Você já ficou um pouco obcecado por um país em específico? Antes mesmo de visitá-lo, e ainda mais depois? A Dinamarca é esse lugar pra mim. E, pensando bem, talvez a minha história como imigrante tenha começado justamente aí: quando entendi que viajar, pra mim, sempre foi mais do que mudar de lugar. Sempre foi sobre sentir.
2013: quando tudo começou sem que eu soubesse
Minha história com a Dina começou em 2013, quando fui à trabalho para Copenhagen. A viagem, na verdade, começou em Helsinki, na Finlândia. Até aí tudo bem, estava super feliz pela oportunidade de viajar pela primeira vez para a Escandinávia, mas até então nada de arrebatador havia acontecido.
Só que, quando a gente chegou na Dinamarca, mesmo sem saber exatamente porquê, senti que havia algo ali. Uma conexão silenciosa, mas presente.
Como disse, era uma viagem de trabalho, mas eu estava com um grupo de amigos. No dia de folga em que não teríamos uma agenda de visitações a cumprir, saímos sem qualquer planejamento e nos deparamos com o Copenhagen Distortion, um festival de música eletrônica que toma as ruas da cidade com uma energia contagiante e quase caótica.
E assim fomos desbravando a cidade, acompanhando o sol que ainda brilhava às quase 22h.
Sinais por todos os lados
Foi no meio daquele caos bonito que um local me olhou e gritou: “you should surrender” (você devia se render). Eu não entendi nada na época, mas hoje, mais de uma década depois, recebo o recado direitinho: tô tentando, moço!
Essa viagem ainda contou com um acontecimento inusitado. Pegamos o trem para visitar a cidade vizinha Malmö, na Suécia, e ali dentro um rapaz começou a observar nossa conversa em português. Do nada ele veio e perguntou, também em português, se éramos brasileiros.
O nome dele era Vinícius e ele foi uma criança brasileira adotada por um casal de suecos. Estava emocionado ao ouvir sua língua materna. Se ofereceu para nos mostrar Malmö, cidade onde ele vivia e para onde voltava após uma noite virada no Distortion.

Estávamos tão abertos ao inesperado que acabamos numa festa do prefeito (ou de alguém importante de cargo público) em um jardim urbano todo florido, com vinho e sobremesas deliciosas à vontade.
Ficamos ligeiramente bêbados, caminhando por entre flores, e ainda fomos levados ao restaurante preferido do Vinícius, vimos um pôr do sol inesquecível e nos despedimos com lágrimas nos olhos. Não tô floreando o texto, foi daquelas situações que só acontecem quando você abre mão do planejado.
2018: a confirmação de que não era só turismo
Cinco anos depois, decidi fazer uma parada em Copenhagen antes de seguir para a Estônia, onde meu irmão vive atualmente. E não foi uma parada qualquer, era meu aniversário.
Queria comprovar se a sensação da primeira viagem tinha sido delírio ou se havia algo real ali. E voilà: a mesma conexão, ainda sem explicação lógica.
Para quem não conhece, Copenhagen tem uma arquitetura belíssima, porém discreta. Nada do monumental de Roma ou Paris. O ritmo é mais calmo, ou pelo menos parece ser. E os dinamarqueses têm um jeito curioso: distantes, mas nunca hostis. Comecei a chamá-los de “fofos frios”, porque rola uma simpatia contida, com sorrisos que parecem surgir só quando fazem sentido.
Dessa vez me dei ainda mais tempo para caminhar sem rumo e tropeçar em pequenas descobertas. Um café escondido aqui, um parque ali, uma rua que parecia só nossa por alguns minutos. Copenhagen não é uma cidade que se mostra toda de uma vez. Ela exige tempo, observação, entrega.
2023: reencontros, sol e a mesma sensação
Já vivendo em Portugal, um ano depois da mudança, recebi uma mensagem de uma grande amiga dizendo que estaria em Copenhagen para um congresso. Ela morou ali perto antes da pandemia e me chamou para encontrá-la. Não pensei duas vezes (mentira, pensei sim porque é muito caro!). Só depois de várias semanas, consegui viabilizar a viagem.
