Em um momento de transição global, marcado por incertezas geopolíticas e reações nacionalistas, os impactos da política dos EUA no mercado europeu, sob a liderança de Donald Trump, tem sido foco de intensos debates.
Nesta coluna, vou explorar como a atual política externa americana pode, paradoxalmente, alavancar o papel da Europa no mundo e elencar alguns segmentos da economia que devem se beneficiar deste desenvolvimento e crescimento, inclusive como oportunidades para quem deseja internacionalizar sua empresa.
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QUERO PARTICIPAR →Como a atual política externa americana pode transformar a Europa?
A agenda “America First”, que pauta a política externa norte-americana com um viés isolacionista, protecionista e, por vezes, confrontativo, não apenas desestabiliza antigas alianças como também reabre espaços para novas lideranças globais.
Nesse tabuleiro de xadrez internacional, a Europa ressurge como uma peça estratégica, com potencial para ocupar o vácuo de influência deixado pelos EUA em diversas frentes.
A análise do jornalista Thomas Friedman, do The New York Times, é uma referência crucial para compreendermos essa mudança de paradigma da influência da política americana no mercado europeu. Em suas colunas, Friedman contrapõe a retórica de Trump com a possibilidade de que:
“quem pode realmente se tornar grande novamente não é a América, mas sim a Europa”, diz o jornalista.
Essa afirmação nos convida a refletir sobre o reposicionamento do continente europeu não apenas como uma região reativa às mudanças globais, mas como protagonista de uma nova ordem internacional baseada em sustentabilidade, regulação digital, cooperação e direitos civis.
Portanto, apresentarei alguns pontos centrais, cada um com uma análise aprofundada, que ilustram como “A Europa Grande” pode se tornar mais do que uma provocação jornalística: uma real perspectiva para empresas, governos e cidadãos.
Reconfiguração das alianças internacionais
A história das alianças internacionais ocidentais é, em grande parte, moldada pela lógica da Guerra Fria. A OTAN, por exemplo, nasceu de uma necessidade clara: conter a influência soviética e proteger o bloco ocidental.
No entanto, nas últimas décadas, o papel dos Estados Unidos como o “guarda-chuva” diplomático e militar do Ocidente fez com que muitas nações europeias delegassem parte substancial de sua segurança à potência americana. Esse pacto implícito começa a se romper com a nova orientação externa americana.
Com Donald Trump, os EUA passaram a adotar uma postura mais transacional em relação às suas alianças, cobrando maior contribuição financeira dos membros da OTAN, questionando a validade de tratados multilaterais e, em alguns casos, ameaçando com a retirada do apoio em nome de interesses internos.
Isso não apenas fragilizou a confiança de muitos aliados europeus, como também acelerou um processo de revisão de estratégias por parte da União Europeia. O resultado imediato é uma reconfiguração das alianças internacionais. A Europa, antes fortemente alinhada aos EUA, começa a buscar formas de articulação que lhe garantam maior autonomia.
Revisão externa e interna da União Europeia
Tal postura pode ser percebida quando vista a recente aproximação da Europa com potências como Japão, Índia, Austrália e países da América Latina, com os quais tem firmado tratados de livre comércio e acordos de cooperação tecnológica.

Outro ponto relevante é o papel da China. Embora a Europa mantenha uma postura cautelosa, muitos países europeus enxergam na China uma oportunidade econômica relevante, sobretudo em tempos de retração americana.
Essa relação, no entanto, é complexa e envolve uma série de dilemas éticos, comerciais e políticos que exigem habilidade diplomática e clareza de propósito. Ainda assim, a tendência é que a Europa invista cada vez mais em sua capacidade de interlocução global de forma independente.
A reconfiguração das alianças também passa por uma revisão interna da própria União Europeia. A saída do Reino Unido, com o Brexit, pode ter sido um abalo à primeira vista, mas também abriu espaço para uma maior coesão entre os membros restantes.
A Alemanha e a França, por exemplo, têm liderado iniciativas de maior integração diplomática, defesa compartilhada e harmonização de regulações. Alianças não são mais vistas apenas como escudos militares, mas como plataformas de influência global.
