Só em digitar o tema desta coluna, o frio na barriga volta e eu ainda me pergunto: será que fiz isso, mesmo? 

A maturidade e a coragem de mudar de país são alguns dos fatores que acompanham os imigrantes.
Índice O reencontro com a terra da minha avó Indo atrás da cidadania A tragédia que virou ponto de partida A viagem que modificou tudo Ainda em 2023 Voltar para poder ir embora A maturidade e a coragem de sair do país: mudar é difícil Brazuca e Tuga

Afinal, o universo “Portugal” faz parte de mim desde a infância, através das histórias contadas por minha avó paterna, imigrante portuguesa que soube plantar a semente lusitana no solo fértil do meu imaginário de criança, e que me acompanharia por toda a vida. 

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Eram passagens, fábulas e músicas que retratavam a vida familiar cotidiana da aldeia em que viviam, Casais do Campo, nas cercanias de Coimbra. Minha avó falava das brincadeiras e cantorias com as irmãs, da casa em que moravam, da comida, das festas, dos contos infantis do seu lugar. Falava da sua gente. Eu ouvia fascinada e minha imaginação corria solta.

Essa é a lembrança mais remota sobre as primeiras vezes que tive vontade de vir para Portugal. E minha avó também tinha o grande desejo de levar os netos para conhecer a sua terra.

Tanto que, ao folhearmos juntas uma revista famosa da época que trazia uma grande matéria sobre a relação Brasil/Portugal, com fotos belíssimas dos dois países, minha avó disse: “Ainda vou levar vocês para Portugal!”.

Eu, que nunca fui boba em relação a ver prontamente concretizado aquilo que quero (eufemismo para ansiedade), perguntei depressa: “Quando?”, e ela: “Ah, vai ser logo.” Essa foi a deixa para eu mandar:

“Posso arrumar minha mala, já?”

Minha mãe, libriana ponderada como era, e que acompanhava aquele quase devaneio entre avó e neta, resolveu interferir antes que eu começasse a atormentá-la para comprar uma mala só para mim:

“D. Isaura, pare de dar falsas esperanças à menina, a senhora sabe que não irão a Portugal agora.” A que o sangue lusitano respondeu:

“Ora, deixe estar Wilma, ainda levarei meus netos e vamos conhecer Portugal dos Pequenitos!”. Como eu amava essas duas!

Minha avó não teve tempo de levar os netos para ver sua terra. Faleceu poucos anos depois sem realizar esse desejo, que continuou vivo em mim.

O reencontro com a terra da minha avó

Quando eu já era uma jovem adulta, consegui comprar, com o dinheiro do meu trabalho, uma passagem para Portugal, passando pela Espanha também, para realizar o meu sonho – e o da minha avó. E que emoção ao descer do carro e pisar, pela primeira vez, o chão da aldeia dela!

A irmã caçula e única sobrevivente do núcleo inicial, tia Alice, me esperava na porta da casa onde elas nasceram e que ainda pertence à família. Me deu um abraço apertado e vários beijinhos na face, como minha avó costumava fazer, repetindo: “Ah, a minha Isaura, que saudade!”

Me emociono até hoje quando recordo isso, porque foi um momento determinante na minha vida: ali eu vi que uma parte do meu coração sempre havia pertencido a Portugal e àquele lugar.

E a partir daí, aquela sementinha que minha avó havia plantado e que havia crescido aos poucos durante os anos, foi transformando-se em uma árvore grande, alimentada pelas vezes que aqui retornei para passear e visitar a família portuguesa.

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Indo atrás da cidadania

Como primeiro passo concreto, em 2018, após uma ida especial de 15 dias a Portugal para encontrar meu filho que estava fazendo um mochilão em um ano sabático, tive a certeza de que, em algum momento da minha vida, eu moraria em Portugal.

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E, assim, iniciei meu processo para requerer a cidadania portuguesa, que é o presente maior deixado pelos meus avós.

Normalmente levaria cerca de dois anos mas, infelizmente, houve a pandemia no meio do caminho e a documentação toda, com direito a passaporte e cartão do cidadão, só ficou pronta em 2022.

Lembro do meu coração disparado ao abrir o envelope enviado pelo Consulado Português para a minha casa em São Paulo, e meu filho filmando o momento.

Nesse ponto, preciso retroceder um pouco e situar minha vida pessoal: sim, tenho um filho lindo, Rodrigo, já adulto, independente econômica e emocionalmente, que hoje reside em seu próprio apartamento, em São Paulo. Mas àquela altura ainda morávamos juntos, como foi a vida inteira.

