Quando eu decidi viver na capital catalã, em 2018, já fazia pelo menos 10 anos que eu morava sozinha. Então, imaginem meu choque quando descobri que compartilhar apartamento na Espanha é uma das formas mais comuns de viver em Barcelona. Como assim? Simples. Em vez de alugar um apartamento inteiro, você aluga apenas um quarto e compartilha os demais ambientes da casa com outras pessoas.

Quer entender melhor como isso funciona? Neste texto, eu conto um pouco da minha experiência compartilhando apartamento, das dores e delícias que vivi. Desde o dia em que a polícia bateu à porta até uma verdadeira história de amor, passando também pelos desafios mais triviais. É claro que nem todo mundo vai passar pelas mesmas situações que eu passei. Mas além de histórias engraçadas e outras mais trágicas do que cômicas, quem pensa em compartilhar apartamento em Barcelona descobrirá também algumas dicas muito úteis.

Em busca de um apartamento para compartilhar na Espanha

Quando eu cheguei a Barcelona, eu tinha muitos sonhos na cabeça e o dinheiro contado para morar na cidade pelo tempo que durava meu mestrado. Encontrar um aluguel barato era, portanto, uma das minhas prioridades. A outra era “empadronar-me” (registrar meu endereço na prefeitura – uma exigência para todos os residentes da Espanha). Os desafios que eu teria que enfrentar começaram por aí.

Um dos aluguéis mais caros na Espanha

Primeiro porque a capital da Catalunha tem um dos metros quadrados mais caros de todo o país. Para se ter uma ideia, em fevereiro deste ano, o preço médio do aluguel em Barcelona era em torno de 16 €/m2. E é exatamente por isso que compartilhar apartamento é tão comum na cidade.

Só que, quem aluga apenas um quarto precisa de uma autorização formal do proprietário ou locatário para “empadronar-se no local. E nem sempre é fácil consegui-la. Quer um conselho? Antes de fechar qualquer negócio, pergunte por essa possibilidade.

Folhagem de outono em vista da varanda
Vista do apartamento compartilhado em Barcelona

Por outro lado, Barcelona é a cidade com a maior oferta de “pisos para compartir” (apartamentos para compartilhar) de toda a Espanha. Mas, para encontrar um que se ajuste ao seu estilo de vida, seu orçamento e suas prioridades, o ideal é pesquisar bem.

Depois de bater muita perna, ligar para muita gente, mandar mensagens e fazer mil visitas, eu encontrei um assim. Ou, pelo menos, era isso que eu imaginava.

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A experiência de morar com desconhecidos

Antes de me mudar para a Europa, eu já tinha passado pela experiência de morar com uma amiga durante algum tempo. Mas, quando cheguei a Barcelona, não conhecia ninguém na cidade. Foi quando descobri que, além de ser normal compartilhar apartamento, é bem comum que seja com desconhecidos.

A boa notícia é que muitos desses desconhecidos acabam tornando-se amigos após algum tempo de convivência. Além de compartilhar os ambientes comuns da casa, compartilham histórias, experiências e boas risadas.

Mas existem também aqueles companheiros de “piso” (como se diz por aqui) que fazem do seu quarto o seu mundo. E quando precisam usar outras dependências da casa e eventualmente cruzam com alguém, limitam-se a cumprimentar.

– Bom dia! Bom dia.
– Boa tarde! Boa tarde.
– Ah, você está usando a cozinha, então, eu volto depois.

Com alguns “compis de piso“, minha relação não passou daí. Para quem é mais sociável, essa relação assim – um pouco seca – pode até parecer um pouco estranha. Mas eu posso dizer que há coisas bem piores do que compartilhar apartamento com esse tipo de pessoas mais reservadas.

Quem costuma compartilhar apartamento na Espanha?

Se você está imaginando que a maioria das pessoas que compartilham apartamento são jovens, acertou. Segundo uma pesquisa do site PisoCompartido, cerca de 51% são pessoas entre 18 e 25 anos. Outros 29% têm entre 26 e 35 anos. Só que também há muita gente mais velha nessa situação. E não são apenas estrangeiros que vivem assim.

Tenho alguns amigos catalães do mestrado, por exemplo, que se mudaram para apartamentos compartilhados para conquistar a independência dos pais. E eu mesma, em certo momento, cheguei a compartilhar apartamento com dois senhores de 50 e tantos anos, ambos barceloneses. Para mim, a diferença de idade não representou nenhum problema. A diferença de gênero, essa sim, quase chegou a causar um atrito.

Mas antes de contar essa história, é bom dizer que, na hora de buscar um apartamento para compartilhar, muitos sites permitem filtrar por gênero. Ou seja, você pode selecionar se quer ver anúncios para morar só com mulheres, só com homens ou tanto faz. Que sites são esses? Idealista, Fotocasa, Habitaclia e PisoCompartido são bons exemplos.

E é válido comentar também que existem, inclusive, alguns casais que optam por compartilhar apartamento. Há os que oferecem um quarto da sua própria casa para terceiros e os que alugam um quarto em um desses “pisos compartidos“. Como fica, então, a questão da privacidade ao compartilhar apartamento na Espanha? Vejamos a seguir.