“A Europa Grande” como oportunidade de negócio
Para as empresas que desejam se internacionalizar, essa reconfiguração representa uma oportunidade significativa. Ambientes que antes estavam altamente dependentes das diretrizes americanas estão agora mais abertos a novas parcerias, tecnologias e modelos de negócio.
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Abrir Conta Multimoeda →Podemos perceber também que a própria União Europeia tem ampliado suas linhas de financiamento e programas de incentivo à inovação com foco em empreendimentos internacionais.
Em resumo, a política externa de Donald Trump está provocando uma mudança de eixo:
Ao abandonar seu papel tradicional de líder das alianças globais, os Estados Unidos estão forçando a Europa a repensar suas relações e assumir uma posição mais protagonista.
E ao fazer isso, está ajudando a construir, talvez sem querer, uma nova ordem multipolar em que “A Europa Grande” não seja apenas uma possibilidade, mas uma realidade em expansão.
Fortalecimento da autonomia estratégica europeia
A autonomia estratégica europeia não é um conceito novo, mas nunca foi tão urgente quanto agora, a partir da influência da política americana no mercado europeu.
A crescente imprevisibilidade da política externa dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump, com sua diplomacia errática, sua aversão a compromissos multilaterais e sua tentativa constante de transformar as relações internacionais em meros contratos comerciais forçou a União Europeia a repensar profundamente sua dependência histórica de Washington.
De repente, aquilo que era confortável tornou-se arriscado, e essa percepção está servindo como catalisador para uma transformação estrutural. A Europa está entendendo que não pode mais contar com os EUA como um parceiro previsível e estável em áreas cruciais como segurança, tecnologia, cadeia de suprimentos e energia.
Em resposta, líderes europeus vêm ampliando esforços para fortalecer sua capacidade autônoma de ação em política externa, segurança e economia.
Essa postura não busca o isolamento, mas a construção de um pilar europeu que possa negociar de forma soberana com outras potências e responder de forma eficaz a crises globais.
Novos eixos de desenvolvimento: tecnologia, inovação e energia
O fortalecimento da autonomia estratégica passa por diversos eixos. O primeiro deles é a defesa. A criação da Cooperação Estruturada Permanente (PESCO) e o incremento do Fundo Europeu de Defesa são passos claros na direção de uma maior integração militar.
Ainda que a OTAN continue sendo um pilar fundamental da segurança europeia, a União Europeia está se preparando para ter respostas próprias, especialmente diante de cenários onde os interesses europeus e americanos divergem.
Outro eixo importante é o da tecnologia e inovação. A Europa está investindo maciçamente em projetos de inteligência artificial, computação quântica, semicondutores e conectividade 5G/6G.

O objetivo é claro: reduzir a dependência de empresas americanas e chinesas e garantir soberania digital. Programas como o “Digital Compass” da Comissão Europeia são exemplos dessa estratégia, ao estabelecer metas ambiciosas de autonomia tecnológica até 2030.
No campo energético, a guerra na Ucrânia e a consequente crise do gás russo serviram de alerta máximo. Muitos países europeus perceberam o risco de depender de fontes externas para suprimentos críticos.
Com isso, a transição energética ganhou ainda mais tração, com investimentos em energias renováveis, hidrogênio verde e infraestrutura de interconexão. A ideia é não apenas combater as mudanças climáticas, mas também garantir independência energética.
Busca de autonomia: portas abertas para novos negócios na Europa
A dimensão econômica também não pode ser negligenciada.
O impulso dado ao plano Next Generation EU, um pacote de recuperação econômica baseado em investimentos verdes e digitais, mostra que a União Europeia está disposta a agir de forma coordenada, com financiamento coletivo e políticas industriais próprias. Isso representa uma mudança de paradigma: da austeridade à ambição estratégica.
Do ponto de vista das empresas que desejam atuar na Europa, esse cenário é extremamente positivo. Um continente que busca autonomia é também um continente que investe em inovação, infraestrutura e talento.
As oportunidades estão se multiplicando, especialmente para negócios alinhados às prioridades estratégicas da União Europeia, como sustentabilidade, digitalização e integração regional.