Um breve retorno à televisão

Sou jornalista e naquela época havia voltado a trabalhar em redação, o que havia jurado nunca mais fazer, ao pedir demissão de uma grande emissora em 2020, logo no início da pandemia. Ali comecei a dar meu grito de liberdade e fui morar no litoral. Passo, aliás, que só foi possível porque já estava aposentada – consegui esse feito relativamente cedo e da forma correta.

Mas em 2022 eu estava um pouco entediada, acreditem se quiser, porque nem eu mesma achava isso possível, e fui trabalhar em outra emissora. Bastou um mês para eu ter a certeza de que não queria mais aquela vida louca para mim, e foi exatamente à essa altura que toda a documentação portuguesa chegou.

Bom, se laaaá atrás, com 7 anos de idade, eu já queria que minha mãe comprasse uma mala para uma remota possibilidade de ida a Portugal com minha avó, imagina agora, com um passaporte português na mão! Eu já estava com a roupa de ir! Mas ainda trabalhei nesse local até o final do ano.

O movimento me rondando

O início do processo para eu começar a me movimentar em direção a Portugal veio no começo de 2023, de uma forma um tanto conturbada, e eu nem imaginava qual seria o resultado.

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Acredito que o Universo, ou Deus, ou a Espiritualidade, ou como cada um prefere chamar, sempre tem seus meios de nos colocar naquela rota que já está traçada para nós, mesmo que naquele momento nossa compreensão não alcance isso.

Passei a cogitar, muito intimamente, a possibilidade de ficar alguns meses em Portugal, mas sempre pensava: e o que vou fazer com o meu carro? Deixar parado na garagem durante todo esse tempo, pagando IPVA, seguro, etc.?

Aqui faço um parêntese: sempre fui louca para dirigir e para ter carro, e nessa época eu estava com o modelo com o qual sempre sonhei e que me custou cada centavo suado – e eu havia acabado de quitá-lo. Por isso o meu questionamento interior: o que faço com o carro, para ficar esse tempo fora?

A tragédia que virou ponto de partida

Nem precisei me questionar muito, porque aqui entra o que chamei, logo acima, de intervenção do Universo. Creio que muitos lembram daquela tragédia ocorrida no Carnaval de 2023 que devastou várias praias do litoral norte paulista, quando choveu em 24 horas um volume nunca antes registrado no país.

O desastre provocou uma enchente histórica e deslizamentos de terra que, infelizmente, provocaram a morte de 65 pessoas, além da destruição e soterramento de casas, veículos, comércios, e deixou centenas de desabrigados.

Foi tristíssimo e eu estava lá. Por alguns momentos achei que aconteceria o pior comigo, mas, graças a Deus, escapei ilesa. O mesmo não se pode dizer do meu carro – aquele que eu não sabia o que fazer para poder me ausentar um tempo do país. Ele chegou a ficar horas submerso e a perda foi total.

Quando a vida toma decisões por nós

Claro que diante daquela calamidade épica, perder um carro, e que estava no seguro, era praticamente nada. Pessoas perderam a vida, entes queridos foram perdidos, casas com tudo dentro foram perdidas – tudo foi perdido! Eu sei disso e ainda sou totalmente solidária àquelas pessoas, além da imensa gratidão por ter escapado, mas era o meu carro desejado e suado.

Recebi o seguro no valor total poucas semanas depois, e poderia comprar o mesmo modelo no dia seguinte, se eu quisesse, mas um pensamento foi tomando vulto dentro de mim: eu me perguntei o que fazer com o carro para poder viajar, mas agora já não o tenho mais. Por que comprar outro imediatamente?

Por que não aproveito para estrear meu passaporte português? Por que não faço o Caminho de Santiago, como sempre quis, mas nunca houve tempo suficiente dentro das férias anuais? Por que não vou dar um rolê na Europa e fazer o que sempre quis, sem hora para voltar?

A viagem que modificou tudo

Em menos de um mês, resolvi todas as questões que envolvem uma ausência mais prolongada do país. Comprei a passagem só de ida, deixei uma procuração com o meu filho para o caso de algo acontecer, as despesas pagas e me mandei para Portugal, já com tudo encaminhado para fazer o Caminho Português da Costa.

Fiquei três meses e meio e tive a grande sorte de vivenciar experiências únicas e totalmente transformadoras que, sem dúvida, pavimentaram a minha vinda definitiva para cá em 2025.

Gisela Neves, brasileira que vive em Portugal, fazendo o caminho de Santiago
Caminho de Santiago foi essencial para as mudanças: interna e de país (Muxia/Espanha) Foto: Gisela Neves

Cheguei no início de maio, na mesma época em que escrevo este texto agora, e poucos dias depois fui à Fátima, no dia dela, como eu havia programado propositalmente.

