Mudar de país é um daqueles saltos que a gente só entende depois que já pulou. Você junta coragem, faz as malas, deixa tudo o que conhece para trás… e, de repente, está num lugar onde ninguém sabe quem você é.

Insegurança profissional na imigração
Índice Planos, pandemia e uma pausa forçada Quando a gente se vê em outra função Mudanças na área e o impacto da IA A cabeça precisa estar bem Vai por mim: o recomeço é possível

No Brasil, eu tinha uma carreira sólida. Passei anos trabalhando em redações de rádio e TV, num ambiente que conhecia de olhos fechados. Por mais desgastante que fosse, era onde eu me sentia seguro. Era “o meu lugar”.

Mas chega uma hora em que o desgaste fala mais alto. A saúde começa a cobrar, a rotina vira peso, e a vontade de mudar de vida cresce. Foi assim que Portugal entrou no meu radar.

Queria respirar, ter um tempo para mim, repensar meus rumos. Só não imaginava que, com a mudança de país, viria uma pergunta insistente: “Será que eu ainda sou bom no que faço?” Essa insegurança profissional atinge muita gente que decide recomeçar fora do Brasil. E se você tem sentido isso, saiba que não está sozinho.

Planos, pandemia e uma pausa forçada

A ideia parecia simples: uns meses sabáticos assim que cheguei para morar em Portugal, tempo para descansar, viajar, refletir. Mas a vida, e uma pandemia, tinham outros planos, bem diferentes dos meus.

Em vez de explorar o país, fiquei praticamente confinado num apartamento tentando entender se aquilo tudo fazia sentido. O plano era respirar, conhecer novos lugares, dar tempo ao tempo, mas a pandemia chegou antes.

Quando tudo virou incerteza

O mundo inteiro parecia ter apertado o botão de pausa. As ruas estavam vazias, as fronteiras fechadas e quase ninguém contratava.

Por mais que eu tivesse pesquisado bastante, lido sobre o mercado e até enviado alguns currículos ainda do Brasil, a verdade é que eu não fazia ideia de como um profissional de Comunicação, com sotaque e experiência brasileira, seria recebido em Portugal. Era só o início da insegurança profissional.

O que me esperava? Ninguém sabia. E, ali, preso entre quatro paredes, as perguntas começaram a pesar mais do que as malas.

Um dia, quando tudo começou a ficar mais calmo, a urgência bateu: eu precisava voltar a trabalhar, precisava voltar a me sentir útil.

Voltei a procurar vagas em Portugal. Com mais de 25 anos de experiência, achei que ia ser tranquilo. Mas não foi. Currículos enviados, respostas que não vinham, propostas com salários muito abaixo do esperado. A frustração foi se acumulando.

Será que meu currículo não vale nada aqui?”, comecei a pensar. É cruel duvidar de si mesmo, da própria trajetória. Mas é exatamente isso que a insegurança profissional faz.

Quando a gente se vê em outra função

Com poucas oportunidades na minha área, decidi ampliar as possibilidades. Não tinha muita saída e nem para onde correr. Minhas economias de uma vida derretiam na frente dos meus olhos a cada conversão para euros.

Teve uma época em que perdi a conta de quantas vezes peguei o comboio (trem) com uma pastinha de currículos debaixo do braço. Aqui em Portugal, muitas empresas, tanto da área de Comunicação quanto de outros setores, ainda preferem que você entregue o currículo em mãos, impresso, como antigamente.

E lá ia eu, batendo de porta em porta

Tentando sorrir com o coração apertado, em lugares onde ninguém sabia quem eu era ou do que eu era capaz. Às vezes, me atendiam com simpatia; outras, mal levantavam os olhos da mesa. Mas eu seguia, porque precisava sentir que estava fazendo algo, me movimentando, mesmo que fosse só deixar uma folha de papel que talvez ninguém fosse ler.

Trabalhei com telemarketing, entrei no ramo imobiliário. Algumas áreas com muitos empregos para imigrantes. Não foi fácil. Me sentia fora de lugar, como se estivesse usando uma roupa que não era minha. Cada dia parecia reforçar a dúvida: “Será que nunca mais vou voltar a fazer o que gosto?”

Recomeçar em outra área e em outro país é muito comum entre imigrantes. Não é sinal de fracasso, é sobrevivência.

É também humildade. Às vezes, é um passo que parece para trás, mas que leva você para frente.

Mudanças na área e o impacto da IA

Enquanto tentava me recolocar em qualquer emprego, percebi que minha área também estava mudando. A Comunicação já não era mais a mesma. A chegada da Inteligência Artificial virou o jogo, como mostra uma reportagem do Expresso.

As empresas começaram a buscar habilidades novas, mais técnicas, mais digitais. Não bastava mais saber escrever ou editar, era preciso entender de ferramentas, de prompts, de automação.

E, mesmo antes dessa revolução, as empresas já vinham se acostumando a contratar profissionais mais jovens, dispostos a ganhar menos e a assumir muitas funções ao mesmo tempo, algo comum em Portugal. Isso cria uma alta rotatividade, claro, mas parece um preço aceitável para quem contrata.

A lógica do mercado de Comunicação continua mudando, e quem vem de uma geração anterior, com experiência, mas também com expectativas mais estáveis, sente o chão se mover debaixo dos pés.