Em síntese, a autonomia estratégica europeia está deixando de ser um discurso abstrato para se tornar uma política concreta.
E, ironicamente, é a instabilidade gerada pela política externa americana que está acelerando esse processo. “A Europa Grande” emerge justamente quando a Europa decide depender menos dos outros, e confiar mais em si mesma.
Liderança na agenda climática global
A liderança global no enfrentamento das mudanças climáticas tem sido um ponto crucial de debate nas últimas décadas, especialmente à luz das políticas e ações tomadas pelos Estados Unidos sob a administração Trump.
A postura do ex-presidente, que se retirou do Acordo de Paris, não apenas enfraqueceu os compromissos dos EUA com a agenda climática global, mas também criou um vácuo de liderança em um momento de crise ambiental urgente. Nesse cenário, a União Europeia tem se destacado como uma potência global na defesa de políticas ambientais ambiciosas.
A implementação do Green Deal Europeu (Pacto Ecológico Europeu) é um exemplo emblemático da visão estratégica do continente, estabelecendo metas rigorosas para redução das emissões de carbono até 2030 e a busca pela neutralidade de carbono até 2050.
Essas metas não apenas reafirmam o compromisso europeu com o meio ambiente, mas também o posicionam como líder global em sustentabilidade.
Ainda, a Comissão Europeia tem usado sua influência diplomática para pressionar outros países a aderirem a acordos climáticos globais, como o Acordo de Paris, e também para implementar políticas internas de redução de emissões e transição energética.
Investimentos pesados em sustentabilidade
A Europa tem investido pesadamente em fontes de energia renovável, como solar, eólica e hidrogênio verde, com o objetivo de reduzir sua dependência de fontes de energia poluentes.
Este movimento não é apenas uma resposta à crise climática, mas uma estratégia de soberania energética, o que reforça a ideia de uma Europa independente das flutuações de mercados externos, como os derivados do petróleo.

A UE tem adotado uma postura firme em relação à criação de regulamentações ambientais globais. Por meio da Taxa de Carbono na Fronteira, a Europa impôs um modelo de justiça climática que obriga países e empresas a considerarem as emissões de carbono ao importarem bens e serviços para o continente.
Tal movimento cria uma pressão sobre economias não europeias para que também tomem medidas mais eficazes em relação às emissões, alinhando os interesses econômicos com as preocupações ambientais.
Tecnologia verde: oportunidade de internacionalização
Para as empresas que buscam internacionalizar seus negócios, esse foco europeu em sustentabilidade oferece uma série de oportunidades.
Empresas que se alinham aos objetivos do Green Deal, investindo em práticas sustentáveis e tecnologias verdes, podem encontrar um mercado em expansão na Europa, que está cada vez mais interessado em produtos e serviços que respeitem os princípios da economia circular e do desenvolvimento sustentável.
A Europa mais uma vez tem assumido a liderança na agenda climática global, preenchendo o vazio deixado pelos EUA e estabelecendo um novo padrão de governança ambiental.
As políticas climáticas da UE não são apenas uma questão ética e ambiental, mas também uma estratégia econômica sólida que visa preparar o continente para o futuro, tornando-o uma potência verde e sustentável.
Impulso à inovação e tecnologia
A inovação tecnológica sempre foi uma das principais características da economia americana.
No entanto, com a ascensão de políticas mais protecionistas sob o governo Trump, muitos setores da tecnologia passaram a ver mais obstáculos do que oportunidades, especialmente devido à falta de colaboração internacional e ao enfraquecimento da cooperação entre empresas e governos.
Esse ambiente de incerteza está forçando muitas empresas a reconsiderarem suas estratégias globais. Enquanto isso, a Europa tem adotado uma abordagem oposta, incentivando o crescimento de setores inovadores.
O continente tem investido pesadamente em tecnologias emergentes, como inteligência artificial, computação quântica e 5G, com o objetivo de reduzir sua dependência de países como os EUA e a China.
Portas abertas para startups e pequenas empresas
Programas como o Horizon Europe e o Digital Compass da Comissão Europeia são claros exemplos desse impulso, fornecendo financiamento e regulamentação para empresas que buscam inovar e desenvolver novas soluções tecnológicas.
