Comparado a muita gente, o que eu vivi na enchente em Valência não foi nada. Mas, como moro na Espanha há quase 6 anos e, desde 2022, vivo em Valência, acompanhei bem de perto tudo que aconteceu. Felizmente, não fui uma das vítimas. Por pura sorte, meu marido também não.
Só que, a 20 minutos daqui de casa, a situação foi bem diferente. Foram mais de 200 mortos e incontáveis perdas materiais. E ainda há outras consequências causadas pela DANA, além de descobertas que fiz a partir daí. Por isso, quero te contar sobre a minha experiência durante as inundações na Espanha.
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PEDIR UM ORÇAMENTO →O dia D da DANA em Valência
Eu trabalho em casa, mas meu marido trabalha de forma híbrida. Normalmente, terça-feira é o dia que ele vai ao escritório. Só que, naquela terça, o dia amanheceu de pá virada por aqui. Às 6h da manhã, o vento já cantava alto e fazia as janelas tremerem. A chuva caia forte.
“– Meu amor, acho melhor você não ir – eu insisti e ele concordou.”
Foi essa a nossa sorte. Porque naquela terça, 29 de outubro, foi quando a DANA atacou Valência e fez cair por aqui, em um só dia, a chuva de um ano inteiro.
Vale dizer que, na notícia sobre a DANA na Espanha, a Renata Losso já explicou melhor sobre o fenômeno. Por isso, o que trago aqui é uma visão mais pessoal, sobre o que eu vivi durante a enchente em Valência.
Alerta fora de hora
Eu estava lavando louça e quase quebrei todos os pratos quando aquela sirene começou a apitar. Meu celular está sempre no modo silencioso e nunca faz nenhum tipo de ruído. Levei um susto tremendo com o tal alerta que mais parecia um alarme de incêndio a todo volume.
“Às 8 e tanto, quando já estava há uma hora com a água até o pescoço e engolindo lama, me chega o alerta da proteção civil”, conta um dos afetados pela inundação em Valência em uma reportagem do jornal Diario.es.
Foi só então, depois de um dia inteiro de chuva e vento insistentes e intensos, que o alerta chegou. Se recomendava evitar qualquer tipo de deslocamento em toda a província de Valência.
Eu digitei no Google: ‘Valencia’. Meu marido ligou a televisão. E só então nos demos conta de tudo que estava acontecendo para além dos nossos trabalhos e do nosso apartamento.
Naquele momento, quando o alerta chegou, já havia uma enxurrada de notícias sobre os estragos causados pela DANA.
As enchentes na Espanha e na província de Valência
A DANA afetou praticamente toda a costa mediterrânea espanhola. Desde a província de Huelva, quase na fronteira com Portugal, até a província de Girona, quase na fronteira com a França.
Oficialmente, 112 municípios espanhóis foram acometidos por inundações (desde o dia 29 de outubro até meados de novembro). Entre eles, 3 municípios das províncias de Albacete, Cuenca e Málaga, 34 da província de Almería e 75 da província de Valência.
Assim como Rio e São Paulo, Valência é o nome tanto da cidade quanto da província. Em meio a tantas notícias sobre “as enchentes em Valência”, “a DANA em Valência”, “as inundações em Valência”, essa coincidência acabou gerando confusão. Porque aqui, na cidade de Valência em si, praticamente não houve alagamentos.
A cidade de Valência foi afetada?
Antes dos anos 60, a cidade de Valência sofreu com uma série de enchentes causadas por transbordamentos do rio Turia.
Até que decidiram desviar o rio e transformaram o antigo leito em um imenso parque – um marco que consagrou a cidade como a Capital Verde Europeia 2024. Foi por isso que, desta vez, a cidade de Valência praticamente não sofreu com as enchentes causadas pela DANA (exceto por alguns bairros ao sul).
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QUERO CONHECER O EBOOK →Naquela terça em que houve maior incidência de chuvas, o novo leito do rio (às margens da área urbana) subiu muito de volume. Mas não chegou a transbordar completamente. As enchentes aconteceram, principalmente, ao norte e oeste da cidade, nos bairros La Torre, Forn d’Alcedo e Castellar e, sobretudo, em municípios vizinhos de Valência (a uns 20 minutos de carro daqui de casa).
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Mas a cidade de Valência foi, sim, afetada pela DANA, ainda que indiretamente. Primeiro, porque muita gente tem parentes e amigos que vivem nos municípios inundados.
Tenho um amigo que perdeu o carro e teve a casa totalmente alagada. Colegas de trabalho do meu marido também passaram por isso. Se aquele dia ele tivesse ido ao escritório – que fica ao norte da cidade – provavelmente teria sérias dificuldades para voltar para casa. Prefiro nem pensar.
De qualquer forma, os impactos diretos na cidade foram mínimos. O aeroporto e o metrô foram paralisados por um par de dias. As aulas foram suspensas. Algumas estradas foram cortadas. Por isso, repito: o que eu vivi na enchente em Valência, por sorte, não foi nada.
