Muitos já me disseram que tenho alma cigana. Na verdade, acho que tenho mesmo! Eu me orgulho por nunca ter tido medo de ousar, de viver aquilo que sempre tive vontade de viver sem ficar pensando se o caminho tomado me levaria à felicidade ou se seria um erro. Nossa vida é muito curta para adiarmos sonhos e desejos.

Homem viajante olhando paisagem
Índice Sem medo de arriscar Alma cigana e coração de viajante E o destino acabou dando um empurrãozinho Mais uma mãozinha do destino Portugal foi só uma parada da minha alma cigana Em busca da minha cidadania E vim parar em Barcelona Arriscar é preciso

Sem medo de arriscar

Se eu tenho vontade de fazer alguma coisa eu vou lá e faço independentemente das consequências. Riscos? Eles sempre vão existir, mas se não arriscarmos nunca saberemos se poderia ter dado certo, não é mesmo?

E imigrar faz parte de arriscar-se em busca de uma nova realidade. 

Acho que por essa razão sempre odiei a palavra rotina e talvez por isso sempre tive identificação com os ciganos e com os artistas de circo porque eles não carregam consigo a bendita rotina que tanto me apavora.

Alma cigana e coração de viajante

E essa paixão vem desde a infância, de quando acompanhava minha família nas viagens semestrais que fazíamos para uma fazenda no interior de São Paulo. Aquilo para mim já era uma grande aventura.

Quando me tornei adulto e senti o gosto que era colocar a mochila nas costas e sair livremente pela estrada sem olhar para trás eu não parei mais. Foi como se os espíritos dos ciganos e dos circenses tivessem se incorporado de minha alma.

Há quem adore planejar tudo com muita antecedência. Eu vou na contramão. Compro a passagem de última hora e vivo intensamente aquele momento.

E foi assim em 2008, quando decidi fazer meu primeiro intercâmbio de idiomas para fora do Brasil. Eu trabalhava como repórter em Florianópolis (SC). Amava minha vida, a cidade, meu  trabalho, enfim, não tinha motivos para sair de lá, mas meu espírito viajante já me atormentava há muito tempo.

E o destino acabou dando um empurrãozinho

A sucursal do jornal foi fechada. Era o momento perfeito para colocar meu sonho em jogo. Eu buscava algo completamente diferente da cultura brasileira porque queria fazer uma imersão em um universo totalmente oposto. Uma das opções era Cape Town, na África do Sul. Cheguei a tomar vacina contra febre amarela – obrigatória para entrada no país.

Mas de última hora surgiu a então desconhecida Dublin, na Irlanda, o que me fez mudar de ideia porque ali meu visto de estudante me permitiria estudar e trabalhar legalmente.

Confesso que já tinha ouvido falar da Irlanda, mas de Dublin, tenho que ser verdadeiro: eu não sabia absolutamente nada sobre a cidade. Então, comecei a pesquisar tudo que achava sobre a capital da Irlanda e fui me encantando por tudo que lia e pelos vídeos que via.

O que mais me fascinava era que na agência de viagens me disseram que havia poucos brasileiros na cidade e isso seria ótimo para praticar o inglês.

Ledo engano

A cidade era lotada de brasileiros, mas, por outro lado, com uma cultura totalmente rica, vibrante e diferente da brasileira.  

Em 23 de setembro de 2008 eu chegava à congelante Dublin – fria apenas na temperatura, porque a cidade era um caldeirão de gente de diferentes nacionalidades e muito agitada com pubs a cada esquina. Logo de cara, eu amei tudo o que vi.

No primeiro dia de aula, veio a primeira surpresa: os 15 estudantes da minha sala eram brasileiros. Eu tinha sido “enganado”. O meu curso de inglês acabou se transformando em “conversa de amigos” em português, of course

Mas o objetivo não era aprender inglês?

Sim, mas existem outras coisas importantes que se aprende em um intercâmbio, como a experiência de vida, as trocas com nativos, as amizades, os novos trabalhos, sair da zona de conforto, aprender a valorizar as pequenas coisas…

E aquele intercâmbio em Dublin, sem dúvida, acabou sendo uma das minhas maiores experiências de vida.

