Uma notícia ganhou destaque na mídia em todo o mundo: o primeiro-ministro britânico afirmou ter interesse em fortalecer acordos bilaterais com a União Europeia, mas sem reverter o Brexit.
Os líderes do bloco europeu reagiram à declaração com cautela e apresentaram uma lista de condições que incluem novas medidas imigratórias que facilitem a circulação de cidadãos europeus que planejam morar ou estudar no Reino Unido.
Insatisfação com Brexit cresce e Starmer busca cooperação
Cinco anos após o Brexit, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, defendeu a necessidade de estabelecer uma “relação mais cooperativa” com a União Europeia em setores como defesa, segurança, energia, comércio e economia.
No entanto, enfatizou que isso não significa um retorno ao bloco europeu, uma vez que a decisão foi tomada por meio de um referendo e o Brexit é uma questão “resolvida”.
Desde que fui eleito primeiro-ministro tenho sido muito claro que quero ‘reiniciar’ a relação entre o Reino Unido e a UE. Isso não implica um regresso à União Europeia: aqui realizamos um referendo (2016) sobre isso e essa questão está resolvida. No entanto, quero ver uma relação mais estreita em matéria de defesa e segurança, energia, comércio e economia, e é nisso que estamos a trabalhar.
A declaração de Starmer chamou a atenção por ocorrer em um momento em que parte da população britânica demonstra insatisfação com os resultados do referendo. Uma pesquisa do YouGov revelou que apenas três em cada dez britânicos (30%) concordam que o Reino Unido tomou a decisão correta ao votar pela saída da UE.
Em contrapartida, 55% afirmam que foi um erro o país optar pelo Brexit em 2016. Esse é o menor índice de apoio à decisão desde que o YouGov começou a fazer essa pesquisa, logo após o referendo.
Os desafios econômicos, políticos e sociais enfrentados pelo Reino Unido após o Brexit são apontados como possíveis fatores para a insatisfação da população.
Aumento dos custos do NHS
Durante a campanha Leave, uma das promessas centrais foi que o Brexit permitiria redirecionar cerca de 350 milhões de libras por semana para o sistema de saúde público do país, o NHS (National Health Service). Esse valor correspondia à contribuição financeira que o Reino Unido destinava ao orçamento da União Europeia (UE).
No entanto, desde o referendo de 2016 e, especialmente devido à pandemia de Covid-19, os gastos com o NHS aumentaram significativamente. Além disso, o Brexit agravou a escassez de enfermeiros da União Europeia e impôs novas burocracias que dificultaram o acesso a medicamentos e insumos médicos.
Crescente número de imigrantes no Reino Unido
Os defensores do Brexit enfatizavam a retomada do controle das fronteiras como um dos principais benefícios da saída da União Europeia. Durante a campanha, o debate girou em torno do alerta de que a permanência no bloco agravaria os desafios migratórios.

Contudo, dados recentes mostram que os efeitos do Brexit diferem das expectativas iniciais. Em 2023, o número líquido de imigrantes que chegaram ao Reino Unido alcançou a marca de 900 mil, número quase quatro vezes maior que os 248 mil registrados em 2016, ano do referendo.
Desaceleração da economia britânica
O Vote Leave prometia que a economia do Reino Unido prosperaria como uma nação independente. No entanto, dados oficiais do governo revelam um cenário diferente: as projeções apontam que o Brexit deverá reduzir em cerca de 4% o tamanho da economia britânica a longo prazo, aumentando a pressão sobre impostos e serviços públicos.
De acordo com as estimativas mais recentes do Office for Budget Responsibility, apenas 40% do impacto negativo do Brexit afetou a economia, o que significa que 60% dos danos ainda estão por vir. Essa desaceleração é atribuída, em grande parte, à redução do comércio entre o Reino Unido e a UE, agravada pela burocracia pós-Brexit que ainda dificulta as relações comerciais.
Aumento do custo de vida e impostos
A campanha Vote Leave criticava frequentemente a União Europeia (UE) por aumentar o custo de vida no Reino Unido e prometia que essa situação melhoraria com a saída do bloco. A eliminação do IVA (Imposto sobre Valor Agregado) nas contas de energia doméstica, o que, segundo a campanha, economizaria £ 64 por família anualmente, foi uma das principais promessas.
No entanto, até o momento, o IVA nas contas de energia das famílias não foi removido. Desde o Brexit, diversos fatores, incluindo a invasão da Ucrânia pela Rússia e os atritos comerciais com a UE, levaram a um aumento expressivo nas contas de energia e no custo de vida em geral.
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INICIAR MINHA JORNADA →Parceria Reino Unido-UE: sinais de reaproximação
O governo britânico tem trabalhado para melhorar as relações com a União Europeia. No dia 3 de fevereiro, o primeiro-ministro participou de um encontro informal com líderes europeus para discutir temas como segurança. Esse diálogo marcou um passo importante no processo de reaproximação entre as partes.
