Preparar a bagagem para uma grande mudança é sempre um momento singular. Eu, pelo menos, preciso de dias até chegar a uma conclusão do que vale a pena levar e o que não vale. Mas, com o tempo, percebi que o deslocamento exige um certo desapego. Por isso, nesta coluna, divido com vocês um pouco sobre como foi fazer (e desfazer) minhas malas nas idas e vindas de Paris, nos últimos anos.

Fechando mala nas idas e vindas de Paris.
Índice A dificuldade de levar tudo o que você quer O peso das malas nas idas e vindas de Paris Tudo o que deixei em Paris Esvaziando as malas e preenchendo o coração

A dificuldade de levar tudo o que você quer

Tenho uma memória muito vívida do processo de organizar as malas para Europa pela primeira vez. Eu podia levar duas bagagens de 23kg e, na véspera do embarque, percebi que ambas estavam no limite do peso. Nem passava pela minha cabeça que eu ia querer trazer coisas de volta. Naquele momento, eu só pensava no que eu queria que estivesse comigo.

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Lembranças da família, caixas que eu gostava, minhas peças de roupas preferidas, fotos reveladas, livros, canetas, cadernos, entre outros. Perdi a conta das vezes em que eu abri a mala e repensei a necessidade de ter tudo aquilo.

Na verdade, por mais que eu estivesse animada com a mudança, sentia muito medo de precisar de algo em meu novo país e não encontrar (ou melhor, não saber como encontrar).

Com o passar dos anos, fazer minhas malas nas idas para Paris ficou mais fácil. Da segunda vez que eu fui para lá, fui mais criteriosa com o que eu queria levar e consegui chegar na França com menos peso.

Já na última, foi quando eu cheguei ao ápice de minha organização. Levei o que era estritamente necessário, deixei minha mala de bordo dentro da mala despachada e, ainda assim, ela mal passou os 10kg!

Como trazer tudo de volta para o Brasil

Pensar no que levar nas malas nas idas é, sobretudo, se precaver com a vinda delas. Nem preciso dizer que, na minha primeira vez, foi um grande sufoco conseguir trazer tudo o que eu queria e o que eu tinha adquirido. E se eu não tivesse investido em uma mala de qualidade, a situação teria sido bem pior.

Da segunda vez também foi imensamente difícil, menos por conta do que eu tinha levado, e mais pela quantidade de coisa que eu tinha juntado lá. Da última vez também acabou sendo um desafio. Me excedi nas compras e, mesmo com muito espaço, quase excedi a franquia de peso das minhas duas bagagens!

O peso das malas nas idas e vindas de Paris

Dito isso, o momento de pesar a mala sempre foi um tanto estressante. Já quebrei muita balança portátil tentando saber a quantidade de quilos que eu estava levando comigo e, no fim, sempre viajava no limite (ou um pouquinho além dele).

Por isso, desenvolvi uma estratégia que não faz milagre, mas que dá uma ajudinha: se eu não posso tirar coisas pesadas da mala, eu vou tirar a maior quantidade de coisas leves que eu puder.

Isso significa que nenhuma embalagem entra na minha mala. Ou seja, produtos de supermercado, presentes e compras em geral vão todas soltas. Só que tal estratégia era particularmente difícil de seguir quando eu comprava um produto que vinha todo embalado com capricho… Só eu sei como não foi fácil me desfazer das belíssimas caixas dos sapatos e bolsas que adquiri!

Compras de supermercado na volta de Paris.
Pode não parecer, mas embalagens ocupam um espaço e um peso considerável na bagagem. Foto: Bárbara Ábile.

De qualquer forma, após anos nessas idas e vindas, passei a olhar com descrença esses bolsos e organizadores de mala: afinal, eles acabam sendo um peso a mais!

Hoje, nas minhas bagagens, as meias e roupas íntimas viajam dentro de bolsas, que são protegidas por camisetas; as garrafas de vinho ficam dentro das botas; as roupas sujas protegem artigos em vidro e ficam concentradas de um lado só da mala.