Fui criada no catolicismo, mas creio e sigo a doutrina espírita kardecista e também dou meus pulos na umbanda. Então faço o meu mix e tenho a minha fé, muito particular, que me fez adorar entrar em todas as igrejas maravilhosas que encontro por aqui.

Quando resolvi iniciar aquela viagem por Fátima, foi pensando em homenagear meus avós portugueses e, em especial, a minha avó querida. Eles eram devotos fervorosos da Santa, como todos os portugueses que conheço. Me emocionei profundamente ao ver a imagem Dela passar bem na minha frente e ao assistir à missa em campo aberto, com aquele coral poderoso.

Ainda em 2023

Dias depois iniciei meu primeiro Caminho de Santiago, e poderia ficar laudas e laudas aqui, descrevendo as experiências únicas e reveladoras que vivi durante o percurso, que iniciei sozinha, saindo do Porto, e terminei rodeada por amigos que fiz durante o trajeto. Gente que eu não conhecia e com quem me conectei quase que instantaneamente.

Eu não queria que aquela vibe do Caminho acabasse nunca, e continuei até Finisterra e depois Muxía.

Passei 3 semanas carregando tudo o que eu precisava para sobreviver em uma mochila com 8 quilos. Lembrava dos meus armários repletos de roupas, sapatos, bolsas e tudo o mais no Brasil, e comecei a ver que eu queria andar mais leve na vida. Claro que é um longo processo até esse ponto. Eu estou na rota, indo em direção, mas ainda falta muito.

Porque o que importa, na verdade, não é chegar lá, mas o que é vivido durante a jornada – exatamente como no Caminho de Santiago. 

Após essa experiência, visitei ainda vários lugares que me inspiraram, cada vez mais, a mudar o traçado da minha vida: Mont-Saint-Michel (com minha irmã) e a Grotte de Marie Madeleine na Sainte-Baume, ambos na França; deserto do Saara, no Marrocos; falésias e praias do Algarve, poço iniciático na Quinta da Regaleira, em Sintra.

Cordilheira no Marrocos
Viagens transformadoras como inspiração para viver o novo (Cordilheira do Atlas/Marrocos) Foto: Gisela Neves

Cada qual com sua magia. Todos os portais, castelos, igrejas, ruínas e suas histórias. Praças, mirantes, feiras, campos de lavanda. Tudo foi moldando em mim um desejo intenso de que eu não queria apenas uma viagem sabática: eu queria viver naquela sensação.

Voltar para poder ir embora

Regressei ao Brasil com a quase certeza de que eu precisava morar fora. Não era um pensamento: era um sentimento. Eu me relacionava, já há alguns anos, com uma pessoa de quem eu realmente gostava. Mas o projeto de morar fora era apenas meu, assim como ele também tinha outros projetos para a vida dele.

E mais uma vez a vida se encarregou – o relacionamento acabou poucos meses após a minha volta.

Foi bem doído, mas consegui entender que era a porta de entrada para colocar em prática meus planos de mudar de país, algo tão latente em mim há tanto tempo.

Isso foi no início de 2024. Passei o restante do ano viabilizando minha mudança para Portugal: marquei consultas com dentista, oculista, ginecologista, dermatologista, exames de rotina.

Coloquei meu apartamento em São Paulo para alugar, levei malas e malas de roupas, sapatos e bolsas a brechós e locais de doação – e ainda sobrou coisa pra caramba.

Reorganizando a vida e estruturando o futuro

Eu e meu filho fizemos uma “limpa” geral na casa, no melhor estilo desapega: o que fica, o que vai para ser distribuído, o que não serve para mais nada. Desenterramos tantas fotos e tantas memórias!

Acredito que conseguimos nos reconciliar com vários pedaços da nossa história e foi um belo processo – um pouco doloroso, mas necessário, como tudo que exige mudança.

Em outubro apareceu uma inquilina fofa. Corremos para pintar a casa toda, consertar o que era preciso e fazer a mudança. Uma prima querida disponibilizou um espaço da casa dela para deixarmos as caixas com todas as minhas coisas: roupas, livros, louças, utensílios de cozinha, toalhas de mesa/banho, cobertores, enfeites. Enfim, tudo que há em uma casa, e mais alguns móveis.

Dividi outras tantas coisas com o meu filho, principalmente as de valor afetivo, e que ficaram no apartamento dele. Aliás, naquela casa está tudo o que me é mais caro: meu filho e nossas lembranças.

A maturidade e a coragem de sair do país: mudar é difícil

Sair do Brasil foi difícil! Vale uma coluna à parte, porque na antevéspera da minha partida, que seria em 1º de dezembro, recebi o resultado de um exame com diagnóstico de melanoma. Tive que passar por uma cirurgia, remarcar minha passagem duas vezes e só consegui embarcar para Portugal em 10 de março!

