalho e até quem veio depois de viver em outros países e seguem em busca da sua verdadeira casa no exterior.

Cá entre nós, sinto que eu e a Espanha fomos nos apaixonando pouco a pouco. Quando cheguei eu ainda tinha uma ligação muito forte com a minha cidade do Brasil. E sigo tendo, mas em poucas semanas e em muitos “dates” com Barcelona, me entreguei.

Pode ser que a Espanha seja o seu lugar no mundo, mas é só vivendo e se arriscando que você pode saber. Há uma frase que gosto muito e que me guia nessa longa estrada que é ser um estrangeiro:

“É melhor sentir saudades de casa do que nunca ver o mundo afora.”

Não temos como nos sentir em casa sem estarmos completamente entregues ao lado bom, às questões delicadas e ao que é desconhecido.