Infelizmente, nem sempre essas estratégias dão certo. Às vezes, a gente só desiste e paga o excesso cobrado pelas companhias aéreas, mesmo.

Tudo o que deixei em Paris

Então, não é de se admirar que nessas malas nas idas e vindas de Paris eu tenha deixado muita coisa para trás. Para além das restrições e proibições estabelecidas pela Receita Federal brasileira, lá ficaram grande parte de meu guarda-roupa de inverno, algumas peças que eu havia feito e um tênis que eu amava, mas estava muito usado.

Também deixei itens de decoração cheios de brasilidades, potinhos de cerâmica, um ótimo travesseiro e muito spray de ambiente.

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Ainda, ficaram para trás produtos de rosto e cabelo, sabonetes, acessórios e até mesmo um secador!

E nos aeroportos de Paris também

Nesse sentido, um grande erro que cometi certa vez foi me preocupar tão somente com o peso das malas despachadas, deixando de lado o peso da mala para bagagem de mão. Despachei minhas malas um pouco abaixo do limite mas, quando fui passar pela segurança, fizeram a pesagem de minha bagagem de bordo e ela tinha excedido em muito o limite permitido.

E foi nesse momento que deixei mais uma parte das minhas coisas no aeroporto de Paris, mais especificamente, com outros passageiros.

Dessa vez ficaram um guarda-chuva, uma havaiana, utensílios de casa, temperos e muita comida. Para garantir que o peso estaria abaixo do limite, também vesti algumas roupas que estavam na mala. Como consequência, fiz a viagem mais desconfortável do mundo, passando muito calor!

Esvaziando as malas e preenchendo o coração

Porém, a montagem e desmontagem das malas nas idas e vindas de Paris me ensinou algo valioso: de que por mais que você seja econômico na hora de montar a mala, inevitavelmente será preciso abrir mão de algumas (ou muitas) coisas em algum momento.

Aprendi que essas idas e vindas exigem leveza e um certo grau de desapego de bens materiais, mas que nem sempre é fácil fazer isso. Já sofri demais por ter que abrir mão das minhas coisas ao longo dessas idas e voltas de Paris.

Principalmente no início, eu queria ter um souvenir de todos os lindos momentos que eu havia vivido lá: a notinha fiscal da minha primeira compra, aquele folheto de uma exposição marcante, o bilhete de avião impresso e a inscrição na universidade. A impossibilidade de fazer isso era, no mínimo, irritante.

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Formas de desapego

Sendo assim, para dar conta desse desapego compulsório, comecei a fazer duas coisas que facilitaram muito mais o processo.

A primeira foi registrar em fotos os itens dos quais tinha que me desfazer, apesar de serem importantes. O movimento ajudou a registrar os bons momentos com eles e de como eles fizeram parte de uma fase marcante da minha vida.

A segunda, por sua vez, tem um valor ainda mais especial para mim: comecei a deixar esses objetos com pessoas que haviam sido importantes ao longo de minha estadia.

Turista recuperando mala na volta de Paris.
Na hora de montar a mala, ou você pratica um certo desapego ou se conforma em pagar o excesso de bagagem!

Na verdade, esse movimento de repassar suas coisas era um tanto recorrente na residência universitária onde eu morava em Paris, afinal, a rotatividade de habitantes era imensa. Por conta disso, já fiquei com kits maravilhosos de skincare, uma chaleira e outros utensílios domésticos de amigos que foram embora.

Quando chegou minha vez de voltar ao Brasil, deixei minhas roupas e plantas com amigas queridas que fiz lá. Nos primeiros dias, achava muito incrível saber que minhas plantinhas seguiam aproveitando a vista de Paris e que minhas peças estavam passeando pelos boulevards da capital francesa.

No fim, essas idas e vindas com malas me mostraram que o desapego é difícil, mas nele reside uma certa beleza. Pelo menos, sei que tem um pedacinho meu na Cidade Luz até hoje: não apenas na dimensão do afeto, mas também na dimensão material.