Revolta e protestos violentos se espalharam por toda a França no final de junho, após a morte de Nahel, um adolescente assassinado a tiros por um policial durante uma fiscalização de trânsito em Nanterre.

O caso levou as pessoas às ruas para pedir justiça pelo jovem e para protestar contra a violência policial. Prefeituras, escolas e delegacias foram incendiadas ou depredadas, chamando atenção das autoridades e da população para o problema, que é muito mais complexo do que aparenta.

O que está acontecendo na França?

No dia 27 de junho, por volta das 8h30 da manhã, Nahel, de 17 anos e ascendência argelina, foi assassinado no subúrbio de Paris. A ação foi registrada por câmeras, que mostraram o policial ao lado do carro disparando a arma contra o jovem, mesmo sem sofrer nenhuma aparente ameaça.

Em depoimento, o policial, que está em prisão preventiva e sendo acusado de homicídio doloso, justificou que disparou, porque Nahel ameaçou fugir do local e poderia atropelar alguém.

Celebridades como Kylian Mbappé, Jules Koundé e Omar Sy publicaram nas redes sociais sua indignação e apoio à família de Nahel.

“Sinto-me mal pela minha França. Uma situação inaceitável. Todos os meus pensamentos vão para a família e entes queridos de Naël”, publicou Mbappé no Twitter.

No mesmo dia, e nos que seguiram, manifestantes se reuniram em Nanterre e nos bairros periféricos de Paris para clamar por justiça.

Com cartazes escritos “Justiça por Nahel” e “A polícia mata!”, os protestos tornaram-se violentos com incêndios e depredações por onde passavam. Estima-se que mais de 1.300 pessoas foram presas e mais de 200 policiais ficaram feridos.

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Protestos se espalharam pela França

A revolta se espalhou para além de Paris, com protestos em grandes cidades como Marseille, Lyon e Bordeaux, com incêndios, saques e degradações.

No dia 29 de junho, a mãe de Nahel convocou uma marcha branca em Nanterre para pedir calma à população. Mais de 6.000 pessoas se reuniram na sexta-feira (30) e tensões eclodiram no decorrer da manifestação.

No vídeo abaixo, é possível ver alguns momentos da mãe do adolescente durante a marcha:

As autoridades tiveram que decretar toque de recolher e reforçar o número de policiais nas ruas para controlar os manifestantes. Em muitas cidades da França, o transporte público foi interrompido à noite.

Discriminação em debate no país

A ascendência argelina de Nahel despertou o debate sobre discriminação no país. Para contextualizar, a Argélia, no norte da África, foi colônia da França por 132 anos e só conquistou sua independência em 1962, após uma guerra que durou 8 anos.

Além disso, Nanterre, cidade onde ele vivia e foi assassinado, faz parte do subúrbio de Paris, habitada por muitos residentes de origem árabe. Em carta assinada por 90 organizações, entre sindicatos, associações, coletivos e partidos políticos, eles denunciam “décadas de políticas públicas discriminatórias” nos bairros populares. Mencionam também que:

“O abandono destas populações de bairro é agravado pelo contexto económico de empobrecimento, inflação, subida das rendas, preços da energia e reforma do seguro-desemprego”.

Na carta, exigem respostas sobre o uso de armas por agentes de lei que agrava “o nível da discriminação e práticas racistas que a população sofre”.

Em 2017, uma pesquisa realizada pela Rights Defenders, organização responsável por melhorar as relações entre o cidadão, a administração e os serviços públicos, revelou que jovens negros ou árabes tinham 20 vezes mais chances de serem parados pela polícia do que o resto da população.

A imprensa francesa relata 13 casos fatais de tiros contra veículos em movimento pela polícia, em 2022, destas, 7 tinham nome de origem árabe. De acordo com relatórios divulgados pela Inspeção-Geral da Polícia Nacional (IGPN).

Por este motivo, quando foi organizada uma vaquinha para o policial preso, arrecadando mais de 1,5 milhão de euros, houve ainda mais revolta.

“As pessoas apoiam um policial quando ele mata um árabe. Quando um policial mata, ele fica milionário”, disse Chems-Edine, amigo de Nahel, durante uma entrevista a um portal de notícias.

