Ah, a França! Terra de elegância, gastronomia requintada e paisagens de tirar o fôlego. Mas, por trás de toda essa sofisticação, o cotidiano reserva momentos hilários e inesperados. Aqui, revelo um lado menos conhecido do país, a partir de situações engraçadas na França que vivi.
A seguir, compartilharei com vocês quatro histórias que presenciei e que se mostram um retrato divertido e peculiar de encontros, mal-entendidos e momentos um tanto bizarros!
França insólita
Um dos filmes que mais gosto sobre a França é Paris Je T’aime (2006), um filme colaborativo de 22 diretores, coordenado por Emmanuel Benbihy. Trata-se de uma série de curtas-metragens, nas quais cada diretor explora um lado da capital francesa que o instiga.
O que mais me chama atenção é que cada uma das histórias contadas traz um elemento muito presente na capital francesa: o insólito, o atípico, o extraordinário.
Assistir a filme depois de visitar a cidade pode te render alguns flashes de memórias e são desses flashes que quero falar hoje. Abaixo, conto algumas das situações engraçadas na França que me marcaram na última vez que morei em Paris. Apesar do curto período que fiquei na cidade, ela não deixou de me surpreender!
Flagrantes Parisienses: uma noite e três situações engraçadas na França
A primeira história da minha lista de situações engraçadas na França começa e termina com um date.
Começo de noite, eu e Erik, meu companheiro, fomos ver uma exposição no Centre Pompidou e decidimos ir até o 5º arrondissement, em um bar que nos é muito querido. Era dia de semana e o bar estava vazio, com exceção do atendente e dois outros homens que conversavam animados no balcão.

Depois de algumas cervejas, decidimos procurar um lugar para comer lá perto. A tarefa foi difícil, já que era um tanto tarde e as brasseries já estavam fechando suas cozinhas. Encontramos um lugar de aparência legal, um pouco vazio, mas com um garçom acolhedor que dizia que a cozinha do estabelecimento ainda estava aberta. Entramos.
Ambiente à meia luz, chuvinha lá fora, mesas postas com capricho, perfeito para seguirmos com nosso date. A mesa que escolhemos tinha um sofazinho em volta, e permitia uma visão ampla do ambiente. Pedimos um vinho e um croque monsieur.
Um homem sofrendo e um casal improvável
Enquanto aguardávamos, as pessoas ao redor nos chamou a atenção. Na mesa à esquerda, que era do mesmo tipo que a nossa, havia um homem que transmitia um pouco de tristeza e sofrimento. Camisa aberta até o peito, uma das mãos segurando a cabeça e na outra taça de vinho. Em sua frente, uma garrafa quase no fim, e o olhar perdido pelo salão.
Na mesa à direita,um casal. O homem, de meia-idade, com uma camisa bem passada e branquíssima, e cabelo penteado para trás. A mulher, ao lado dele, que aparentava ter uma idade semelhante, vestia um conjunto de moletom, cuja estampa me remetia a algo infantil. Ele parecia ter saído de uma importante reunião de negócios, ela, do sofá. Um date, no mínimo, improvável.
Enquanto nosso croque não chegava, ficamos fazendo aquele famigerado people watching. Erik, olhando para o homem sofrendo, eu olhando para a mesa do casal improvável.
Flagrantes noturnos e um croque monsieur minguado
O homem sozinho não parecia mesmo estar bem e cantava, com um certo pesar, as músicas tristes que estavam tocando. Já o casal certamente não tinha intimidade, ainda que estivesse acontecendo uma tentativa de flerte muito grande por parte da mulher. A pessoa sozinha tomava vagarosamente seu vinho. A mulher do casal se projetava para o homem a seu lado, que parecia cada vez mais desconfortável.
De repente, vejo uma cena que me quebra: o homem, aparentemente nervoso com as investidas da mulher, foi comer uma colherada de seu crème brulée, errou a mira da boca e derrubou doce em parte de sua camisa. A mulher, imediatamente, avançou com a boca em direção ao peito do homem, que olhava incrédulo para a cena que estava vivendo.
