Viver fora é uma oportunidade incrível, é ter a chance de mergulhar em um período único de aprendizado e de crescimento. Mas também pode ser uma cilada, dependendo do que motivou a sua saída do Brasil. Saiba porque morar em Portugal não vai resolver seus problemas.

Informe-se bem antes de fazer uma mudança tão radical na sua vida, especialmente se essa reviravolta for movida por uma tentativa de fuga dos problemas que tem em casa.

A mudança para Portugal não é uma solução mágica

Estar distante ajuda a refletir sobre os problemas que tinha e dar outro peso aos conflitos, é verdade. Com os quilômetros que nos separam percebemos quem realmente faz falta e quem passou pela nossa vida e acabou sendo só uma fase.

Mudar também ajuda a resolver aqueles conflitos cotidianos pontuais como quem deixou a toalha molhada em cima da cama ou não lavou a louça quando deveria. Mas o tempo separado e a distância não salvam nenhuma relação, talvez faça apenas com que os problemas fiquem em “banho-maria”.

Se a relação com a família já era problemática antes da mudança, provavelmente vai continuar a ser, possivelmente com menor intensidade porque vai haver menos convívio.

Os problemas vão junto na bagagem

Infelizmente os problemas viajam com a gente. Se a ideia é fugir de situações que te incomodam, é bastante possível que as questões continuem te assombrando mesmo que já não façam mais parte do seu dia a dia.

Traumas e conflitos não desaparecem, podem até brotar com mais frequência em pesadelos, por exemplo. E o fato de estar distante tem potencial de gerar um sentimento de culpa, além de, muitas vezes, empurrar os envolvidos para uma maior comunicação por obrigação (seja ela por Skype, WhatsApp, etc), o que com frequência traz ainda mais conflitos à tona.

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Por isso, antes de tomar uma decisão impulsiva e fazer a mala lembre-se que morar em Portugal não vai resolver problemas com relação aos seus conflitos emocionais.

Saudade de quem fica — e não só

Além da saudade dos familiares e amigos, também bate uma falta forte da paisagem e dos hábitos que tínhamos, que muitas vezes não podem ser reproduzidos aqui.

Especialmente no inverno, quando o clima é rigoroso e todo mundo fica mais recluso, bate uma solidão danada. A gente quer bater papo com vizinho porque a gente sai do Brasil, mas o Brasil não sai da gente, mas passa semanas sem cruzar com ninguém. Ter que lidar com uma solidão absoluta durante semanas a fio não é nada fácil, confesso.

Vai ser preciso recomeçar

O início da mudança para morar em Portugal é muito complicada, tanto em termos burocráticos como principalmente afetivos. É preciso ter muita paciência e resiliência. Em termos práticos é necessário correr atrás de documentos — alugar casa, pedir instalação das contas básicas, é um trabalho danado até a nova rotina se estabilizar.

Do ponto de vista emocional, quando chegamos, somos completamente estranhos no ninho: ninguém nos conhece e as pessoas já têm as suas próprias rotinas e amizades.

Há toda uma engrenagem que funciona apesar de nós. Principalmente para quem vem sozinho é difícil encontrar o seu espaço e a sua turma. Eu e alguns conhecidos penamos mais de um ano até sentirmos que efetivamente pertencíamos. E mesmo assim, ainda noto que ainda há altos e baixos nesse quesito.

Jovens reunidos para ouvir música e ver o por do sol com vista para o Tejo, em Lisboa
Frequentemente há eventos gratuitos organizados em espaços públicos em Portugal, especialmente no verão.

O europeu em geral, e o português em particular, são muito fechados. São educados, mas raramente expansivos e é muito difícil encontrar alguém que possua abertura para fazer amizade na fase adulta da vida. Pense que eles já têm os amigos que fizeram na infância, na escola, na faculdade, na vizinhança. Por isso o mais fácil é acabar fazendo amigos brasileiros em Portugal.

