Um levantamento recente do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR) revelou uma mudança significativa nas percepções sobre a aproximação entre Reino Unido e União Europeia (UE).

Bandeiras de Reino Unido e União Europeia próximas a um prédio
Índice Pesquisa aponta desejo de reaproximação entre União Europeia e Reino Unido Impactos do Brexit nas relações entre Reino Unido e União Europeia A questão da liberdade de circulação: um ponto central Imigração e barreiras burocráticas no pós-Brexit O papel da imigração brasileira no Reino Unido A dimensão econômica da reaproximação Geopolítica e alianças em um mundo multipolar Há futuro para a reaproximação?

Após anos marcados por tensões e incertezas decorrentes do Brexit, cujo processo de saída do Reino Unido da União Europeia foi iniciado em 2016 e formalizado em 2020, há agora um desejo crescente de reaproximação entre os dois lados, tanto entre os britânicos quanto entre cidadãos de países membros da UE.

Pesquisa aponta desejo de reaproximação entre União Europeia e Reino Unido

Liderada por Mark Leonard, cofundador e diretor do Conselho Europeu de Relações Exteriores, a pesquisa foi conduzida em um momento crítico do cenário geopolítico europeu.

Com 9.278 pessoas entrevistadas em seis países – Reino Unido, Alemanha, França, Itália, Espanha e Polônia, o estudo revelou que 55% dos britânicos desejam uma relação mais próxima com a UE, contra apenas 10% que preferem um distanciamento maior.

Do lado europeu, os números também são expressivos: pluralidades em todos os países pesquisados concordam que as relações devem se estreitar.

Impactos do Brexit nas relações entre Reino Unido e União Europeia

Desde que o Brexit foi formalizado em 2020, as relações entre a União Europeia e o Reino Unido passaram por um período de redefinição.

Questões como o acesso ao mercado comum, regulações alfandegárias e o status da Irlanda do Norte transformaram-se em pontos de fricção. Tais pontos geraram impactos diretos não apenas nas relações diplomáticas, mas também na vida cotidiana de milhões de cidadãos que cruzam as fronteiras seja por razões profissionais, seja por lazer. Pessoas que, em resumo, possuem laços de ambos os lados.

A pesquisa do ECFR aponta que muitos britânicos começam a reavaliar os custos e benefícios do Brexit. Conforme o estudo, 54% dos eleitores que votaram pela saída da União Europeia em 2016 agora reconhecem que algumas concessões poderiam ter sido feitas para manter a liberdade de circulação de pessoas.

Esse é um dos principais pontos de tensão: desde 2021, cidadãos britânicos e europeus enfrentam barreiras significativas para trabalhar e residir em território estrangeiro, afetando desde intercâmbios culturais até cadeias produtivas em setores como saúde, agricultura e tecnologia.

A questão da liberdade de circulação: um ponto central

Entre os aspectos mais citados pelos entrevistados está a liberdade de circulação, que antes do Brexit permitia que cidadãos britânicos e europeus se movimentassem livremente entre os países da UE e o Reino Unido. De acordo com a pesquisa, essa liberdade não era apenas uma conveniência, mas também um pilar de colaboração econômica e social entre os blocos.

Dados apontam que mais da metade dos entrevistados nos países europeus acredita que a reintrodução dessa política seria um dos principais passos para uma aproximação entre Reino Unido e União Europeia efetiva e eficaz.

O impacto da perda dessa liberdade não se limita ao turismo ou à mobilidade acadêmica. Setores econômicos também sofreram: pequenas e médias empresas britânicas que dependiam de trabalhadores estrangeiros enfrentaram desafios para preencher vagas, enquanto o Reino Unido registrou um aumento no déficit de profissionais qualificados em áreas como saúde e tecnologia.

Imigração e barreiras burocráticas no pós-Brexit

A relação entre imigração e o Brexit pode ser observada claramente nas mudanças nos números de migração de cidadãos da União Europeia para o Reino Unido. Desde o início da pandemia e com o novo sistema de imigração pós-Brexit, o fluxo de cidadãos da UE se tornou negativo, fenômeno que não era observado há décadas.

Entre 2016 e 2020, a imigração da UE caiu quase 70% em comparação ao pico registrado em 2016, quando mais de 500 mil cidadãos da UE se mudaram para o Reino Unido, conforme relatório do The Migration Observatory da Universidade de Oxford.

