Quando pensamos em estudar fora, pensamos em sotaques charmosos, bibliotecas seculares, amizades internacionais, diversão. Mas o que acontece quando o roteiro inclui Brexit e pandemia? Nessa coluna, conto a minha experiência no ensino britânico.
Entre lockdowns inesperados, regras migratórias instáveis e as sutilezas de uma cultura nova, fui me redescobrindo em outro idioma — e em outra pele. Quer saber como foi viver esse equilíbrio entre o sonho e o choque de realidade? Eu te conto.
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Com o encerramento de mais um ano escolar, o vestibular se aproximava — trazendo duas possibilidades para escolher: Letras ou Ciências Sociais. Porém, ainda faltavam alguns meses até o bendito.
Era verão, tempo de férias. O sol batia no rosto, a mente em paz. E, claro, aquele sinônimo silencioso de fim de semana: churrasco. Entre cortes e acordes, surgia a pergunta de milhões: “Você já imaginou se estudasse em outro país?”.
Já fazia pelo menos quatro anos que eu conhecia essa possibilidade — até cogitei um intercâmbio na Europa —, mas nunca a transformei em realidade.
Ali nascia o ponto de virada da minha jornada: quando meu pai anunciou que seria transferido e iríamos morar na Inglaterra.
Meu primeiro amor: a terra da rainha
Desde muito nova, me apaixonei pela Inglaterra — do rock, da literatura, da magia. Os ônibus vermelhos de dois andares e as cabines telefônicas eram presença constante no meu quarto, seja como decoração, seja nas estampas.
Essa paixão avassaladora cresceu ainda mais depois da minha primeira visita à Londres, ao som de “Faith” (do George Michael), quando descobri detalhes que, até então, desconhecia: as famosas placas azuis espalhadas pela cidade e uma coleção de poesias no metrô.
Os bastidores de estudar fora e da experiência no ensino britânico
Bem como dizem: o amor é cego. Quando voltei à terra da — até então — Rainha, ao som de “Wake Me Up Before You Go-Go” (Wham!), foi como um beliscão:
Acordei para uma outra Inglaterra, longe da capital. Ainda sob as ressalvas de um inverno, mesmo em pleno abril!
Estudar fora não era opção, era a minha realidade. Eu me encontrava numa brecha até então desconhecida do sistema educacional britânico, entre os anos de GCSE e A-Level, e ainda não tinha idade para ingressar na faculdade.
Em paralelo, mergulhei num “intensivão” de inglês — com aulas particulares de conversação, cursos online e métodos alternativos, como reassistir filmes com legenda em inglês ou traduzir os meus próprios rascunhos.

Andava com uma caderneta para anotar palavras desconhecidas. Foi assim que aprendi uma nova palavra: catchment area. Basicamente, a escola que você pode frequentar depende da região onde você mora. Além disso, havia a possibilidade de uma entrevista — um dos meus pontos fracos.
A partir dali, minha rotina passou a incluir a leitura dos programas de A-Levels oferecidos pelas escolas da região, tentando entender onde, entre tantas incertezas (incluindo a do meu histórico escolar brasileiro), eu poderia me encaixar, diante de matérias e cursos técnicos até então inimagináveis.
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INICIAR MINHA JORNADA →Enquanto isso, passava as manhãs observando minha irmã caçula ocupar, ainda que temporariamente, o lugar de rato de laboratório da vida. Uniforme completo, como saído de um filme do Harry Potter: sapato social, meia-calça, saia, camisa social, gravata, paletó. Além do sistema de casas.
Esses são grupos nos quais os estudantes são divididos e competem em várias atividades durante o ano, criando um senso de pertencimento, rivalidade saudável e suporte entre colegas.
Escola no exterior: entre a teoria e a realidade
Na hora H, escolhi os cursos de A-Level guiada pelos meus interesses: Film Studies e Media Studies. O terceiro veio por uma mistura de afinidade e necessidade: English Literature and Language.
A única certeza era que o início das aulas seria em setembro — e que, em julho, eu teria um dia de aulas-teste para experimentar as disciplinas escolhidas.
Foi o começo da aventura de estudar fora, marcada por dores de cabeça no fim da semana (literalmente); o inglês falado é diferente do aprendido, muito além de uma diversidade de sotaques e as suas complexidades.