É preciso estar disposto a se adaptar à cultura

Diz o ditado: “Quando em Roma, faça como os romanos”. Não concordo 100% com o dito popular, mas sem dúvida precisamos conhecer como a sociedade funciona para podermos nos integrar melhor.

Apesar de falarmos a mesma língua, a cultura portuguesa é bastante diferente do Brasil. Não são só regras e leis estranhas para brasileiros, há muitos hábitos que são mesmo bem distintos. A espontaneidade do brasileiro, por exemplo, pode ser vista com incômodo por aqui — nem pense em tocar na casa de alguém sem ter combinado com antecedência.

Há uma certa formalidade implícita, muitos vizinhos se tratam por “doutor”, “engenheiro” mesmo que não sejam médicos ou sequer tenham colocado os pés na faculdade de engenharia. Nas universidades vemos uma série de rituais que no Brasil já foram abolidos há tempos como solenidades e eventos com togas e trajes específicos.

A divisão da conta nos restaurantes, a questão do churrasco na varanda e outras pequenas diferenças

Se um grupo de amigos for a um restaurante por aqui, a conta será provavelmente dividida pelo número de pessoas e não pelo que cada um efetivamente consumiu.

E por falar em jantares de grupo, numa típica mesa portuguesa só se começa a comer depois dos pratos estarem a frente de todos, o que não é nada prático porque se a mesa for grande muitas vezes a comida esfria.

Tradicionalmente os portugueses têm o costume de tomarem muita sopa — e não como refeição, mas como entrada. Para mim até hoje é estranhíssimo devorar um prato enorme de sopa e ainda ter espaço para almoçar ou jantar a seguir.

Outro costume de Portugal é o hábito bem diferente de festejar em casa. Prepare-se: é bastante provável que os seus vizinhos reclamem se fizer churrasco na varanda (em muitos prédios é mesmo proibido). Ou toquem a campainha para darem uma reprimenda se estiverem falando alto. Há uma preocupação enorme em não invadir o espaço do outro e é importante que tenhamos consciência dos nossos limites.

Portugal tem qualidade de vida, mas também tem problemas

Em um primeiro momento, especialmente se vier como turista, Portugal pode parecer um lugar dos sonhos. Mas a verdade é que encontramos algumas dificuldades substanciais no dia a dia, sublinho algumas delas.

Há xenofobia sim — e não é pouca

Existe na Europa muita xenofobia — especialmente se você for uma mulher brasileira. A xenofobia em Portugal contra brasileiros se vê nos pequenos gestos no dia a dia, como uma resposta mais grosseira dada por um funcionário dos correios ou a impaciência especial da recepcionista do centro de saúde.

O que era apenas impressão pessoal acabou por ser confirmada através de uma pesquisa recente, que mostra que a maioria dos brasileiros que vivem em Portugal já sentiu discriminação especialmente nos serviços públicos.

E quando falo do preconceito não me refiro apenas aquele preconceito escancarado — as cantadas que muitos homens nativos mandam para as mulheres quando notam o sotaque brasileiro. Por pior que essas situações sejam, elas felizmente são raras (pelo menos comigo), o que pesa mais são as alfinetadas que recebemos no cotidiano.

São apartamentos para alugar ou carros para comprar que subitamente parecem não estar mais disponíveis quando se escuta o sotaque brasileiro do outro lado da linha, mas voltam ao mercado quando se pede para algum amigo português telefonar.

Uma parcela da população deixa bem claro que imigrantes não são bem vindos

O preconceito que vemos não é uma exclusividade contra brasileiros. Já testemunhei situações constrangedoras com imigrantes oriundos de Angola, de São Tomé e Príncipe, da Ucrânia, de Bangladesh, do Nepal, da Índia. Quando não se fala português a situação costuma ser ainda pior.

Vi uma série de serviços onde os estrangeiros não conseguiam se comunicar porque não falavam português e a solução da pessoa do outro lado do balcão não era procurar alguém que pudesse ajudar, mas sim continuar falando em português de maneira áspera, diminuindo o outro.

