No Brasil, sempre tiveram dificuldade com o meu sobrenome; no Reino Unido, também, e um pouco mais. Encontro-me no vão entre esses dois mundos tão opostos, que, mesmo assim, se cruzam na minha árvore genealógica e na trajetória de vida.
Crescer em duas línguas
Por 17 anos e sete meses, morei no Brasil. Cresci com o chiado entre os dentes e um quintal que ainda guardava um pouco da Mata Atlântica, misturado à selva de concreto da cidade. Cantos de pássaros se orquestrando entre buzinas de carros, freios de ônibus, obras e sinos de igreja.
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QUERO MEU DESCONTO→O jeito plural brasileiro de ser se manifestava na linguagem, nos sotaques, na intonação, nos gestos e nos corpos. Ser brasileiro é ser plural. É ter um leque de diversidade correndo nas veias.
Aprender o inglês, como segunda língua, surgia quase inevitavelmente, com sua omnipresença marcante na televisão, nas rádios e na escola.
Inglês que se aprende versus o que se vive
Treze anos entre livros didáticos, música em inglês e filmes legendados não me prepararam para o inglês ao vivo. Nós, brasileiros, crescemos com muito mais influência do inglês estadunidense.
Lembro-me da primeira vez que saí para almoçar com as minhas amigas: elas chamavam o almoço de “dinner” e o jantar de “tea“, e eu fiquei confusa. É uma das várias diferenças entre o inglês de lá e o de cá.
Algo comparável às distinções entre o português de Portugal e o do Brasil. Em ambos os casos rendem sempre boas histórias e risadas, apesar de o processo inicial de imersão render dores de cabeça.
O sotaque britânico que estudamos, chamado “posh”, “BBC English” ou “Queen’s English”, é formal e elegante. Existem pelo menos 40 sotaques diferentes, que variam segundo geografia, classe social, idade e influências históricas, sem contar as variações com os imigrantes e gírias.
Ao contrário do que muitos imaginam, a diferença entre todos eles não é tão perceptível para um ouvido estrangeiro. A imersão diária permite perceber as particularidades e bagagens de cada sotaque. Mesmo após quase oito anos no país, até hoje sinto que estou aprendendo.
As entrelinhas da comunicação britânica
Além das diferenças entre o inglês ao vivo e o que aprendemos em cursos, escolas ou escutamos em mídias diversas, existe no Reino Unido uma questão cultural na forma de se comunicar.
Muitas vezes, eles recorrem a estratégias que evitam ser claros, diretos ou transparentes. Para nós, bilíngues, isso vira um exercício de decodificação. Alguns chamariam essa ambiguidade de traço de reserva britânica; outros, de passivo-agressividade disfarçada de polidez.
Existiram vezes em que convites, profissionais ou pessoais, simplesmente não foram cumpridos. Para uma pessoa do Rio de Janeiro, isso era fichinha.
Entretanto, ouvir um “It’s quite interesting” ou um “That’s brave” à primeira vista parecia empolgante. Mais tarde, descobri que, na tradução cultural, essas expressões significavam justamente o oposto: disfarces polidos para o desconforto, uma espécie de eufemismo britânico.
Nasci de matriarcas falantes pelos cotovelos, mulheres que contavam histórias sem fôlego e encontravam sentido até nas conversas mais triviais. Minha mãe, expressiva em gestos e caras; meu pai, quieto, perspicaz e igualmente curioso, observava cada detalhe do mundo com um olhar que buscava entender antes de falar.
Cresci entre essas vozes e silêncios, enquanto, do outro lado, os britânicos se movem sem gestos e evitam contatos visuais.
Crescer em duas línguas não te prepara para essa linguagem não-verbal, subentendida e implícita. Embora tenhamos nossos próprios códigos no Brasil.
