A expressão coup de foudre em francês é equivalente ao que conhecemos por amor à primeira vista em português. É exatamente essa sensação que tenho ao lembrar de uma temporada que passei no 14ème arrondissement de Paris. Nesta coluna, divido com vocês como me apaixonei por Montparnasse e como ele se tornou, subitamente, meu bairro preferido da capital francesa.
Passarei pelo meu primeiro contato com ele, o período de apaixonamento e, infelizmente, o término dessa curta, mas intensa relação. Mergulhe comigo nessa história de amor parisiense!
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INICIAR ATENDIMENTO →Antes de morar em Montparnasse
Antes de morar no bairro, eu já havia passado pelo bairro algumas vezes. Afinal, é incomum morar em Paris e não passar por lá em seus deslocamentos. Mas, ele nunca tinha chamado muito minha atenção.
Lembro-me, no entanto, de uma vez que fui jantar em um restaurante daquela região com algumas amigas e fiquei impressionada com a sua beleza e agitação. Era uma Paris muito diferente daquela que eu vivia, a dos universitários estrangeiros.
Naquela época faltavam poucos dias para eu voltar para o Brasil e tive uma sensação de arrependimento por não ter circulado tanto por aquelas ruazinhas e seu famoso Boulevard. Mas, no fundo eu já sabia que nossa história não terminaria ali.
Como me apaixonei por Montparnasse
Um tempo depois, enquanto preparava mais uma ida para a capital francesa, fui alocada em uma residência universitária da Campus France em pleno Boulevard du Montparnasse. Animada, assim que recebi a notícia fui ver a localização exata no Google Maps.
De cara, me impressionei. O estúdio tinha uma localização e uma vista fenomenal! Aparentemente, da minha janela seria possível enxergar o Boulevard até onde meus olhos podiam ir.
Mas, foi em minha chegada que de fato me apaixonei por Montparnasse. Ao sair da estação Port Royal em um dia de inverno vi uma imagem que me marcou para sempre. As vias largas, as brasseries com suas luzes vermelhas e amarelas, pequenos comerciantes e aquela mesma beleza e agitação que haviam me fisgado anteriormente estavam ali e eram o cenário da minha nova casa.
Em Montparnasse tem tudo!
Me acostumar com Montparnasse foi fácil, já que lá Paris se abria diante de meus olhos. Ótimos mercados a menos de 5 minutos de casa, farmácias, várias opções de boulangeries e pâtisseries.
Além disso, muitos cinemas e teatros, brasseries e restaurantes tradicionais, lojas e mais lojas. No mesmo dia em que cheguei, consegui fazer uma comprinha rápida para jantar e garantir algumas peças de inverno em tempo recorde!
Enquanto andava de um ponto a outro, me apaixonava pelas suas enormes fachadas e o imenso fluxo de pessoas. A sensação era de que Montparnasse não dormia nunca. Quando me deitei em minha cama, já preparada para lidar com um barulho noturno que me parecia inevitável, fui mais uma vez surpreendida pelo meu mais novo amor.

Com o passar das horas, o Boulevard foi ficando vazio. Os bares e restaurantes foram fechando, os grupos de jovens ficavam cada vez mais esparsos, e somente um pequeno mercadinho da esquina resistia as baixas temperaturas do inverno.
Rapidamente, criei o hábito de manter minhas cortinas abertas até tarde da noite e abri-las assim que eu acordasse. Foi de frente para aquele Boulevard e suas esquinas históricas que adormeci, li vários livros, escrevi a conclusão de minha Tese, fiz reuniões e tomei demoradas xícaras de meu café preferido.
As facilidades de locomoção
Um dos traços de Montparnasse que mais me conquistou foi a facilidade de locomoção que o bairro permitia. Morar lá significava conseguir driblar os eventuais problemas que ocorrem na rede de transporte parisiense.
O acesso a transportes públicos do país, como o RER, várias linhas de metrô, vários ônibus e estações de aluguel de bicicleta deixaram meus trajetos mais curtos e menos estressante. E eu, mais encantada.
Mas, foi a facilidade do deslocamento a pé que roubou meu coração. Perdi a conta de quantas horas passei andando sem destino pelo quartier, descobrindo novos lugares, me deparando de repente, com a Paróquia de Saint Sulpice, o Jardin de Luxembourg ou a Rue de la Gaité.
Às vezes me empolgava e resolvia ir até a outra margem do Sena, só pelo prazer de flâner (vagar sem rumo) pelos caminhos que eu tinha memorizado.
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Abrir Conta Multimoeda →O cotidiano
Também me apaixonei por Montparnasse à medida que ele me fascinava pela simplicidade de um cotidiano que, até então, não tinha conseguido vivenciar em Paris.
Me refiro ao costume de almoçar em uma só brasserie e ser tratada com simpatia (raro!) e intimidade (mais raro ainda!) pelas serveuses. De descobrir uma ótima cordonnerie a cinco minutos de casa, que além de fazer um serviço excelente e rápido, tinha um preço justo. De passar pela livraria do bairro e ver as novidades.

Da possibilidade de ir a pé até minha perfumaria preferida e conversar com sua dona. De poder ficar au courant dos últimos lançamentos do teatro, shows e filmes, já que havia uma belíssima Colonne Morris em frente a minha janela.
E até de rir com a quantidade de homens que param para usar o toilette publique, que ficava em minha calçada.
O temido Natal
Um bom parceiro amoroso é aquele que te ajuda nos momentos mais difíceis. E inegavelmente, Montparnasse foi essencial para que meu segundo Natal sozinha em Paris não fosse tão melancólico.
Eu me distraia vendo, pela janela, os pisca-piscas das outras casas e escutava os sinos das Igrejas anunciando as comemorações religiões.
A localização privilegiada também permitiu com que eu recebesse facilmente uma amiga de uma cidade vizinha que, é claro, foi devidamente apresentada aos docinhos mais saborosos da minha amada região.
Ainda, o bairro foi tanto o cenário do encontro (inesperado) que tive com alguns sociólogos, em pleno 25 de dezembro, quanto o lugar que me confortou ao oferecer uma ampla opção de cinemas de rua que funcionavam no dia santo.
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INSCREVER GRÁTIS→Au revoir, Montparnasse
Ao fim do meu séjour (da minha estadia), eu já sabia que a despedida de Paris seria difícil (sempre é), mas esse novo amor fez tudo ficar ainda mais complicado.
Dei meu au revoir enquanto arrastava minhas malas de volta à Port Royal, no meio de uma madrugada, em um esforço de gravar na memória todos os detalhes dos dias que passamos juntos.
Foi exatamente nesse momento que vivi um episódio que faz parte de uma das histórias mais inusitadas que vivi da capital francesa: ouvi um carro tocando uma música antiga brasileira, no mais alto volume que se pode imaginar.
Montparnasse, surpreendente como sempre, me lembrou que nem sempre as despedidas são tristes. Entrei na estação sorrindo, com aquela carinha de apaixonada, contando os minutos para vê-lo novamente.
*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Euro Dicas.