Me despedir da família, amigos, conhecidos – chorei quando abracei o pasteleiro da minha feira – foi dolorido. Deixar meu filho, meus irmãos e meus sobrinhos deu uma pontada no meu coração. E fazer caber toda a minha vida em 3 malas.

Por mais que eu estivesse realizando um sonho, deixar tudo para trás não foi fácil. Só consegui porque tinha uma certeza dentro de mim de que era o que eu devia fazer. Acho que o nome disso é “chamado”, né.

Brazuca e Tuga

Lá em 2023, no tempo que permaneci em Lisboa, eu havia me hospedado no apartamento de um grande amigo do meu filho, um fofíssimo. Ele é peruano e está aqui em Portugal há mais de 5 anos.

Eu fiquei encantada com o imóvel, super bem localizado, bem arrumado e tal. Tinha até pensado, na época: ah, se esse quarto fosse meu, eu colocaria uma mesinha de cabeceira aqui, um quadrinho ali, uma cortina. Mas logo espantei o pensamento porque, afinal, estava voltando para o Brasil e aconteceu aquilo tudo que contei para vocês aqui.

E é nesse imóvel que moro agora. No meu primeiro dia aqui em Lisboa, sai correndo para descer a Av. da Liberdade até o Cais das Colunas, na Praça do Comércio. Sei que é mega clichê, mas eu não conseguia conter o sorriso, sozinha, e só pensava: consegui!  

Além dos pontos turísticos, tenho ido a lugares mais frequentados pelos “locais” daqui. Meu roommate, que tem idade para ser meu filho, me apresentou e continua me indicando vários. Portugal é um país lindo e há muitoooo para ver e viver ainda. 

Também visitei a minha família lusitana – queridíssimos – em Coimbra. Meu primo costuma dizer: és portuguesa!! E dormi, pela primeira vez, na casa onde minha avó morava antes de ir para o Brasil, na aldeia dela. Foi um momento único de resgate. Senti que estava realmente honrando minha avó, as mulheres da minha linhagem, a menina que um dia eu fui e a mulher que sou agora.

Já procurei alguns trabalhos – esta coluna é um deles, por exemplo – e descobri que posso dar aulas de português (do Brasil) para estrangeiros que residem aqui e têm dificuldade em aprender o idioma por causa do sotaque mais carregado de Portugal. E também tento uma recolocação no Jornalismo tuga voltado para o imenso público brazuca por aqui.

Lógico que me matriculei em uma academia. Também encontrei aqui perto um restaurante fofo de comida caseira portuguesa, cuja proprietária e funcionários são brasileiros, e quando quero me sentir acolhida vou lá. Já fui a um salão com cabeleireira brasileira e manicure moçambicana, lá em Benfica.

Conhecendo histórias de outros imigrantes

Gosto de saber as histórias dos imigrantes e o que os levou a deixar seus países. E eu, que não me considerava uma – acho que por possuir a cidadania portuguesa e também não ter vindo para cá essencialmente em busca de trabalho para uma vida melhor – percebi que sim, claro que sou uma imigrante!

A partir do momento em que deixei o meu país de origem para viver em outro, já estou em um processo de imigração. Não importa como ou o que vim fazer aqui.

Essa percepção veio porque começo a sentir uma divisão dentro de mim, que antes não havia. Porque já vou começando a me sentir em casa e, até então, minha única casa era o Brasil. E mesmo não querendo, faço comparações entre um país e outro, sem ser pejorativa. Há coisas boas em ambos. E também não tão boas, como em qualquer lugar do mundo. 

Tenho saudades da minha terra e da minha gente, sobretudo do meu filho, que ainda quero convencer a morar do lado de cá. Mas também já percebi que sentirei saudades daqui quando for embora.

Em maio fiz mais um Caminho de Santiago, o Inglês, saindo de Ferrol, na Espanha. Preciso sentir de novo a emoção e o despojamento de estar em um dos Caminhos. De ser peregrina novamente.

Símbolo do Caminho de Santiago
Seguir os “yellow signs” levou à conexão interior e à coragem para largar tudo – Vieira amarela estilizada, símbolo do Caminho. Foto: Gisela Neves.

Mas, desta vez, com muito menos peso – nem minha casa no meu país eu tenho no momento. Afinal, foi trilhando por ele que tudo se clarificou. E minha alma deseja muito seguir os “yellow signs” para ver quais surpresas eles me trarão desta vez!

Buen Camino para todos nós!

*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Euro Dicas.