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INICIAR MINHA JORNADA →Aprender uma língua é mais do que gramática
Outra surpresa com que me deparei foi a diferença na abordagem das aulas de inglês em relação às de português. No Brasil, o ensino da gramática sempre foi essencial nessas aulas, mas aqui nem sempre é assim.
O foco é muito maior em literatura e interpretações. Já o estudo da gramática está restrito à linguística, que costuma ser uma opção disponível apenas nos A-Levels, dependendo da oferta de cada escola.
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Abrir Conta Multimoeda →Além disso, essa ênfase na gramática também aparece nas nossas aulas de inglês como língua estrangeira. No caso das aulas que eles têm de outras línguas, quando as escolhem, a abordagem é bem diferente.
Percebi que conhecer a gramática me deu ferramentas, mas entender a cultura me deu sensibilidade: a língua deixou de ser apenas regras e se tornou experiência. Ela é viva, e o regionalismo é um verdadeiro tesouro.
O idioma como ponte e fronteira
Eu fui alfabetizada em português, é a minha língua dominante, o inglês às vezes se mostra inconveniente. Invade a fala, o pensamento e até os sonhos. Eu tropeço inconscientemente em traduções literais e em falsos cognatos que não fazem sentido.
Em certos momentos, palavras em uma língua desaparecem completamente, e uma pesquisa resolve. Outrora, a busca por sentido se torna uma arte de descobrir expressões intraduzíveis e criar um meio de comunicação.
Continuo a sentir em português, escolhendo palavras com intenção. Elas carregam camadas de histórias, memórias e afeto que o inglês, mais minimalista e compacto, nem sempre alcança. Ainda conto os números em português, mas conto histórias em inglês abrasileirado.
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INSCREVER GRÁTIS→Crescer em duas línguas não é só aprender palavras; é construir maneiras distintas de pensar, sentir e se conectar com o mundo. Quando ambas são colocadas a um teste simultâneo, o cérebro ainda dá uns curtos-circuitos.
Ser bilíngue é o melhor dos dois mundos
Até este momento, lembro-me de momentos marcantes durante os estudos.
Comecei navegando pela parte técnica da língua até me arriscar nos rascunhos, brincando com palavras em ambos os idiomas e transformando-as em algo novo. Minhas anotações passaram a misturar os idiomas, criando um código interno.
Crescer em duas línguas não é apenas comunicação; é perspectiva, é poder escolher como e onde se expressar. A ponte entre os mundos se constrói diariamente, entre erros, descobertas e pequenas vitórias. Viver bilíngue é carregar dois mundos juntos, no pensamento, na ação e na criação.
As verdades do Reino Unido que ninguém te conta
Antes de me mudar para o Reino Unido, meu contato com o país ainda no Brasil me criou certo imaginário sobre os britânicos.
Inteligentes, afinal, o berço de gênios em diversas áreas do conhecimento e universidades antigas respeitadas. Educados, com boas maneiras sempre presentes nos personagens que conhecíamos.
O sotaque fazia parte do charme desse lugar. O luxo através da família real e todas as suas posses, a elegância europeia. As variadas músicas que ouvi me fizeram acreditar que seria um país vibrante, cheio de artistas de rua, magia para ter inspiração para estórias icônicas.
Talvez, em algum canto do Reino Unido, você possa encontrar vestígios dessa imagem. Eu encontrei o oposto na maior parte do tempo nos lugares que morei, quintal da revolução industrial.

A realidade: inteligência que às vezes parece usar o umbigo como base. Educação, polidez e conversa fiada podem esconder um povo frio e distante, com comunicação indireta e, às vezes, condescendente. Sarcasmo que revela sutis preconceitos.
Há escolhas duvidosas entre exageros estéticos, roupas vulgares, desleixadas, ou o extremo oposto de idosos arrumados e meio rock n’roll com os cabelos coloridos.
Apesar disso, descobri novos nomes para meu repertório musical e cruzei com alguns artistas de rua em grandes centros. Embora também tenha testemunhado o abandono e a gentrificação de espaços culturais.