Esse declínio na imigração não pode ser atribuído apenas a políticas pós-Brexit, diz o estudo, mas também a fatores econômicos e sociais, como a queda do valor da libra esterlina, que tornou o Reino Unido menos atrativo financeiramente para os imigrantes de países onde vigora o euro (já que, para brasileiros, a libra ainda é extremamente cara).

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A própria Covid também acabou por bagunçar os fluxos de ida e vinda, então é preciso cuidado ao travar certezas nas razões desses números.

A implementação de um sistema de imigração baseado em pontos também contribuiu para esse declínio. A partir de 2021, a imigração do Reino Unido passou a depender de requisitos mais rigorosos, como comprovação de habilidades específicas, ofertas de trabalho e uma certa faixa salarial, dificultando a entrada de migrantes da UE.

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Além disso, muitos trabalhadores da UE que já estavam no país optaram por voltar para casa, o que também afetou o número de imigrantes na região. Esse processo reflete o impacto direto das novas políticas de imigração pós-Brexit, que tornaram o Reino Unido um destino mais difícil e menos desejado para cidadãos da UE.

O papel da imigração brasileira no Reino Unido

Apesar das dificuldades impostas pelo Brexit, a comunidade brasileira no Reino Unido segue significativa. Atualmente, estima-se que cerca de 220 mil brasileiros vivam no país, com Londres concentrando a maior parte dessa população, detalha relatório da Secretaria de Assuntos Consulares, Cooperação e Cultura, do Ministério de Relações Exteriores (MRE).

Muitos deles são atraídos por oportunidades de estudo e trabalho, especialmente em universidades renomadas como Oxford, Cambridge e o Imperial College, além de setores dinâmicos como tecnologia, engenharia e hotelaria.

Contudo, a experiência desses imigrantes tem sido impactada pelas mudanças nas políticas de imigração. Novos requisitos de vistos e taxas mais altas dificultaram o acesso de trabalhadores e estudantes estrangeiros, forçando muitos a buscarem alternativas em outros países europeus com políticas menos rígidas (mas não mais brandas) de acolhimento.

Brasileiros com cidadania europeia podem optar por viver em outros países do bloco sem a necessidade de cumprir tantas burocracias como na terra do rei.

Ainda assim, o Reino Unido continua sendo um destino de grande apelo para os brasileiros, que veem no país uma combinação entre tradição acadêmica e oportunidades profissionais.

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Motivos pelos quais brasileiros continuam a buscar o Reino Unido

Após o Brexit, muitos brasileiros continuam a enxergar o Reino Unido como destino atrativo, seja para fins educacionais, profissionais ou culturais. Embora as mudanças nas políticas de imigração tenham alterado algumas dinâmicas, o país segue sendo um local de interesse para diferentes perfis de imigrantes.

Um dos principais motivos para a procura é a educação. O Reino Unido abriga algumas das universidades mais prestigiadas do mundo, que atraem estudantes brasileiros em busca de qualificação superior. Programas de graduação, mestrado e doutorado nas áreas de ciência, tecnologia, artes e negócios continuam a ser altamente valorizados por quem busca uma formação de qualidade internacional.

Outro fator que impulsiona o fluxo de brasileiros é a busca por oportunidades no mercado de trabalho. Com o Brexit e as novas regras de imigração, as possibilidades de trabalho no Reino Unido se tornaram mais restritas, mas setores como saúde, tecnologia da informação e educação ainda oferecem boas chances para profissionais qualificados.

A adaptação a essas novas condições exige, no entanto, um planejamento mais cuidadoso por parte dos brasileiros que desejam atuar no país.

Paisagem de outono em Londres, com pessoas caminhando e correndo, simbolizando aproximação entre Reino Unido e União Europeia
Brasileiros qualificados optam por viver no Reino Unido em busca de qualidade de vida e bons salários

Além disso, o turismo e a cultura britânica permanecem entre os atrativos mais fortes para quem visita o Reino Unido. Londres, com seus monumentos históricos, museus e uma cena cultural resiliente, continua sendo uma das cidades mais visitadas do mundo, impulsionando o mercado de serviços e hotelaria e abrindo algumas portas àqueles que desejam se arriscar no país.

O ambiente de negócios também segue sendo um dos fatores de atração. O Reino Unido é considerado um centro financeiro global, e Londres concentra oportunidades para empreendedores e empresas que buscam expandir suas operações internacionalmente.

Apesar dos desafios impostos pelo Brexit, o mercado britânico ainda é visto como uma porta de entrada para novos negócios e inovações.

Por fim, a imigração para o Reino Unido também está diretamente ligada à reunião familiar. Muitos brasileiros buscam se reunir com parentes que já residem no país, mantendo o fluxo de imigrantes mesmo diante das novas restrições.