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O primeiro choque de estudar fora foi o próprio início do ano letivo: setembro — algo que nunca tinha passado pela minha cabeça. As aulas iam das 9h às 15h20, junto das crianças. Depois disso, até às 17h, um horário que era exclusivamente para os estudantes de A-Level.
Porém, a agenda era mais flexível: os horários mudavam a cada dia, sem a rigidez de ficar das 9h às 17h, e os intervalos vinham a cada duas aulas.
O acesso era restrito à tal plataforma 9¾. Na minha escola, o uniforme não era obrigatório para o segmento de A-Level. Muito menos fazia parte de alguma casa.
Presenciei alguns almoços com os britânicos: eles no sanduíche, salgadinho, chocolate. Eventualmente, um macarrão, sopa, fish ‘n’ chips com feijão ou até mesmo um fast food. Parecia uma competição silenciosa — quanto mais rápido e prático, melhor.
Depois? Um chiclete ou bala de menta. Já estavam preparados para a aula da tarde.
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INSCREVER GRÁTIS→Outro detalhe que me surpreendeu ao estudar fora foram as chamadas “miniférias”: uma semana de recesso a cada seis semanas, com exceção dos feriados, Natal e na Páscoa.
No início da minha experiência no ensino britânico, lembro de ter me sentido perdida, estranhado, e até passado alguns desses dias estudando.
Escola britânica por dentro
Além disso, os alunos e professores levavam a sério a distância entre eles, refletindo isso até nos formais pronomes de tratamento. A recíproca nem sempre era verdadeira, apesar do tom educado se manter.

A organização interna também destoava bastante: a escola agrupava os estudantes em sets, de acordo com seu desempenho acadêmico em cada disciplina.
E havia ainda o tutor group, um pequeno grupo de alunos supervisionado por um professor, responsável por acompanhar o bem-estar emocional e o progresso escolar.
Neles tinham assembleias e pautas semestrais com discussões relevantes para os jovens. Desde aulas de direção e educação sexual até aplicações para a faculdade.
Além disso, há o deslocamento de alunos entre uma aula e outra, já que cada professor tem sua própria sala.
O Brasil pelos olhos deles
Alguns dos momentos mais icônicos que vivi foram ao assistir aos outros reagindo, ao vivo, à cultura brasileira.
Seja por meio de quitutes que levei para a escola, como palha italiana e bolo de cenoura — que foram paixão à primeira mordida —, seja por filmes e músicas, sempre acompanhados de opiniões polêmicas.
Reduziram a bossa nova a “música de elevador” e Cidade de Deus reforçou os pré-conceitos sobre as favelas e a violência.
Tinham afirmações bizarras sobre um país desconhecido — como carne de hamster e monstros do Oceano Atlântico.
Bangue-bangue acadêmico: Brexit, pandemia e eu
Depois de voltar alguns espaços, em termos de anos escolares, finalmente cheguei ao ponto em que havia parado no Brasil: era eu, a faculdade na Inglaterra e o clima tenso do Brexit ao fundo, com aquela troca de olhares típica de filmes de bangue-bangue.
Mais uma vez, estudar fora não era opção, era uma realidade. E assim começou mais uma experiência no ensino britânico:
De um lado, eu explorava meus interesses e possibilidades: ora visitando faculdades nos open days, com aulas-teste de escrita criativa e ciências sociais, além de tours pelos campus; ora no Consulado, esperando a minha cidadania portuguesa sair.
Aos olhos das mais variadas faculdades, eu era considerada estudante internacional, apesar de não ter nem o GSCE como os locais, nem a prova de proficiência como os internacionais. Na época, havia distinção na anuidade entre eles e os europeus.
Os europeus pagavam o mesmo dos locais: em torno de £9.250 (Inglaterra), £9.000 (País de Gales) e £1.820 (Escócia), enquanto para os estudantes internacionais variava entre £11.500 até £38.000, dependendo do curso e localização da faculdade.
Do outro lado, o caos político do Brexit estampava todas as manchetes — mas ainda não se sabia quando viria o bote final ou muito menos de seus efeitos.
Disparo final do bangue-bangue
Eu tinha direito a cinco disparos, com base no meu target grade — nota prevista dos estudantes nas provas finais do ano escolar. Além das qualificações, era necessário enviar uma carta pessoal de motivação e referências.
A dica era escolher as cinco faculdades com a opção ideal até a mais realista. O envio foi em Janeiro e aquelas semanas subsequentes inquietantes de espera pela aceitação de cada uma delas.