Talvez a “magia” esteja na rota de escapismo de escritores, um céu fértil de criatividade. Enquanto a realidade se apresenta entre céus cinzentos e chuvas constantes.
O que eu levo e o que deixo para trás
Sempre detestei quando me chamavam de britânica. Mesmo que eu tenha algum parentesco distante com a região, sempre me senti perdida na tradução.
Lembro-me de entrar na sala de aula e ser reconhecida por uma colega pelo “barulho”. Muitas vezes, minha simpatia foi mal interpretada, assim como meu toque. Meu sotaque servia de alívio cômico, e o “exótico” virou qualidade.
Como imigrante, aprendi a observar, extrair hábitos e manias, e me adaptar.
Passei a agir com mais formalidade e seriedade, escolhendo opções mais práticas na hora do almoço. Aprendi a desfrutar dos prazeres sazonais efêmeros.
O quintal nos dias de sol da primavera e verão. As comidas que abraçam e lareiras no outono. Os mercados de Natal no inverno. Aquelas compras especiais que só aparecem uma vez na vida e outra na morte.
A pontualidade e o planejamento passaram a fazer parte da minha rotina.
Entretanto, há hábitos que me recuso a adotar: higiene econômica nos dias mais frios e após o almoço; comida que atrai pelo cheiro, mas cujo paladar espanta pela falta de temperos; refeições rápidas demais, sem tempo nem espaço para interação. Chá não é recepção.
Eu carrego muito da minha brasilidade. Cresci em português, mas amadureci em inglês. Eles andam lado a lado no meu processo criativo, sensibilidade, sotaque e senso crítico. Muitas vezes, sou a ponte entre os mundos.
Ainda existe algum tipo de ansiedade de não ter sido clara na comunicação, de não ter entendido uma piada ou uma pronúncia. O idioma é ponte, mas também fronteira.
Crescer em duas línguas é viver híbrido, adaptável e sensível às nuances de cada cultura, uma colcha de retalhos de experiências, encontros e memórias.
A garota e os ônibus de dois andares
Hoje, aquela garota que cresceu com os ônibus vermelhos de dois andares e cabines telefônicas como presença constante no quarto. Aos 15 anos, se apaixonou por Londres ao som de “Faith” de George Michael.
Dez anos depois, ela guarda um pouco do Brasil no seu quarto britânico, através de uma seleção de músicas que a acompanham no dia a dia.
Quando a saudade aperta, coloca um filme, uma novela ou série brasileira para acalento. Em outros momentos, ela liga para as avós e troca figurinhas, ou visita a região Ibérica, com sua estranha familiaridade na arquitetura, nos calores (humano e climático), na língua, mas ainda é novidade.
Lembro-me do primeiro encontro com os ônibus de dois andares, vendo-os apenas pelo seu princípio prático: a locomoção. Foram noites intensas, novas experiências, entrevistas de emprego.

Com olhos de coruja, curiosa e distraída, sempre sedenta por explorar, perguntava se havia algum lugar ao qual eu realmente pertencesse.
Da janela, via cores entre céus nublados e tons de cinza de indústrias, mas não eram folhas de outono caídas no concreto. Eram quitandas com frutas coloridas, comuns em bairros residenciais de imigrantes no Reino Unido, que me teleportavam para o bairro onde cresci no Brasil.
Hoje, talvez nem reconheça mais; pessoas e lugares não são mais os mesmos.
O ônibus me levava a algum lugar, mas também me deixava em outro, fora de alcance. O “duplo” do ônibus parecia refletir algo mais profundo: minha conexão e minha distância, um mundo familiar e evasivo.
Percebi que a vida de imigrante é assim: sempre entre mundos, mas é justamente isso que nos ensina a crescer constantemente e a nos reinventar fora da zona de conforto.
*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Euro Dicas.