Ser mulher não é fácil, mas ser mulher, livre e imigrante já acrescenta outra camada de desafios. O preço de ser livre, mulher e ir morar em outro país é vestir na pele uma série de esteriótipos, mas é também uma chance incrível de se reinventar.
O preço de ser livre é ir ao encontro de quem somos
Recomeçar sozinha em outro continente requer um tanto de coragem. Sair do conhecido e confortável rumo ao abismo de uma nova cultura, novas pessoas, novas burocracias não é para todo mundo, mas é libertador.
É este passo, seguido de muitos tropeços, que nos leva a desconstruir tudo que dávamos por certo. Essa desconstrução, por sua vez, nos ensina quem realmente somos.
Quem somos quando ninguém que conhecemos está nos observando? Quem somos quando não dominamos tão bem um idioma ou não temos escolha a não ser contar com a boa vontade e gentileza de estranhos?
O preço de ser livre é recomeçar
Emigrar é também uma oportunidade de recomeçar. Não exatamente recomeçar do zero, mas de calar todo o ruído da vida automática que levamos no nosso país natal e irmos de encontro com quem realmente somos e com quem queremos ser de verdade.
Lembro que no meu primeiro ano como imigrante na Alemanha resolvi começar a fazer terapia. Não tinha nada acontecendo de dramático, na verdade eu era bem deslumbrada com a minha nova vida ali. Só que percebi a enormidade daquela oportunidade de moldar minhas novas experiências em novas verdades na mulher que eu queria ser dali para frente.
Naquele novo lugar eu não tinha tanto medo de ser quem eu era, de desejar e de me incluir.
Aquela nova liberdade e ingenuidade de não entender (quase) nada do que estava acontecendo me dava força para ser eu mesma. Talvez eu nunca tenha sido eu mesma antes desta experiência.
Quando a Alemanha não me coube mais, vim para Portugal. Sim, não somos nós que temos que caber nos lugares, mas os lugares que tem que achar um jeito de caber em nós.
Morando em Portugal, encontrei uma nova forma de ser mãe e tenho a estabilidade emocional e financeira de testar novos ventos profissionais.

O preço de ser livre é encarar esteriótipos e julgamentos
Tudo isso não vem sem seus obstáculos, é claro. Mesmo que não verbalizado, a gente percebe o ponto de interrogação estampado nos rostos confusos. Como ela ousa seguir seus sonhos? Como ela ousa vir sozinha? Como ela ousa roubar nossos empregos? Como ela ousa acreditar que é capaz? Como ela ousa usufruir da nossa estrutura?
Toda mulher brasileira que emigrou sozinha (ou não) já viu ou ouviu alguma dessas. É o preço de ser livre, o preço de emigrar sozinha e não ter medo de conquistar espaço onde ninguém abre portas. Outro lado disso, é que quanto mais mulheres ousarem serem livres, mais isso será normalizado.
É duro habitar uma caixinha já conhecidos da gente no Brasil e de repente, em outro país, ter que buscar outro rótulo, caber em outra caixinha. No Brasil, as pessoas me viam de um certo modo porque a cultura e o contexto ali não as permitiam me ver mais além.
Em um outro país e, consequentemente, outro contexto, eu tive a chance de me colocar como alguém mais próxima da minha essência.
O preço de ser livre é ressignificar o desconfortável
É claro que quando emigramos também assumimos outros rótulos não tão confortáveis. Seremos sempre o outro, o que não é dali. O pulo do gato está em como ressignificamos isso.
Ser mãe e imigrante é toda uma nova camada de dificuldades, mas mais uma vez: também de oportunidades. Longe de mim querer romantizar dificuldades. Eu nunca viajei sozinha com meu marido depois de termos nos tornado pais. Não há date night para esse casal aqui.

Porém é essa vida que escolhi que me permite criar meus filhos com presença e participação integral. A minha realidade no Brasil provavelmente não permitiria nem de perto o grau de envolvimento que tenho na minha maternidade.
Em Berlim eu tive um amigo do Irã que detestava que ficassem perguntando da onde ele vinha. Com um alemão invejável ele dizia que ele era dali mesmo, de Berlim. Acho mesmo desagradável essa pergunta. Ela frisa que não fazemos parte, não somos desta terra.
Só que com o tempo eu aprendi a vê-la com outros olhos. Não ser daqui me dá sal e enriquece a minha história, me torna mais plural. Não sou daqui, mas estou aqui.
*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Euro Dicas.