Diante do caso, a ONU pediu que a França trate com seriedade o racismo e a discriminação combinada com o uso excessivo da força por policiais.

Desigualdade social é um dos motivos da revolta

Logo após o caso da morte de Nahel ganhar repercussão, surgiu uma polêmica em torno da ficha criminal do jovem.

A história compartilhada foi de que o rapaz era “conhecido reincidente da polícia”. No entanto, os advogados da vítima publicaram um comunicado que Nahel não tem registro criminal e nunca foi condenado por nenhum crime.

“Não importa se ele era conhecido da polícia ou não. Esta situação não é aceitável”, apontou a porta-voz do Ministério do Interior, Camille Chaize.

Com isso, ressaltando também o racismo, soma-se a frustração dos moradores de Nanterre e dos demais subúrbios de Paris. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (Insee), 19% da população da cidade é estrangeira, sendo grande parte residentes com origens do continente africano.

Periferia parisiense recebe menos investimentos

Essas cidades recebem 4 vezes menos investimentos do governo em relação ao número de habitantes, em comparação com outras áreas, de acordo com Jean-Louis Borloo, político autor de um plano para diminuir a desigualdade social nos subúrbios em 2018, em entrevista à revista Zadig.

A política de renovação urbana dos bairros populares, existente há 30 anos, não foi suficiente para parar as revoltas na França. Com a pandemia da Covid-19 e a inflação, a população pobre sofreu ainda mais desigualdade social.

Segundo dados dos estudos sobre imigrantes, divulgado pelo Insee, pessoas de origem norte-africana com formação acadêmica tem o dobro de chances em relação aos outros candidatos de serem recusadas em um emprego na França.

O relatório também aponta que a discriminação no mercado de trabalho preocupa 37% dos homens imigrantes da região de Magrebe e 36% das mulheres, em comparação com 15% dos homens e 16% de mulheres que não são nem imigrantes, nem descendentes de imigrantes no país.

Reações do governo aos protestos

Um total de 45 mil policiais foram mobilizados para tentar conter a violência nas revoltas na França desde a morte de Nahel. Além disso, muitas prefeituras proibiram reuniões de pessoas e manifestações não autorizadas.

O toque de recolher foi instaurado em algumas cidades entre 21h e 6h para coibir que as pessoas saíssem de casa e facilitar o trabalho da polícia.

Nas redes sociais, os políticos lamentaram a morte do jovem e repudiaram as ações destrutivas das manifestações no país, com incêndios, saques e violência contra os policiais.

“A violência contra delegacias, escolas, prefeituras e a República, é injustificável”, publicou o presidente Emmanuel Macron.

Macron ainda falou que é responsabilidade dos pais e mães manterem seus filhos em casa, justificando que 1/3 das pessoas detidas nos protestos eram jovens. E acusou as redes sociais de desempenharem um papel importante na propagação e organização das manifestações violentas.

Ele solicitou a remoção dos conteúdos sensíveis, do TikTok e Snapchat, por exemplo. Além de tomar medidas para identificar os usuários que utilizam essas plataformas para apelar à desordem ou agravar a violência.

O Ministro do Interior, Gérald Darmanin, demonstrou seu apoio à polícia em uma carta publicada nas redes sociais. Ele parabenizou os profissionais pela coragem, assim como pelo repeito às leis e segurança pública do país.

“A tragédia ocorrida em Nanterre, a morte deste menino, não pode servir de pretexto para estes abusos de que todos somos vítimas”, declarou Éric Dupond-Moretti, Ministro da Justiça.

As revoltas afetaram o turismo na França?

Devido aos protestos, países como a Alemanha, Noruega e Reino Unido, aconselharam seus cidadãos a evitarem os locais das manifestações, já que a França é um dos principais destino para as férias de verão.

A Umih, principal sindicato da rede hoteleira, indicou em nota à imprensa que os hotéis da França sofreram uma onda de cancelamento das suas reservas em todas as cidades afetadas pelos confrontos.

Porém, hoje as manifestações estão mais controladas e quase inexistentes, sem afetar a vida de quem deseja apenas viajar pela França.