A questão da privacidade ao compartilhar apartamento na Espanha

Estou no meu quarto trocando de roupa, quando um dos meus companheiros de piso bate à porta e, sem esperar resposta, abre para falar comigo.

Por que eu não tranquei a porta para trocar de roupa? Simples: porque não havia chave.

Ele só queria perguntar se eu queria algo do mercado e encarou a situação com a maior naturalidade do mundo. Eu, por outro lado, fiquei super envergonhada. Me pareceu uma falta de respeito.

Como fui pega de surpresa, fiquei meio aturdida e não disse nada no momento, apesar de que quase fechei a porta nos dedos dele. Mas depois chamei-o para conversar e esclarecer o tema. Uma conversa que, inicialmente, eu nem imaginava que precisaria ter.

A questão é que a definição de privacidade e o valor que cada um dá a ela pode variar de pessoa para pessoa. Tem gente que acha normal usar o banheiro de porta aberta, enquanto outros não suportam nem escovar os dentes diante de outra pessoa. Ao compartilhar apartamento, então, pode acabar sendo inevitável conversar sobre o tema e esclarecer até que ponto cada um está disposto a compartilhar sua privacidade.

Despesas, limpeza e outros possíveis problemas

Outra conversa que é bom ter logo de início com as pessoas com quem você vai dividir apartamento é sobre as regras da casa. Isso inclui a divisão de despesas e as responsabilidades de cada um na limpeza e organização dos ambientes comuns.

Os conflitos mais frequentes ao compartilhar apartamento são relacionados a esses dois tópicos. Mas também podem ocorrer outros problemas. A questão da privacidade, como comentei acima, pode estar entre eles. Os barulhos fora de hora ou, até mesmo durante o dia (dependendo do volume), também podem ser bastante incômodos. Além disso, receber amigos ou parentes nem sempre é possível ou viável.

No meu caso, havia ainda outra questão: o locatário principal era primo do proprietário do apartamento. Por isso, ele se sentia também como dono da casa, o que a princípio não era nenhum problema. Só que, ao estar desempregado e ser viciado em cinema, ele passava todo o dia na sala, vendo filmes. E para criar o clima, todas as janelas e persianas do ambiente tinham que estar sempre fechadas, independentemente de ser inverno ou verão.

Quarto amplo com janela ao fundo durante o dia
Quarto privado que eu alugava em Barcelona

Então, a sala até era acessível para todos. Eu cheguei inclusive a ver alguns filmes junto com ele. Mas nem sempre era agradável estar aí. Na hora de almoçar ou jantar, por exemplo, eu acabava quase sempre comendo na cozinha ou no meu próprio quarto.

Por sorte, meu quarto era bem iluminado, arejado e bastante espaçoso. Deve ser por isso que, nessa época, eu também me tornei uma dessas pessoas que fazem do seu quarto o seu mundo.

Quando a polícia bateu à porta

O fato de eu não ter a chave do meu quarto, além de certa preocupação pela privacidade, às vezes me gerava também alguma insegurança. Depois da conversinha que tivemos sobre a invasão do meu espaço, eu já tinha aprendido a confiar no meu companheiro cinéfilo. Mas quando chegava algum companheiro de “piso” novo, eu ficava meio preocupada. De toda forma, nenhum dos quartos da casa tinha chave. Até que passou algo realmente preocupante.

Fazia umas semanas que o terceiro quarto da casa havia sido alugado para um novo rapaz. Nós (eu e o cinéfilo) não sabíamos muito sobre ele. Na verdade, nem tínhamos muita escolha quando o proprietário decidia alugar o quarto para alguém novo. Mas, neste caso, nós desconfiávamos do comportamento do rapaz.

O que sabíamos é que ele não tinha emprego nem estudava. Passava quase todas as noites fora e chegava já com o sol raiando, batendo a porta e derrubando tudo no caminho. Quando estava em casa, geralmente, estava dormindo. E não ajudava em nada na limpeza ou organização.

Sacos de lixo na cozinha de apartamento
Ao compartilhar apartamento na Espanha, você pode encontrar problemas como esse – foto do apartamento onde eu morei

Evitando conflitos na convivência intensa

Como eu sou de evitar conflitos, eu deixei a coisa por aí. Passava a maior parte do tempo no meu quarto, estudando ou trabalhando como freelancer. E quando saía, escondia o laptop e os documentos ou levava junto comigo. Foi meu “compi” cinéfilo que acabou tendo problemas com o rapaz, quando notou que seu cartão de crédito havia desaparecido.

Resultado: um belo dia, estou tranquila no meu quarto, quando começo a ouvir várias pessoas discutindo na cozinha (que ficava ao lado). Abro a porta para ver o que está acontecendo e dou de cara com uma cena de filme ocorrendo ao vivo entre a cozinha e o corredor.