Essa foi uma das situações engraçadas na França mais difíceis para mim, pois foi realmente complicado segurar a risada.
Por sorte, outra coisa me chamou a atenção rapidamente: a pequenez e finura daquele croque monsieur, que esperávamos há mais de 30 minutos.
Um café enorme e várias pessoas idênticas
Sábado no meio da tarde, eu querendo fugir do frio e buscando um lugar para sentar e tomar algo quente. Encontrei um pequeno restaurante, escolhi a mesinha mais afastada, no fundo do estabelecimento, pedi um café crème médio e uma garrafa de água.
Veio um café grande, mas não a água. O garçom foi para longe. Olhei e suspirei, pensando em como meu corpo daria conta de tanta cafeína e leite naquele momento, e me conformando com a ausência de água. Me resignei, abri meu livro e comecei a ler enquanto dava pequenos goles naquela xícara gigante.
O lugar estava silencioso, apesar de estar relativamente cheio. Algum tempo depois percebo uma movimentação bem ao meu lado e um barulho de arrastar de cadeiras e mesas. Pessoas falando em inglês e o garçom tentando acompanhar, com aquele forte sotaque francês que não pronuncia nem o H, nem o fim das palavras
O barulho continua e eu fico sem paciência. Dou uma olhada rápida e tenho a sensação de estar imaginando coisas: vejo seis jovens mulheres idênticas!
Não me conformo e fico olhando os detalhes: elas tinham o mesmo cabelo longo e comprido, tons de pele semelhantes, os mesmos cílios postiços volumosos e maquiagem pesada, unhas enormes, saias curtas e um longo casaco com detalhes de pelúcia.
A imagem delas sentadas na mesa logo ao lado da minha era tão surrealmente padronizada que parecia ter saído de um filme do Wes Anderson. O garçom, que a essa altura estava de pé em frente à mesa, parecia um pouco embasbacado também: a cada frase, ele me olhava e dava um sorrisinho desconfortável como se dissesse “você também está vendo isso?”.
Não consegui me concentrar mais no meu livro, deixei o café esfriar e esqueci de vez da água.
Inscreva-se na nossa Newsletter e receba no seu email com exclusividade as melhores colunas, artigos e notícias sobre a Europa! É de graça, inscreva-se agora!
INSCREVER GRÁTIS→Reunião de brasileiros no túmulo de Durkheim
Passar o Natal sozinha e em outro país é algo duro de se viver. Além de você estar longe das pessoas que você ama, você precisa encarar as várias horas que separam o horário da França daquele do Brasil – o que faz da manhã um dos momentos mais difíceis do dia, já que é quando está todo mundo dormindo. A princípio, dificilmente esse seria o cenário de uma das situações engraçadas na França, mas Paris é realmente um lugar peculiar.
Naquele 25 de dezembro eu resolvi fazer algo que estava pendente em minha lista do que fazer na capital francesa: conhecer o cemitério Montparnasse. Um pouco mórbido? Talvez. Mas, a realidade é que não havia muito mais opção do que fazer naquele momento e eu queria muito conhecer esse famoso cemitério em Paris.
Fiz meu roteirinho e fui feliz da vida passear por lá. Me emocionei com os túmulos de Simone de Beauvoir e Sonia Rikyel, me surpreendi com a simplicidade do de Man Ray, me encantei com o de Serge Gainsbourg e achei lindo ver que a Jane Birkin está enterrada junto de sua filha.

Enquanto checava no mapa outros túmulos que poderiam me interessar, vi um nome muito familiar: Émile Durkheim. Sociólogo francês, ele foi o tema de minha primeira aula no curso de graduação em ciências sociais, há mais de uma década.
E lá estava eu, no final do doutorado, após referenciá-lo algumas dezenas de vezes em minha Tese, indo em direção a seus restos mortais.