Apesar de contribuírem para a segurança social e melhorarem a taxa de natalidade do país, os imigrantes ainda são muitas vezes vistos como vilões que roubam empregos e cônjuges portugueses. Recentemente em Olhão, imigrantes foram agredidos por jovens portugueses que tinham entre 14 e 16 anos sem qualquer motivo.

Em 2019 alguns alunos da Universidade de Lisboa colocaram cartazes na entrada oferecendo “pedras grátis para atirar em zucas”. Esses são casos pontuais que ilustram um cenário real.

Em resumo: além de que morar em Portugal não vai resolver seus problemas, prepare-se para vir com uma casca bem grossa, ela possivelmente será necessária para enfrentar situações desagradáveis.

Se você acha o Brasil burocrático, prepare-se para viver em Portugal

Muitas vezes me queixava da burocracia brasileira — até viver aqui. Por pior que seja a burocracia tropical, no nosso país, eventualmente encontramos alguém que consegue “dar um jeitinho” e resolver uma situação meramente formal que parece intransponível.

Imagine que no país luso funciona de maneira semelhante, mas existem muito mais exigências burocráticas em Portugal e frequentemente sem ninguém disposto a ter jogo de cintura e resolver o caso. Especialmente nos serviços públicos em Portugal, o atendimento pode ser lento, grosseiro e sem nenhuma margem para reflexão. As regras são cumpridas cegamente e não há margem para desvios.

Uma das vezes que precisei renovar o visto de residência foi exigido pela junta de freguesia que levasse duas testemunhas que provassem que eu vivia ali na região. O contrato de aluguel não era suficiente. E não bastava serem residentes no bairro, tinham que votar ali. Há pouquíssima gente que se enquadra nesse perfil, já que muitos moram na região, mas votam nos seus antigos endereços.

Não se engane: morar em Portugal não vai resolver seus problemas e dá muito trabalho, especialmente no início da vida nova. Além da burocracia, conheça outras coisas que nenhum brasileiro gosta em Portugal.

O governo de Portugal investe no bem-estar social

Mas há também coisas muito boas por aqui: em Portugal há uma preocupação bastante forte com os mais vulneráveis. Há abonos de família — prestações que são pagas mensalmente para famílias de crianças e jovens com menos recursos. Os valores pagos mudam conforme o escalão, isso é, com os rendimentos que a casa possui.

Também existem programas de arrendamento acessível especialmente voltados para jovens e estudantes. Em termos de saúde oral, há um programa de cheques-dentista direcionado para grávidas, crianças e jovens até os 18 anos, portadores do vírus HIV e beneficiários do Complemento Solidário.

Morar em Portugal não vai resolver seus problemas, mas trará qualidade de vida
Nos dias de sol você pode aproveitar as piscinas públicas em Portugal e tê-las como opção de lazer.

Recentemente em Lisboa passou a existir uma espécie de seguro saúde para moradores idosos acima de 65 anos que garante teleconsultas e assistência médica ao domicílio. Esses são só alguns exemplos pontuais para mostrar como em Portugal há uma preocupação muito forte com o bem-estar social.

O aborto legalizado, o suporte aos dependentes químicos e a (quase) aprovação da eutanásia

Há outros aspectos muito bacanas de se viver em Portugal. Por aqui desde 2007 a interrupção voluntária da gravidez é autorizada até a décima semana de gestação. Caso a mulher opte por avançar com um aborto, poderá fazê-lo em estabelecimentos de saúde públicos e sem custos após passar por consultas específicas para esse fim.

Existe também uma discussão mais ampla e liberal sobre o tema das drogas e recentemente está sendo implementado um Programa de Consumo Vigiado que dá suporte aos dependentes químicos. Sinto que o debate das drogas é muito mais aberto e realista desse lado do oceano.

Apesar de mais avançado numa série de assuntos, em Portugal ainda há temas importantes para debater como a questão da eutanásia. A aprovação iminente se arrasta há alguns anos, mas eventualmente imagino que a prática seja autorizada para casos específicos.