Europa se destaca no cenário digital com a regulamentação das empresas de tecnologia
A Lei de Serviços Digitais e a Lei de Mercados Digitais visam criar um ambiente mais justo e competitivo, onde as inovações podem florescer sem a dominação de gigantes tecnológicos.
Isso favorece as startups e pequenas empresas inovadoras, que encontram um terreno fértil para crescer e competir de maneira equitativa.
Para as empresas que desejam se internacionalizar, a Europa oferece um mercado dinâmico e regulamentado, que não apenas promove a inovação, mas também estabelece um ecossistema mais seguro e confiável para investimentos.
Com sua ênfase em pesquisa, sustentabilidade e regulação digital, o continente está se posicionando como um líder na revolução tecnológica do futuro.
Identidade europeia em destaque
Com a política externa dos Estados Unidos voltada para o isolamento e um foco crescente no nacionalismo, a União Europeia tem se visto diante de uma oportunidade única de reforçar sua identidade como um bloco coeso e globalmente relevante.
A instabilidade internacional proporcionada pela administração Trump, marcada por uma retórica divisiva e uma abordagem muitas vezes contraditória, fez com que a Europa fosse forçada a se redefinir e a reforçar sua posição no cenário global, não apenas em termos econômicos, mas também culturais e políticos.
A crise migratória, a pandemia e as tensões geopolíticas com países como a Rússia e a China geraram uma necessidade de maior coesão interna. A partir da influência da política americana no mercado europeu, a UE tem trabalhado ativamente para fortalecer a solidariedade entre seus membros e criar uma identidade baseada em valores como democracia, direitos humanos e sustentabilidade.
Esses princípios se tornaram a espinha dorsal de sua política externa, promovendo a imagem da Europa como uma alternativa aos regimes autoritários e à política unilateralista de Trump.
Compartilhei, no vídeo a seguir, demais pontos importantes sobre a influência da política americana no mercado europeu e sua relação com a capacidade internacionalização de empresas. Confira!
A atuação da União Europeia em processos de mediação e resolução de conflitos, assim como em missões de manutenção da paz, tem sido uma constante. A integração econômica e política dentro da Europa, através de instituições como o Parlamento Europeu, fortaleceu sua capacidade de agir de forma unificada e assertiva.
Essa identidade europeia não é apenas uma resposta à política externa americana, mas também uma estratégia para a construção de um futuro mais sustentável e justo. Para as empresas, esse movimento oferece uma nova narrativa de negócios, baseada em cooperação e valores, criando um ambiente mais favorável para investimentos que compartilhem esses princípios.
Oportunidades de internacionalização para a Europa
Ao analisarmos a influência da política americana no mercado europeu, torna-se evidente que a atual política externa americana, embora tenha criado desafios significativos para os Estados Unidos, também está abrindo portas valiosas para a Europa.
A crescente autonomia estratégica do continente, sua liderança na agenda climática global, o impulso à inovação e a transformação de sua identidade geopolítica colocam a Europa em uma posição privilegiada para se tornar um centro global de negócios, sustentabilidade e inovação.
Para as empresas que desejam expandir seus horizontes e conquistar novos mercados, a Europa surge como um destino de oportunidades inexploradas, e é exatamente nesse cenário que a Atlantic Hub, com sua expertise em internacionalização, pode desempenhar um papel essencial.
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Nosso objetivo na Atlantic Hub é ajudar empresas a navegar neste ambiente dinâmico, aproveitando as vantagens oferecidas pelo fortalecimento da autonomia europeia e pela crescente demanda por soluções sustentáveis, tecnológicas e inovadoras.
A Europa está se transformando em um polo de atração para negócios globais, e a Atlantic Hub está pronta para ser o parceiro estratégico que ajudará sua empresa a conquistar essa nova fronteira de oportunidades. O momento de internacionalizar é agora e a Europa Grande está esperando.
Portanto, o papel da Atlantic Hub é conectar empresas brasileiras com oportunidades na Europa, fornecendo a infraestrutura, o conhecimento e o apoio necessários para que elas se adaptem e prosperem nesse novo cenário global.
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Benício Filho