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Com tudo isso, a insegurança profissional ganhou outra camada. Não era só a mudança de país, era a transformação do próprio mercado. Aos poucos, fui aprendendo. Hoje trabalho como freelancer e consultor na área e entendo que quem souber navegar nessas mudanças tem muito a ganhar.

A cabeça precisa estar bem

Mudar de país é um desafio emocional enorme. Rejeições, silêncios, recomeços. Tudo isso mexe com a gente.

Eu precisei cuidar muito da minha saúde mental pra não me deixar afundar.

E tem algo importante que aprendi nesse processo todo: redes sociais, especialmente o LinkedIn, podem ser armadilhas disfarçadas de inspiração. A gente entra ali achando que vai encontrar uma boa vaga de emprego, mas muitas vezes sai mais frustrado do que entrou.

É um desfile constante de conquistas, promoções, novos cargos, certificados, eventos. E tudo parece acontecer com uma leveza que não combina com a realidade de quem está tentando se recolocar ou se adaptar num novo país.

O LinkedIn pode, sim, ser uma ferramenta poderosa para encontrar boas oportunidades na Europa. Há recrutadores ativos, empresas que realmente valorizam um bom perfil e até mensagens inesperadas que podem mudar sua trajetória.

Mas é preciso ter muito discernimento. Porque, entre uma vaga interessante e outra, você vai se deparar com um mar de postagens que parecem feitas pra te deixar ainda mais ansioso.

É só acreditar que tudo dá certo (só que não)

O que mais me cansa são aqueles posts que tentam ser motivacionais, mas só reforçam a sensação de fracasso pra quem está numa fase difícil. Mensagens do tipo “acredite nos seus sonhos” ignoram completamente os contextos, os privilégios, as oportunidades que nem todo mundo tem.

E nem vou entrar no mérito dos textões em que a pessoa se diz “orgulhosa” por fazer parte de uma empresa, quando a gente sabe que, no fim das contas, ela será dispensada como tantos outros foram, porque é assim que o mercado funciona.

Não falo tudo isso com amargura, juro. Mas com o pé no chão.

É preciso ter muito cuidado com o que se consome ali. Aquilo é um recorte, não é a vida inteira de ninguém. É fácil se perder, achar que está ficando pra trás, que não tem mais espaço, quando, na verdade, você só está vivendo um momento diferente. Um momento que muita gente esconde.

Networking, humildade e o jogo do mercado

Outra lição importante: em qualquer lugar do mundo, conseguir um bom emprego não depende só de currículo. Networking, traquejo social e até jogo de cintura contam muito. Se você é mais reservado, como eu, talvez demore um pouco mais. Mas tudo bem. A caminhada é sua.

Também é preciso aceitar que você vai precisar construir sua reputação do zero num novo país. No começo, ninguém sabe quem você é e de suas reais competências. Ninguém acompanhou seus projetos, sua dedicação. Vai ser preciso provar, mostrar, esperar.

E tudo isso exige paciência. E resiliência.

A idade pesa, mas não define

Na área da Comunicação, a idade infelizmente ainda é um obstáculo. Muitas empresas preferem contratar gente mais jovem, disposta a aceitar salários mais baixos, como eu disse antes. Isso machuca.

Já vi profissional incrível sendo chefiado por gente com pouca estrada e que ainda acredita que o mercado é esse conto de fadas cor de rosa.

Estação de comboios do Porto, em Portugal
Teve dia que peguei trem só pra entregar currículo, apostando mais em gente do que em algoritmo. Foto: Maurício Martins

Mas aprendi uma coisa: não é porque uma empresa não reconheceu seu valor naquele momento que você perdeu seu talento. A sua história continua sendo valiosa. Ela só precisa encontrar o lugar certo para brilhar.

Vai por mim: o recomeço é possível

As coisas começaram a se encaixar com o tempo. Se você mudou de país e está vivendo esse momento de dúvida, insegurança profissional, transição, quero te dizer que vai passar.

No Brasil, a gente cresce ouvindo que sucesso é uma linha reta: faculdade, emprego, promoção. Aí você muda de país e descobre que essa linha pode virar um zigue-zague maluco. E tudo bem.

Tem gente que era gerente e vira assistente. Tem engenheiro vendendo bolo, jornalista em call center, professor dirigindo Uber. E não é porque essas pessoas desaprenderam o que sabiam. É porque, muitas vezes, recomeçar significa aceitar que o caminho vai ser diferente. É uma oportunidade de reinvenção.

Não é demérito, é recomeço

Tem coragem em cada currículo enviado fora da sua área, em cada esforço para se adaptar. Porque no fundo, recomeçar é sobre acreditar que, mesmo num cenário novo, você ainda tem muito a oferecer.

Já que você decidiu imigrar e mudar de carreira, seja mais gentil com você. Trabalhar fora da sua área não é um fracasso.

Filtre mais o que você consome. E, acima de tudo, lembre-se do que já construiu. Você não é um principiante, está só num novo capítulo da sua vida.

A pergunta que simboliza a insegurança profissional “Será que sou bom o suficiente?” vai aparecer de novo com toda a certeza, de vez em quando, mesmo estando “medicado”.

Mas essa pergunta não tem a resposta que você teme. Porque você é. E aos poucos, com persistência, você vai provar isso: para o mundo, mas principalmente para você mesmo.

*A opinião dos colunistas não reflete necessariamente a opinião do Euro Dicas.