Após o evento, o primeiro-ministro anunciou que o Reino Unido sediará, em 19 de maio, a primeira cúpula entre seus líderes e os representantes da UE. Segundo fontes da Exame, o evento será uma oportunidade para avançar em áreas de interesse mútuo, que podem trazer benefícios para cidadãos britânicos e europeus.
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Além da cúpula anual, o governo britânico tem planos para fortalecer as relações com o bloco europeu por meio de novas iniciativas. Entre as propostas está a criação de um pacto de segurança abrangente, que deve incluir temas como defesa, segurança energética e matérias-primas estratégicas.
Também está em análise um projeto para reduzir barreiras comerciais, com o objetivo de facilitar o fluxo de bens e serviços entre o Reino Unido e os países da União Europeia.
Britânicos apoiam relação mais próxima com a União Europeia pós Brexit
Após anos de críticas aos impactos do Brexit, a pesquisa realizada pelo YouGov revela que apenas 27% dos britânicos defendem que o relacionamento do Reino Unido com a União Europeia permaneça como está. A maioria apoia uma reaproximação com o bloco europeu, mas sem a reintegração.
O levantamento também aponta que cerca de 64% dos britânicos concordam com a política de reaproximação do primeiro-ministro. Esse apoio inclui 60% dos eleitores que votaram pelo Leave e 53% dos eleitores do Reform UK.
No entanto, o número de defensores da reintegração total ao bloco europeu também é expressivo: 55% dos britânicos afirmam que apoiariam o fim do Brexit.

Os dados da pesquisa do YouGov refletem a insatisfação da população com os resultados do Brexit e um crescente desejo por maior cooperação do país com a UE, mesmo que o Reino Unido mantenha sua independência.
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A reaproximação não deve gerar mudanças imediatas no sistema de imigração para o Reino Unido. Dessa forma, brasileiros ainda terão que solicitar vistos para morar, estudar ou trabalhar no país, a menos que novas alterações sejam implementadas nas políticas migratórias do governo do Reino Unido.
No entanto, caso o Reino Unido e a União Europeia estabeleçam acordos migratórios, a entrada de brasileiros com dupla cidadania pode ser facilitada, uma vez que as regras serão mais flexíveis para cidadãos europeus.
Além disso, caso o acordo de mobilidade juvenil ou de programas de intercâmbio seja firmado entre o Reino Unido e a UE, poderão surgir oportunidades de estudo em território britânico para estudantes brasileiros com cidadania europeia.
A possibilidade de maior cooperação do Reino Unido com a União Europeia pós Brexit pode trazer mudanças nas políticas comerciais, econômicas e de defesa dos países.
Em relação às pautas migratórias, a longo prazo, o novo acordo pode facilitar a entrada de cidadãos europeus ou brasileiros com dupla nacionalidade no Reino Unido.
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União Europeia exige garantias do Reino Unido pós Brexit
A União Europeia reagiu com cautela às declarações do primeiro-ministro britânico. De acordo com o colunista Rafael Behr, do The Guardian, a maioria dos governos da UE apoiou a proposta de cooperação em defesa apresentada pelo Reino Unido.
No entanto, o interesse europeu nessa aproximação se deve, em grande parte, ao cenário global atual, marcado pela guerra na Ucrânia e pelas incertezas em relação ao compromisso dos Estados Unidos com a OTAN durante o governo de Donald Trump.
Para o colunista Rafael Behr, o restabelecimento das relações entre o Reino Unido e a UE poderia contribuir para que o país voltasse a atuar como mediador entre Washington e Bruxelas.
As capacidades militares e de inteligência da Grã-Bretanha não substituem as garantias dos EUA que têm garantido a segurança europeia desde meados do século XX. Mas elas são pesadas pelos padrões da UE e respeitadas no Pentágono (ou pelo menos não descartadas como irrelevantes). Isso dá aos autores da política trabalhista um vislumbre de esperança de que Londres poderia reviver sua antiga função como a voz mediadora entre Washington e Bruxelas.
Interlocutores da Comissão Europeia avaliam que a reaproximação do Reino Unido com a UE pode marcar o início de um ciclo virtuoso de confiança, capaz de reduzir os atritos comerciais entre as partes.
Porém, além de um possível pacto de defesa, os líderes do bloco europeu também planejam negociar outros temas de interesse comum, segundo apuração do colunista Rafael Behr:
A Suíça tem um acordo sob medida, mas envolve contribuições para o orçamento da UE e liberdade de movimento – concessões indizíveis no clima atual da política britânica. (…) A mobilidade juvenil, algo em que o governo alemão está particularmente interessado, tornou-se uma das demandas iniciais da UE nas negociações de redefinição. Outra, empurrada para o topo da agenda pelo presidente francês, Emmanuel Macron, é o acesso às pescarias britânicas.
Entre as principais condições, destaca-se a simplificação do processo para que cidadãos da UE residentes no Reino Unido possam permanecer no país e a negociação de um acordo de mobilidade juvenil.
Outro ponto de interesse é a possível reintegração do Reino Unido ao programa de intercâmbio Erasmus, do qual o governo britânico tem hesitado em retornar.
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Andrea Côrtes