Homem vendo neve em Dublin
Durante meu tempo em Dublin, fiz de tudo um pouco. Foto: André Luis Cia

Para sobreviver ali e morar em Dublin fiz literalmente de tudo: de faxina a vendedor de bolos e salgados na escola.

Minha salvação era minha mãe. Eu ligava para ela no Brasil e ela me passava algumas receitas e eu ia testando na escola com meus amigos. Nunca tive o dom da cozinha, ao contrário dela, mas carregava dentro de mim o seu DNA de guerreira, e por isso, não “atirava a toalha”. Até bolo por encomenda fiz para um centro de ajuda a imigrantes comandado só por irlandeses. 

No entanto, a crise econômica de 2008 atingiu fortemente a economia irlandesa e meu plano inicial que era de ficar um ano ali teve que ser mudado no meio da rota.

Eu não tinha um plano B, porém, não podia sobreviver em Dublin por seis meses sem trabalho. Minhas economias com o desemprego haviam ido embora.

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Mais uma mãozinha do destino

E eis que o destino, mais uma vez ele, colocou Lisboa no meu caminho. Em 2001, eu havia vivido ali alguns meses por questões pessoais. Porém, retornar a Portugal anos depois com mais maturidade e namorando foi algo maravilhoso. 

Desta segunda vez, consegui ver a terra de Camões e de Fernando Pessoa com outros olhos. Lá, fiz grandes amizades e acabei sendo gerente de uma grande rede brasileira de perfumes e cosmética.

Nunca havia trabalhado em comércio – minha área sempre havia sido a comunicação, e eles me deram justamente “de presente” uma das cinco piores lojas de um total de 55 em todo país para que eu gestionasse. Minha loja tinha inúmeros problemas, mas como sempre fui movido a desafios me orgulho muito de tê-la alçado com apenas três meses de trabalho às primeiras colocações do grupo. 

Se me perguntam o segredo? A vontade que eu tinha de vencer no estrangeiro e também como resposta à minha frustração por ter sido obrigado pelas circunstâncias a deixar minha amada Dublin. 

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Portugal foi só uma parada da minha alma cigana

Depois de morar em Portugal ainda vieram outros países como imigrante, como os Estados Unidos em 2014, onde fui fazer o meu segundo intercâmbio em uma universidade americana, lotada de latinos, mas com poucos brasileiros, o que me fez ter contato com o espanhol pela primeira vez.

André em Nova York
Durante meu intercâmbio nos Estados Unidos pude aproveitar para conhecer Nova York. Foto: André Luis Cia.

Eu nem imaginava que anos depois iria viver na Espanha. A experiência em terras americanas foi ótima, dei uma “destravada” no inglês e trabalhei em diferentes lugares também: de limpeza a pet shop, mas uma das coisas mais legais que fiz por lá foi trabalhar como animador de festas infantis. Eu sempre amei crianças e vestir a fantasia de muitos personagens que povoaram minha infância era algo mágico.

Aqui vale uma ressalva: quando você está fora de casa vivendo uma experiência internacional, todas as experiências que lhe fazem sair da sua zona de conforto devem ser encaradas como aprendizado. Isso te ajuda a criar uma carcaça dura, intransponível. Isso te torna mais forte para os desafios que virão pela frente. 

Em busca da minha cidadania

Já na Itália eu vivi por um tempo muito pequeno. Me mudei para o país em 2015 com o objetivo único de reconhecer minha cidadania italiana. Foram meses tão intensos e mágicos que parece que vivi anos ali, mas valeu cada instante que estive na minha segunda pátria.

Tive a oportunidade de conhecer a encantadora Roma, morei numa cidadezinha minúscula, mas muito charmosa: Viterbo – o que me permitiu ter mais contato com moradores locais.

E na Itália, produzi minha segunda série internacional de jornalismo: “sonho italiano”, que contava a vida de imigrantes brasileiros que viviam no país. Isso me permitiu conhecer muita gente e descobrir histórias incríveis dos meus conterrâneos, o que me orgulhou muito.   