Fui para minha terceira visita e, confesso, continuava com a dúvida: será que não foi mesmo delírio das outras vezes? Mas foi só chegar e, bum! O sentimento voltou, mais forte. E sim, dei sorte de novo com o clima porque o sol brilhava em um céu limpo, contrariando o padrão cinzento e chuvoso habitual.
Eu e minha amiga fizemos programas tranquilos. Dois geminianos juntos sabem improvisar bem. Descobrimos o Cisterns, uma antiga cisterna de armazenamento de água transformada em centro de arte subterrâneo. Uma atmosfera escura, úmida, quase mística.

Depois fomos para a Carlsberg City, algumas praças, parques… e fechamos o dia no Kalvebod Bølge, uma passarela de madeira que avança sobre o canal que vira um pequeno fuzuê de verão. O pessoal se joga na água gelada como se marcasse 30 e tantos graus.
A gente não teve coragem, mas o fim de tarde, os belisquetes e a brisa leve já foram suficientes.
Astrocartografia e a bússola interna que nunca erra
Alguns dias depois de voltar a Portugal, agendei uma consulta de astrocartografia. Para quem é da turma holística e ama viajar (sim, sou desses!), não há experiência mais divertida.
Nessa consulta veio a confirmação, sem que eu dissesse nada antes: a Dinamarca aparecia como o destino onde minhas linhas astrais eram mais fortes e promissoras. Pronto. Entendi – finalmente – que não era delírio, era amor (isso dá até uma letra de pagode!).
Olhando para tudo agora, talvez essa conexão antiga com a Dinamarca tenha sido o início silencioso de um processo que mais tarde viraria escolha. Ainda naquela época, algo em mim já sinalizava que eu queria viver de outro jeito, experimentar outras formas de estar no mundo.
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INSCREVER GRÁTIS→A intuição foi guiando aos poucos, primeiro como desejo, depois como direção. Foi esse sentimento que me abriu espaço para cogitar a vida fora do Brasil e que, tempos depois, tornaria a mudança para Portugal uma decisão possível.
O que viajar me ensinou sobre morar longe de casa
É curioso pensar como minhas experiências como viajante me ensinaram tanto sobre viver fora.
A fluidez, o improviso, a entrega ao inesperado que tornaram minhas viagens mais especiais são exatamente as qualidades que hoje eu tento cultivar, às vezes com certa dificuldade, na vida de imigrante.
Porque por mais que o cotidiano envolva boletos, burocracias e e-mails respondidos fora de hora, sigo tentando manter um pouco daquela vibração de viagem dentro da rotina.
Portugal como ponto de apoio, a Dinamarca como desejo antigo
Agora, entre uma ida e outra, vem a parte prática. Hoje consigo viver em Lisboa com um custo razoável (apesar do caos imobiliário) e trabalhando remotamente para o Brasil, já que o mercado de comunicação por aqui pratica salários tão baixos que nem sei como isso é permitido.
Na Dinamarca, isso seria quase impossível para a minha realidade. O custo de vida é altíssimo, e o país é bem mais restritivo com relação a nômades digitais. A burocracia é mais severa, as exigências mais duras.
Ainda assim, continuo voltando. Fisicamente, quando dá. Imaginativamente, quase sempre. Porque tem algo ali que conversa com o que eu quero experienciar por mais tempo do que um fim de semana. Com uma sensação de ordem, de quietude, de pertencer sem alarde.
E talvez seja só isso mesmo: algumas cidades servem para lembrar a gente de um lado nosso que a rotina costuma deixar adormecido.
Quando conseguir me mudar para lá, será por escolha consciente. E não porque busco uma vida perfeita, mas porque algumas paixões, mesmo com todos os obstáculos, valem o plano. E até lá, sigo tentando.
Surrendering (rendendo-se).
Faixa bônus: lugares que ainda me chamam (e me esperam)
Eu sei que este artigo não é sobre dicas de viagens, isso fica a cargo dos nossos outros colunistas na seção de turismo, mas deu vontade de compartilhar uma lista que eu chamei de What a DANE good find, recheada de lugares fascinantes espalhados pela Dinamarca.
Alguns eu já explorei, e muitos outros ainda estão no ranking de desejos. Mergulhe aí pra descobrir alguns refúgios aconchegantes com muito hygge pelo caminho. E bora marcar um rolê dinamarquês!
*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Euro Dicas.