Embora o cenário pós-Brexit tenha imposto novos desafios, o Reino Unido continua a ser um destino desejado por brasileiros. A facilidade com o idioma também tem peso decisivo, visto que é um dos poucos países que têm a língua inglesa como idioma principal, fator que costuma ser crucial àqueles que buscam uma nova vida fora de casa.

A dimensão econômica da reaproximação

Do ponto de vista econômico, o Brexit trouxe desafios substanciais tanto para o Reino Unido quanto para os países da União Europeia. Estudo do Centre for Inclusive Trade Policy (Centro para Política Comercial Inclusiva), vinculado à Escola de Negócios da Universidade de Sussex, mostra que o comércio entre os dois blocos afunda consistentemente desde o Brexit.

A balança de exportação de alimentos, por exemplo, afundou mais de 16%, em média, nos três anos desde que o Reino Unido se afastou do bloco. Em termos financeiros, isso representa 2,8 bilhões de libras esterlinas (3,38 bilhões de euros) a menos em exportações, por ano, desde 2020.

Se somados outros componentes do PIB, englobando setores importantes como manufatura, agricultura e serviços financeiros, a queda nas exportações para a UE resultou em perdas estimadas em 40 bilhões de libras (48,24 bilhões de euros) anuais, fração não negligenciável do produto interno bruto do país que deve fechar 2023 em cerca de 3,34 trilhões de dólares.

Pesquisa aponta tendência de melhoria na economia em caso de reaproximação

A pesquisa do ECFR destacou que muitos cidadãos britânicos acreditam que a aproximação entre Reino Unido e União Europeia poderia mitigar parte desses prejuízos.

Cerca de 60% dos entrevistados disseram que uma relação mais estreita com os países europeus seria benéfica para a economia do Reino Unido, especialmente em um contexto de tensões comerciais globais e incertezas relacionadas à guerra na Ucrânia.

Nesse intervalo, o Reino Unido ampliou em 12% suas relações com outras nações, com destaque para a China (+3%), os Estados Unidos (+3%) e o Cazaquistão (+2%), reporta o francês Le Figaro citando dados da Organização das Nações Unidas.

Geopolítica e alianças em um mundo multipolar

O estudo conduzido pelo Conselho Europeu de Relações Exteriores também abordou questões geopolíticas, mostrando que a União Europeia e o Reino Unido compartilham preocupações comuns em relação à segurança e à influência global.

A guerra na Ucrânia, as tensões com a China e a perspectiva de um novo mandato de Donald Trump nos Estados Unidos apontam para a necessidade de alianças robustas entre países europeus e o Reino Unido.

População cruzando uma rua movimentada do Reino Unido, na capital inglesa
Britânicos dizem que UE é parceiro mais estratégico do que os EUA.

Segundo os dados, 50% dos britânicos consideram a União Europeia um parceiro mais importante do que os Estados Unidos em áreas como comércio, segurança e meio ambiente.

Essa mudança de percepção reflete uma realidade em que a proximidade geográfica e os interesses econômicos compartilhados entre os dois blocos superam as diferenças políticas que surgiram com o Brexit.

Há futuro para a reaproximação?

Embora o desejo de aproximação entre Reino Unido e União Europeia seja evidente tanto entre os cidadãos britânicos quanto entre os europeus, o caminho para a reconstrução das relações não será simples.

O primeiro-ministro Keir Starmer tem adotado uma postura cautelosa, evitando abrir feridas do passado que possam polarizar novamente o país.

Agora, o contexto global parece oferecer uma rara janela de oportunidade para avançar em um diálogo mais construtivo e reconstruir relações, agora mais sólidas, entre os dois lados.

O futuro dessas relações dependerá de vários fatores, incluindo a capacidade dos líderes europeus e britânicos de articular uma visão comum para questões como segurança, comércio e migração.

Opinião pública deve influenciar

Além disso, o engajamento da opinião pública será essencial para criar um consenso em torno de um novo modelo de cooperação que beneficie ambas as partes – quem sabe, facilitando o trânsito entre nacionais, voltando a ampliar o comércio e beneficiando, em última instância, a balança comercial de ambas as potências.

Claro está que o desejo de aproximação entre Reino Unido e União Europeia existe, e a ele somam-se também os desafios e oportunidades associados a esse processo.

A colaboração entre países vizinhos pode ser a chave para enfrentar os desafios do futuro de maneira mais eficaz e solidária.