E foi movido pela dor e por tirar aquele sentimento ruim de dentro de mim que acabei retornando para Dublin, em 2016. Eu havia acabado de perder minha mãe de uma forma trágica no Brasil e sair dali era como tentar fugir daquelas lembranças.

Esse foi um erro porque as coisas que vivemos sempre nos acompanham e esse retorno para a Irlanda foi complicado porque eu ainda estava muito mexido pelos sentimentos que me atormentavam e sozinho. Desta vez, não teria meu ex-namorado comigo e nem meus amigos do intercâmbio.

Foi um recomeço bem complicado, mas onde me tornei mais independente e vi que eu tinha uma força que eu não imaginava ter.

Com muita determinação consegui lançar meu livro “Desejo de viver”- havia lançado meses antes no Brasil, e esse foi o último pedido de minha mãe: que eu contasse a sua história de lutas, de superação e de amor à vida em um livro para que ele ajudasse outras pessoas a nunca desistirem de viver.

Como me sinto no fim do ano? Meu relato sincero sobre a montanha-russa de sentimentos!

E vim parar em Barcelona

Minha chegada a Barcelona foi movida pelo desejo de ver o sol e a praia. Apesar de amar Dublin, eu estava em uma fase de minha vida que necessitava viver em um local mais solar e a escolha pela capital da Catalunha tinha tudo o que eu precisava: calor, mar, luz e muita alegria.

Foi também amor à primeira vista. Cheguei em janeiro de 2017 e contabilizando um retorno de um ano e meio para o Brasil, estou na Espanha há mais de cinco anos – quatro anos vivendo em Barcelona e um ano em Madri

A Espanha foi uma grata e bela surpresa. Tirando o Brasil, que é o país onde nasci e vivi grande parte de minha vida, é o lugar onde mais vivi até hoje. Não sei se ficarei aqui para sempre, mas no momento é onde sinto paz no meu coração e também onde acredito que posso realizar meus sonhos profissionais como jornalista e roteirista. 

O fato de viver aqui me possibilitou, recentemente, realizar um dos maiores sonhos da minha vida: trabalhar como repórter nas Olimpíadas de Paris. Se eu estivesse mais distante da França talvez não tivesse conseguido realizá-lo. E só por essa razão já teria a pena ter vivido aqui.

Mas a Espanha me deu muito mais coisas: me deu amigos verdadeiros, experiências incríveis de trabalho.

Atuei numa parceria inédita em um projeto internacional de uma agência de comunicação espanhola com o governo de Angola; participei de um programa de encontros amorosos na TV; trabalhei como ator; viajei a lugares maravilhosos, enfim, vivi os melhores anos da minha vida e sei que ainda tenho muito mais coisa para viver e contar.  

Arriscar é preciso

A decisão de deixar tudo para trás, muitas vezes, pode ser arriscada, mas só quando decidimos correr esse risco é que temos a dimensão exata se a nossa escolha foi acertada ou não.

No meu caso, posso dizer com convicção que todas as vezes que arrisquei tive um resultado positivo. O medo é uma palavra que não deve constar do dicionário dos sonhadores, já que ele interfere na realização direta de nossos sonhos.

O frio na barriga, o medo da imigração – mesmo estando totalmente legal como estudante na Irlanda… As primeiras palavras em inglês, a felicidade de cruzar os portões do aeroporto e de ver países e culturas diferentes, o desafio de trabalhar em coisas diferentes, os passeios, a oportunidade de estar nos lugares famosos que só havia visto nos jornais e na TV e tantas outras coisas mais são lembranças que nunca sairão da minha mente e que me ajudam a contar a minha trajetória de imigrante. 

Se aventurar pelo desconhecido e desbravar novos mundos e culturas é uma paixão que acomete todo imigrante e não foi diferente comigo. É como uma doença crônica, mas neste caso, uma enfermidade sem sequelas, ou melhor, as sequelas que ficam são as histórias que carregaremos para sempre em nossos corações e lembranças.

Um conselho? Se você tem esse sonho, permita-se vivê-lo!  

*A opinião dos colunistas não reflete necessariamente a opinião do Euro Dicas.