“Faz muito frio lá?”, me perguntava minha mãe antes de eu vir morar na Europa. Eu respondia que depende. “Depende do lugar e da estação do ano”, eu dizia, “mas na Espanha as temperaturas são mais amenas”. Isso porque eu ainda não conhecia o verão valenciano.

Depois de três anos morando em Barcelona, este é o segundo verão que eu vivo em Valência. E como tudo na vida, um verão à valenciana também tem seus prós e contras, suas delícias e seus horrores. Vem comigo que eu te conto.

Valência 40 graus

O calor e a umidade formam uma dupla explosiva. Quando eles se juntam, um estimula o outro. É exatamente isso o que acontece aqui em Valência. A umidade chega a aumentar o calor em até 10 graus. Por isso, há alguns dias em que o verão valenciano é realmente sufocante.

Só que quando eu digo dias, não me refiro apenas ao período diurno. Por um lado, eu adoro os dias mais longos do verão. O sol nasce entre 6h30 e 7h e se põe quase às 21h30. Resultado: outro dia, às 23h30, fazia 35ºC e a sensação térmica era de 44ºC. Dorme com um calor desses!

Temperatura em Valência à noite
Captura de tela do meu celular em uma dessas noites insuportáveis do verão valenciano. Foto: Tátylla Mendes

Para piorar, abrir as janelas nem sempre ajuda. Muitas vezes, parece mais que você abriu a porta do forno. Não é à toa que, diferente de muitos lugares da Espanha, aqui em Valência, é mais comum ter um ar-condicionado (para aguentar o verão) do que um aquecedor (para aguentar o inverno).

Outras cidades calorentas

Esse “calorzinho” de verão não é exclusividade de Valência. Muitas cidades andaluzas, por exemplo, chegam fácil aos 44ºC de temperatura absoluta.

Aliás, eu já tinha comentado sobre isso na coluna Mitos sobre a Espanha. E retiro o que havia dito por lá de que Valência tem temperaturas mais amenas. Em alguns casos sim, mas nem sempre.

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Para completar, o aquecimento global só tem piorado a situação. Segundo o governo espanhol, julho de 2023 foi um dos meses mais quentes de toda a série histórica.

Jantar de suvaquinho

Para enfrentar o calor, um costume muito tradicional aqui em Valência e em outras cidades da Espanha é “salir a la fresca”.

A expressão se refere ao hábito de levar uma cadeira para sentar na porta de casa. É bem comum em bairros onde ainda existem casas e em cidades menores (como também acontece em alguns lugares do Brasil).

Nessas ocasiões, muitas pessoas aproveitam para levar algo para comer e compartilhar. Originalmente, para ter as mãos livres, muita gente levava um sanduíche debaixo do braço. Daí nasceu a expressão “cenar de sobaquillo”, traduzida ao pé da letra, jantar de suvaquinho.

Mas quem mora em prédio também pode “salir a la fresca”. Só que aí, em vez de levar uma cadeira e “cenar de sobaquillo”, o mais comum é sentar-se na terraza (nas mesas que ficam na rua) de um bar ou restaurante. Só não dá para esquecer o leque, outro item essencial para enfrentar o verão valenciano.

Biquinão e topless

Por sorte, Valência é uma cidade de praia. Há duas no centro urbano (Arenas e Malvarrosa) e três mais ao Sul, ainda dentro dos limites da cidade (Pinedo, Saler e Devesa del Saler). As urbanas são mais cheias. As do Sul são mais agrestes.

Em todo caso, algumas coisas não mudam. Durante o verão valenciano, a água do mar é quase sempre quente (entre 24 e 27ºC). Isso, muitas vezes, acaba atraindo águas-vivas. E como estamos falando de um mar entre dois continentes relativamente próximos, há poucas ondas.

O que muda é nossa imagem sobre as europeias na praia. Nem todas usam biquinão. Na verdade, o biquíni brasileiro faz até bastante sucesso por aqui. Há muitas lojas que vendem “biquini brasileño”. Por outro lado, o topless também é comum. Se bem que em Barcelona se vê mais do que aqui em Valência.