Aos 45 minutos do segundo tempo, depois do dia 31 de janeiro de 2020 — o dia oficial do Brexit —, o governo declarou a pandemia em 23 de março.
Dentre as muitas incertezas daquele período — das provas finais do A-Level, que definiriam o almejado target grade, do famoso baile de formatura e leavers day (dia que os formandos se despedem da escola com fantasia e fanfarra), até a escolha do curso universitário —, tudo parecia suspenso.
Minhas opções envolviam variações de Sociologia à Mídia — e todas exigiam mudança para outras cidades distantes.
Apesar de as cinco universidades que eu havia escolhido inicialmente me aprovarem, acabei recusando cada uma delas. Meu disparo final foi aplicar para o sistema de vagas remanescentes.
Foi assim que entrei no bacharelado em Escrita Criativa e Profissional com Estudos de Cinema e Televisão, em uma cidade comutável — e, agora, com a cidadania europeia em mãos.
Estudar fora: além da escola, os desafios da faculdade
Entre muitas telas e máscaras, consegui fazer uma visita antes das aulas começarem. Foi marcante — a primeira vez que ouvi português em três anos no país. Estudar fora te abre a novos horizontes, mas quando há familiaridade, bate em outro lugar.
Foram três anos universitários com muitas idas e vindas entre o online e o offline, mas lembro que a diversidade me fascinava. Seja nas pessoas que moravam em Wolverhampton, de variadas nacionalidades, seja nos eventos e nos alunos — com um número considerável de estudantes maduros.
Lembro de ouvir muitos amigos no Brasil estressados e sobrecarregados com a faculdade: greves, cargas horárias, dificuldades da pandemia. Talvez a paixão fosse o meu gás — mais uma vez, o ponto cego que me bloqueava de qualquer outro sentimento que não fosse a empolgação de seguir um sonho.
O ano letivo durava 8 meses, com os meios dos semestres marcados pelas reading weeks — semanas sem aulas. Havia também a mesma flexibilidade de horários vista no A-Level. E os estudantes chamavam os professores pelos próprios nomes.
Algo que me surpreendeu bastante foi a ausência de provas: os professores atribuíam as notas com base em trabalhos de conclusão ao fim de cada semestre, que durava 12 semanas. Porém, esse sistema de avaliação varia do tipo de curso.
As notas seguiam uma hierarquia própria — sendo 70+ a categoria mais alta — e a média final era calculada a partir dessas avaliações.

Guardei o mais esperado para o final: o alojamento. Com a quantidade infinita de histórias que se passam neles — e o imaginário coletivo sobre estudar no exterior — ele merecia uma sessão à parte.
Estudar fora e a vida no alojamento estudantil
Decidi morar na universidade no último ano, para ter a experiência de imersão completa.
Foram nove meses intensos de exposição mais crua e contínua ao inglês — não necessariamente de britânicos:
Era um corredor com Polônia, Inglaterra (Norte a Sul), País de Gales, Índia, Gâmbia, França, Coreia do Sul, Irlanda, Nigéria, Jamaica.
Uma troca de culturas, tanto conexões quanto colisões.
Conexões na convivência
Comida sempre cumpriu um papel importante na minha casa, cheia de memórias afetivas. Minha mãe é uma cozinheira de mão cheia, e as mesas são nosso ponto de conexão.
No alojamento, a cozinha era parte da área comunal, onde muitas memórias foram criadas. Dentre elas, um almoço em que uma das minhas colegas me ofereceu um pedaço do prato favorito dela, típico da Gâmbia — país que nunca tive a oportunidade de visitar.
Mas, assim que o garfo encontrou a minha boca, fui imediatamente transportada ao Brasil. Entre dúvidas e garfadas, descobrimos um ingrediente em comum: azeite de dendê.
Desde sempre, a música fez parte da minha vida. Venho de uma família eclética — cada um cantando, assobiando, tocando instrumentos ou consumindo música do seu jeito.
No alojamento, não foi diferente: a música se tornou o fio condutor de algumas amizades, independentemente de todas as outras barreiras. A música alta, as roupas, as tatuagens ou acessórios de artistas resultaram em momentos de cantoria, danças, instrumentos e playlists compartilhadas.
Morar fora inevitavelmente traz associações ao Brasil — e uma das mais comuns é o futebol. Venho de uma família de patriarcas obcecados pelo esporte: domingo era o dia sagrado em que se trancavam em algum cômodo da casa.