Tenha consciência de que morar em Portugal não vai resolver os seus problemas, mas, ao mesmo tempo, lembre-se que pode encontrar por aqui uma sociedade mais de acordo com os valores que acredita.

A desigualdade social é menor

Em Portugal a classe média é enorme e não há um abismo social como vemos no Brasil. A educação pública funciona, desde a creche até a universidade. Inclusive, vale a pena enteder melhor como funciona a creche em Portugal.

Os hospitais do Estado são conhecidos pelos profissionais de excelência e pelos bons tratamentos, apesar de alguns terem longas filas de espera. O único problema pode ser a demora para ser chamado para uma consulta com um especialista, mas a verdade é que a infraestrutura, em geral, é boa.

Quinta das Conchas em Lisboa, Portugal
Há uma preocupação da comunidade de manter os parques sempre limpos.

No dia a dia também faz uma enorme diferença sentir que não há grandes problemas de segurança. Andar na rua sem estar preocupado com a bolsa ou com o celular é um luxo que traz enorme qualidade de vida em Portugal.

Portanto, apesar de morar em Portugal não resolver os seus problemas, o peso e o stress que sentimos no dia a dia reduz significativamente.

Os espaços são mais democráticos

Como uma enorme parcela da população é composta pela classe média, os espaços acabam sendo frequentados por todos. Não há propriamente conceitos como bancos “prime”, escolas de elite, condomínios fechados. Aliás, eles até existem, mas são raros se comparados com a realidade das grandes metrópoles brasileiras.

Todos estão matriculados nas mesmas escolas, nos mesmos centros de saúde, usam o mesmo transporte público, fazem picnics nos mesmos parques. As juntas de freguesia organizam eventos abertos para a comunidade como sessões de cinema ao ar livre, festas temáticas, feiras de artesanato, piscinas durante o verão.

Morar em Portugal não vai resolver seus problemas, é verdade, mas ter essa noção de que somos todos iguais e de que não precisamos ter medo do outro é muito bacana.

Há uma preocupação com o meio ambiente forte por aqui

Todo mundo que conheço (e não é exagero, são pessoas de várias idades e classes sociais) separa o lixo em casa. Temos todos recipientes para plástico, metal, papelão, lixo orgânico, vidro. A recolha do lixo reciclável é feita nos próprios prédios ou numa série de ecopontos distribuídos pelas regiões — e há mesmo muitos.

Baterias, pilhas, lâmpadas e eletrodomésticos antigos também são recolhidos em lugares específicos como lojas e supermercados. E há uma série de contentores grandes espalhados por Lisboa onde é possível doar roupas, bolsas e sapatos.

Existe uma consciência coletiva ímpar de que é preciso fazer a nossa parte pelo bem comum.

Reflita: por que você quer mudar para Portugal?

Depois de tantas considerações, o nosso maior objetivo não é te desanimar, mas te dar ferramentas para pensar nos prós e contras antes de uma mudança assim tão radical. É importante que venha com expectativas realistas, que esteja consciente de que a sua rotina irá mudar completamente. Em alguns aspectos irá ganhar enquanto em outros irá perder.

Na minha opinião, Portugal é um bom lugar para morar. Mas morar em Portugal não vai resolver os seus problemas, eles com certeza vão embarcar na mala junto com você. O período de adaptação em Portugal é bem complicado para praticamente todos os brasileiros que chegam, especialmente os que se mudam sozinhos.

Por isso prepara-se: informe-se, leia, pense com calma sobre o assunto, converse com amigos e venha com uma boa almofada financeira para aguentar os primeiros tempos. E se tomar a decisão da mudança, recomendo o Programa Morar em Portugal, que reúne uma série de videoaulas e um ebook completo para te ajudar a preparar todo o planejamento e fazer a sua mudança da melhor maneira possível e de forma legal.

*A opinião dos colunistas não reflete necessariamente a opinião do Euro Dicas.