Também já compartilhei por aqui como é viver em Valência, eleita a Capital Verde Europeia de 2024.

Horchata, a bebida do verão valenciano

Uma das maiores delícias do verão valenciano é a horchata. Trata-se de uma bebida de chufa originária de Alboraya (uma cidade colada em Valência). E o que é chufa? Um tubérculo com gosto mais ou menos similar ao da avelã. Portanto, para se ter uma ideia, a horchata seria mais ou menos parecida a um leite de amêndoas.

Horchata e farton no verão valenciano
Horchatas de chufa acompanhadas de fartones, um bolo que se molha na bebida. Foto: Tátylla Mendes

Se o nome lhe parece familiar deve ser pela música ‘Vaca Profana’, em que Caetano Veloso pede “horchata de chufa, si us plau” (horchata de chufa, por favor).

Mas aqui na Espanha o nome mais famoso ligado à bebida é o do rei Jaime I. Segundo conta a lenda, foi ele quem batizou a horchata:

–¿Qué es açò? (O que é isso?) – perguntou o rei a uma jovem.
–És llet de chufa (É leite de chufa) – ela respondeu.
–Açò no és llet, ¡açò és or, xata! (Isso não é leite, isso é ouro, moça) – disse o rei.

Fechado para férias

Outra característica bem marcante do verão em Valência é a “grande siesta” da temporada. Eu até já comentei sobre isso na coluna Com que hábitos espanhóis pode ser difícil de se acostumar.

A questão é que muitas lojas fecham no verão, principalmente os pequenos comércios. Algumas fecham durante todo o mês de julho. Algumas fecham durante todo o mês de agosto. E outras fecham entre um mês e outro.

Comércio fechado para férias
Todas as lojas fechadas e nem era hora da siesta. Foto: Tátylla Mendes

Ano passado, eu tentei encomendar uma torta para o aniversário do meu marido (que é no início de setembro) e não encontrei nenhuma confeitaria aberta. No final, tive que me contentar com uma torta pronta do mercado.

Muito mais turistas

Dizer que Valência é uma cidade turística é chover no molhado. Ok, Barcelona é mais turística. De fato, a capital catalã é a cidade espanhola que mais recebe turistas internacionais. Mas Valência não fica muito atrás.

Aliás, em 2022, a cidade foi eleita como a Capital Europeia do Turismo Inteligente. E a Comunidade Valenciana recebeu nesse ano mais turistas que a Comunidade de Madri. Foram 8,6 milhões de visitantes.

Como é de se imaginar, a maioria desses turistas visitam Valência durante o verão. Então, em agosto, principalmente, a cidade fica cheia de turistas.

Também já contei aqui sobre o meu fim de ano à espanhola.

Gran Fira de València

Como comentei lá no início, o verão valenciano tem suas delícias e seus horrores. Por um lado, faz um calorão que quase não dá para aguentar, está quase tudo fechado e tem um montão de turistas nas ruas.

Por outro lado, estão as praias, a horchata de chufa e as festas. Porque o verão é época da Feira de Julho, também chamada de Gran Fira de València. A Gran Fira é um evento que reúne vários eventos.

Eles montam um parque de diversões no meio do Jardim do Turia (um rio que virou parque). Tem shows e espetáculos de teatro em vários pontos da cidade. Tem a Parada do Orgulho LGBTI+. Tem cinema na rua. E, claro, tem espetáculos pirotécnicos. Se você leu a coluna sobre as Fallas de Valência, já sabe que a pirotecnia não podia faltar.

Gran fira de Valência
Um pedacinho do parque de diversões da Gran Fira de València. Foto: Tátylla Mendes

E para encerrar a Gran Fira ainda tem a Batalha de Flores. Um tradicional desfile de carros alegóricos floridos que termina com um enfrentamento floral.

As pessoas atiram flores nos carros e as valencianas que desfilam rebatem as plantas, criando um tapete de flores nas ruas. É um espetáculo bonito de se ver. Mas as valencianas (que vão com vestidos estilo século XIX) devem morrer de calor.

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