Quando saí de casa, o vínculo não se desfez. Seja pelo quarto no alojamento com vista para o estádio do time local, seja pelo ano de Copa do Mundo. Foi nesse momento que aprendi a reconhecer parte da importância do esporte — e a apreciar sua beleza.
Apesar de ter sido inventado na Inglaterra, esse esporte me reconectou com a minha casa. Também se tornou um elo com meus colegas: muitos jogos assistidos, mas sem vuvuzelas.
Coexistência, conflitos e crescimento
A experiência estava longe de ser idílica. Somos humanos convivendo, e o conflito é inevitável — seja por má distribuição de tarefas, seja por barreiras culturais.
A importância de conversas abertas e transparência é essencial para entender e respeitar os limites dos outros. Mesmo que desconfortáveis, essas conversas às vezes são necessárias para manter um ambiente e relacionamentos harmoniosos. Estávamos todos no mesmo barco, dividindo o aluguel.
A coabitação exige apoio e confiança pré-estabelecidos, embora isso não signifique necessariamente amizade. É mais que respeito mútuo — é respeito também pelo espaço.
Cada um tinha sua responsabilidade. As áreas compartilhadas têm regras e acordos: mantê-las limpas, acessíveis a todos, evitando incidentes e danos.
Domingos à tarde com treinamentos do alarme de incêndio. Os alarmes tinham uma sensibilidade fora do comum — e os alunos, um talento nato para acioná-los sem querer, fazendo prédios inteiros evacuarem, independentemente do horário ou da temperatura lá fora.
Havia espaços designados pelos alunos e serviços disponíveis para qualquer problema — desde questões técnicas, como reparos até questões emocionais, como aconselhamento sobre saúde mental e bem-estar.
Além disso, havia as responsabilidades individuais: administrar o próprio dinheiro, despesas da faculdade, supermercado, contas, lavanderia e os “extras” do dia a dia.
A formatura e a dubiedade do que vem depois
Em 2023, chegou a tão esperada formatura — a primeira vez com a beca, que até então eu só conhecia dos filmes. Terminar os estudos no Reino Unido não foi apenas sobre matérias, provas ou certificados. Foi sobre traduzir a mim mesma — entre o português que me formou e o inglês que me reformulou.
Com o tempo, entendi que estudar fora não é só aprender outro idioma, mas também se traduzir constantemente — nos gestos, nas palavras, nas expectativas. É crescer para além do currículo, em direções que nenhum prospecto universitário poderia prever.

Em um ônibus de dois andares, continuo sendo a mesma curiosa distraída olhando pela janela. As quitandas nas ruas, com frutas que contrastam com os tons cinza da cidade, ainda me remetem ao meu bairro no Brasil.
Dubiedade com um sabor agridoce: me leva a algum lugar, mas me deixa em outro — familiar e estranho ao mesmo tempo. Estudar fora moldou minha identidade como escritora, criadora e imigrante. Mas, acima de tudo, me ensinou que crescer em outro país é, inevitavelmente, crescer dentro de si.
Ser uma escritora bilíngue que estudou fora é ter a voz moldada por diferentes línguas, culturas e vivências. Ser bilíngue é habitar uma fronteira constante: estrangeira demais para pertencer e ainda não pertencer 100% em casa.
É ver essa voz se desdobrar na criatividade, na forma como transito entre gêneros textuais e narrativos, e até mesmo na maneira como construo minha identidade com modos de expressão daqui e ali.
Depois do diploma: entre o sonho e a realidade
Mas, ao contrário do que muitos imaginam, ter um diploma britânico não é um bilhete dourado.
O mercado de trabalho no Reino Unido é altamente competitivo — com um número crescente de formandos disputando um número limitado de vagas.
Nesse cenário instável, marcado por incertezas econômicas, transformações digitais e o avanço acelerado da inteligência artificial, a empregabilidade depende tanto das qualificações quanto da forma como conseguimos nos traduzir profissionalmente.
Some-se a isso uma cultura silenciosa, mas recorrente, de ghosting corporativo — processos seletivos que desaparecem sem resposta, entrevistas sem retorno.
Estudar fora foi muito além de aprender um novo idioma: foi me reinventar dentro e fora de mim, num território onde ser estrangeira e bilíngue exige adaptação constante diante de políticas cada vez mais restritivas de (anti)imigração.
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