Dois oficiais da Guarda Municipal (um com o cartão de crédito em mãos) acusam o rapaz. Dois paramédicos tentam acalmá-lo, enquanto ele ameaça matar-se com uma faca de cozinha. E o “compi” cinéfilo, do outro lado, não parava de xingar o potencial suicida. Felizmente, a cena durou apenas alguns minutos e ninguém saiu ferido. Depois que conseguiram finalmente dominar o rapaz e levá-lo de casa, nós nunca mais o vimos.

Sem contrato e sem direitos

Longe de mim querer tornar esse texto em um manual dos problemas que uma pessoa pode ter ao compartilhar apartamento em Barcelona. (Se até agora está parecendo isso, você não pode perder o tópico a seguir.) De todo modo, acredito que algumas das experiências que passei podem ajudar outras pessoas a saber como evitar certos contratempos.

Por isso, outro ponto fundamental que quero mencionar aqui é sobre a importância do contrato. E, neste caso, vou usar o exemplo de uma amiga. Assim como eu, ela também vivia compartilhando apartamento. E assim como a maioria das pessoas que aluga apenas um quarto em Barcelona, ela não tinha um contrato por escrito.

De fato, o mais comum é que haja apenas um acordo verbal entre locadores e locatários. Mas isso está longe de ser o mais aconselhável. Infelizmente, minha amiga só se deu conta disso quando foi despejada de casa. Por causa de uma discussão com a proprietária do apartamento onde vivia, pediram para ela sair no dia seguinte.

Tenha cuidado e não esqueça do contrato ao compartilhar apartamento na Espanha

Sem ter nada por escrito, ela não teve como provar que alugava o quarto e acabou tendo que encontrar urgentemente outro lugar para morar. Para evitar esse tipo de situação, o ideal é – antes de fechar qualquer negócio – exigir um contrato por escrito, incluindo:

  • Qual é o quarto que o locatário vai ocupar;
  • Quanto tempo dura o contrato e quais as condições de renovação, se for o caso;
  • O preço do aluguel, o prazo e a forma de pagamento;
  • Os serviços incluídos nesse valor (ex.: direito a usar a internet da casa);
  • Como se repartem os gastos comuns (água, luz, calefação, etc.);
  • Se o inquilino pode ou não subarrendar seu quarto para um terceiro.

Esse documento pode ainda mencionar questões relacionadas às responsabilidades dos moradores, à privacidade, à recepção de familiares e amigos, etc. Além disso, também pode ser mais fácil “empadronar-se” com esse contrato em mãos. Ou seja, ter um contrato por escrito pode ajudar a resolver muitos dos problemas que você poderia ter ao compartilhar apartamento em Barcelona. Daí a importância do documento.

O amor (às vezes) dorme ao lado

Conviver com outras pessoas é uma situação que tanto pode gerar amizade quanto inimizade. Tanto pode gerar brigas quanto soluções. E também pode acabar gerando amor ou ódio. No meu caso, o que rolou foi uma história de amor. E não, não foi com meu companheiro cinéfilo que comentei antes. Mas sim com outro, que alugou por um tempo o terceiro quarto do nosso apartamento compartilhado.

Na verdade, quando eu me mudei para o local, ele já tinha avisado ao proprietário que ia morar em outro lugar. Portanto, nossa convivência no mesmo apartamento durou apenas uns 15 dias. Mas já foi o bastante para ele me chamar para tomar uma cerveja, com a desculpa de que queria me ajudar a conhecer o bairro.

Confesso que, quando cheguei a Barcelona, eu já estava solteira há algum tempo. Só que eu não via nada de mal nisso. Pelo contrário. Sempre gostei da independência da vida solteira. E nessa época eu só queria focar nos estudos e aproveitar a cidade.

Situações inesperadas acontecem ao compartilhar apartamento na Espanha

Mas não dizem que o amor chega exatamente quando a gente menos espera? Foi o que aconteceu. Conversa vai, conversa vem. Uma cerveja aqui, um vinho ali. Muitas risadas e, quando vi, já fazia meses que estávamos saindo juntos. Quando deixamos de compartilhar apartamento, a distância só fez com que nos aproximássemos ainda mais.

Resultado: estamos novamente compartilhando apartamento. Só que agora como marido e mulher. E desta vez, sem outros companheiros de piso e em outra cidade, Valência. Mas isso já é tema para outro artigo.

Compartilhar apartamento na Espanha é uma experiência diferente para cada um

Como disse no princípio, nem todo mundo vai passar por situações similares às que eu passei. Mesmo que você também precise compartilhar apartamento em Barcelona, você pode passar por experiências muito diferentes das minhas. Além disso, cada um tem sua própria forma de encarar cada situação vivida. O que é um grande problema para uma pessoa, para outras, pode não significar nada ou até ser motivo de risos.

A questão é entender que a convivência com outras pessoas – ainda que sejam familiares ou pessoas queridas – sempre pode gerar algum tipo de conflito. E mesmo que você não divida apartamento, sempre pode haver um vizinho chato, um problema no condomínio, entre outros contratempos possíveis.

Mas compartilhar apartamento na Espanha também pode gerar algumas soluções (a economia de dinheiro é só a primeira delas), além de momentos agradáveis e muitos, muitos aprendizados. De toda forma, no final das contas, assim como eu, você provavelmente terá muitas histórias para contar.