Um Natal sociológico
Cheguei lá um tanto emocionada e fiquei olhando para seu nome cravado na pedra, pensando em minha trajetória na academia. Eis que vejo um casal se aproximando. Penso comigo na coincidência de ter mais duas pessoas interessadas no túmulo de Durkheim, em uma manhã fria de Natal. Fico ainda mais surpresa ao ouvir uma língua tão familiar quanto esse nome de difícil pronunciação. O casal era brasileiro!
Em um ímpeto de curiosidade, faço algo que não é de meu feitio: começo uma conversa com eles, que não apenas eram brasileiros, como também eram sociólogos. Rimos da coincidência e, por mim, o papo teria acabado por aí.
O problema é que o homem começou a discorrer sobre todos os seus feitos e publicações, mencionava pessoas que eu nunca ouvi falar, situações que pouco me interessavam e sobre suas várias estadias na França.
Enquanto ele falava e eu pensava uma forma de finalizar aquela conversa maçante, reparo que um grupo se aproxima do túmulo onde estávamos. Novamente, vozes familiares: mais brasileiros! O homem se distraiu e eu aproveitei para me despedir e sair andando.
Me perdi entre os túmulos enquanto ele ainda ficou lá, junto aos nossos conterrâneos, admirando o grande sociólogo francês.
4h50 no boulevard du Montparnasse
A seguinte saga matinal fecha com chave de outro minha lista de situações engraçadas na França!
Para mim, dia de pegar avião é uma tristeza. Para além ter que falar au revoir para a minha amada Paris, a coisa de sair com antecedência e gerir as várias malas é sempre muito exaustivo.
Naquele último dia, acordei às 4h, passei um café rapidinho e comecei a descer minhas bagagens para o térreo de minha residência. Meu voo era às 10h, mas eu tinha decidido ir de transporte público até o aeroporto e ainda precisava fazer os procedimentos relativos à détaxe, antes de despachar minhas malas.
Enfim, muita coisa para se fazer em pouco tempo, com tão poucas horas de sono e uma sinusite que não melhorava por nada.

Eu morava a 400 metros da estação Port Royal e eu precisaria pegar o primeiro RER do dia para conseguir fazer tudo. O problema era que eu estava com 2 bagagens de 23 kg, uma mochila com pelo menos 2 kg e uma mala de bordo com 13 kg, então pensei:
Vou sair com bastante antecedência, assim vou andando devagarzinho até a estação e, se eu precisar parar um pouco para descansar, não vou perder o RER.
Em alguns segundos percebi que aquilo não seria tarefa fácil. Eu tinha feito academia o ano todinho, mas é realmente muito difícil andar com mais de 60 kg atrelados em você, em um frio de 5 graus e uma sinusite forte.
Vagalumes e malas pesadas: a última das situações engraçadas na França
Parei no meio da calçada para respirar e retomar minhas forças para seguir a caminhada. Foi quando ouvi um som muito alto, vindo de um carro que passava um tanto rápido pelo boulevard du Montparnasse. A música que estava tocando era a mesma que estourou nas rádios brasileiras em 2012:
“Vou caçar mais de um milhão de vagalumes por aí / Pra te ver sorrir, eu posso colorir o céu de outra cor / Eu só quero amar você e quando amanhecer / Eu quero acordar do seu lado…”
Fiquei incrédula, mas depois de ter vivido a reunião de conterrânos no túmulo do Durkheim, me dei conta realmente de que há muitos brasileiros na França. E ainda bem!
Sem aquele alívio cômico, o que se seguiu teria sido um tanto mais irritante: ao chegar na estação, o responsável disse que o elevador estava quebrado e, ao tentar descer as escadas com todas as minhas malas de uma vez, acabei arrebentando a alça de minha mochila. Tudo isso com a tal música grudada na cabeça.
Quando cheguei na plataforma, olhei para o relógio, era exatamente a hora de passar o RER. Pelo menos isso deu certo!
*A opinião dos colunistas não reflete necessariamente a opinião do Euro Dicas.