Uma maré de solidariedade
A enchente em Valência e em outras áreas da Espanha foi, sem dúvida, uma grande tragédia. Mas houve também uma consequência positiva: a maré de solidariedade impulsionada por essa calamidade climática.
Quando a chuva deu trégua, as pessoas se armaram com vassouras, pás e mantimentos variados. Com as estradas cortadas, muitos foram até os municípios afetados de bicicleta ou mesmo caminhando. Para ajudar a limpar as ruas. Para ajudar a levar comida e água para as pessoas afetadas.

A Defesa Civil, a Unidade Militar de Emergência, os bombeiros e até o exército foram mobilizados. Mas eu diria que a mobilização popular foi ainda mais intensa. De tudo que acompanhei durante a enchente em Valência, essa foi a parte bonita.
As repercussões políticas
Dias depois da passagem da DANA por Valência, o rei Felipe VI e a rainha Letícia decidiram visitar a zona zero do desastre. Foram à Paiporta acompanhados pelo presidente do governo, Pedro Sánchez, e pelo presidente da Comunidade Valenciana, Carlos Mazón. Mas não foram bem recebidos.
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INSCREVER GRÁTIS→Entre a multidão que ajudava a limpar as ruas e distribuir mantimentos, muitos insultaram os políticos. Gritavam juntos: “Mazón, demissão!” e “Sánchez, onde está?”. Jogaram barro no rei.
Eu vi a notícia na TV e fiquei pensando. Talvez se os políticos não tivessem chegado lá com as mãos vazias como fizeram… Se em vez de chegar acompanhados de um monte de seguranças, tivessem chegado como todos, com pás, vassouras e mantimentos, dispostos a ajudar de alguma forma… Talvez, não tivesse sido assim.
A questão é que Felipe VI não se intimidou. Escoltados por policiais a pé e a cavalo, o rei e a rainha insistiram em caminhar um pouco mais no meio da multidão e pararam para ouvir as queixas de alguns cidadãos menos exaltados.
A polarização política
A atitude real acabou sendo bem vista. Mas o caso de Sánchez e Mazón é diferente. No dia 9 de novembro, eu e meu marido começamos a receber mensagens por WhatsApp e Instagram. Nos convocavam para uma grande manifestação.
Nessa noite, mais de 100 mil moradores de Valência lotaram as ruas da cidade contra a reação das autoridades espanholas às inundações e para pedir a demissão de Carlos Mazón e/ou de Pedro Sánchez.
Enquanto isso, o partido de Mazón, de direita, acusa a Sánchez, cujo partido, de esquerda, acusa a Mazón. Em meio dessa polarização política em busca de culpados, a busca por soluções para ajudar os afetados pela DANA nem sempre é prioridade.
Viver em áreas inundáveis
Entre tudo que vivi e acompanhei durante e depois das inundações em Valência, acabei fazendo uma descoberta. Sabia que mais de 1 milhão de habitantes da Espanha vivem em áreas inundáveis?
Como comentei na coluna sobre as várias Espanhas que tenho descoberto, mais de 80% da população vive em menos de 20% dos municípios espanhóis.
E é claro que, além da capital, Madrid (no centro do país), os municípios preferidos são aqueles que ficam perto do mar. A questão é que, o encontro de massas de ar polar com o ar quente e úmido (geralmente do Mediterrâneo) provoca fortes chuvas torrenciais. É isso o que se conhece como DANA.
Além disso, foi somente em 2007 que a Espanha começou a adotar as normativas europeias sobre gestão de inundações. E foi somente a partir de 2016 que começaram a impor restrições mais severas para construções em áreas inundáveis, como explica outra reportagem do Diario.es.
Águas passadas e águas futuras
Uma das pessoas que me perguntou sobre o que vivi na enchente em Valência foi um leitor aqui do Euro Dicas.
“– Não sabia que esses desastres aconteciam na Espanha” – ele comentou.
Sendo bem sincera, eu também nunca havia pensado nisso. Mas depois de tudo que aconteceu, tenho pensado muito no tema.
Me lembro dos alagamentos que vivi em Florianópolis (bem menos desastrosos) e das frequentes notícias que ouvia sobre enchentes em Santa Catarina. Penso na tragédia que aconteceu no Rio Grande do Sul no começo do ano. Pesquiso e descubro que, no continente europeu, a Espanha (junto com a França e a Itália) tem o segundo índice mais alto de risco de catástrofe por fenômenos naturais extremos.
Mas se o índice da Espanha é alto, o do Brasil é muito alto (conforme o WRI). E a crise climática só aumenta esses riscos.
De toda forma, penso que viver com medo não é uma boa opção. É claro que, quando for procurar uma nova casa, vou pesquisar bem se está ou não em uma área inundável. Acho que é importante aprender com as águas passadas. Manter as esperanças e tentar se preparar para as águas futuras. Mas que o passado e o futuro não nos impeçam de viver o presente. É hora de reconstrução!
*A opinião dos colunistas não reflete necessariamente a opinião do Euro Dicas.